Entre irmãs

Frances de Pontes Peebles · Capítulo 13 de 20

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Entre irmãs

Capítulo 11

 

Emília

 

Recife

Abril-novembro de 1933

 

1

 

ASra. Haroldo Carvalho apareceu na primeira página do Diário de Pernambuco, do Jornal do Recife e até mesmo da prestigiosa Folha de S.Paulo . Em todas as fotos, a viúva tinha a cabeça virada de forma a exibir o tapa-olho preto que ostentava do lado esquerdo. A Costureira a havia cegado. Aquele pedaço de couro refletia a luz do flash, o que lhe dava um brilho meio estranho. Na opinião de Emília, aquele reflexo fazia com que o tampão parecesse a lente grande e escura de um inseto, abrigando não um, mas centenas de olhos.

Ouvira alguns homens – principalmente o Dr. Duarte – rirem desse incidente. A ideia de uma velha matrona obrigada a abraçar um cacto era divertida para os moradores da cidade. Embora a viúva fosse alvo de piadas, o ataque da Costureira não fazia ninguém rir. Os cangaceiros haviam executado quatro soldados e dois funcionários da rodovia. Tinham roubado os suprimentos do governo e profanado um cartaz do presidente Vargas. E, segundo a viúva Carvalho, a Costureira havia cortado a garganta de um homem e bebido o seu sangue, como uma bruxa. Em entrevista a outro jornal, a mulher dizia que a Costureira tinha matado crianças pequenas, especialmente bebês, com uma faca afiada. E o pior de tudo era que a líder dos cangaceiros havia levado várias meninas do grupo de flagelados, obrigando-as a se casar com os seus homens. Por todo o Recife, falava-se dessas novas bandidas como se fossem a prova de que o sertão era agora uma terra sem lei e depravada, um lugar onde até as mulheres se tornavam criminosas.

Os jornais brigavam por entrevistas com a viúva Carvalho. Havia dezenas de flagelados que diziam ter visto a Costureira de perto, mas eram apenas arrendatários e pés-rapados, gente tão pobre que nem tinha condições de comprar sapatos. Já a velha era proprietária de terras, o que a tornava confiável. Pouco depois do ataque à sua fazenda, foram mandados para lá, como previsto, funcionários da rodovia encarregados de reunir novos recrutas nas filas de distribuição de alimentos. Em vez da esperada mão de obra, o que encontraram foram os seus colegas e os soldados massacrados, e a viúva presa a um cacto. Trouxeram-na até o Recife para que contasse a sua história.

Funcionários do governo lhe entregaram um cheque em pagamento pelas suas terras e o presidente Vargas lhe enviou um bilhete manuscrito, louvando o seu espírito patriótico e agradecendo-lhe por ter vendido a fazenda ao Instituto Nacional de Estradas de Rodagem. Todos esses elogios foram publicados pelos jornais do Recife, fazendo com que a viúva se tornasse uma figura popular. A sua história obrigou o tenente Higino a alocar mais verbas para o recrutamento e o treinamento de soldados. Jovens flagelados que chegavam à capital em busca de comida e trabalho eram recrutados ainda nos arredores da cidade, onde lhes davam armas, uniformes e a promessa de um cheque de pagamento. Dali, eram imediatamente mandados de volta à caatinga, para servir ao Brasil e ao presidente Vargas. Depois das inúmeras entrevistas da viúva Carvalho e dos contínuos ataques por parte dos cangaceiros, as pessoas começaram a dar mais atenção às teorias do Dr. Duarte. O sogro de Emília aparecia nos jornais quase tanto quanto a própria viúva, e as suas explicações sobre a mente criminosa passaram a ser amplamente aceitas. Em função desse novo interesse despertado pela sua ciência, o Dr. Duarte trabalhava horas a fio no seu Instituto de Criminologia, medindo crânios e tentando encontrar meios de capturar os espécimes que mais cobiçava: o Carcará e a Costureira. Os pernambucanos andavam indignados com o célebre casal de bandidos do estado, mas também fascinados pelos dois. E as recifenses que, em outras circunstâncias, teriam considerado a viúva Carvalho uma companhia excessivamente vulgar de repente passaram a convidá-la para almoços e lanches, querendo ouvir a sua história em primeira mão, na esperança de que isso as aproximasse mais dos cangaceiros.

