Entre irmãs

Frances de Pontes Peebles · Capítulo 15 de 20

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Entre irmãs

Capítulo 13

 

Emília

 

Recife, Pernambuco

Novembro-dezembro de 1934

 

1

 

Amorte tem um cheiro peculiar. Emília sentia o estômago se revirar. Não culpava os mortos por isso: não era o cheiro natural da decomposição que a enojava. O que a deixava aborrecida eram os odores produzidos pelos vivos para conseguir lidar com a morte. Queimavam-se grossos bastões de incenso em homenagem aos mortos e, ao mesmo tempo, derramavam-se quantidades enormes de creolina, água sanitária e álcool pelo chão e pelos móveis para afugentar qualquer vestígio de apodrecimento do corpo. Sangue, urina, vômito, cuspe eram eliminados e os seus cheiros superados pelos odores ativos e medicinais que os vivos preferiam.

No Dia de Finados, no mais prestigioso cemitério do Recife, Emília punha um lenço diante do nariz para tentar evitar aquele cheiro. Túmulos de mármore e de granito reluziam sob a água e as bolhas de sabão. Mulheres das famílias novas e das tradicionais brandiam esponjas com todo o cuidado e esfregavam as plaquinhas com os nomes dos seus antepassados. Algumas limpavam as estátuas das sepulturas, lavando delicadamente o rosto e as asas de um anjo. Um grupo de mocinhas bem-vestidas fofocava enquanto acendia bastões de incenso e arrumava grandes buquês de flores. Criadas com lenços amarrados à cabeça e um ar de concentração esfregavam os túmulos com escovas. Os seus mortos estavam bem longe dali, enterrados em covas anônimas ao longo da trilha de gado ou nos cemitérios dos arredores da cidade. Prestariam sua homenagem a esses falecidos mais tarde, depois que as patroas as deixassem ir embora para casa. Até então, as criadas tinham de passar o feriado homenageando estranhos, exatamente como ela estava fazendo.

Uma grade de ferro fundido, recentemente pintada de preto, demarcava a sepultura da família Coelho. Na construção de pedra havia uns quadrados vazios, o espaço reservado para o Dr. Duarte, dona Dulce, Degas e sua esposa. Emília estremeceu só de pensar em passar a eternidade ao lado daquela gente. Com um paninho úmido, limpou as placas com os nomes dos mortos. Ao seu lado, dona Dulce esfregou e esfregou até o sobrenome da família ficar brilhando. Raimunda varreu o local. No chão, ao lado de Emília, Expedito estava entusiasmado, arrancando uns matos que haviam crescido ao redor do túmulo. Dona Dulce o olhava de cara feia. As crianças pequenas ficavam perto das mães, mas os meninos mais crescidos se juntavam aos homens à sombra da maior árvore do cemitério. O Dr. Duarte e Degas estavam lá, conversando com outros maridos e filhos, esperando que a faxina terminasse para irem, então, render a sua homenagem aos mortos.

Emília enxugou a testa. Decididamente, o Dia de Finados era o feriado de que menos gostava. Lembrou que lá em Taquaritinga Luzia e ela caiavam as sepulturas dos pais. Atualmente elas deviam estar cinzentas de tanta sujeira. E a de tia Sofia também. Todos os mortos de Emília tinham ficado para trás, mas não estavam esquecidos; mais tarde, acenderia velas para eles na casa dos Coelhos. Gostaria de voltar a Taquaritinga. Não para se exibir, como sonhava fazer antigamente, mas para cuidar daqueles túmulos que havia abandonado. Assim, poderia mostrar a Expedito a sua verdadeira família. Infelizmente, ainda ia demorar muito para que pudesse levá-lo até lá: o interior andava perigoso demais.

Apesar das remessas disfarçadas de armas idealizadas por Degas, o Carcará e a Costureira continuavam a atacar com sucesso os canteiros de obras da Transnordestina. Os cangaceiros começaram a roubar as armas dos soldados, o que provava que os seus estoques de munição estavam quase esgotados. Mesmo assim, os bandidos conseguiam um sortimento considerável de revólveres e balas. O Dr. Duarte desconfiava que alguns coronéis e fazendeiros, que haviam voltado para o sertão com o fim da seca, também haviam retomado o seu papel de coiteiros. A maioria dos coronéis era contrária a Vargas por ele ter desmantelado as suas articulações políticas no interior, privando-os do seu poder. Tampouco eram favoráveis à ideia de a Transnordestina atravessar as suas terras. Embora tivessem se declarado partidários do governo enquanto estavam no Recife, era bem possível que apoiassem secretamente o Carcará e a Costureira, visando sabotar o presidente. Vira e mexe, Emília se lembrava do Dr. Eronildes; o campo de retirantes de Rio Branco tinha sido fechado depois das chuvas e ela nunca mais ouvira falar dele. Deduziu que o médico teria voltado para a sua fazenda, mas não sabia se continuaria ajudando a Costureira.

No começo do ano, a chuva finalmente chegou ao sertão. Notícias vindas por telégrafo diziam que, assim que começou a chover, os flagelados abrigados nos acampamentos se puseram a chorar e gritar, rezando para agradecer a são Pedro. Choveu tão forte e o chão estava tão ressecado que se formaram grandes córregos lamacentos que arrancaram árvores e derrubaram casas abandonadas. A lama se tornou um problema e os tais campos tiveram de ser fechados imediatamente. As pessoas que queriam voltar para a lavoura receberam um pacote de sementes e foram mandadas embora. Quem desejasse deixar o Nordeste tinha transporte gratuito para o Sul, para trabalhar em fábricas ou em casas de família como empregados domésticos. Os homens que quisessem trabalhar para o presidente Vargas, como soldados ou operários da rodovia, formavam um grupo à parte que recebia comida e uniformes.

O presidente mandou um telegrama do Rio, instando o interventor Higino a solucionar o problema dos cangaceiros. Este, por sua vez, pressionou o Dr. Duarte. O governo tinha investido grandes somas em dinheiro e recursos para construir o Instituto de Criminologia, baseando-se na afirmação do Dr. Duarte de que a sua ciência seria capaz de encontrar soluções práticas para o crime. Ele havia prometido compreender melhor a mente criminosa e, com isso, descobrir meios de predizer o seu comportamento e capturar bandidos antes que mais crimes pudessem ser cometidos. Agora, o interventor o pressionava a cumprir a promessa feita. O sogro de Emília tornou-se misterioso. Mantinha o escritório trancado. Em vez de pegar um táxi, pedia a Degas que o levasse de carro a todos os seus compromissos. Pela manhã, os dois iam para o porto e voltavam para a casa dos Coelhos cheirando a sal e trazendo pacotes de peixe fresco para o almoço. No Dia de Finados, ele se afastou furtivamente do grupo que conversava à sombra da árvore e rumou sabe-se lá para onde. Dona Dulce balançou a cabeça.

– Ele não respeita os mortos – disse ela, esfregando as plaquinhas com mais força ainda.

Quando seu sogro voltou, passou pela sombra da árvore e veio direto à sepultura da família. Ali, deu um presente a Expedito. Era um medalhão que tinha a forma de dois Z sobrepostos. Aos olhos de Emília, parecia mais um inseto esmigalhado.

– É alemão – disse o Dr. Duarte, agachando-se para fitar o menino. – É um símbolo do novo Führer daquele país. Veio lá do outro lado do oceano – acrescentou, desta vez olhando para a nora. – Como a nossa solução.

– Que solução? – perguntou ela.

– Degas já foi buscar o carro – respondeu ele, sorrindo. – Não podemos nos atrasar para o almoço.

Ao lado de Emília, dona Dulce assentiu com um gesto. Teriam de voltar para casa e trocar de roupa. Não podiam comparecer ao almoço organizado pelo interventor Higino cheirando a água sanitária e a suor.

O almoço de finados era em homenagem aos soldados e operários da rodovia mortos e às vítimas da Costureira no célebre incêndio no cinema. Meses atrás, os jornais divulgaram amplamente a catástrofe na casa de espetáculos, onde uma cidade inteira morreu queimada e centenas de pessoas ficaram desfiguradas por causa do gênio terrível da cangaceira. O tal incêndio fez com que a opinião pública se voltasse contra a Costureira e o Carcará: não se viam mais anúncios usando a imagem dos cangaceiros. Uma propaganda de vitaminas declarava: “O Carcará corre dia e noite. Ele toma as Pílulas de Vida do Dr. Ross para ter vigor e resistência!” Outra, de uma loja de tecidos, mostrava a única fotografia da Costureira – aquela tirada junto com a primeira dupla de cartógrafos sequestrada – e dizia: “A Costureira duvida que vá ser presa, mas jamais duvida que a Casa de Fazendas Bonita é a mais barateira!” Depois da tragédia, tais anúncios foram tirados de circulação. Os recifenses não viam humor algum nos cangaceiros. Eles tinham perdido o apoio até dos habitantes do sertão, que antes os respeitavam. O incêndio no cinema matara vários parentes dessa gente e formaram-se grupos de justiceiros para ir atrás do bando do Carcará, querendo vingança. O presidente Vargas e o interventor Higino exploraram esse clamor público, chamando o incêndio de “mutilação de inocentes” e dedicando um pequeno memorial às vítimas nas margens do Capibaribe.

Emília passou vários meses se sentindo culpada por causa das armas escondidas nas suas remessas de caridade. Depois do incêndio no cinema, começou a se perguntar se aquele sentimento de culpa não estaria deslocado. Talvez Degas tivesse razão: a Costureira era uma assassina e os assassinos têm de ser presos. Antes, os seus alvos eram ligados ao governo Vargas: soldados, operários da rodovia, cartógrafos. Aqueles que morreram no cinema eram cidadãos comuns. Emília se sentiu profundamente decepcionada, mas não entendia por quê. Sentir-se decepcionada significava que ela tinha esperanças com relação à Costureira; que, de algum modo, acreditava que a luta dos cangaceiros era justa e as suas atitudes, honradas. Rebelião era coisa bem diferente da criminalidade comum – esta era a distinção que ela havia formulado mentalmente. Mas o tal incêndio mudou tudo. De repente, Getúlio Vargas passou a ser visto como aquele que livraria o interior da violência. Quando Emília pensou no breve encontro que tivera com ele no Rio, a sua decepção logo se transformou em medo. Pouco importava que as suas intenções fossem boas ou más; a Costureira estava engajada numa guerra que jamais poderia vencer.

Emília tinha ido ao Rio de Janeiro em julho, depois da promulgação da nova constituição. A recém-eleita Assembleia Nacional Constituinte havia proclamado Getúlio Vargas presidente do Brasil por um período de quatro anos. Pela constituição, todas as minas e todos os principais cursos de água tornaram-se propriedade federal, bem como os bancos e as companhias de seguros. Vargas já tinha um controle substancial e, mesmo assim, queria mais. Os parlamentares aprovaram os novos direitos dos trabalhadores que o presidente tanto desejava: jornada de trabalho de oito horas, férias remuneradas e salário mínimo. No entanto, a nova constituição preservou o federalismo. Frustrado, Vargas convidou membros destacados do partido verde para uma reunião no Rio. O evento foi anunciado como “Encontro da União” e, portanto, o Dr. Duarte e outros convidados levaram a família inteira consigo. A viagem foi curta. Emília não pôde ver muita coisa da capital – a visão mais ampla que teve foi lá do alto, da estátua do Cristo Redentor. Foi nessa ocasião que esteve frente a frente com o presidente. Ele era baixinho, mas, à sua volta, o ar parecia estalar de tanta energia. Quando Vargas a fitou, a moça percebeu em seus olhos tanto magnetismo quanto perigo. Sentiu uma vontade inexplicável de agradar àquele homem. Mais tarde, ficou chateada com isso. Só tinha se sentido assim uma vez antes, quando esteve na presença do Carcará.

