Entre irmãs

Frances de Pontes Peebles · Capítulo 16 de 20

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Entre irmãs

Capítulo 14

 

 

Luzia

 

Em plena caatinga, Pernambuco-Vale do São Francisco, Bahia

Dezembro de 1934-janeiro de 1935

 

1

 

O corpo do soldado parecia até um ponto de cruz: pernas e braços estendidos, com as mãos e os pés firmemente amarrados a troncos de árvore. Inteligente pôs as enormes mãos morenas de ambos os lados da cabeça do rapaz, para mantê-la erguida. O sujeito se contorceu e se debateu por um bom tempo, tentando se soltar. Luzia ficou só olhando. Não tardou muito, ele estava exausto e calmo, dócil como um novilho nos segundos que antecedem a sua marcação com o ferro em brasa, aceitando o seu destino. Baiano enfiou algodão nas narinas do soldado, para obrigá-lo a manter a boca aberta. Ponta fina montou em cima dele. Na mão direita, segurava um alicate de ponta afilada que havia roubado da sacola de um vaqueiro. Era uma ferramenta muito útil, servindo para extrair balas, espinhos e dentes.

Luzia se agachou ao lado do soldado. Ele a seguiu com os olhos. Tinha as mãos vermelhas e inchadas por causa das cordas. A moça passou o dedo pelos dedos dele, depois, bem devagar, pela palma da mão, tocando as linhas profundas ali traçadas.

– Fale – disse ela.

– Já disse que não sei de nada – respondeu o rapaz, com voz rouca. – Abandonei o meu regimento. Juro.

– Não gosto de juramentos – retrucou Luzia.

Ali perto, Neném e Maria Magra começaram a rir.

– Dou minha palavra! – exclamou o soldado.

Luzia assentiu. O dono de um bar, amigo do bando, tinha lhe mandado uma mensagem dizendo que um macaco havia desertado. Passara no seu estabelecimento para trocar sua arma por bebida. Quando os cangaceiros chegaram para interrogá-lo, descobriram que ele também havia se livrado do paletó e das botas. O sujeito estava mal-ajambrado e não dizia coisa com coisa. Até Luzia o arrastar para o meio do mato, a sua intenção era beber até cair morto. Os cangaceiros lhe deram apenas água, farinha e carne, na esperança de clarear as suas ideias e soltar a sua língua. Depois do incêndio do cinema, a caatinga havia sido invadida por uma avalanche de tropas. Soldados e moradores se aliaram para tentar apanhar os cangaceiros. Por todo lado, as pessoas condenavam o Carcará e a Costureira. Até que, de repente, as tropas se retiraram. Abandonaram os postos de guarda recém-construídos e pararam de tentar localizar o bando da Costureira. Luzia percebeu que havia algo estranho nessa história.

O desertor não lhe revelou nada importante: apenas que Vargas tinha convocado o regimento de volta ao litoral. A moça, porém, sentia que havia mais coisas na história que ele contou. O macaco falava sem encará-la. Estava nervoso, suspirava e até chorou. Os cangaceiros o chutaram. Ponta Fina encostou o punhal na sua garganta, mas nem assim ele falou. Quando lhe deram de comer, ele tirou grandes nacos da carne-seca a dentadas. Tinha todos os dentes, uns dentes brancos e sólidos. Ao contrário da maior parte dos cangaceiros do bando, que tinham de morder a comida com todo o cuidado ou ficar mastigando a carne-seca com as gengivas até ela ficar macia o bastante para ser engolida, o soldado comia depressa e com voracidade. Um dia, implorou por uma lasca de casca de juá para esfregar os dentes. Foi assim que Luzia descobriu o seu ponto fraco. Como Antônio, ela sempre tratava de descobrir aquilo que as pessoas mais prezavam. Havia mandado que o pendurassem.

– Você é um desertor – disse ela, acariciando-lhe os dedos. – A sua palavra não vale lá grande coisa. Você abandonou o exército. Por que guardar os segredos deles agora? Conte-me o que sabe e eu o deixo ir. Levo-o de volta àquele bar. Compro uma garrafa de branquinha para você.

O soldado lambeu os lábios.

– Eu não era capitão – disse ele. – Não conheço nenhum plano.

– Por que mandar as tropas fazerem toda essa viagem até aqui e, depois, chamá-las de volta?

– Não sei.

Debaixo da sua mão, o dedo do soldado se contraiu. Luzia ficou de pé e fez um aceno de cabeça para Ponta Fina.

– Segure firme! – exclamou o cangaceiro.

Inteligente apertou o rosto do rapaz com mais força. Ponta enfiou uma tira de couro na sua boca, puxando-a bastante para que os maxilares ficassem bem separados. Baiano se ajoelhou ao seu lado e segurou a tira com ambas as mãos, como se fossem rédeas.