As senhoras da Sociedade Auxiliadora alugaram o famoso Restaurante Leite e organizaram um almoço para a viúva. A velha sentou-se à cabeceira de uma mesa bem comprida, arrumada no meio do salão. Estava toda de preto e, de quando em quando, levava a mão ao tampão, chamando a atenção para o olho ferido. Os garçons se demoravam junto à mesa. As anfitriãs viravam a cabeça sempre que a viúva falava, mas a sua conversa era limitada.

– Passe o sal – disse ela. E, mais tarde: – Não tem farinha?

Nenhum dos seus pedidos vinha acompanhado de “por favor” ou “obrigada”, o que deixou Emília irritada. Ela estava sentada no meio da mesa, entre Lindalva e a baronesa, e mal tocou no seu prato de bacalhau ao creme. Como acontecia com todas as presentes, a sua atenção estava voltada para a convidada. Percebendo isso, a velha comia sorrindo. Tinha uma boca pequena, quase sem lábios. “Boca de gente ruim”, pensou Emília, e ficou observando o jeito como a viúva cortava a carne: ela a espetava com tanta força na ponta do garfo que parecia até que a carne estava prestes a pular fora do prato. Não pôs o guardanapo no colo e agitava freneticamente os cotovelos ao levar a comida à boca. Emília se sentiu igualzinha a dona Dulce, criticando mentalmente os modos alheios, e ficou com raiva da viúva Carvalho por fazê-la se sentir assim. Ao seu redor, as senhoras da Auxiliadora adulavam a velha, incentivando-a a falar.

– Estão gastando saliva à toa – sussurrou a baronesa. – Conheço esse tipo de gente. Ela vai esperar até a hora da sobremesa para falar. Ou então vai tentar conseguir outro almoço à nossa custa.

– Se a Auxiliadora gastar mais um tostão com essa daí, deixo de ser sócia – retrucou Lindalva, balançando a cabeça.

Emília assentiu. Aquelas histórias sangrentas da viúva Carvalho tinham ocupado o espaço de notícias mais importantes na imprensa. Por volta do mês de abril, noventa mil flagelados estavam alojados em campos de retirantes espalhados por toda a região Nordeste. No Recife, a moda da adoção de bebês vítimas da seca foi deixada de lado assim que eles começaram a ganhar peso e perderam a sua trágica preciosidade. A sociedade recifense não demorou muito a esquecer os seus sonhos grandiosos quanto ao futuro dessas crianças. Os filhos da seca foram relegados às dependências de empregados, de onde viriam a ser incorporados às tarefas domésticas como moleques de recados ou criadas. Lindalva estava particularmente frustrada porque os relatos da viúva Carvalho haviam ofuscado a eleição que se aproximava, a primeira em que as mulheres teriam o direito de votar.

Depois do sucesso de sua revolução, Getúlio Vargas assumiu a presidência à força e nomeou membros do partido verde para ocuparem postos pelo país afora. Três anos mais tarde, já havia quem se referisse ao seu governo como uma ditadura. Para provar então que era um democrata e um líder justo, Vargas convocou eleições nacionais. Elas estavam marcadas para meados de maio, embora apenas quinze por cento das mulheres com direito a voto tivessem se registrado como eleitoras. Lindalva queria que os jornais divulgassem as barreiras que se interpunham a esse registro: tinham de se submeter a testes complicados para comprovar que eram alfabetizadas e enfrentar horas indo de um lado a outro para obter o seu título. As mulheres que trabalhavam fora não podiam deixar o emprego por tanto tempo assim e as donas de casa não podiam abandonar os seus filhos nem descuidar das tarefas domésticas. Lindalva e Emília tentaram fazer uma campanha para que a Sociedade Auxiliadora se interessasse mais por essas questões, mas foram voto vencido. Em vez de patrocinar a tal campanha para promover condições mais justas para o registro eleitoral das mulheres, a associação estava cortejando a viúva Carvalho.

Emília jamais poderia admitir para Lindalva que o motivo do seu interesse pelo voto feminino era bem egoísta: fazê-la parecer menos preocupada com a Costureira. Fingiu não estar minimamente interessada em se encontrar com a viúva Carvalho. Na verdade, mal conseguiu dormir na véspera do tal almoço. No restaurante, ficou irritadíssima com o silêncio da mulher. Como a baronesa, conhecia bem aquele tipo de gente. Em Taquaritinga, trabalhando na casa do coronel, vira outros coronéis e suas esposas aparecerem por lá de visita. A viúva Carvalho parecia ser o pior tipo de mulher de coronel: sempre pronta para castigar o marido e a criadagem. Unha de fome com relação a comida e a elogios. E, da boca para fora, muito religiosa, embora se mostrasse sempre disposta aos mexericos, a contar histórias que servissem aos seus propósitos, mesmo que fossem mentira.