No final da viagem, quando soube que Vargas havia levado todos os seus convidados do partido verde para a Assembleia Constituinte a fim de protestar contra a nova constituição, ficou espantada. O presidente declarou que o documento era simplesmente uma diretriz, não um mandato, e que ele ia ignorá-lo ou modificá-lo. Ninguém contrariava os seus desejos.

O tal almoço em homenagem aos mortos foi uma reunião menor e mais íntima que a comemoração da revolução pelo partido verde. As paredes do Clube Internacional estavam revestidas de crepe preto e as mesas, decoradas com flores brancas. Alguns dos cavalheiros presentes usavam fumo em memória dos entes queridos que haviam perdido durante aquele ano. As mulheres usavam vestidos da moda, porém de cores discretas. Emília passou os olhos pela sala e viu vários dos seus modelos: saias justas cinzentas, paletós com ombreiras, lenços amarrados ao pescoço. Tivera uma avalanche de pedidos para o feriado de finados e se inspirou nas atrizes que via nos filmes do cinema Royal: Jean Harlow, Claudette Colbert, Joan Crawford. Elas eram temperamentais, elegantes e fortes. As suas sobrancelhas depiladas eram arqueadas, dando-lhes um ar de surpresa constante ou, talvez, de ceticismo. Emília copiava os seus trajes justos, os seus penteados com ondas bem desenhadas. Outras mulheres do Recife seguiam o seu exemplo.

Ao contrário da comemoração revolucionária, nessa ocasião homens e mulheres não ficaram separados. Famílias e amigos se sentaram todos juntos. O Dr. Duarte tinha a sua própria mesa e a distribuição dos lugares foi a mesma das refeições feitas na casa dos Coelhos: dona Dulce à direita do marido, Degas ao lado da mãe e Emília ao lado do marido. Os convidados estavam dispostos por ordem de importância, o ponto máximo sendo a proximidade ao Dr. Duarte. Aqueles que eram considerados mais importantes sentaram-se à sua esquerda. Os outros iam ficando mais longe. O sogro de Emília pôs a mão no assento da cadeira ao seu lado.

– Estou reservando este lugar para um convidado especial – disse ele.

– Não sou especial, Duarte? – indagou a baronesa, pondo a mão deformada pela artrite no ombro dele.

O Dr. Duarte enrubesceu. Dona Dulce se ajeitou na cadeira.

– É brincadeira – disse Lindalva, rindo. – Vamos nos sentar ao lado de Emília.

– Claro – falou o Dr. Duarte, agora sorrindo. – É melhor mesmo ter uma mesa bem cheia.

Para tristeza de dona Dulce, a baronesa e a filha ocuparam as cadeiras mais próximas de sua nora, praticamente completando a mesa, pois sobraram apenas três lugares. Um deles pertencia a Degas, que tinha saído furtivamente para ir ao salão dos fumantes. Quando voltou, vinha acompanhado de Carlos Chevalier. O cabelo do piloto estava despenteado e arrepiado por causa da umidade. Na mão direita, ele segurava uma bengala de castão de prata. O Dr. Duarte ergueu as sobrancelhas.

– O que houve com a sua perna? – indagou ele, apontando para a bengala.

– Nada – respondeu Chevalier, dando de ombros. – É moda.

O Dr. Duarte resmungou alguma coisa. Degas deu a volta na mesa, levando Chevalier para o lugar privilegiado à esquerda de seu pai.

– Não. Sente-se ali do outro lado – disse o velho, indicando a cadeira vazia perto de Lindalva.

Degas contraiu os lábios. Chevalier sorriu e se dirigiu para lá. Quando passou perto de Emília, a moça sentiu cheiro de cigarro e de uma colônia forte. Perguntou-se se o seu sogro teria ouvido os mesmos boatos que Lindalva ou se simplesmente não gostava do piloto.

– O senhor é capitão do Exército, Sr. Chevalier? – perguntou a baronesa, com um brilho malicioso nos olhos.

– Não – respondeu ele. – É mais um título honorífico. Como o seu.

– O meu foi conquistado, meu rapaz – retrucou a velha. – O barão era uma boa alma, mas não foi um marido fácil.

– Neste caso, conquistei o meu também – retrucou Chevalier. – Piloto o meu próprio avião.

– Que hobby interessante – observou dona Dulce.

A sua voz tinha o mesmo tom cauteloso que ela usava quando avisava ao marido que havia um vendedor ou um vagabundo no portão da frente. Trocou um sorriso com a baronesa. Emília ficou espantada ao ver aquelas duas mulheres subitamente unidas.

Chevalier esboçou um sorriso. Foi mais uma careta, como se estivesse imitando os homens dos anúncios de pasta de dentes.

– Voar é mais que um hobby – disse ele. – É a minha paixão.

Degas se atrapalhou todo com o guardanapo. Lindalva se inclinou para a frente.

– O senhor é um dos Chevaliers da imprensa, aqueles que são donos de jornais lá no Sul?

– Sou.

– Como a sua família está enfrentando as novas restrições? Estão aceitando a censura do Departamento de Propaganda e Difusão Cultural?

– Não participo dos negócios da família – respondeu Chevalier com um riso nervoso.

– Eu não chamaria isso de censura, querida – atalhou o Dr. Duarte. – Diria, antes, monitoramento responsável. A revolução ainda não está garantida. Precisamos manter uma certa ordem. Há os comunistas do Sul, liderados por Prestes. Há aqueles rebeldes de São Paulo, financiados pela velha guarda. Não podemos deixar elementos como estes corromperem o povo. Mais tarde, poderemos relaxar a pressão, mas, por enquanto, temos de manter as rédeas curtas.

– O meu pai era criador de cavalos – disse a baronesa, passando manteiga num pedaço de pão. – Belos animais. Inteligentes. A primeira coisa que papai me ensinou quando aprendi a montar foi que as rédeas são uma ilusão. Servem mais para o nosso conforto que para o deles. A gente controla um cavalo com as pernas, e com branda autoridade. É uma relação entre iguais. Ou deveria ser.

Mas o Dr. Duarte não estava ouvindo o que ela dizia. Tinha os olhos fixos do outro lado da sala, como que fascinado.

– O meu convidado chegou! – exclamou ele.

Emília acompanhou o seu olhar. O Dr. Eronildes Epifânio estava entrando no recinto. Continuava a usar o cabelo mais comprido que o dos homens da cidade, batendo na altura das orelhas, e penteado para trás de forma um tanto desleixada. Mas tinha emagrecido. O seu terno havia sido malpassado: o paletó exibia umas dobras irregulares e os vincos da calça estavam tortos. Na manga direita, via-se uma tarja preta. Quando ele se aproximou da mesa, Emília viu círculos escuros, quase roxos, debaixo dos seus olhos. Uns vasinhos rompidos, parecendo fiapos de linha vermelha enfiados por baixo da pele, espalhavam-se pelo seu nariz e pelas suas faces.

– Desculpe – disse o médico, fitando Emília. Mais que depressa, voltou os olhos para o Dr. Duarte. – Eu me atrasei.

Depois de trocar um aperto de mão com o Dr. Duarte, Eronildes deu a volta para cumprimentar dona Dulce. Emília viu a sogra franzir o nariz quando ele chegou mais perto e achou que fosse por puro esnobismo. Logo, porém, percebeu que estava enganada: o médico se aproximou para apertar a sua mão e, por baixo do cheiro da loção de barbear, a moça sentiu um odor forte e adocicado. Era como se as suas entranhas estivessem fermentando sob a pele. Aquele cheiro a fez se lembrar das ruas do Recife na manhã depois do Carnaval, quando as sarjetas transbordavam com cachaça derramada, frutas passadas, vômito e outras coisas desagradáveis expelidas pelos foliões. Emília ficou atordoada com a presença de Eronildes e enojada com o seu cheiro. Mas evocou as lições de dona Dulce: o segredo da etiqueta é, acima de tudo, a delicadeza. Uma dama jamais demonstra desagrado. Apertou então a mão do médico com firmeza e lhe sorriu.

No cardápio, tinha peixe grelhado e sururu. O leite de coco borbulhava, espumando, em sopeiras de prata maciça. Nesse caldo, fervilhavam os moluscos. Os garçons trouxeram travessas de porcelana com arroz, farinha de mandioca torrada, de um marrom dourado, e puseram uns pratinhos com fatias de limão perto de cada convidado. O Dr. Duarte despejou uns bons punhados de pimenta-malagueta no seu prato.

– O senhor gosta de pimenta, Sr. Chevalier? – perguntou ele.

– Tenho o estômago sensível – respondeu o piloto.

– Bobagem! – retrucou o Dr. Duarte, estendendo a mão na direção do capitão, que, obediente, lhe passou o seu prato.

O velho pôs ali uma pilha de pimentas miúdas e vermelhas.

– O senhor precisa aprender a criar resistência! – prosseguiu o velho. – O corpo é controlado pela mente. Não é mesmo, Degas?

– É, sim – balbuciou este, lançando um olhar a Chevalier, que levou uma garfada à boca e logo pegou o copo de água.

Tomou vários goles e, depois, enxugou os olhos com o guardanapo. Lindalva começou a rir. Do outro lado da mesa, o Dr. Eronildes sorriu. Degas enrubesceu.

– O que o traz ao Recife, doutor? – perguntou ele bem alto. – Negócios?

– Não exatamente – respondeu Eronildes, apontando para o fumo que trazia no braço. – Minha mãe faleceu em Salvador há algumas semanas. Fui até lá para o enterro. Agora, tenho umas questões a resolver aqui, relativas ao inventário.

– Lamentamos muito a sua perda – disse Emília.

O médico agradeceu com um aceno de cabeça.

– Amanhã, depois do almoço, vamos dar uma olhada em algumas propriedades – disse o Dr. Duarte. – Para o consultório de Eronildes.

Um grumo seco de farinha de mandioca agarrou na garganta de Emília. Ela tossiu.

– Vai vir morar aqui? – perguntou, com voz rouca.

– É uma possibilidade – respondeu ele. – Em Salvador, existem tantas lembranças...

– E a sua fazenda?

– Não se recuperou da seca – disse ele, fitando-a com os olhos injetados. – Plantei tudo de novo; foi um investimento pesado. Mas o algodão não está produzindo como antigamente. O meu gado é jovem. Os animais estão magros demais para serem vendidos. O desejo de minha mãe, ou melhor, a sua exigência, pois deixou escrito no testamento, era que eu voltasse para o litoral. Andava preocupada comigo. Queria que eu me instalasse, abrisse uma clínica, me casasse.

– Ela era sensata – atalhou dona Dulce.

O Dr. Duarte assentiu.

– Fazendeiros perdem dinheiro. Médicos ganham.

– Depende do fazendeiro – retrucou a baronesa.

– Então, agora o senhor tem de fazer sua opção – disse Degas. – Não pode mais continuar sendo dois homens.

Eronildes enfrentou o olhar de Degas.

– Não vou me desfazer da fazenda – disse o médico, afinal. – Não vai ser mais uma propriedade produtiva, mas posso ir lá de vez em quando. E tampouco preciso me mudar imediatamente. Os advogados vão levar alguns meses para dar andamento às questões do testamento de minha mãe.

– Então vai voltar para a fazenda? – indagou o Dr. Duarte. – Pretende ficar muito tempo por lá?