– Comece pelos de trás – disse Luzia.

O rapaz assentiu e se inclinou para a frente. As pontas metálicas do alicate tilintaram ao se chocar com os molares do sujeito. A fita ficou escura de saliva.

– Se você se mexer, o dente vai quebrar e vai doer ainda mais – disse Ponta.

Debaixo dele, o soldado se enrijeceu. Com um grunhido, Ponta Fina deu um puxão. Ouviu-se um barulho que mais parecia de sucção. O rapaz gritou.

Foi um grito de terror e de raiva, e Luzia teve vontade de mandá-lo calar ou de tapar os próprios ouvidos com as mãos. Ouvia gritos como aquele toda noite, dormindo. Desde o incêndio do cinema, ela vinha sonhando com aquela sala escura. Nos seus sonhos, o projetor estava ligado, mas não lançava luz alguma na tela branca. Na verdade, a máquina fazia uns estalinhos. O lugar foi ficando quente; não era um calor abafado, mas escaldante, como ao meio-dia em época de seca. Luzia sentia a pele arder. Umas figuras de sombras bloqueavam a sua saída. Ouvia a tramela sendo passada na porta da frente, trancando-a pelo lado de fora. Nos seus sonhos, ela ainda estava lá dentro e, à sua volta, os seus cangaceiros, com o chapéu meio de banda, os olhos arregalados de espanto. “Mãe!”, gritavam eles. “Mãe!” E naquelas vozes havia tanto tristeza quanto acusação, como se ela os tivesse traído. Sempre que sonhava com o incêndio no cinema, ficava com o estômago embrulhado. Não era como os enjoos que sentia durante a gravidez. Era algo que lhe deixava na boca um gosto seco, metálico, lembrando aqueles dias de desespero em que, como um bicho, comera terra para se alimentar.

O Diário taxou aquele episódio de crime contra inocentes. Entrevistaram sobreviventes. Todos a chamaram de desalmada. Na verdade, tinha sido exatamente o contrário: Luzia experimentou sentimentos de mais naquela sala. Sob a luz do projetor, ficou envergonhada e confusa. Aquilo a deixou com raiva. Quando ouviu os insultos dos espectadores, sentiu-se como a Esposa Canibal, uma mulher incapaz de controlar os seus desejos horripilantes. Aquela gente era inocente, mas apoiava Vargas, o que os tornava culpados. Perguntava-se, porém, o que significaria o fato de ela poder redefinir inocência e culpa com tanta facilidade. Se a culpa fosse flexível, se viesse e fosse embora quando ela bem entendesse, então a Costureira era tão caprichosa quanto um coronel. Ora, os espectadores do cinema haviam insultado a Costureira e seu bando, e isso exigia um castigo. Se não tivesse reagido, se tivesse saído da sala de cabeça baixa, a cidade inteira ia acreditar que a Costureira era fraca e que o Carcará, que todos julgavam vivo, não tinha vindo em sua defesa.

Assim que passou a grossa tramela de ferro na porta do cinema, trancando-a, soube que a sua vingança tinha sido excessivamente brutal, mas não podia voltar atrás; iam achá-la indecisa. Aprendera com Antônio que a indecisão leva sempre a um mau resultado. O que ele não tinha lhe ensinado, porém, foi que decisões erradas quase sempre deixam remorsos e remorsos não têm cura. Antônio tinha lhe mostrado como usar a casca do jenipapo para aliviar dores musculares. Tinha lhe mostrado como ferver a casca do jacurutu para curar úlceras e a esmagar as flores amarelas do marmeleiro para fazer um poderoso expectorante. A cura para o nervosismo era comer a polpa do maracujá, com semente e tudo. Apesar de todos esses remédios, não havia planta ou animal que aliviasse o remorso. Não havia chá que eliminasse a culpa.

Ponta Fina caiu para trás, em cima das pernas do soldado. Deixou de lado o alicate e exibiu um molar ensanguentado na palma da mão. Baiano e Inteligente baixaram a cabeça para olhar a coroa amarelada do dente e a sua raiz bifurcada. Debaixo de Ponta, o rapaz se contorcia e corcoveava. O sangue lhe escorria por um dos cantos da boca, manchando a tira de couro. Ele engasgou, quase sufocando.

– Levantem a cabeça dele – ordenou Luzia. – Deixem que cuspa.

Inteligente obedeceu. Baiano retirou a tira de couro. O soldado tossiu e um líquido rosado e viscoso lhe escorreu pelo queixo.

– Agora me conte – disse Luzia –, para onde foi o seu regimento?

– Para perto do São Francisco – respondeu ele, com a voz fanhosa e abafada.

O algodão enfiado no seu nariz estava úmido e sujo de sangue.

– Por quê?

– Não sei.

Luzia fechou os olhos.