Emília repousou os talheres. Inclinando-se para a frente, fitou a viúva.

– Qual a aparência dela? – perguntou.

– De quem? – replicou a velha, com a boca cheia de arroz.

– Da Costureira.

A mesa inteira se calou. Perto de Emília, um garçom parou de servir água. A viúva Carvalho levou outra garfada à boca.

– Uma típica bandida – respondeu ela, entre um bocado e outro de comida. – Feia como o diabo.

Ouviram-se algumas risadinhas pela mesa. Emília se empertigou.

– Ninguém fala da feiura dos homens – disse ela, com a voz ligeiramente trêmula. Lembrou-se das inúmeras lições que dona Dulce lhe dera sobre compostura e o que fazer para não perdê-la. Tomou um gole de água e sorriu. – Li as suas entrevistas nos jornais – prosseguiu ela. – A senhora fez uns relatos muito detalhados. Adoraria ter o seu senso de observação. Viu tanta coisa, apesar de estar amarrada de cara para um cacto.

Lindalva começou a rir. Na outra ponta da mesa, a mulher parou de comer. Observou Emília com o olho que ainda prestava. Esta lhe sorriu, embora suas mãos estivessem úmidas. Luzia e ela não eram tão parecidas assim, mas talvez com aquele exame mais detalhado, a viúva, como o Dr. Eronildes, pudesse reconhecer nela algum traço, alguma semelhança que a moça não conseguisse esconder. O seu coração disparou. Por que estava provocando a viúva? Por que estava correndo um risco tão grande? Depois de um instante de silêncio, a velha enfim falou.

– A jovem já viu um mandacaru?

– Já, sim, senhora.

– Então sabe como os espinhos dessa planta são compridos e pontiagudos. Pouco importa o que eu vi ou ouvi. O que importa é que sobrevivi. E um sobrevivente tem o direito de contar a história que quiser e bem entender.

– Os jornais adoram exageros – replicou Emília. – Porque assim vendem mais.

– A senhora apoia os cangaceiros? – indagou a viúva Carvalho, recostando-se na cadeira.

Emília juntou as mãos no colo para impedi-las de continuar tremendo.

– Não – respondeu ela. – Mas por que tanta preocupação com eles? Ninguém aqui pode dizer que não apoia que se mate, porque matamos na revolução, não é mesmo?

Fez-se silêncio na mesa. Algumas das senhoras presentes mantiveram os olhos fixos no próprio prato. Outras ficaram fitando Emília, com um ligeiro sorriso nos lábios, mas com raiva nos olhos, como mães educadas demais para ralhar com um filho em público, mas deixando claro que o castigo viria sem falta mais tarde. Poucas mulheres pareceram refletir. Uma destas foi a primeira a romper o silêncio.

– Os homens mataram, nós não – disse ela.

– Mas esses homens eram nossos maridos e filhos – retrucou a baronesa. – E nós os apoiamos.

Algumas mulheres enrubesceram, mas Emília não saberia dizer se estavam com medo daquela conversa ou empolgadas com ela. Na cabeceira da mesa, a viúva Carvalho pegou um lenço e se assoou, voltando a atrair para si a atenção de todas.

– A revolução era uma causa nobre – disse ela, enxugando o olho são e fitando Emília. – Os cangaceiros matam para se divertir. Esta é a diferença. O que me fizeram é imperdoável. Ela não tinha motivos e tampouco teve remorsos.

Várias senhoras ao redor da mesa assentiram. A que estava mais perto da viúva deu uns tapinhas na sua mão. Outras a elogiaram por sua valentia. Emília ficou mexendo nas luvas. Não gostava mesmo daquela mulher, exatamente como não gostava das meninas que implicavam com sua irmã, chamando-a de “aleijada” e de “Vitrola” quando as duas ainda eram pequenas. Normalmente, Luzia atacava essas meninas. Pisava nos seus pés ou lhes dava tapas na cara, e Emília só ficava parada, olhando, surpreendida e assustada com a fúria da irmã. As meninas saíam machucadas, mas mereciam isso, não é mesmo? A dor de um tapa passava. A mancha roxa deixada por um soco desaparecia com o tempo. A lógica do recreio da escola não parecia se aplicar aos atos da Costureira: o castigo infligido à viúva Carvalho lhe causara um dano permanente.