– Estou indo embora hoje à noite.

– Mas não pode viajar sem ver Expedito – replicou o velho. – Ele já está um rapazinho: gorducho, saudável, cheio de vida! – prosseguiu ele, pondo uma pimenta entre os dedos e acenando com ela para Chevalier. – Com menos de três anos, o menino é capaz de comer uma malagueta sem pestanejar.

O capitão se remexeu na cadeira.

– Deduzo que o senhor não tenha notícias dos pais da criança – disse Degas.

– Eu sou a mãe dele agora – retrucou Emília.

– Vamos até lá em casa depois do almoço! – exclamou o Dr. Duarte, ignorando o filho e a nora. – Assim, Eronildes pode ver o menino.

– Papai, o Sr. Chevalier e eu gostaríamos de lhe falar depois do almoço, no seu escritório – disse Degas.

– Podemos conversar aqui mesmo – replicou o Dr. Duarte.

– São negócios – disse Chevalier, baixando o tom de voz. – Negócios do governo.

– Então, o senhor deveria ir ao gabinete do interventor – atalhou o Dr. Duarte. – Não trabalho para o governo. Sou apenas um cientista.

Chevalier olhou para Degas.

– Papai – disse este, com um riso forçado. – Não seja modesto. Todos sabemos que o senhor é muito mais importante do que demonstra.

– A modéstia é uma grande virtude – retrucou o velho. – Quase tão grande quanto o decoro.

– Tem a ver com os cangaceiros – insistiu o piloto. – O senhor leu o último número do Diário de Pernambuco?

– Claro que li – respondeu o Dr. Duarte, empertigando-se.

Emília ficou observando Eronildes do outro lado da mesa. O médico fitava o capitão com um ar cauteloso.

– Então leu a proposta que fiz, nas páginas dos editoriais?

– Aquela história de sobrevoar a caatinga com um avião? – indagou Lindalva.

– Exatamente! – respondeu Chevalier, sorrindo.

– A ideia conta com apoio popular – disse Degas. – Ouvi gente falando a respeito. Seria igualzinho aos filmes de guerra!

– Que horror, esses filmes! – atalhou a baronesa.

– Será muito mais fácil exterminar os cangaceiros pelo ar – prosseguiu Chevalier. – Quando eu tiver terminado, a polícia pode ir procurar os corpos e trazê-los para os seus estudos em laboratório.

– E como é que o senhor vai exterminá-los? – perguntou o Dr. Duarte.

Emília se atrapalhou toda com o copo de água, que esbarrou no seu prato e respingou, molhando a toalha da mesa.

– Duarte! – exclamou dona Dulce. – Não deveríamos falar desses assuntos no Dia de Finados. Respeitem os mortos.

– Os mortos não estão nos ouvindo – retrucou a baronesa, fazendo um gesto com a mão artrítica. – Eles têm mais com que se preocupar.

– O senhor já sobrevoou o sertão? – perguntou o Dr. Duarte.

– Não – respondeu Chevalier. – Mas já sobrevoei o oceano e em meio à neblina. Sei voar, senhor.

– Não estou preocupado com o seu voo – disse o Dr. Duarte –, mas sim com a sua aterrissagem.

– Ah, também sei aterrissar – replicou o piloto, sorrindo.

– Onde? – prosseguiu o velho, com as faces afogueadas. – Se não me engano, quando voou até aqui, vindo do Rio de Janeiro, precisou fazer várias paradas para reabastecer. Talvez não saiba, mas o nosso estado de Pernambuco tem mais de 800 quilômetros de extensão. Se for de avião para o sertão, em algum ponto terá de aterrissar. Não existem pistas. Portanto, onde pretende fazer isso? – perguntou ele, tamborilando na mesa.

– O governo pode construir pistas com facilidade – disse Chevalier. – Vocês não estão fazendo uma rodovia?

– Tentando... Essa construção já se revelou bem mais difícil do que supúnhamos.

– No Rio seria um trabalho bem simples.

– Mas não estamos no Rio – replicou o Dr. Duarte. – Se estiver com saudades, talvez seja melhor voltar para lá.

De repente, ouviu-se uma salva de palmas vinda da frente do salão. O interventor Higino se levantou. Fez um breve discurso sobre os sacrifícios dos soldados e dos operários mortos, incitando todos os brasileiros a homenagear os seus espíritos corajosos. Quando enalteceu as vítimas do incêndio no cinema, Emília olhou para o Dr. Eronildes. O médico tinha os olhos fixos à frente, sem dar por ela. No fim do discurso, houve outra salva de palmas. O interventor Higino ergueu as mãos, pedindo silêncio.

– Gostaria de voltar a atenção de todos para o criminologista mais respeitado da nossa cidade, o Dr. Duarte Coelho.

O sogro de Emília tirou uma pilha de cartõezinhos do bolso. Levantou-se sorrindo e fitou os tais cartões.

– O criminoso – disse ele, numa voz profunda e teatral –, segundo o Dr. Cesar Lombroso, é um ser atávico: uma relíquia de uma raça em extinção. Uma raça que mata e corrompe os nossos concidadãos, os nossos entes queridos. Por esta razão, devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para exterminá-la. O interventor Higino me pediu que usasse esse feriado sagrado para anunciar um plano que, é o que esperamos, vai permitir que os nossos soldados, os nossos operários e os cidadãos inocentes continuem vivos para que, no próximo Dia de Finados, tenhamos menos pessoas a prantear.

Ouviram-se alguns aplausos.

– Estamos trabalhando com a Alemanha – prosseguiu o Dr. Duarte. – Isso não foi noticiado pelos jornais porque sabemos que o Carcará os lê. O DPDC fez os editores prometerem que não divulgariam nada a este respeito. Mas suponho que, agora, não há mal algum em compartilhar esse segredo com os presentes. Afinal, ninguém aqui é boquirroto, espero eu.

Os convidados riram.

– Compramos várias Bergmanns. São as chamadas “metralhadoras”. Elas disparam quinhentos tiros por minuto. Com uma dessas, dez homens viram dez mil. Os cangaceiros não terão tempo de pensar, ou de atirar. Estarão mortos antes mesmo de terem levado a mão ao coldre – acrescentou ele, piscando para Emília. – As Bergmanns vão ser embarcadas secretamente. Não deixaremos que os cangaceiros se apossem de uma arma como essa. Vamos atraí-los até um determinado ponto e, depois, surpreendê-los com os nossos novos armamentos. Senhoras e senhores, não tenho dúvidas de que conseguiremos sanar essa praga de criminalidade que assola o interior do nosso estado. Afinal, não é a metralhadora Bergmann que vai realizar esse feito, mas a nossa determinação. Como disse o grande escritor Euclides da Cunha: “A raça forte não destrói a fraca pelas armas, esmaga-a pela civilização.”

A sala veio abaixo em aplausos. Emília sentiu uma onda ácida de leite de coco com moluscos lhe voltar pela garganta, deixando-a em brasas. Levou o guardanapo à boca.

Depois que o Dr. Duarte se sentou, os garçons tiraram os pratos e serviram a sobremesa.

– Quando é que elas chegam? – indagou Emília. – Essas tais Bergmanns?

Depois de alguma hesitação, o Dr. Duarte sussurrou para os seus companheiros de mesa:

– A essa altura, já foram embarcadas num navio.

– Daqui a uns três meses – acrescentou Degas, pondo a mão no braço da mulher.

Sem saber se aquele gesto visava consolá-la ou se era um alerta, ela o rechaçou. Estava sentindo uma pressão na cabeça e atrás dos olhos, como se o seu cérebro tivesse inchado.

– Confio na discrição de todos a este respeito – disse o Dr. Duarte, dirigindo-se aos outros convivas.

– Claro – respondeu o Dr. Eronildes, olhando para Emília. – Quando me formei em medicina, fiz um juramento. Tudo o que vejo ou ouço durante uma consulta e mesmo fora dela, se pertence à vida dos homens, guardo para mim.

– E quanto às mulheres? – perguntou Emília. – E quanto às vidas delas?

– Isso mesmo – interveio Lindalva. – O nosso sexo não vai ficar de fora...

– Fiz o mesmo juramento – observou o Dr. Duarte, fitando Eronildes. A sua voz tremeu. – Os médicos são leais, especialmente entre si. Isso também faz parte do juramento, se bem me lembro: “estimar, tanto quanto a meus pais, aquele que me ensinou esta arte; fazer vida comum e, se necessário for, com ele partilhar meus bens; ter seus filhos por meus próprios irmãos” – prosseguiu ele, enxugando os olhos com o guardanapo. E, olhando para Degas, acrescentou: – É bom fazer parte de um grupo como esse. O valor de um homem está nas companhias que tem.

– Concordo – disse Degas, batendo freneticamente com o pé no chão por baixo da mesa. – E tenho certeza de que o Dr. Eronildes também concorda.

Os ocupantes da mesa comiam a sobremesa em silêncio. Emília engoliu o pedaço de bolo, mal sentindo o gosto. Queria que tudo aquilo terminasse logo, mas, ao mesmo tempo, tinha medo de deixar aquela sala. Assim que o almoço acabasse, voltariam para a casa dos Coelhos e ela teria de apresentar Expedito ao Dr. Eronildes. Aquela súbita aparição do médico no Recife, seus problemas financeiros, a afinidade que o seu sogro demonstrava com relação a ele, tudo isso a deixava preocupada. O mais inquietante, porém, eram as Bergmanns. As palavras do Dr. Duarte estavam o tempo todo se infiltrando nos seus pensamentos, de uma forma absolutamente irritante, como moscas que houvessem ficado aprisionadas em sua cabeça. “Com uma dessas, dez homens viram dez mil... Estarão mortos antes mesmo de terem levado a mão ao coldre.”

Depois da sobremesa, Chevalier se desculpou e deixou a sala. Degas também se levantou, declarando que levaria o piloto até o seu hotel. O Dr. Duarte ergueu a mão, mandando o filho esperar.

– Ele já é crescido, Degas. Tenho certeza que saberá chegar lá sem a sua ajuda. Você vai nos levar de volta para casa. E Eronildes vai conosco – disse ele, sorrindo para o seu convidado.

Quando Degas tentou protestar, o bom humor de seu pai desapareceu.

– Degas – disse ele, em voz baixa e severa. – Você pode ter tempo para aguentar playboys e tubarões da imprensa, mas eu não. Não quero esse sujeito novamente em minha companhia.

Dizendo isso, levantou-se e tratou de acompanhar Eronildes em direção à saída. Degas ficou olhando a cadeira vazia e, depois, se apressou em segui-los.

 

2

Já na casa dos Coelhos, Emília acordou Expedito, que estava dormindo depois do almoço, e o levou, com cara de sono, até o quintal. O chafariz gorgolejava, cuspindo água. Os jabutis tinham se aglomerado no único lugar em que havia sombra. Expedito pegou umas folhas de alface meio murchas que estavam espalhadas pelo chão de lajotas e foi dar de comer aos animais. Emília se ajoelhou ao seu lado. Logo as portas do escritório se abriram e, lá de dentro, o corrupião começou a cantar um tanto sobressaltado. O Dr. Duarte e seu convidado se aproximaram.

– Ah! – exclamou o velho, estendendo as mãos gorduchas. – Aí está o Coronel! É assim que nós o chamamos por aqui.

Deu uns tapinhas na cabeça do menino, que parou de dar comida aos jabutis e voltou os olhos escuros para o desconhecido. O Dr. Eronildes tinha as mãos trêmulas. Segurou uma com a outra.

– São jabutis? – perguntou.

Expedito fez que sim com a cabeça.