– Arranque outro – disse. – Da frente.

Ponta assentiu. Baiano se aproximou para repor a tira de couro em seu lugar.

O rapaz tossiu de novo, como se fosse vomitar. Mas o que se ouviu foi um som esganiçado.

– O quê? – indagou Luzia.

– Uma arma – gritou o soldado. – Ouvi o meu capitão falando a esse respeito. Estávamos indo para uma fazenda perto do Velho Chico e alguns de nós estavam nervosos. Aí, ele nos disse que não precisávamos nos preocupar porque havia uma arma. Ela faria todo o trabalho por nós.

Luzia se ajoelhou para ouvir melhor.

– Que tipo de arma?

– Uma arma rápida. Foi tudo o que o capitão disse. Ele a chamou “uma Costureira melhor”.

– Por quê? – indagou Luzia.

– Porque vai atirar melhor que você. Foi isso que ele disse. Só alguns de nós vão poder usá-la. Existem poucas dessas armas. Não precisamos de muitas. Ela faz quinhentos disparos sem precisar recarregar.

– Isso é mentira – atalhou Baiano.

O soldado balançou a cabeça, embora Inteligente ainda a estivesse apertando.

– Juro... Palavra! Foi isso que o capitão nos disse.

– Quinhentos tiros... – sussurrou Ponta.

Luzia apalpou o bolso da calça. A fita métrica estava ali, embolada de qualquer jeito. Desde que aquela fita lhe chegara às mãos, já a tinha desenrolado tantas vezes que nem cuidava mais de enrolá-la direito. Passou o dedo pela extremidade meio esfarrapada.

– Quando é que ela chega por aqui? – perguntou. – Essa tal Costureira melhor?

– Ela... já chegou – respondeu o soldado. – Quero dizer... já está lá, perto do Velho Chico. O meu capitão disse que as armas vão estar à nossa disposição quando chegarmos às margens do rio.

Luzia assentiu.

– E agora, Mãe? – indagou Ponta.

A cangaceira fitou o soldado amarrado. Se o deixasse ir, como recompensa por sua honestidade, ele poderia acabar virando um bêbado inútil, que ficaria se vangloriando do seu encontro com os cangaceiros. Ou até se sentir culpado por ter traído o seu regimento. Poderia tentar encontrar os seus companheiros e lhes dizer que tinha contado tudo à Costureira. Nesse caso, a culpa seria toda sua. As pessoas iam dizer que ela tinha sido boazinha demais e posto o seu bando em perigo. Diriam que essa compaixão inútil era coisa bem típica das mulheres.

– Faça tudo bem depressa – disse, então, olhando para o soldado.

Ponta Fina assentiu.

Luzia se afastou do grupo, embrenhando-se no mato, sempre esfregando a fita métrica entre os dedos. O Dr. Eronildes não desfez o rolo. Tinha certeza disso porque a fita estava bem apertada e foi tia Sofia quem ensinou a enrolá-la desse jeito. E também ensinou as sobrinhas a não confiar nas fitas dos outros. As pessoas eram descuidadas e faziam as marcações de qualquer maneira, escrevendo até os números errados. Algumas costureiras faziam isso de propósito, para garantir uma clientela: vendiam fitas malfeitas e, assim, quem as comprasse cortaria errado, desperdiçaria tecido e acabaria chamando a tal costureira para consertar todas essas bobagens. Foi a própria tia Sofia que lhes ensinou essa lição: quando as meninas estavam aprendendo a costurar, deu às duas uma fita com defeito. Luzia e Emília confiaram na tia e, sem verificar as marcações, cortaram o pano. As roupas ficaram tortas e horríveis. “Confiem nos seus próprios olhos!”, exclamou Sofia, ralhando com ambas. “Não confie na fita de um estranho, e não confie em quem a possui.”

 

2

 

Antes de Luzia capturar aquele soldado, o Dr. Eronildes tinha lhe dado a fita métrica de Emília como prova do encontro que as duas teriam dentro em breve. Isso aconteceu fora da fazenda; depois do incêndio do cinema, ela não entrava em casa alguma, nem mesmo na do médico. Eronildes chegou sozinho, a pé, pois teve medo de que os espinhos da caatinga pudessem cegar o seu único cavalo. Estava pálido, com o cabelo encharcado de suor. A biqueira das suas velhas botas estava respingada com uma substância amarelada e viscosa.

– Você vomitou? – indagou Luzia ao vê-lo.

Ela também estava sozinha, pois tinha mandado o bando esperar alguns metros atrás.

Eronildes limpou a boca.

– Não estou habituado a tanto esforço. Não nesse calor.

A moça lhe ofereceu água. O médico recusou.

– Aqui está a sua prova – disse ele, entregando-lhe a fita.