Emília já tinha visto mandacarus bem de perto; já tinha tocado naqueles espinhos pontudos. Que tipo de mulher, pensou ela, teria a ideia de aplicar um castigo como esse? Ou, pior ainda, que tipo de mulher poria tal ideia em prática? O que quer que a viúva Carvalho houvesse feito de errado não merecia a crueldade da reação da Costureira. Esta certeza a fez permanecer calada pelo resto do almoço. Obrigada a aguentar as histórias da outra, ficou bebendo copos e mais copos de água de coco para não ter de falar e ficar ainda mais constrangida. Saiu do restaurante de péssimo humor.

Quando chegou de volta à casa dos Coelhos, foi direto para o andar de cima. Tinha posto o berço de Expedito no seu quarto, ao lado da sua cama. Perto do berço ficava uma cama de armar para a ama de leite que tinha contratado. Era uma mulher corpulenta que, no seu primeiro dia de trabalho, pôs para fora o seio moreno e amamentou o bebê no saguão de entrada, diante de uma dona Dulce horrorizada. Emília riu alto. Mais tarde, para não melindrar a sensibilidade da sogra, estabeleceu um horário adequado para a criança ser amamentada e arranjou um paninho bordado para a babá cobrir o peito.

Encontrou a ama em seu quarto. Expedito sugava o seio da mulher, mas, bem devagarinho, os seus olhos foram se fechando e a cabecinha pendeu para trás. Era o fim da mamada e o menino se achava entre os seus dois maiores prazeres: mamar e dormir. Emília ficou olhando para ele. Estava feliz com a babá, mas sentia umas pontadas de inveja quando Expedito adormecia nos braços dela. Tirou as luvas e o chapéu. Estendeu os braços e a ama se levantou da cadeira para lhe entregar o bebê. Quando a mulher saiu do quarto, Emília colou o rosto àquela cabecinha. O seu crânio parecia macio e maleável, como barro parcialmente cozido. As formas roliças que ele tivera tanta dificuldade em adquirir estavam desaparecendo. Aos sete meses, o queixo e os ossos da face estavam ficando mais definidos. O pescoço estava mais longo. Aos poucos, os seus braços iam se afilando e as dobrinhas de gordura dos seus pulsos – que até pareciam cordões que alguém tivesse amarrado ali – estavam sumindo. Emília andava preocupada com as orelhas do menino, que começavam a parecer salientes. Sempre que escovava os seus cachinhos castanhos, punha as mãos em concha de ambos os lados da cabeça de Expedito, temendo que ela pudesse crescer muito, e com medo dos cálculos que o Dr. Duarte pudesse vir a fazer.

Levou-o então para o berço. Pegou a minúscula chave que trazia pendurada num cordão de ouro e abriu a caixa de joias. Perto do retrato da primeira comunhão, escondido debaixo do colar de pérolas e de um anel, estava o canivete de Luzia. Emília ficou olhando para aquele objeto. Como explicaria a Expedito o que aquilo significava?

Um dia, ele perguntaria pela mãe, a de verdade. Essas palavras a deixavam com raiva. Era quase uma birra, difícil de explicar, como a que sentia em criança. Luzia era a caçula e, por isso, sempre acabava comendo os corações de galinha no almoço, ou, então, sentava no colo da tia. Ganhava cavalinhos feitos de espigas de milho. E as frutas mais maduras. Na condição de irmã mais velha e ignorada, Emília não sabia o que desejava mais: a atenção dos adultos ou a da caçula. Acabava xingando a todos. Quando pensava em Expedito e nas perguntas que viria a fazer, sentia a mesma mistura amarga de ressentimento e desejo que conheceu quando era pequena.