– Eles vivem tanto quanto nós, sabiam? – disse o médico. – Às vezes até mais. Provavelmente vão sobreviver a todos nós.

Expedito estava olhando fixamente para os bichos, como se refletisse sobre as palavras do estranho.

– Menos a Expedito – disse Emília. – Ele vai viver para ver outra geração de jabutis. Se Deus quiser.

– Claro que vai – concordou Eronildes. – Graças à senhora.

– E ao senhor – replicou a moça. – Somos ambos responsáveis pela vida dele.

O Dr. Eronildes aquiesceu. O seu rosto estava pálido e lustroso, como uma rodela de inhame fervida. Ele ficou brincando com o paletó e mexendo a perna. O Dr. Duarte pôs a mão nas suas costas, como se quisesse apoiá-lo.

– O partido verde é antiquado; não serve bebidas nos eventos que organiza – disse ele. – Mas eu gosto de uma caninha de vez em quando, para matar os parasitas. Tenho uma cachaça ótima lá no escritório, ou um White Horse, se preferir.

– Um White Horse – disse Eronildes, lambendo os lábios. – Com gelo.

O Dr. Duarte assentiu.

– Vou mandar a criada picar um pouco de gelo. Não deve demorar muito. Emília e o Coronel ficam lhe fazendo companhia.

A moça viu o sogro se afastar. Jamais o vira andar tão lépido e demonstrar tanta deferência com uma visita. Era raro vê-lo dividir com alguém o seu pequeno estoque de uísque importado. Ao seu lado, Eronildes farejava o ar. Emília também sentiu um cheiro de queimado, como arroz esquecido no fogão.

– É costume fazerem fogueiras no Dia de Finados? – perguntou o médico.

– Não – respondeu ela.

Lá de dentro, ouviram os gritos do Dr. Duarte, pedindo gelo. Eronildes se aproximou um pouco mais.

– Deveríamos avisá-la – disse ele.

O cheiro de queimado estava agora mais forte e Emília achou que era a isso que Eronildes estava se referindo.

– Dona Dulce não está fazendo nada na cozinha – replicou ela.

– Não – disse o médico, entre dentes. – Sobre as Bergmanns.

Emília sentiu a boca seca; a sua língua parecia uma lixa.

– Claro que sim – conseguiu enfim dizer. – O senhor está voltando para a fazenda. Faça isso.

– Ela não acreditaria em mim.

– Por que não?

– Porque desconfia de quem quer que venha ao Recife, e com razão. Preciso do seu apoio.

– O senhor o tem. Diga-lhe que também ouvi a história das Bergmanns.

– Por que não lhe diz isso a senhora mesma?

– Não posso falar sobre armas nas colunas sociais! – exclamou a moça, irritada com a ignorância do médico.

Ele balançou a cabeça.

– Não. Diga-lhe pessoalmente.

O cheiro de queimado estava mais forte, e já não parecia ser de comida, mas sim de algo químico. Junto aos pés de Emília, Expedito olhava atentamente para os dois, como se estivesse entendendo o que conversavam.

– Como? – indagou Emília.

Eronildes se aproximou ainda mais. Tinha o hálito quente e azedo, com cheiro de bebida velha.

– Posso organizar uma reunião na fazenda. O seu marido disse que as Bergmanns vão levar uns três meses para chegar. Talvez até mais se tiverem de enfrentar tempestades no mar. E, ao chegar, o navio pode ficar preso no porto até passar pela inspeção.

Emília balançou a cabeça.

– O Dr. Duarte consegue liberar tudo bem depressa. Ele é dono de uma firma de exportação. Conhece todos os agentes da alfândega.

– Está certo – prosseguiu o médico. – Então, temos noventa dias, na melhor das hipóteses. Se a senhora pegar o trem para o sul, até Maceió, levará um dia inteiro de viagem. Depois, terá de ir até Propriá, perto do São Francisco, o que vai demorar pelo menos dois dias, já que não existem trens entre essas duas cidades. Não sei exatamente quanto tempo levaria a viagem de barco; depende do nível da água. Mas, mesmo que demore duas semanas, se partir o mais rápido possível, conseguirá chegar à minha fazenda antes que as Bergmanns aportem no Recife.

– O senhor já planejou tudo.

– É verdade. Durante o almoço – disse Eronildes, lambendo os lábios.

Emília ficou envergonhada, pensando nas ideias apavoradas e ilógicas que lhe ocorreram durante o almoço. Como gostaria de ter aquela sensatez de Eronildes... Mas, mesmo ali, na segurança relativa do quintal, sentia-se atordoada e desencorajada.

– Não sei – disse ela. – Os Coelhos não vão me deixar viajar sozinha.

– Arranje uma desculpa.

– Como é que ela vai saber que estou indo para lá? – perguntou Emília, com medo de dizer o nome da irmã em voz alta.

– Eu me encarrego disso.

– Mas não disse que ela não acreditaria no senhor?

Eronildes enrubesceu.

– Ela lê os jornais. A senhora pode dizer algo sobre essa viagem, como uma prova de que é verdade.

E deveria levar o menino.

Emília fitou as portas que davam para o pátio, louca para que o sogro voltasse, pondo fim àquela conversa. Luzia ia querer Expedito de volta. Que mãe não quereria?

– Não – disse ela. – É perigoso demais.

Umas gotinhas de suor bordejavam o lábio superior de Eronildes e o seu peito se estufou, como se ele estivesse respirando fundo, mas, em vez de expirar, o que fez foi levar a mão pálida à boca.

– Está se sentindo bem? – perguntou Emília, temendo que o médico fosse vomitar.

Eronildes assentiu.

– É lamentável – disse ele. – A senhora tem razão. Somos humanos. Temos de aceitar a morte como o nosso destino. Alguns são tolos o bastante para acreditar que podem escapar a isso levando uma vida tranquila. Outros são tolos o bastante para desafiar a morte; acham que ela não vai atingi-los, por mais que tomem atitudes perigosas. Na verdade, ninguém está a salvo. Ninguém pode escapar. Perdoe-me por lhe pedir isso.

Havia um tom de decepção na voz do médico, como se estivesse falando com uma criança egoísta. Emília quis sair dali, deixá-lo cozinhando naquele pátio quentíssimo, mas, se fosse embora assim de repente, estaria agindo como uma mulher infantil e assustada, exatamente do jeito que ele a fazia se sentir.

– Eu disse que era perigoso demais para Expedito, não para mim – replicou ela.

– Não, não – atalhou o médico, balançando a mão. – Um encontro desses seria arriscado demais para todos nós. É melhor ficar fora disso. Às vezes, queremos ser corretos, mas, no fundo, a nossa natureza é mais fraca do que gostaríamos. Adoraria que esse não fosse o caso.

– Pare com isso! – exclamou Emília, irritada com a súbita hesitação de Eronildes. – Vou fazer o que sugeriu. E o senhor também. Não temos outra escolha...

A sua voz falhou. Ela não conseguiu terminar a frase. As ideias lhe vinham rapidamente, e desarticuladas, fazendo-a sentir-se sem equilíbrio. Estendeu a mão para o lado, procurando a borda ladrilhada do chafariz, e se sentou. A água respingava no seu pescoço e nas suas costas. O cheiro de queimado estava ficando cada vez mais forte, lembrando até os dias que se seguiram à revolução. O Dr. Eronildes ficou torcendo as mãos e olhando para ela.

– Farei o que a senhora decidir – disse ele. – Lamento tê-la deixado aborrecida.

Emília não respondeu. Não estava aborrecida; estava exaltada. Não tinha sido forte o bastante para salvar a irmã caçula quando os cangaceiros a levaram embora. Não tinha sido forte o bastante para resistir quando Degas insistiu em usar as suas remessas de roupas como disfarce para o transporte de armas. Agora, podia ser forte. Agora, tinha a oportunidade de salvar Luzia.

– Marque o encontro e estarei lá – sussurrou ela. – Vou avisá-la.

Antes que Eronildes pudesse dizer o que quer que fosse, o Dr. Duarte apareceu no quintal de mãos abanando. Degas estava junto com ele.

– Acabei de receber um telefonema – disse o velho, ofegante. – Os comunistas, essas facções anti-vargas, estão incendiando o porto. Temos de adiar o nosso compromisso.

– Claro – disse Eronildes, e seguiu o pai e o filho, que entraram na casa.

Emília continuou sentada. Arrancou uma samambaia de uma fenda nos ladrilhos do chafariz. Ao seu lado, Expedito dava uns tapinhas nos cascos dos jabutis. Falava baixinho com os bichos, aproximando bem o rosto da cabeça deles, como se estivesse lhes contando sobre o incêndio do porto. Talvez houvesse outra revolução, pensou a moça. Talvez o porto fosse destruído e as Bergmanns nunca chegassem. Nesse caso, os cangaceiros não estariam ameaçados, mas, então, ela não teria a chance de salvar a irmã. Qual das duas coisas desejava mais?

Ficou olhando para o lugar onde o Dr. Eronildes estava parado minutos antes. Achou que a sua presença no almoço de finados tinha sido uma desculpa para vê-la e combinar o tal encontro com Luzia, mas ele saiu do pátio tão subitamente, atrás do Dr. Duarte... Nem se despediu. Emília percebeu um sentimento de vergonha naquela saída. A questão da bebida havia piorado; qualquer homem ficaria envergonhado por causa da dependência ao álcool, pensou ela. Mas havia também um desespero na sua voz, no jeito ansioso como lhe sussurrou todas aquelas coisas. O médico tinha dito que o testamento da mãe não se resolveria tão cedo e que a fazenda não estava dando lucro. O terno que usava estava bem surrado e as botas mal-engraxadas, com o couro rachado junto às costuras. Problemas financeiros deixavam qualquer homem desesperado, mas Eronildes tinha uma profissão. Era médico e podia voltar a clinicar em caso de necessidade. Emília fechou os olhos. A medicina era a única relação entre Eronildes e o seu sogro, Fora isso, os dois nada tinham em comum. O doutor tinha agido de forma digna no passado, disse a moça com seus botões. Continuaria a agir assim.

Expedito gritou. Emília abriu os olhos. Um dos jabutis o tinha mordido. O menino segurava uma das mãos com a outra. Tinha o rosto vermelho, os olhos marejados. Olhou para Emília de cara feia, como se aquilo fosse culpa dela, como se fosse algo que ela pudesse ter evitado.

 

3

 

O ataque ao porto foi logo controlado. Não passou de um pequeno incidente, em comparação com a rebelião de 1932 em São Paulo. Mas aconteceu no Recife e, segundo constava, o Nordeste em peso apoiava Vargas. O presidente enviou tropas para o local. Em duas semanas, o governo já havia esboçado a Lei de Segurança Nacional. Essa lei fechou diversas instituições e, mais tarde, criou o Tribunal de Segurança Nacional, encarregado de julgar os casos contra pessoas suspeitas de ameaçar a integridade da nação. Suspenderam-se os habeas corpus. Quem quer que contestasse Vargas ou perturbasse a ordem nacional – desde intelectuais a ladrões – era preso. As prisões ficaram tão superlotadas que navios da Marinha foram convertidos em penitenciárias flutuantes no porto do Rio de Janeiro. No Recife, a polícia militar circulava pelos bairros, concentrando-se no Centro e no Bairro Recife, onde havia liberais e estudantes.