Luzia tinha as palmas das mãos suadas. Desenrolou um pedacinho da fita. Era uma velha tira de pano resistente, igualzinha à que tia Sofia havia lhes dado para fazerem as suas fitas métricas. Os primeiros números obedeciam a um espaçamento regular e estavam traçados com nitidez. Era a letra de Emília. Antes que Luzia pudesse abri-la por inteiro, Eronildes falou.

– Tenho de mandar uma carta expressa para o Recife, confirmando a data do encontro. Ela insiste que seja no dia 12 de janeiro.

– Tão cedo? – indagou Luzia.

– Quanto mais cedo, melhor.

– O marido dela acabou de falecer – insistiu a moça. – Ela está de luto fechado.

Eronildes ergueu as sobrancelhas e arregalou os olhos.

– Li o obituário – disse Luzia. – Consegui um exemplar recente do Diário.

– Ela vai ignorar o luto – afirmou o médico.

– Como? Não vão deixá-la viajar.

– Vocês duas são igualmente criativas – atalhou Eronildes. – Pelo que ouvi dizer, todos sabem que dona Emília não tinha muito em comum com o marido ou a família dele. Ela sofre naquela casa. Está feliz por sair de lá.

– Sofre? – perguntou Luzia, olhando a fita que tinha na mão. Lembrou-se de todos os recortes de jornal que havia guardado: Emília usando roupas lindas, administrando o próprio negócio e convivendo com a alta sociedade do Recife. Tudo o que sabia sobre a vida da irmã vinha dessas fotografias e sempre supôs que ela fosse feliz. Mais que a maioria das pessoas, porém, Luzia tinha consciência de que as imagens podem mentir, que elas capturam apenas um instante e nunca revelam toda a verdade. Sentiu uma onda de compaixão pela irmã: o que teria acontecido com Emília lá na capital? Sentiu também uma necessidade de dar um desconto nesse sofrimento. A sua irmã tinha Expedito, um negócio e um lar; o que sabia realmente sobre sofrimento? Como se tivesse esperanças de encontrar uma resposta para essa pergunta, a moça deu as costas a Eronildes e desenrolou a fita inteira.

– Então, marcamos para o dia 12 de janeiro? – indagou ele. – Tenho que voltar. Para mim, é um estirão.

As medidas estavam erradas. Emília tinha escrito por cima das marcações originais, cuidadosamente desenhadas. Trocara os números, tornando-os incorretos de propósito. E foram acréscimos feitos às pressas – a tinta estava borrada, as linhas, trêmulas –, como se ela estivesse com medo ou tivesse pouco tempo para alterar aquelas marcações. Luzia se sentiu estonteada. “Confie nos seus próprios olhos! Não confie na fita nem em quem lhe dá essa fita.”

– Como vai ele? – perguntou.

– Quem?

– O meu menino.

– Ótimo. É bem saudável.

– Está a salvo?

– Claro.

Eronildes se moveu. Luzia reparou no fumo que ele trazia na manga do paletó.

– Quem morreu?

– A minha mãe.

– Sinto muito. A morte é sempre difícil.

– É? – indagou o médico, com um tom meio cético.

– É. Até mesmo para mim.

– Não é fácil acreditar em você, Luzia.

– Aquilo lá no cinema foi um erro.

Eronildes balançou a cabeça.

– As pessoas pagaram caro pelo seu erro – disse ele.

– E eu também – replicou a moça. – Perdi muitos amigos por causa disso.

Eronildes levou a mão à barriga. Virou a cabeça e cuspiu.

– Está enjoado de novo? – perguntou ela.

– Não.

Luzia ficou olhando para as marcas irregulares da fita métrica, para aqueles números errados.

– Um tempo atrás, você falou em quebrar de novo o meu braço. E me curar. Ainda faria isso?

– Por quê?

– Faria?

– Não adiantaria nada. Mesmo assim, você seria reconhecida.

– Antigamente, você me incentivava a largar essa vida.

– Isso foi há muito tempo. Agora, é tarde demais.

– Já que vivo das armas, vou morrer pelas armas, não é? – perguntou ela, apertando a fita na mão.

– A decisão foi sua, Luzia – disse o médico, enxugando a testa. – Você deve viver a vida que escolheu. Todos devemos.

A moça assentiu.

– Então, dia 12 de janeiro? – indagou ela.

Eronildes pareceu aliviado.

– É.

– Não vou entrar na sua fazenda.

– Não vai ser preciso – retrucou ele, e se pôs a caminho de casa bem devagar.

Nos dias que se seguiram a esse encontro, Luzia observou detidamente a fita métrica. Lembrou-se de Antônio, enfiando a colher de prata em qualquer prato de comida suspeito para ver se ela saía manchada e escurecida. Não podiam confiar na comida, nem na pessoa que a servia. A fita de Emília, como a colher de Antônio, revelava um traidor.