O menino tinha aprendido a dizer “ma-ma”. Acabaria querendo chamá-la de mãe, e ela teria de corrigi-lo. Para ele, seria “tia Emília”. Ia ensiná-lo a calçar as meias, a escrever e a tomar óleo de fígado de bacalhau. Tia Emília faria parte do seu dia a dia, ao passo que a sua mãe, a de verdade, faria parte da sua imaginação, exatamente como a mãe de Emília fora para ela. Finalmente compreendeu o fardo que tia Sofia precisou carregar: ter de competir com uma mãe imaginada, sempre mais bonita, mais bondosa, mais inteligente. A fantasia era sempre melhor que a realidade. Um dia, quando ele fosse grande o bastante para guardar segredos, Emília teria de lhe contar exatamente quem era a sua mãe. Mesmo então, a realidade não sairia ganhando da fantasia. A sua mãe era valente, audaciosa e forte. Uma cangaceira! Quem era ela comparada a isso? Nunca a chamaram de valente.

Uma coisa que a preocupava era a segurança de Expedito na casa dos Coelhos. Imaginava a presença de inimigos em cada cômodo, tanto nos da frente quanto nos dos fundos. A lavadeira era leal a dona Dulce e, às vezes, não fervia as fraldas do menino, que acabava ficando com brotoejas no bumbum e nas coxas. A cozinheira, chateada por ter mais trabalho, às vezes partia cocos velhos e misturava a polpa amarga com o resto da água de coco que ele ia tomar. Quando Emília levou essas coisas ao conhecimento da sogra, dona Dulce se mostrou incrédula e chamou a atenção das criadas com alguma relutância. A moça tinha medo do que pudesse acontecer quando Expedito começasse a andar, a manchar ou quebrar coisas naquela casa arcaica. Não sabia exatamente do que a sogra seria capaz. Não raro ela falava em mandar “essa criança”, como chamava Expedito, para um colégio de padres “assim que aprendesse a falar”.

No dia em que ele chegou, dona Dulce logo tratou de deixar claro que não gostava do menino. “Não vou ter mais um pedinte do sertão aqui em casa!”, disse ela. O Dr. Duarte foi obrigado a levar a família para o escritório e fechar as portas.

– Emília vai tomar conta dele – declarou o Dr. Duarte. – Não vai?

A moça assentiu secamente. Sua vontade era sair abrindo as portas envidraçadas e quebrando os bibelôs de porcelana da sogra, os seus cristais antigos, as suas preciosas quinquilharias. Só ficou quieta porque precisava do consentimento de dona Dulce.

– Sei que você é uma mulher caridosa, mamãe – disse Degas, tentando adulá-la. – Podemos ajudar esse menino. Vamos aparecer em todos os jornais por causa dele. Todos têm escrito artigos tão positivos sobre mim e Emília...

Dona Dulce fitou o filho com um ar desamparado. Os seus lábios finos se distenderam, num muxoxo.

– Tudo bem – retrucou ela, voltando os olhos para Emília. – Mas ele não vai ser um Coelho.

– Claro que não, Dulce! – exclamou o Dr. Duarte. – Vamos registrá-lo com outro nome.

Desde esse dia, Expedito passou a ser considerado um bichinho de estimação, uma distração temporária que jamais poderia pretender a herança dos Coelhos. Emília preferia assim. A responsabilidade pela criação do menino, por seus sucessos e seus fracassos, era só dela. Nos documentos de adoção, o seu nome constava como única guardiã. E deu a ele o seu sobrenome: dos Santos. O seu nome de solteira não tinha raízes que o distinguissem nem qualquer herança familiar. Pertencia a tantos nordestinos que seria impossível traçar as suas origens.

Mesmo assim, Emília se preocupava com a possibilidade de alguém descobrir quem era realmente Expedito. Evitava o escritório do sogro e o seu Instituto de Criminologia. À medida que o menino ia crescendo, ela passou a temer o olhar avaliador do Dr. Duarte. No marido, pressentia perigos ainda maiores. Ele gostava de ver Expedito engatinhar pelo chão do quarto da mulher. Às vezes, estendia a mão para o menino e ficava encantado com a força que ele tinha. Nesses momentos, havia ternura na voz de Degas e o seu rosto se abrandava, assumindo uma expressão maravilhada de afeto. Então, como se não quisesse gostar tanto assim da criança, afastava-a e saía do quarto.

Ele percebia que Emília amava o menino e tirava proveito disso. Nos primeiros meses que Expedito passou no Recife, Degas fez a mulher acompanhá-lo aos almoços do British Club e ficar ao seu lado nos eventos organizados pelo governo. Emília não se recusava a fazê-lo. Mas também tomava cuidado para não lhe obedecer com excessiva presteza, o que seria uma demonstração de medo e confirmaria as suas suspeitas a respeito da criança. A qualquer momento, ele poderia dizer aos pais que o bebê que Emília salvara da seca era na verdade o seu sobrinho, e que a sua irmã era uma mulher alta, com um braço aleijado, muito parecida com a Costureira.