Um antropólogo local, amigo de Lindalva, publicou um livro que o Diário de Pernambuco condenou como sendo “pernicioso, destrutivo, anarquista e comunista”. O tal livro dizia que os brasileiros não eram apenas um produto dos portugueses, mas também dos africanos e das influências nativas. Não se tratava de uma cultura monolítica, afirmava o antropólogo, mas de uma trindade. O Dr. Duarte taxou o livro de pornográfico. O governo Vargas proibiu a sua comercialização e fechou todos os centros culturais e entidades religiosas de origem africana. O autor se exilou na Europa.

O presidente conseguiu consolidar a sua Lei de Segurança Nacional tão rapidamente que o povo sequer teve tempo de reagir ou protestar. Como tantos outros, o Dr. Duarte acreditava que o comunismo era uma ameaça maior que a nova legislação de Vargas. Na sala de visitas, Emília se sentava entre o marido e o sogro para ouvir os noticiários noturnos pelo rádio. Um líder italiano, apelidado Il Duce, estava se preparando para invadir a Etiópia. Na Espanha, falava-se em guerra civil. No porto de São Paulo, desembarcaram duzentos judeus alemães, fugindo do novo Führer. O mundo inteiro estava em polvorosa e, no Brasil, a situação não era diferente. Muitos brasileiros acreditavam que Vargas era como um pai severo, tentando protegê-los contra a instabilidade reinante. Outros decidiram deixar o país antes que as coisas piorassem. Vários cientistas, escritores e professores do Recife começaram, discretamente, a aceitar trabalho no exterior. Lindalva e a baronesa fecharam a casa da praça do Derby e já se preparavam para uma longa viagem em visita a uma prima que morava em Nova York. Encheram vários baús com roupas e livros. Lindalva encerrou a sua conta bancária e, durante o último almoço com Emília na varanda da casa, entregou-lhe um grande envelope, contendo espessos maços de dinheiro.

– É a sua poupança da fuga – disse a moça. – Está na hora de usá-la. Venha conosco.

A baronesa aquiesceu.

– Não acho que uma mulher casada deva fugir às suas responsabilidades – disse ela. – Mas, quando o marido não se preocupa com o bem-estar do casal, a esposa deve pensar no seu próprio. Foi o barão quem me ensinou isso. A situação aqui vai de mal a pior. Vargas tem olho grande. Está sempre querendo mais. E, depois, não vai saber o que fazer com tudo o que conseguir.

– Diga aos Coelhos que seremos suas acompanhantes – acrescentou Lindalva, sorrindo. – Vamos zelar pela sua honestidade.

– Não posso ir – replicou Emília.

– Podemos fechar a loja – insistiu a moça. – As costureiras arranjam outros empregos.

– Não é por causa da loja – disse Emília, incapaz de encarar a amiga.

Estava com um nó na garganta.

Lindalva e a baronesa juraram que voltariam para o Brasil, mas Emília sabia que estava perdendo as suas únicas aliadas. Queria ir com elas. Queria começar uma vida nova numa cidade estrangeira, mas não podia. Tinha prometido fazer outra viagem. Em vez de deixar o país, tinha se comprometido a se embrenhar ainda mais nele. Em razão da Lei de Segurança Nacional, qualquer ameaça contra o Estado – mesmo que vinda de bandidos do interior – era considerada. O Dr. Duarte e o interventor Higino esperavam ansiosos a chegada das Bergmanns. Mandaram mais tropas para o sertão. Emília se entristecia sempre que lia os jornais e ficava se perguntando que cangaceiros teriam sido capturados e decapitados. Era uma tensão insuportável. O seu único consolo era a proposta do Dr. Eronildes: viajar para o interior e avisar a irmã. Só então poderia se sentir livre.

Depois da visita à casa dos Coelhos, o médico mandou cartões de agradecimento para cada membro da família, expressando a sua gratidão por ter a sua companhia no Dia de Finados.

 

Sra. Emília,

 

Foi um prazer revê-la e ao menino. Fico feliz por saber que ambos gozam de boa saúde. A senhora disse que gostaria de conversar com um de meus colegas sobre as possibilidades educacionais de Expedito. Ainda gostaria desse encontro? Estarei no Recife daqui a duas semanas. Peço-lhe que me dê a sua resposta nessa ocasião para que eu possa tomar as providências necessárias. O meu colega não é uma pessoa muito disponível, portanto o tempo é um elemento fundamental.

Nesse ínterim, rezei para santa Luzia, como a senhora recomendou. Espero que ela atenda às nossas orações. Como todos os demais santos, ela precisa de provas das nossas boas intenções.

Atenciosamente,

Dr. Eronildes Epifânio

 

A apenas dois meses da chegada das Bergmanns, Emília tinha de pôr o plano em prática. Saberia a data exata do encontro quando o Dr. Eronildes viesse ao Recife. Ela abriria então o seu porta-joias e entregaria ao médico o velho canivete da irmã – com a abelha entalhada no cabo –, para que ele o desse à Costureira. Isso provaria que o encontro aconteceria efetivamente, que Emília estaria presente.

Disse aos Coelhos que precisava de novos tecidos para dar conta das encomendas para os bailes de ano-novo e de Carnaval, que já vinham se aproximando. Disse ainda que queria usar uns materiais diferentes e que uma loja de Maceió oferecia uma grande variedade de artigos. Como as tais remessas de caridade havia transformado o Dr. Duarte em fã do hobby da nora, ele não fez qualquer objeção à viagem. Já a sua sogra sempre gostava da perspectiva de vê-la fora de casa, mas não gostava da ideia de uma jovem senhora viajando sozinha.

– Não vou estar sozinha – retrucou Emília. – Expedito vai comigo. E Raimunda, é claro, para olhar o menino enquanto faço as minhas compras.

Nessas condições, dona Dulce não viu maiores problemas. Na verdade, ficou feliz da vida com a ideia de passar alguns dias sem Expedito e com a perspectiva de extrair alguns mexericos de Raimunda quando a criada voltasse. Só Degas resistia à viagem: na ausência da mulher, não teria ninguém para acobertar as suas saídas na hora do almoço e não poderia ir ao Bairro Recife para se encontrar com Chevalier. Só por isso, crivou Emília de perguntas: onde era a tal loja? Como ficara sabendo da sua existência? Como era possível eles terem produtos melhores que os do Recife? Emília tinha todas as respostas prontas, mas nenhuma o satisfazia. Finalmente, descobriu a frase que poderia funcionar.

– Quando eu voltar – disse ela –, a quantidade de tecido vai ser tamanha que terei de ir ao ateliê sete dias por semana. Pode aparecer por lá quando quiser. Vou precisar de você para me levar o café, o almoço e o jantar.

O Dr. Duarte lhe deu um cheque para pagar a passagem de trem de ida e volta, mas a moça decidiu que não compraria a passagem de volta. A viagem de barco até a fazenda de Eronildes duraria muito mais que o tempo combinado para as suas compras. Costurou então a sua poupança da fuga no forro de três boleros. Quando chegasse a Maceió, mandaria um bilhete por Raimunda, dizendo que estava abandonando Degas. Seria um escândalo. Nunca mais poderia voltar ao Recife. Talvez o seu marido ficasse furioso e resolvesse contar a verdade sobre Luzia e Expedito. Não, ela não se arriscaria a voltar.

Não tinha pena de ir embora do Recife. Ela e Degas não tinham um futuro juntos e não gostava do jeito como os Coelhos falavam dos projetos para Expedito. Planejavam destiná-lo a atividades como a carpintaria ou a serralheria. Se continuasse a morar no Recife, Expedito passaria a vida toda consertando coisas nos imóveis que a família alugava ou carregando caixas nos seus entrepostos. Um “filho da seca” não podia entrar para a universidade. Emília já tinha mudado de vida uma vez; poderia perfeitamente fazer isso de novo. Agora, porém, não tinha esperança em termos de romance, riqueza ou qualquer outra daquelas expectativas infantis que nutria no passado. A sua única esperança era encontrar algum consolo. Tinha dinheiro suficiente para viajar para o sul ao deixar a fazenda do Dr. Eronildes. Se Degas revelasse o seu segredo, Emília e Expedito poderiam cruzar a fronteira com a Argentina. Ou ela poderia comprar duas passagens de segunda classe num vapor e embarcar para Nova York, onde Lindalva e a baronesa haviam se instalado. Mesmo num país estrangeiro, uma boa costureira sempre pode encontrar trabalho.

Emília começou a fazer as malas semanas antes da data marcada. Escolheu o guarda-roupa com todo o cuidado: se levasse muitos trajes, os Coelhos ficariam desconfiados. Tinha de pôr na mala roupas e chapéus da moda, mas nada podia ser elegante demais ou ficaria estranhíssima na viagem de barco. Depois que deixasse Maceió, não haveria carregadores ou camareiros para ajudá-la, portanto a mala não podia pesar muito, ou não conseguiria carregá-la. E precisava ainda pensar nas roupas de Expedito. Passou várias tardes no quarto, dobrando e desdobrando diversas peças.

Um dia, pouco antes da data em que o Dr. Eronildes deveria chegar ao Recife, Emília ouviu a porta da frente bater com toda a força. Lá embaixo, o Dr. Duarte gritou com uma das empregadas, mas não dava para distinguir o que ele dizia. Uma criada subiu correndo a escada e veio bater à porta do seu quarto.

– O Dr. Duarte quer ver a senhora – disse a moça e, baixando a voz, acrescentou: – Ele está aborrecido com alguma coisa. Parece até que andou mastigando couro...

– Onde está Expedito? – perguntou Emília, segurando-a pelo braço.

Assustada, a moça recuou. Disse que o menino estava no quintal, brincando com Raimunda. Emília a soltou. A criada desceu as escadas a passos largos, esfregando o braço. Emília se encostou no umbral da porta. Se o Dr. Duarte tivesse descoberto o motivo daquela viagem, ela estava perdida. Fitou a pilha de roupas sobre a cama. Expedito estava no quintal. Se fosse preciso, poderia pegá-lo correndo e dar o fora daquela casa antes que conseguissem detê-la. Respirou fundo e desceu.

O seu sogro tinha o rosto afogueado e os lábios contraídos. Com um gesto brusco, mandou que Emília entrasse no escritório e fechou a porta. Degas estava esperando lá dentro, sentado diante da escrivaninha do pai, com o chapéu nas mãos e os olhos indo do pai à mulher. Parecia tão confuso quanto Emília, tentando também imaginar o que teria provocado a raiva do Dr. Duarte e como escapar dela. No canto, havia um ventilador giratório com um bloco de gelo meio derretido em cima da grade. A moça sentiu uma rajada de ar frio.

– Sente-se – exclamou o Dr. Duarte.

Emília obedeceu. O ventilador girava. De repente, o aposento ficou quente e abafado.

– Bom... – disse o Dr. Duarte – Vamos direto ao assunto. Degas tem o costume de ir vê-la na hora do almoço, Emília. No seu ateliê.

A voz do seu sogro não tinha vestígio daquela zombaria brincalhona que ele assumia geralmente ao falar com ela. Era um tom severo. O coração da moça começou a bater mais depressa. Degas a fitou.

– É – disse ela.

– E o que vocês comem? Brisa? – prosseguiu o velho. – Ninguém os vê em restaurantes.

– Pedimos comida – atalhou Degas.

– Onde estão os recibos? – perguntou o Dr. Duarte. – Ande lá, mostre.

– Não tenho nenhum recibo – replicou Degas, sem erguer os olhos.

– Pois bem! – gritou o Dr. Duarte, dando um tapa na mesa e assustando Emília. – Vocês comem comida imaginária que garçons imaginários de restaurantes imaginários levam até o ateliê!

Tinha os olhos pregados no filho. O ar entrava e saía de suas narinas sibilando.