À noite, enquanto os outros cangaceiros dormiam, o coração de Luzia batia acelerado. Os seus dedos estavam frios. Quantos outros coiteiros estariam dispostos a entregá-la, a enganá-la? Sentiu-se como se estivesse de volta ao pátio da escola do padre Otto, cercada de crianças que antes eram amigas mas que, de repente, começaram a cutucar o seu braço aleijado e a chamá-la de Vitrola. O padre testemunhara tudo isso. E, vendo-o se aproximar dos alunos, a menina acreditou que ele era o único que poderia salvá-la. “Crianças!”, gritou o padre Otto, “deixem Vitrola em paz!”. Quando pensava no Dr. Eronildes, sentiu o mesmo desapontamento e a mesma raiva que experimentou com relação ao padre. E, agora, naquele acampamento da caatinga, exatamente como no pátio da escola, só confiava em Emília.

Ficou brincando com a fita entre os dedos. A sua irmã tivera o cuidado de avisá-la.

 

3

 

Enterraram o soldado inteiro. Luzia deixou a cabeça no lugar em respeito à sua honestidade, mas também porque não queria que aquela morte fosse atribuída ao seu bando. Não queria que ninguém desconfiasse que a Costureira havia capturado um macaco que pudesse ter lhe passado alguma informação. Queimou as calças verdes, o chapéu de couro e o bornal de lona do rapaz. Esperou até tudo se desintegrar completamente para que fazendeiros ou vaqueiros curiosos, ao remexer as cinzas, não pudessem encontrar vestígios daqueles objetos. A pilha estava ardente. Luzia se agachou junto dela. Abriu o bornal e tirou as fotos recortadas de jornais que guardava ali dentro. Sentiu uma pontada no peito, perto do coração, como se alguma coisa houvesse penetrado naquele ponto, como um anzol na linha de pescar. Era doloroso resistir àquela pressão. Mais que depressa, antes mesmo de poder olhar para elas, atirou todas as fotos no fogo. As imagens de Emília e de Expedito escureceram e se enroscaram. Se os soldados a matassem, pegariam as suas sacolas. Não podia deixar que encontrassem aqueles recortes e associassem a Costureira à viúva Coelho.

Só guardou a fita métrica, prova da lealdade da irmã. Pensou no aviso que ela lhe mandara. Lembrou-se das botas do Dr. Eronildes, cobertas de vômito e de areia. E se lembrou de fragmentos da confissão do soldado morto: quinhentos disparos, a “Costureira melhor”, uma fazenda perto do Velho Chico. Assim, em separado, essas lembranças pareciam aleatórias e disparatadas, mas, como os pedaços de papel de um molde de roupa, quando reunidas, formavam uma entidade perfeitamente identificável.

– O encontro é uma armadilha – disse ela. – Eronildes marcou comigo no momento exato em que os macacos estão esperando perto do Velho Chico. Quem acha que estão esperando?

Ponta Fina e Baiano vieram se juntar a ela, ao lado da fogueira. Ambos a fitaram.

– As novas armas estão com ele – disse Luzia. – É Eronildes que tem as costureiras melhores.

Baiano balançou a cabeça. Ponta Fina cuspiu no chão.

– Maldito! – exclamou Ponta. – Ele é pior que os outros.

– Doze de janeiro – prosseguiu a cangaceira. – Se nos apressarmos, vamos conseguir.

– Mãe? – disse Baiano.

Luzia lembrou-se das primeiras aulas de tiro que teve com Antônio, lá no rancho do coronel Clóvis: como o revólver era pesado, e como segurá-lo deixara o seu punho dolorido. Lembrou-se das discussões que teve com Antônio depois disso.

– Vamos supreendê-los – disse ela. – Quero que vejam que estou sabendo de tudo. Que sempre soube.

– Se não aparecermos, eles vão perceber – retrucou Ponta Fina. – O doutor vai fazer papel de idiota.

– Não vou fugir – replicou Luzia, balançando a cabeça.

– Isso não é fugir – argumentou Ponta. – Podemos aparecer lá mais tarde, quando o doutor não estiver esperando por nós. Por que ir ao encontro de uma armadilha?

Luzia ficou olhando para o fogo. As fotografias tinham desaparecido, transformadas numa pilha escura por baixo das chamas.

– Quero essa arma – disse ela.

Os homens ficaram calados. Baiano juntou as mãos, como se estivesse rezando.

– Quinhentos disparos – disse ele. – Se não for mentira daquele soldado, isso é melhor que todas as nossas Winchesters juntas. Mas ir até lá é um risco...

– Se não formos, o risco será ainda maior – retrucou Luzia. – Eles vão usar essa arma contra nós na primeira oportunidade, e não vamos ficar sabendo onde, nem quando. Agora, sabemos. Agora estamos em vantagem.