Era comum que Degas a usasse como álibi em suas atividades semanais. Muitas vezes, Emília levava Expedito e a babá para o ateliê. Continuava organizando grandes remessas de doação de roupas para os flagelados. Nos dias em que estava trabalhando, Degas aparecia no horário do almoço. Mandava que a mulher ficasse na confecção e não fosse almoçar em casa. Depois, saía porta afora. Na hora do jantar, ele a fazia dizer aos seus pais que os dois tinham almoçado juntos.

Certa vez, Emília o seguiu assim que ele saiu pela porta da loja. Degas puxou o chapéu fedora, protegendo o rosto. Passou pelas vielas que ficam nos fundos da rua Nova, atravessou a ponte Maurício de Nassau e entrou no infame Bairro Recife, onde ela não podia segui-lo. Só homens e mulheres “da vida” moravam nas pousadas e casas de jogos daquela zona da cidade. Quaisquer que fossem as suas intenções do outro lado da ponte, Degas estava sendo esperto ao ir para aquele bairro. Se algum mexeriqueiro o visse ali, não poderia admitir isso por medo de se incriminar também.

Nas suas velhas Fon Fons, Emília tinha lido histórias sobre esposas ciumentas que resolviam se vingar, mas sabia que, quase sempre, o ciúme era o avesso do amor. Degas e ela nunca tinham se amado; o que os unia eram os segredos. Emília acreditava que os dois não deviam usar esses segredos como moeda de troca. Mais que qualquer outra pessoa, sabia o que significava amar alguém que não se deveria amar e acabar se envergonhando disso. Se Degas simplesmente lhe pedisse ajuda, ela o ajudaria. Mas ele nunca pediu; na verdade, ameaçava. Sabia quem era a sua irmã e o que significava revelar isso. Antes, só ameaçava Emília e a moça sentia pena dele, pois sabia que aquelas manipulações eram nascidas do desespero. Agora, porém, Degas estava ameaçando Expedito e isso ela não podia suportar. Sempre que o via à mesa do café da manhã, tinha vontade de lhe chutar as canelas. Queria arranhar os seus preciosos discos de inglês com as agulhas de costura, cuspir na latinha de brilhantinha que ele deixava no banheiro.

Compreendeu que, se continuasse a viver com Degas, acabaria consumida pela raiva e se tornaria uma pessoa amarga e de língua ferina como sua sogra. Para escapar a esse destino, passou a imaginar um futuro longe da casa dos Coelhos. Nunca fora muito gastadora. A costura, com suas medidas e elaboração de moldes, criara nela o hábito de fazer contas de cabeça bem depressa. A sua habilidade com a matemática se refletia na contabilidade; era ela que cuidava dos livros do ateliê. Os lucros vinham aumentando. No início, Lindalva e ela ganhavam apenas o suficiente para pagar o aluguel e o salário das costureiras. Por volta de abril de 1933, os conjuntos elegantes e os vestidos florais da sua confecção andavam tendo grande procura. A tinta que Emília usava na escrituração mudou do vermelho para o verde. As duas amigas dividiam os lucros meio a meio, mas, por ser casada, Emília não podia abrir uma conta bancária sem a permissão do marido. Conseguiu então contornar esse empecilho depositando os seus lucros através de Lindalva, que abriu uma conta em separado para isso. “A poupança da fuga”, como dizia a filha da baronesa. Emília jamais a emendou. E, quando a amiga insistiu em ensiná-la a dirigir, ela não fez qualquer objeção.