– Atualmente, há centenas de policiais militares patrulhando as ruas – prosseguiu ele. – Acha que ninguém o vê? Acha que essa cidade é cega?

O Dr. Duarte parou de falar. Tinha uns acúmulos de cuspe nos cantos da boca. Enxugou os lábios com o dorso da mão e olhou para a nora.

– Tenho certeza que você estava apenas sendo leal ao seu marido. Tenho certeza que você não participou voluntariamente dessas saidinhas. Algumas notícias lamentáveis me chegaram aos ouvidos, Degas. Parece que o seu amigo Chevalier foi apanhado... – O velho hesitou, retorcendo os dedos grossos. – Existem coisas que não posso mencionar diante de uma dama. Tudo o que posso dizer é que há um menino de rua envolvido nessa história. Um pervertido. E o Sr. Chevalier não se fez de rogado: logo citou o seu nome, como sendo um amigo querido.

– Eu? – exclamou Degas, enrubescendo. – Então sou culpado por associação!

– Não deveria haver qualquer associação entre você e gente dessa laia! – esbravejou o Dr. Duarte, fechando os olhos e respirando fundo. – Paguei aos policiais – acrescentou ele. – O tal rapazinho não vai sair da delegacia. Graças à Lei de Segurança Nacional, ele vai passar o resto da vida limpando as latrinas por lá. Também paguei a fiança do Sr. Chevalier. Ele está voltando para o Rio amanhã. De navio.

Deixou-se cair ruidosamente na cadeira, como se os seus joelhos houvessem falhado.

– Filho – disse ele, baixinho –, não há nada que disciplina e força de vontade não curem. Isso não é irreversível. É uma fraqueza mental. Vamos livrá-lo dela. Há uma clínica, nos arredores de São Paulo: o Sanatório Pinel. Eles são especializados nesse tipo de coisa. O filho dos Fonseca esteve lá não faz muito tempo. Voltou curado.

Degas estava pálido. Emília se lembrou de Rubem Fonseca, um rapaz baixo e forte, que havia sido campeão de futebol pelo time da faculdade de engenharia. Quando voltou de um período de internação, Fonseca tinha perdido inteiramente o interesse pelo esporte. Nos bailes do Clube Internacional, ficava sentado a uma mesa do fundo da sala, fumando um cigarro atrás do outro, cumprimentando as pessoas com um olhar mortiço e um aperto de mão frouxo.

– Já falei com o diretor – prosseguiu o Dr. Duarte. – Tem uma vaga lá para você, Degas. Vou acompanhá-lo. Embarcamos esta semana mesmo, dizendo que se trata de uma viagem de negócios. Você vai ficar na clínica o tempo que for necessário. O Dr. Loureiro disse que, na maioria dos casos, o tratamento dura uns dois meses. Vou contar para sua mãe que você vai viajar. E você, Emília, não desmarque a sua ida a Maceió. As coisas devem continuar do jeito mais normal possível. Dona Dulce não pode desconfiar de nada. Isso deixaria a sua mãe desnorteada, Degas. Não vá lhe pedir ajuda, entendeu bem?

Degas assentiu. O chapéu nas suas mãos estava todo amassado.

– Emília – disse-lhe o seu sogro –, sei que isso não é nada agradável, mas preciso lhe dar certas instruções. Vão lhe fazer perguntas e as suas respostas terão de ser plausíveis. Você é o guia moral do seu marido. Quando ele voltar, leve-o a jantares, teatro, cinema. Você não deve sair do seu lado. Assim, não haverá chances para recaídas.

A moça aquiesceu. O Dr. Duarte os dispensou, alegando que precisava comprar as passagens de navio e avisar a data de sua chegada ao Sanatório Pinel. Emília e Degas saíram do escritório e subiram a escada juntos, como se a sua penitência já tivesse começado.

A meio caminho, Degas tropeçou. Emília o segurou pelo braço, temendo que o marido fosse desmaiar e pudesse cair pela balaustrada. Ele fechou os olhos. Bem devagar, ela o fez se sentar. Sentiu o frio dos ladrilhos na parte posterior das pernas. Degas apoiou a testa no corrimão, embaçando o metal.

Emília sentia um misto de emoções confusas. Estava aliviada por não ser o objeto da raiva do sogro. Ele nem desconfiava de que a sua viagem era uma farsa. Também se sentia vingada, pois tinha razão quanto a Chevalier – ele era um desavergonhado –, e Degas havia sido finalmente repreendido por suas mentiras. Quando se lembrava, porém, do olhar mortiço do jovem Fonseca e via Degas ali, à sua frente, com o rosto inteiramente sem cor e as mãos trêmulas, não desejava que ele fosse punido.

– Sinto muito – disse ela.

Degas esboçou um sorriso meio torto.

– Acha que vou ficar curado? – perguntou.

– Não sei.

– Mas espera que sim – retrucou ele, ríspido. – Todo mundo quer que eu me torne um homem diferente.

– Eu não o conheço, Degas – disse Emília, balançando a cabeça. – Como posso querer que você seja diferente se mal consigo compreendê-lo?

Degas escondeu o rosto nas mãos.

– Eu não gostava de verdade de Chevalier – disse ele. – Simplesmente era conveniente. Nunca me senti indigno. Nunca precisei me esconder pelos cantos, como um paspalho, à espera de um desses rapazes de rua. Mas não gostava de Chevalier para valer. Com Felipe era diferente... – A voz lhe faltou. Ele mordeu os lábios, como se estivesse tentando engolir de volta as palavras que haviam saído. – Não quero me curar! – exclamou, por entre os dentes cerrados. – Não quero morrer para esses sentimentos. Tive momentos de genuíno prazer, Emília. Você compreende?

Degas segurou as mãos da mulher entre as suas, numa atitude de súplica. Emília ficou olhando lá para baixo, para as sombras do outro lado do corrimão em curva, perguntando-se se alguém estaria ouvindo aquela conversa. Nunca tinha experimentado o amor físico desse jeito. O que sentira, anos atrás, pelo professor Célio era uma quedinha de menina, nada mais. As únicas conexões físicas que havia sentido foram com Luzia e com Expedito, e ambas eram um outro tipo de amor. Tirou as mãos que o marido segurava.

– Não – disse ele, baixinho. – Você não poderia entender. Eu lhe roubei essa chance. Como gostaria de ir embora daqui... Como gostaria de estar enterrado junto com Felipe...

– Não diga isso – replicou Emília.

– Sabe o que fazem nesses sanatórios? Usam eletricidade. Injetam hormônios. Vão me matar de uma forma diferente. Vou voltar, mas estarei morto.

– Não vá – disse a moça, pegando a sua mão. – Você não precisa ir.

– E fazer o quê? Fugir? – perguntou ele, fitando-a nos olhos. – Fugir não é tão fácil quanto imagina, Emília.

– Eu sei – retrucou ela, sentindo-se de súbito irritada com aquele tom brando da voz do marido.

– Sabe? – indagou ele. – Então, prometa que vai voltar para cá depois da viagem a Maceió.

– Por quê?

– Prometa.

– Não.

Degas se remexeu. Os seus joelhos esbarraram nos dela.

– Essa história de loja de tecidos é mentira, não é?

Emília se segurou firme na borda da escada. Tentou se levantar, mas o marido passou o braço diante das suas pernas.

– Pare com isso! – exclamou ela. – Deixe de ser egoísta! Se eu quisesse ir embora, teria ido para Nova York com Lindalva. Essa história não tem nada a ver com você, Degas. É mais importante.

– Importante como? – perguntou ele, largando o peso do braço no seu colo.

– Imagine que você pudesse ter evitado esse problema – sussurrou Emília. – Imagine que alguém o tivesse avisado com antecedência. Se você já soubesse, a sua reação teria sido diferente.

– Talvez – replicou Degas. – Mas talvez eu quisesse ser apanhado. Talvez eu quisesse que tudo isso terminasse – acrescentou ele, aproximando-se mais da mulher. – As Bergmanns estão chegando – murmurou. – Você não pode detê-las. Ela também não.

– Mas posso avisá-la. Pelo menos, ela não vai estar agindo às cegas.

Degas assentiu.

– E como vai encontrá-la? – perguntou.

– Isso não é problema seu – respondeu Emília, desconfiada. – É ela que vai vir ao meu encontro.

– Isso é coisa daquele médico – disse Degas. – Ele a convenceu a ir até lá.

– Ninguém precisa me convencer.

– Cancele essa viagem, Emília. Avise pelo jornal. Assim, ele não pode contestar.

– Não! – exclamou ela, afastando-se do marido. – Por quê?

– Ele a está usando – insistiu Degas, passando a mão com força no cabelo, como se pretendesse tirar uma lembrança da cabeça. – Lembra que, lá na sua terra, Felipe botava gaiolas na varanda? Uma vez, ele me contou como se fazia para pegar aqueles pássaros. Antes, punha comida nas gaiolas, para enganá-los, mas os bichos descobriram o truque. Então, ele passou a botar um passarinho ali dentro. E amarrava as patas dele no poleiro. Um outro pássaro que visse o seu irmão na gaiola deduzia que o lugar era seguro e entrava. Não era a comida que os enganava, Emília. Eram eles mesmos.

A moça se afastou do marido o máximo que pôde. Ficou com as costas bem coladas à parede e quase bateu com a cabeça no corrimão. Degas falou de pássaros e gaiolas porque achava que ela era simplória demais, tola demais para merecer uma explicação de verdade. Achava que era fácil enganá-la.

– O Dr. Eronildes é um homem bom – disse ela. – Não deixaria que Expedito e eu corrêssemos perigo. Eu é que preciso da ajuda dele, não o contrário. Eu é que o estou usando.

– Sorte a dele, então – retrucou Degas. – Tem razão, ele não exporia você e o menino; não são vocês que ele quer. É ela. Ele vai marcar uma data falsa e, depois, mandar um telegrama no último minuto, dando alguma desculpa para cancelar o encontro. Mas só com você. Ela vai chegar lá achando que está indo se encontrar com você e vai deparar com as tropas.

– O que está dizendo? – perguntou Emília. – O que foi que você ouviu?

– Nada... – balbuciou Degas. – Ele é um bêbado, Emília, e está desesperado. Foi por isso que, de repente, resolveu ficar amigo de papai.

– Ele veio aqui para ver a mim e a Expedito. Usou o Dr. Duarte como pretexto. E herdou muito dinheiro. Não tem motivo algum para estar desesperado.

Degas balançou a cabeça.

– O governo é dono de todos os bancos, Emília. Como acha que ele vai pôr as mãos na tal herança a não ser cooperando, dando alguma coisa em troca? Todo mundo sabe que ele é um coiteiro! Exatamente como todo mundo conhece a minha... situação... e finge que não sabe de nada só por causa de papai. Mas esperam poder tirar proveito disso um dia. É a mesma coisa, Emília. Se Eronildes se mudar para o litoral, vai precisar de amigos. Já não tem mais família. O nome dele não significa nada por aqui. Se não cooperar, esse nome vai para a lama. Não se pode viver aqui sem um bom nome. Você sabe disso tão bem quanto eu.

Emília se levantou. As suas pernas estavam pesadas e entorpecidas. Agarrou-se ao corrimão para se firmar.

– Por que está me dizendo isso? – perguntou. – Por que resolveu querer me ajudar assim de repente?

– Já não estou preocupado com o trabalho de papai – respondeu ele, dando de ombros. – Na verdade, tomara que nunca consiga as suas preciosas cabeças. Espero que fracasse.

Emília segurou o corrimão com mais força ainda. Chutou a coxa do marido com a ponta do sapato, fazendo-o erguer os olhos para ela.