– Então vamos aparecer por lá mais cedo?

– Vamos aparecer na data marcada – respondeu ela, balançando a cabeça. – Divididos em dois grupos. Um vai dar a volta por trás dos macacos. O outro vai direto para o local do encontro. Eu vou com esse grupo. É a mim que Vargas quer. Se eu estiver lá, vão achar que não sabemos de nada. Eu vou ser a isca.

Baiano e Ponta Fina ficaram olhando para as chamas. Luzia observou o rosto dos dois. Viu ali tanto preocupação quanto empolgação e se perguntou se o seu próprio rosto revelava as mesmas emoções. Enfiou a fita métrica no bolso da calça; não ia se esquivar a essa briga. A gravidez não a tinha enfraquecido. A seca não a tinha matado. As inúmeras brigadas de Vargas não a tinham capturado. A cabeça da Costureira continuava firme ali, presa no seu pescoço. Ela não podia deixar que essa nova arma, essa “Costureira melhor”, modificasse isso.

4

 

No dia 12 de janeiro, o bando de Luzia chegou à fazenda de Eronildes. A cangaceira levava consigo quinze homens e mulheres, entre os quais Ponta Fina, Neném, Inteligente, Sabiá e Canjica. O restante, os melhores atiradores e os mais ágeis nos ataques, seguiram Baiano para as colinas que cercavam o vale. Iam ao encontro das tropas de Vargas para surpreendê-las quando Luzia desse o sinal: um assobio agudo, semelhante ao grito do falcão.

Acamparam num açude seco, não longe da casa do médico. Aos poucos, o sol foi se pondo por detrás de um morro, enchendo o mato de sombras. Luzia fitava as colinas. Ali, havia soldados escondidos, observando o seu bando. Por seu turno, Baiano estava de olho nas tropas. Não atacariam até as primeiras luzes do dia, Luzia tinha certeza disso. Os macacos não correriam o risco de deixar os cangaceiros escaparem protegidos pela escuridão. E, acima de tudo, todos iam querer ver claramente os efeitos da nova arma. Aqueles soldados iam querer testemunhar a morte da Costureira. Assim que o sol nascesse, poderiam ver com nitidez. Até lá, Luzia ia tratar da sua encenação.

Três peões da fazenda vieram trazer cestos repletos de farinha de mandioca, feijão, abóbora, uma peça inteira de carne e várias garrafas de vinho. Num desses cestos, havia um bilhete de Eronildes:

 

O encontro será de manhã. Vou levá-los até você.

 

Luzia enfiou o bilhete no bolso, ao lado da fita métrica. Ficou olhando na direção da casa do médico. Ele estava subestimando os instintos de uma mãe: o seu filho não estava naquela casa. Nem Emília. Se os dois estivessem ali, Luzia teria sentido a sua presença exatamente como sentia a proximidade do São Francisco, a umas centenas de metros em direção ao sul. Sentia o cheiro do rio e ouvia o barulhinho das suas águas. A fazenda estava mais perto do que o Velho Chico e, mesmo assim, não dava para sentir o cheiro de fumaça vindo do fogão, nem ouvir o tilintar das panelas na cozinha. Estava vazia.

Ponta Fina fez questão de testar a comida que Eronildes tinha mandado. Cheirou a carne e a abóbora. Enfiou a colher de prata de Antônio na farinha e no feijão, e também no vinho. Quando se verificou que estava tudo certo, o bando olhou na direção das colinas e comemorou. Luzia mandou que arranjassem um espeto e acendessem uma fogueira bem grande ali debaixo. A gordura da carne caía nas chamas, fazendo-as assobiar e estalar.

– Entornem o vinho! – gritou ela. E, depois, num sussurro, acrescentou: – Não bebam. Precisamos estar bem alertas.

Os cangaceiros obedeceram. Levavam às garrafas à boca mas cerravam bem os lábios antes que o vinho pudesse entrar. Era noite de lua nova. Quando as últimas brasas se apagaram, o local ficou imediatamente escuro, como se houvesse sido coberto por uma mortalha. Todos fingiram dormir. Os casais cochichavam, nervosos. Uns poucos homens solitários se remexiam deitados nas suas mantas. Luzia ficou de pé. Ao longe, nos morros além do açude, viu círculos de uma luz alaranjada que brilhavam e se agitavam, parecendo insetos.

Lembrou-se do incêndio no cinema: junto com as cinzas escuras produzidas pelas chamas, havia faíscas. Os pontinhos de luz subiam depressa, escapando ao calor opressivo do incêndio, como almas que deixassem os limites dos seus corpos terrenos. Lembrou-se do peso enorme da tramela daquela porta e de como os seus braços tremiam quando ela a ergueu para botá-la no lugar. Depois, as dobradiças rangeram e gemeram, mas não cederam. O fogo lá dentro foi ficando mais intenso; os gritos, mais altos. Agora, ali no escuro, Luzia acreditou que as fagulhas do incêndio do cinema jamais tinham se apagado. Elas a perseguiam pela caatinga, prontas para consumi-la.