Como os Coelhos, a baronesa possuía um Chrysler Imperial, com uns faróis enormes que mais pareciam olhos de coruja e para-lamas abaulados. Uma vez por semana, Emília deixava Expedito na varanda com a baronesa e entrava no automóvel. Punha o pé no estribo e sentava-se no banco do motorista. A própria Lindalva era novata ao volante, mas ia lhe dando as instruções do banco do carona, mandando que ela pisasse na embreagem e no freio antes de pôr a chave na ignição. Limitavam-se a dar a volta no jardim; mesmo assim, Emília suava nas mãos. O volante chegava a ficar escorregadio. Quando o motor grunhia, o carro dava um solavanco. Emília se atrapalhava toda com a alavanca do câmbio, tentando engatar a primeira. Soltava o freio. Os seus pés mal tocavam nos pedais: tinha de esticar bem os dedos para apertar a embreagem. Pisava no acelerador. O carro rosnava. Assustada, a moça tirava o pé da embreagem. O Chrysler arrancava com um tranco. O motor engasgava e, depois, parava. Isso aconteceu umas seis vezes, até que ela aprendeu a usar o pé esquerdo e o direito de forma equilibrada, soltando um dos pedais bem lentamente, enquanto apertava o outro. Quando conseguiu, o carro saiu andando.

– Eba! – exclamou Lindalva, animadíssima.

Emília riu. Virou o volante para contornar um canteiro, mas deixou o pé no acelerador e o carro seguiu em frente. O seu coração disparou. Estava indo depressa demais. Na curva seguinte, quase atropelou um dos pés de jasmim cuidadosamente podados do jardim da baronesa, mas conseguiu pisar no freio. O carro cantou pneu. Lindalva escorregou para a frente, tendo de se agarrar ao painel. O Chrysler deu um solavanco e parou. Lindalva caiu na risada.

– Belo trabalho, Sra. Coelho – disse ela, ajeitando-se no banco e fitando a amiga. – Vai ao ateliê amanhã?

– Vou – respondeu Emília, enxugando as mãos no vestido. – Temos outra remessa de caridade para despachar.

– Vai com Degas? – perguntou Lindalva.

– Vou – disse a outra. – Por quê?

– Ouvi umas histórias – prosseguiu a filha da baronesa, remexendo-se no banco do carro.

– Que tipo de história?

– Ora, Emília! Mais que ninguém, você deveria saber do que as pessoas falam nesta cidade. Nunca é coisa boa.

– Sobre Degas? – indagou a moça.

– Não – respondeu Lindalva. – Sobre você.

– Sobre mim?

– Que você o está protegendo. Encorajando-o – prosseguiu a outra, franzindo as grossas sobrancelhas. – Sabe aonde ele vai toda tarde?

Emília assentiu.

– Ao Bairro Recife. Eu o segui uma vez, mas só até a ponte.

Lindalva suspirou. Começou a dizer algo, mas parou e segurou a mão da amiga.

– Quando nos conhecemos, prometi que lhe falaria francamente.

– Pois fale – disse Emília.

– Ele vai se encontrar com aquele piloto, o Chevalier. Não está fazendo a mínima questão de ser discreto. Pelo menos é o que andam dizendo. As pessoas têm língua de cobra, Emília. Falam de Degas, mas é você que todos condenam, por não o impedir. Isso não é justo.

Emília assentiu. Lindalva a abraçou e saiu do carro. Mais tarde, quando estava indo para casa, na primeira classe do bonde, com Expedito no colo, as palavras da amiga não lhe saíam da cabeça. Degas corria sérios riscos com aquelas saídas diárias, mas era ela quem tinha de aguentar a carga dos mexericos. Sentiu um estremecimento de raiva. Estava habituada a ser objeto de falatórios – tanto em Taquaritinga quanto no Recife, as pessoas faziam fofocas a seu respeito. De um modo geral, porém, era por causa dos seus próprios atos, não dos de outra pessoa. Agora parecia que Degas e a Costureira podiam fazer o que bem entendessem, ao passo que a ela só restava se preocupar com as consequências.

No dia seguinte, quando o marido lhe disse para ficar no ateliê na hora do almoço, Emília se recusou. Degas não discutiu. Voltaram ambos para a casa dos Coelhos, onde almoçaram junto com dona Dulce e o Dr. Duarte. Durante a refeição, ele mencionou a Costureira. Quando dona Dulce o repreendeu, mudou de assunto e passou a falar de Expedito.

– Esse menino está crescendo tão depressa... – disse ele, com os olhos pregados na mulher. – Logo, logo papai vai poder medi-lo.

Emília deixou cair o garfo, que bateu no prato com força. O ruído a fez se lembrar das molas das ratoeiras de tia Sofia e da rapidez com que elas caíam assim que o contrapeso era retirado. A tia se recusava a usar veneno, temendo que pudesse contaminar a comida; usava então aquelas ratoeiras metálicas e as deixava na água para que os ratos morressem afogados ali dentro.