– Você espera que eu fracasse – disse. – Quer que eu fique aqui e me sinta culpada, porque, assim, vou sofrer como você. Não salvou Felipe, nem tentou avisá-lo. E a culpa foi sua. Mas eu vou salvar...

A sua voz falhou. Emília olhou para baixo. Sempre havia criadas bisbilhotando pelos corredores da casa e ouvindo atrás das portas.

– Você nunca gostou do doutor porque todos gostam dele – prosseguiu ela. – As pessoas fazem vista grossa para o vício dele, mas não para o seu. É por isso que você quer denegri-lo. O Dr. Eronildes sempre foi correto comigo, Degas. Já você, não.

– Então não acredita em mim? – perguntou ele.

– Não.

Com alguma dificuldade, Degas se levantou do degrau onde estava sentado.

– Tem razão – disse ele. – Ele conquistou a sua confiança. Eu, não. Por que daria ouvidos a mim? Seja como for, são apenas suposições.

Inclinou-se, um tanto hesitante, como se pretendesse lhe dar um beijo no rosto. Emília se afastou.

– Sinto muito – disse ele, e subiu a escada.

 

4

Choveu naquela noite. A casa dos Coelhos foi invadida por enxames de mosquitos graúdos. Dona Dulce os enfrentava acendendo velas de capim-limão que deixavam os cômodos e os corredores enevoados de tanta fumaça. Quando Emília se deitou, os lençóis estavam úmidos e frios. Era um tempo bem estranho para princípios de dezembro. Pendurou então uma rede no quarto e se deitou ali, embalando-se suavemente. Ficou olhando para Expedito. O menino tinha se livrado dos lençóis da sua caminha e dormia, descoberto, sob o cortinado. Emília estava inquieta, com a cabeça repleta de dúvidas. Será que Degas tinha razão a respeito de Eronildes? Ela seria a isca usada para capturar a Costureira? Decidiu conversar novamente com o marido, pela manhã, com mais calma.

Acordou com o som do motor do Chrysler e o ruído do portão da frente. Sentou-se. O dia ainda não havia clareado e a casa dos Coelhos estava inteiramente quieta. As criadas nem tinham começado a fazer as suas tarefas. Lá fora, continuava chovendo. Apesar da tempestade, uns poucos pássaros anunciavam o amanhecer.

Degas não apareceu para o café. Deixou um bilhete, dizendo que tinha ido apanhar umas coisas em seu escritório do Centro, para preparar a viagem que se aproximava. O Dr. Duarte tinha os olhos vermelhos e pareceu mal-humorado ao ler o tal bilhete. A chuva distraiu dona Dulce – ela caía forte, molhando a casa e obrigando as empregadas a fecharem todas as portas que davam para o quintal. Os aposentos ficaram abafados e úmidos.

Na hora do almoço, Degas ainda não tinha chegado. O Dr. Duarte ligou para o escritório. Um dos funcionários disse que o seu filho não tinha estado lá.

– Que falta de responsabilidade! – exclamou o velho, sentando-se para almoçar.

Passou a mão na campainha da mulher e mandou que as criadas servissem a refeição.

– Aconteceu alguma coisa – disse dona Dulce, balançando a cabeça. – Ele nunca deixa de me avisar quando não vem almoçar.

– Já liguei para a polícia – resmungou o marido. – Vão ficar de olho no nosso carro. Eu lhes disse para atravessarem a ponte para o Bairro Recife. É bem provável que ele esteja lá.

Dona Dulce enrubesceu. Almoçaram em silêncio.

De tarde, quando Expedito começou a ficar irrequieto, Emília o levou para o quintal dos fundos. Enfiaram-se na parte coberta, onde a roupa estava pendurada para secar. Havia várias cordas estendidas no teto, todas elas quase cedendo sob o peso dos lençóis encharcados, das camisas sociais de Degas, das roupas de baixo amareladas de dona Dulce, das calcinhas bordadas de Emília.

Expedito se escondeu. Emília contou até dez. Depois, começou a passar diante daquela parede de lençóis, afastando-os para procurá-lo. Com a umidade e a chuva, nada havia secado. Uma fronha fria lhe bateu no ombro. Emília se assustou. Depois, veio o barulho de um carro na entrada da casa e o som de uma buzina. “É Degas”, pensou ela. Expedito deu uma risadinha. Afastando um dos lençóis, ela encontrou o seu esconderijo. O menino gritou. Ao pegá-lo nos braços, sentiu o seu calor e o cheirinho de talco. E o abraçou bem apertado.

Lá fora, ouviram-se passos rápidos.

– Sra. Emília! – gritou Raimunda, com uma voz tensa. A criada veio passando por entre as roupas e os lençóis. – Sra. Emília! – repetiu ela.

Expedito tapou a boca de Emília com a mão. Ela sorriu e ficou quieta, mas Raimunda não tardou a achá-los. Parecia consternada e confusa.

– É melhor a senhora ir até a sala de visitas agora mesmo – disse Raimunda. Encontraram o Sr. Degas.

Dentro da casa, Emília e os sogros viram um capitão da polícia, envergando o seu uniforme verde. O sujeito falava por frases compactas.

Tinham encontrado Degas e o carro dos Coelhos. Testemunhas disseram que o Chrysler Imperial estava correndo demais. Chovia muito. Foi pouco depois do café da manhã. Parecia que o carro ia se espremer entre um bonde e um vendedor de vassouras, mas desviou pouco antes da ponte Capunga. Caiu no Capibaribe. A correnteza estava forte. De início, o veículo ficou boiando. Degas não saiu. Alguns disseram que ele bateu com a cabeça e estava de olhos fechados. Outros disseram que os seus olhos estavam abertos. Um motorneiro de bonde atirou uma corda, mas não conseguiu alcançar o carro. O Chrysler deu uma guinada e, depois, afundou. Ninguém se jogou na água para salvá-lo. O rio estava muito violento.

Dona Dulce desabou nos braços do marido. Ele a segurou, ficando até trêmulo com o esforço que teve de fazer. O policial continuou parado ali na sala, constrangido, esperando que alguém o dispensasse. Voltou-se para Emília com um olhar de súplica, mas ela não conseguiu falar.

 

No velório, o caixão estava fechado e coberto de flores. Tantas flores! Emília chegou a ficar estonteada com aquele cheiro. O Dr. Duarte encomendou um retrato a óleo do filho, para pôr em cima do caixão. No quadro, ele aparecia mais magro, com o maxilar mais definido, os olhos vivos e confiantes. Emília ficou olhando para aquele estranho. A polícia declarou que a morte de Degas havia sido um acidente, mas os boatos persistiram. Alguns diziam que a guinada que o carro deu foi abrupta demais para ser acidental, mesmo para um motorista imprudente como ele. Não lhe permitiram ver o corpo do marido. O seu sogro, porém, disse que ele estava inchado e irreconhecível. Tiveram de manter o caixão fechado para o velório e para o enterro, mais tarde, no mausoléu da família.

Emília passou a ser a viúva Coelho. Era assim que os jornais a chamavam e era também assim que todos os que compareceram ao velório se dirigiam a ela quando vinham beijar a sua mão, entrando, a passos cautelosos, no salão de baile espelhado onde, anos atrás, ela havia aprendido a andar, a falar e a se comportar em público nas aulas que dona Dulce lhe dava. Sem Degas, o seu lugar ali na casa dos Coelhos era precário. Passaria o resto da vida como a viúva Coelho, dependendo da generosidade do Dr. Duarte e sujeita ao olhar vigilante da sogra.

Para a ocasião, os espelhos da sala tinham sido cobertos com um pano preto, bem como qualquer outro espelho da casa. Depois da visita oficial da polícia, dona Dulce prendeu o cabelo num coque bem apertado. Pôs tanta goma nos vestidos de luto que Emília podia ouvir o barulho das suas saias pela casa afora. Viu também um círculo vermelho, no ponto em que a gola dura havia deixado uma marca em seu pescoço. Dona Dulce parou de examinar cada cômodo da casa à cata de poeira ou de mofo. Parou de pedir às criadas que trabalhassem sempre mais. Nos dias que se seguiram à morte do filho, tinha os olhos vidrados, sem fitar nada em particular, como se estivesse recorrendo às escondidas ao armário das bebidas. Emília lembrou que o pai, lá em Taquaritinga, depois da morte de sua mãe, tinha esse mesmo olhar, causado não pela bebida, mas pela dor irremediável.

Durante o velório, Expedito ficou sentado ao seu lado e, de vez em quando, espiava por baixo da sua mantilha. Emília não o impedia de fazer isso. Queria que o menino a visse, queria que soubesse que ela ainda estava ali, por baixo da renda negra. Mas os gestos dele deixavam o seu rosto à mostra e ela ouviu dona Dulce sussurrar para uma das presentes:

– Está vendo só? Parece uma pedra. Não derramou uma lágrima!

Emília não conseguia chorar. Sempre que pensava em Degas, via-o tranquilo, no banco da frente do Chrysler, com aquela água barrenta entrando pelas janelas. Ele tinha enfim escapado da casa dos Coelhos e de todas as obrigações que lhe impunham. Tinha voltado para Felipe. Antes de ir embora, porém, tinha plantado a semente da dúvida na cabeça da mulher e, no dia seguinte à sua morte, aquela semente se abriu e criou raízes. Emília ficou se lembrando da última conversa que tiveram, sentados na escada. Não sabia se o alerta de Degas havia sido uma tentativa de se redimir ou mais uma das suas mentiras em proveito próprio.

A fila dos que vieram cumprimentá-los ia avançando lentamente.

– Meus sentimentos – diziam os homens.

Algumas mulheres sussurravam em seu ouvido:

– Pena que não haja filhos para dar continuidade ao nome da família. As crianças são um grande consolo.

Outras diziam:

– É uma bênção que vocês não tenham tido filhos, pois, agora, eles estariam passando por isso.

Emília assentia serenamente a cada comentário, sem demonstrar qualquer emoção. Como o caixão estava fechado, não havia um corpo que eles pudessem cercar e observar; ficavam então inspecionando a viúva e os Coelhos. Também aproveitavam a oportunidade para examinar aquela casa tão raramente visitada. As pessoas se aglomeravam na sala de visitas, na sala de estar, no salão de baile e na sala de jantar, onde a mesa estava posta, com biscoitos e grandes bules de prata com café. Era a única bebida que se servia, numa tentativa de manter os presentes acordados a noite toda.

O café deixava Emília nervosa. Ela tinha tomado várias xícaras e, agora, quando o céu escureceu e as luzes do salão se acenderam, não conseguia ficar ali quieta. Remexia-se na cadeira, ajeitava o vestido preto, arrumava a mantilha. A fumaça do incenso parecia envolver a sua língua e a sua garganta. A sala dava a impressão de ser pequena demais. Expedito já estava lá em cima, na cama, e Raimunda tomava conta dele. As crianças não precisavam passar a noite em claro, mas as esposas, sim. Emília suspirou.

– Queiram me desculpar – disse ela, dirigindo-se aos sogros e às pessoas que se aglomeravam ao redor dos dois.

Levantou-se e saiu da sala rapidamente. Precisava de ar.

O quintal estava cheio de visitas, todas de preto, fumando, conversando, admirando o chafariz e brincando com os jabutis. Emília atravessou o pátio e foi andando para o portão da frente. Tirou a mantilha, embolando-a na mão. Queria sair dali, subir e descer a rua Real da Torre até que o efeito do café desaparecesse por completo. “Uma dama não deve andar por aí a esmo.” Podia ouvir a regra de dona Dulce ressoando em sua mente. “Uma dama sempre tem um destino, uma agenda.”