Sentiu um calafrio no pescoço, como se uma mão gelada a estivesse segurando. Recuou. A areia se moveu sob os seus pés. A terra era tão sensível que reagia ao menor movimento que ela fizesse. Esses deslocamentos eram pequenos, mas importantes, como rever o alvo antes de fazer pontaria. Como pegar a tesoura diante de um tecido caro e decidir cortar por fora das linhas do molde. O instinto dizia à areia em que sentido ela devia se mover, exatamente como dizia ao atirador onde mirar e à costureira onde cortar. O instinto dizia a Luzia para que lado um homem ia se mexer antes que ela o acertasse com um tiro. Dizia-lhe como perceber as mudanças no ar antes de uma chuva forte. Dizia-lhe como farejar a presença da água no meio da caatinga. Agora, ele lhe disse o que esperar daquelas colinas escuras. Disse-lhe para correr.

Luzia se virou. Formas escuras se espalhavam pelo chão. Alguns cangaceiros ainda fingiam dormir, mas a maioria estava alerta. Os seus olhos brilhavam. Aqueles olhos estavam fixos nela, como acontecia com os seus santos lá no quartinho da sua infância, à espera de uma prece ou de um sacrifício. Ponta Fina e Neném estavam juntos, enroscados na manta, voltados para ela. Luzia chegou a pensar em se ajoelhar perto do rapaz e falar com ele bem baixinho, mas o que lhe diria? Não saberia explicar direito aquele frio repentino na barriga, ou por que as suas mãos haviam começado a tremer. Ambas as coisas soariam como sintomas de medo ou de arrependimento, sentimentos que Luzia jamais admitiria experimentar.

– Filhos da puta – sussurrou um dos homens do bando. – Depois que a gente matar essas filhos da puta, vou roubar os cigarros deles.

Ouviram-se risos abafados.

Cigarros? Luzia olhou mais uma vez para as colinas. Os círculos de luz alaranjada eram minúsculos. Alguns desapareciam, ao passo que outros continuavam lá, reluzindo em meio à vegetação escura da caatinga. Não aumentavam nem incendiavam as árvores ao seu redor, como fariam as faíscas. Luzia se sentiu a um só tempo furiosa e aliviada: que imbecis, esses macacos, fumando assim! Confiavam tanto no seu esconderijo que achavam que os cangaceiros não notariam nada... O seu peito ardia. Queria dar um susto naqueles soldados, provar a eles que estavam enganados. Levando a mão ao coldre, dirigiu-se para a borda do açude.

Lá da colina, veio uma série de disparos bem altos. Parecia calculado e irritante, como o barulho de um relógio enlouquecido. Ouviram-se tiros a distância e os pontinhos de luz alaranjada desapareceram. Luzia sentiu uma força invisível puxá-la para trás. Sentia uma dor aguda no braço bom, como se ele estivesse pegando fogo por dentro.

– Mãe! – gritou Ponta Fina.

O barulho irritante ficou ainda mais alto. Ele a puxou para o chão.

A manga do seu gibão estava úmida e pesada. Quando tentou mover o braço bom, sentiu um repuxar atroz. Dando um jeito com o braço aleijado, enfiou os dedos na boca e assobiou bem alto. Se o grupo do Baiano não pudesse ouvir o seu sinal, certamente ouviria o tiroteio e atacaria. Ao seu lado, Ponta Fina apontou o rifle e atirou na direção das colinas escuras. Com o braço travado, Luzia tratou de pegar a parabélum. O tal barulho continuava. No meio das árvores, a pólvora produzia uma luminosidade fraca. A moça saiu atirando aleatoriamente contra esses pontos de luz. Dava para perceber que os macacos sabiam muito bem onde eles estavam pela altura dos tiros: as balas vinham baixas, passando tão perto que ela sentia o seu calor nas costas. Adoraria poder se enterrar no chão.

À sua volta, os cangaceiros praguejavam e gritavam. Alguns rastejavam procurando um lugar mais abrigado. Outros se levantaram para atirar na direção dos morros. Luzia ouvia o baque dos seus corpos caindo no chão. Virou-se, procurando um jeito de bater em retirada, mas o açude seco onde haviam acampado tinha as bordas altas e os cercava por todo lado, como um túmulo. As balas batiam nas panelas e vasilhas metálicas de Canjica. Galhos de árvore se partiam e tinham os seus ramos arrancados. A areia voava, se espalhando e deixando os olhos de Luzia ardendo. Ela piscou para tirar aquela terra e viu Inteligente estatelado no chão, com aquele corpo enorme embolado na manta em que ele fingia estar dormindo. Sabiá estava caído junto a uma árvore, ainda com a pistola na mão. Outros corpos, já mortos, estremeciam ao serem atingidos pelas intermináveis ondas de balas. Neném, a mulher de Ponta Fina, tentava avançar bem devagar, rastejando, para se aproximar dele. O barulho ficou maior ainda. Neném rolou pela terra, como se tivesse sido atingida por uma rajada de vento.