“Eu tenho”, pensou Emília.

As suas malas já estavam prontas, apesar de o Dr. Duarte ter cancelado o cheque para as passagens de trem até Maceió. Durante um ano inteiro, depois da morte do marido, a viúva devia ficar em casa, de luto. Em nome do bom-tom, Emília não deveria sair de casa, aparecer nos jornais, trabalhar no ateliê e, certamente, viajar. No entanto, ela já não se preocupava mais com o bom-tom. Assim que as visitas fossem embora, assim que dona Dulce voltasse para a cozinha e parasse de ficar o tempo todo à espreita, procurando expressões de dor no rosto da nora, Emília fugiria da casa dos Coelhos e iria para o interior. Não precisava do dinheiro do sogro: tinha a sua poupança para a fuga. Mesmo que tivesse que dar uma gorjeta ao jardineiro e ao vigia do portão, mesmo que precisasse sair escondida no meio da noite, iria embora. Não deixaria de comparecer àquele encontro na fazenda do Dr. Eronildes.

Como se o destino estivesse confirmando as suas intenções, Emília viu o próprio médico no saguão de entrada da casa, curvado sobre o livro de presenças. Eronildes assinava o seu nome lentamente. Quando chegou à coluna “condolências”, refletiu por um instante e, depois, escreveu a sua mensagem. Tinha o rosto tão oleoso que o nariz e a testa reluziam à luz da lâmpada. Sorriu para a criada que o tinha recebido, mas, quando viu Emília, o seu sorriso desapareceu.

– Obrigada por ter vindo – disse ela, dispensando a empregada com um gesto.

– Eu já estava no Recife – replicou ele. – Disse-lhe, naquele bilhete, que pretendia vir. Não esperava encontrá-la aqui.

– E onde mais eu poderia estar? – indagou a moça.

– Não, eu quis dizer aqui no corredor.

– Estava precisando de um pouco de ar.

Eronildes assentiu.

– Meus sentimentos. Foi um acidente terrível – disse ele. – Agora a senhora está de luto fechado. Não pode sair de casa por um ano.

– Eu sei – retrucou a moça. Olhou ao seu redor e, baixando a voz, acrescentou: – Mas não pretendo respeitá-lo.

– Não? – disse o médico, parecendo mais aliviado que surpreso.

– As Bergmanns estão a caminho – sussurrou Emília. – Quando vai ser o encontro?

– Não sei.

– Por quê? – perguntou ela, apertando ainda mais a mantilha na mão.

– Ela quer provas. Vim até aqui para consegui-las. E para apresentar os meus pêsames, é claro.

– Provas?

– Não marcará a data sem ter uma prova. Algo que lhe pertença.

Emília aquiesceu.

– Quanto mais pessoal, melhor... – acrescentou Eronildes.

– Com licença – atalhou ela.

Deixando o saguão, subiu a escada da frente de dois em dois degraus. No seu quarto, Raimunda cochilava ao lado da cama de Expedito. O menino estava com o rosto enfiado no travesseiro. Emília entrou pé ante pé. Uma tábua do assoalho rangeu. A criada se aprumou na cadeira.

– Um velório não é o melhor momento para andar devagarinho – disse ela, entre dentes. – A senhora ainda vai matar alguém de susto. – Depois, lembrando-se dos seus deveres, ajeitou o avental e começou a se levantar. – Está precisando de alguma coisa? – perguntou.

– Pode ficar sentada – sussurrou Emília. – Só estou querendo o terço, nada mais.

Raimunda voltou a se sentar e ficou olhando. No escuro, a moça não conseguia ver a expressão do seu rosto. Ajoelhou-se junto à cama e deu as costas à criada, na esperança de esconder o que estava fazendo. Puxou o porta-joias do seu esconderijo debaixo da cama, tirou o cordão que trazia ao pescoço e usou a chave de latão para abri-lo. Mais que depressa, meteu a mão ali dentro e pegou o canivete. Sentiu o frio da lâmina, o cabo de madeira com a abelha entalhada. Raimunda se remexeu na cadeira. Emília fechou o canivete, trancou novamente o porta-joias e saiu do quarto.

Eronildes não estava no saguão de entrada. A moça o procurou em meio aos fumantes, mas não o encontrou. Era provável que uma das empregadas houvesse levado o médico até o salão de baile com as cortinas pretas. Emília repôs a mantilha, agora toda amassada por ter ficado embolada em sua mão, e embrulhou o canivete num lenço. Daria um jeito de entregá-lo a Eronildes, ou de enfiá-lo num dos bolsos do seu casaco.

No salão, o ar estava carregado da fumaça das velas. As pessoas tossiam. Emília ficou atrás de todos, encolhida de encontro à parede. Antes que pudesse pedir desculpas e voltar à cadeira que agora estava vazia, perto do retrato de Degas, avistou o Dr. Eronildes. Ele não a viu. Chegara a sua vez, na fila dos cumprimentos, e o médico se inclinou diante de dona Dulce, que lhe respondeu com um aceno de cabeça. Ao seu lado, o Dr. Duarte se levantou. Em vez de cumprimentar Eronildes com um aperto de mão, deu-lhe um abraço apertado. O doutor não se enrijeceu ao receber aquele abraço. Tampouco deu tapinhas formais nas costas do Dr. Duarte, tratando de se desvencilhar. Parecia diminuto entre aqueles braços grossos, mas não dava a impressão de estar constrangido. Sem conseguir, ou sem querer sair daquela situação, Eronildes largou o corpo como que resignado.

No canto onde estava, Emília estremeceu. Parecia que as suas entranhas haviam congelado e se condensado. Como se, dentro dela, algo tivesse se encaixado tão perfeitamente quanto a lingueta de um trinco entrando na fenda correspondente. Já tinha sentido isso antes em duas ocasiões: durante o seu primeiro baile de Carnaval, no Clube Internacional, e, mais tarde, na primeira vez em que pegara Expedito no colo. Apertou o canivete na mão. Saiu do salão e subiu correndo as escadas.

Raimunda estava acordada, como se esperasse pela sua volta.

– Resolvi que não quero isso – sussurrou Emília. – O terço, quero dizer...

A criada não respondeu. A moça abriu o porta-joias e guardou o canivete ali dentro, ainda embrulhado no lenço. Trancou a caixa e a empurrou para baixo da cama com a ponta do pé. Os seus sapatos eram pretos, como todo o seu traje. O couro envernizado fazia os seus pés brilharem. Vestia-se na moda até quando estava de luto, pensou ela com amargura. As suas mãos tremiam. Sentiu uma vontade louca de tirar aqueles sapatos e jogá-los pela janela. Mas não fez nada disso. Ficou olhando para Expedito, que dormia, e para Raimunda sentada ao seu lado.

– Aquele médico está aí – disse ela, num sussurro. – Eronildes.

– O que bebe – retrucou Raimunda, assentindo.

– O que acha dele?

Raimunda estalou a língua.

– Não sou paga para achar o que quer que seja a respeito de alguém.

– Mas e se fosse?

– Não sou. E nunca serei. A minha função aqui não é dar opinião. E a sua não é querer saber o que eu penso.

Emília suspirou. Sentou-se na cama e escondeu o rosto entre as mãos.

– Posso lhe dizer o que sei sobre a opinião dos outros – disse Raimunda, com uma voz estranhamente branda. – Sei que o Sr. Degas, que Deus o tenha em bom lugar, não gostava desse doutor. Dona Dulce sempre disse que o Sr. Degas se enganava a respeito de certas coisas, mas que era ótimo para julgar o caráter das pessoas. Ora, a senhora foi uma das pessoas que ele avaliou, pois a escolheu para ser sua esposa. Então, concorda com dona Dulce ou não?

Emília passou os olhos pelo quarto. A sua velha bolsa de costura estava ali, num canto, ainda contendo agulhas, linhas, ideias para moldes e a fita métrica. Tinha trazido aquela fita lá de Taquaritinga: uma tira de pano feita à mão, com cada metro e cada centímetro cuidadosamente assinalados.

Levantou-se então da cama, remexeu nos apetrechos de costura e encontrou a tal fita. Saiu do quarto sem dizer uma palavra. Precisava de uma caneta e sabia onde encontrá-la. Ninguém havia mexido no quarto de Degas desde a sua morte. A cama ainda estava desfeita, os livros espalhados pelo chão, os discos de inglês formando uma pilha precária perto da vitrola. Emília encontrou uma caneta na escrivaninha. Desenrolou a fita métrica em cima do móvel. Traçou centímetros extras entre os que já estavam marcados ali. Rabiscou alguns números, transformando o 6 num 8 e o 11 num 17.

“Trate de medir certo!” A voz de tia Sofia ecoava em sua mente. “Não confie numa fita estranha. Confie nos seus próprios olhos.”

Emília fez com a fita um rolinho bem apertado e o escondeu nas mãos. Lá embaixo, assim que se sentou em seu lugar ao lado dos Coelhos, o Dr. Eronildes se aproximou para cumprimentá-la.

– Meus sentimentos – disse ele.

– Obrigada – respondeu a moça.

As mãos dele estavam suadas e Emília torceu para que a tinta já tivesse secado, caso contrário ia escorrer por entre os seus dedos. Eronildes pegou a sua mão e se inclinou para beijá-la. A moça depositou ali a fita métrica.

– Prova – sussurrou ela.

Eronildes se enrijeceu. Tinha os lábios bem próximos à sua mão.

– Vou marcar a data – respondeu ele, também sussurrando, e, então, encostou a boca na mão que ela lhe estendia.

Uma semana depois, Emília recebeu um envelope de tarja preta, endereçado à Sra. Degas Coelho. Não havia endereço do remetente e o cartão que estava ali dentro tampouco era de condolências; trazia apenas uma data: 19 de janeiro.

Seria depois do Natal e do ano-novo, feriados que passariam em branco na casa dos Coelhos.

Ele vai marcar uma data falsa, era o que Degas tinha dito. Depois vai cancelar o encontro. Mas só com você.

Agora, nada disso tinha a menor importância. Só lhe restava esperar que a fita métrica dissesse tudo o que ela não podia dizer. Se Luzia prestasse atenção, poderia reparar nos números errados e se lembrar do velho alerta de tia Sofia. Poderia entender o que Emília estava querendo lhe dizer: o tal encontro era uma farsa, uma armadilha, exatamente como Degas havia previsto.

Depois do velório, Emília pensou muito no marido. Como ele devia ter ficado atemorizado, sem uma vela para iluminar o caminho da sua alma. Mas a estrada para o paraíso não era decerto tão lamacenta e escura quanto as águas do Capibaribe. Degas ia encontrar o caminho. Essa ideia – de que até Degas poderia deixar para trás os aspectos mais sombrios da sua personalidade para ir ao encontro do bem – a fez acreditar que ela também poderia. Assim que tivesse condições de segurança, fugiria. Avisaria a irmã sem a ajuda de Eronildes. Iria encontrá-la e lhe contar sobre as Bergmanns. Até lá, torcia para que a fita transmitisse o seu recado.

À noite, em sonhos, voltava a ser criança. Luzia e ela subiam na velha mangueira. A árvore era muito alta, tão alta quanto a torre de atracação do Graf Zeppelin, e as frutas eram amarelas e pesadas, em forma de lágrimas. Luzia sentou num galho abaixo dela. Inclinou-se para trás. Perdeu o equilíbrio. Emília estendeu a mão para segurá-la. Tateou o ar, à procura da mão da irmã, mas não podia salvá-la, não sem despencar também.