Vendo isso, Ponta Fina se pôs de pé. Luzia tentou puxá-lo de volta ao chão, mas o seu braço bom pendia frouxo e inútil ao lado do corpo. O rapaz fez pontaria e atirou, mas, depois, parou. Por um instante, o seu rosto bochechudo e infantil pareceu fascinado pelos tiros ao longe. Então, o seu corpo corcoveou e oscilou, como se dançasse uma dança assustadora.

Luzia mirou as colinas e apertou o gatilho. A parabélum produziu um estalinho seco. Estava sem balas e ela não podia recarregá-la só com o braço aleijado. Ouviu uns gritos lá nos morros e, depois, passos descendo em direção ao local onde estavam. Ela se colou à terra. Aqueles soldados iam desgraçá-la. Iam medi-la. O seu braço latejava. O seu coração batia tão depressa quanto o infindável matraquear daquela arma. Num ritmo rápido, rápido demais. Ela ficou tonta. Se não respirasse naquele instante, o medo se transformaria em pânico.

Meteu a mão no bolso, à cata da fita métrica. Ela estava embolada e suja, mas os números não tinham se apagado. Luzia fechou os olhos. Tempos atrás, Emília tinha lhe dado outro aviso: que não subisse naquela velha mangueira, que não se inclinasse muito para trás nos seus galhos. Todos achavam que o tombo havia sido um acidente, que Luzia tinha tomado um susto com a chegada do vizinho furioso. Ela jamais negou essa versão. Mas sabia, sempre soube, que tinha feito uma escolha. Tinha soltado o galho acima de sua cabeça não por medo, mas por curiosidade. Queria saber se conseguiria se equilibrar, se conseguiria ficar ali. Quis se pôr à prova. Ficar na beiradinha foi assustador, mas, a partir do momento em que perdeu o equilíbrio, não havia mais escolhas a fazer, não havia mais galhos em que se agarrar. Era só a queda.

Luzia se levantou. A fita métrica caiu de sua mão. Sacou do punhal de Antônio que trazia enfiado na cinta. A faca estava pesada, o cabo, frio. Saiu andando, escalando as bordas do açude, erguendo as pernas bem alto para os pés não afundarem na areia. Sentiu uma rajada de ar quente passar bem perto da sua orelha. E foi um som brando, mas agudo, que parecia um sussurro. Ficou atenta, esforçando-se para ouvi-lo. Um golpe forte lhe atingiu o ombro; outro, a sua coxa. Ouviu outro sussurro, e mais outro. Cada bala era uma voz. Tia Sofia corrigindo o seu trabalho de costura; a encanadeira envolvendo o seu braço e lhe dizendo que ele ia ficar bom; Emília lhe contando algum segredo na cama; o murmúrio da água cobrindo a sua cabeça quando ela tentou fugir dos cangaceiros; a voz de Antônio durante as primeiras lições de tiro que lhe deu, o hálito quente em seus ouvidos. Ouviu a velha criada de Eronildes lhe dizendo para fazer força. Ouviu os primeiros soluços meio engasgados do seu menino. Ouviu os coronéis e os seus acordos sussurrados. Ouviu soldados, informantes e mulheres do partido azul. Ouviu vozes que não identificou, vozes que jamais conheceria. Vozes que havia calado.

O seu braço torto fez um gesto brusco para trás. Com cada sussurro, vinha um golpe, como um batimento extra do coração, e, depois, uma dor aguda. O seu corpo inteiro parecia estar queimando lá dentro. Tentou seguir adiante, mas aqueles sussurros a puxavam para trás, para trás e para trás, até que ela teve a sensação de estar caindo de uma altura enorme.

Lembrou-se da sensação de sua infância. Em criança, caiu em cheio, com o corpo a arrastando para o chão ao pé da mangueira. Agora, a queda foi leve. O braço aleijado pareceu livre. Tudo o que levava consigo – pistola, cartucheira, facas, cordões de ouro, binóculo, balas – desapareceu. Lá no alto, o céu era uma imensidão escura. Luzia se sentiu pequena diante dele, e teve medo. Mas se lembrou daqueles passarinhos que libertava, tanto tempo atrás. Lembrou que, depois que ela abria a portinhola, eles sempre ficavam parados, hesitando, na beirada da gaiola. E, então, saíam voando.