– Não fique tão ansioso para que isso aconteça – disse Emília enfim, fitando o próprio prato. – Acho que vai descobrir que ele é um garoto comum.

– Concordo – retrucou dona Dulce. – Comum é o termo exato.

Emília não contestou a sogra. No dia seguinte, permitiu que Degas a acompanhasse ao ateliê e não fez qualquer objeção quando ele saiu, deixando-a sozinha para almoçar no escritório. Ali, ficou olhando os seus livros contábeis e os números que só faziam crescer na sua conta bancária. Antes que o seu sogro pudesse fazer qualquer medição, ela e Expedito iriam embora. Trocariam aquela vida por outra diferente. Iriam para o Sul ou até para mais longe. Qualquer lugar onde não houvesse nem Coelhos, nem cangaceiros.

 

2

 

Em fins de abril, a Costureira atacou dois canteiros de obras da Transnordestina. Segundo os jornais, os cangaceiros mataram engenheiros e queimaram equipamentos e ferramentas. Disseram ainda que os operários, todos recrutados em campos de retirantes, ou voltaram para as suas famílias ou se juntaram ao bando. Alguns homens foram embora com os cangaceiros; a maioria, porém, voltou a pé para o campo mais próximo. Estes contaram várias histórias sobre a Costureira: ela era uma excelente atiradora e usava cabelo curto, como um homem. De longe, não dava para distingui-la dos outros membros do bando. Só quando começava a dar os gritos de comando era que a sua voz a denunciava. O seu tamanho e o braço aleijado faziam com que se destacasse das outras mulheres do bando do Carcará. Os tais operários confirmaram que havia várias cangaceiras de cabelos compridos, lutando lado a lado com os homens. Segundo esses fugitivos, as mulheres armadas eram as mais violentas do grupo.

Depois do ataque, o presidente Vargas incorporou o Serviço Nacional de Correios e a Repartição Geral dos Telégrafos a um dos departamentos do governo. Determinou que o estado de Pernambuco ampliasse as suas linhas telegráficas. Os artigos do Diário de Pernambuco anunciaram que os novos postos dos telégrafos facilitariam a comunicação entre os diversos pontos da rodovia. Seria possível mandar mensagens ao Recife em poucos minutos. As tropas poderiam ser enviadas para os lugares certos em vez de ficarem à mercê de meras informações verbais. Esses novos postos seriam conectados a centros de comunicação maiores e já existentes, como os de Caruaru, Rio Branco e Garanhuns. Quando as novas linhas fossem instaladas, o governo Vargas enviaria agentes recém-treinados; depois da crise, havia vários jovens precisando de trabalho. Em princípios de maio, pilhas de postes de madeira, rolos de fios e caixas de conectores telegráficos de porcelana e vidro saíram do Recife rumo ao interior. Esses equipamentos foram transportados por trem e, depois, transferidos para carros de boi até chegarem a cidades estratégicas espalhadas pelo sertão.

A Costureira interceptou vários desses carregamentos. Estações ferroviárias foram queimadas. Tropas federais foram atacadas. O Carcará mandou mais um bilhete para a capital:

 

O sertão precisa de açudes e de poços. Não de máquinas. Se eu vir mais um desses telégrafos, vou fazer um dos seus macacos engoli-lo inteirinho.

 

Emília não concordava com a luta dos cangaceiros contra Vargas e a rodovia, mas acreditava compreender as suas razões. Lembrava bem o dia em que o seu antigo patrão, o coronel Pereira, levou o carro novo a Taquaritinga. Algumas pessoas, como ela própria, ficaram entusiasmadas com o automóvel. A maioria, porém, como tia Sofia e Luzia, ficou olhando desconfiada para aquela novidade. Mais tarde, a sua tia declarou que o diabo vivia debaixo do capô do carro. As novidades eram perigosas. A mudança era assustadora e os habitantes da caatinga não gostavam de se assustar. Em vez de admitir o medo, ficavam com raiva. Era decerto isso que estava acontecendo com a Costureira.

Vários coiteiros estavam sendo detidos e interrogados. Durante a seca, a maioria dos coronéis e fazendeiros havia fugido para cidades como Campina Grande, Recife e Salvador. Todos os proprietários rurais estavam sendo incentivados a demonstrar sua lealdade a Vargas e ao governo provisório. Para evitar o espetáculo da detenção, muitos coiteiros apareciam na casa dos Coelhos para conversar com o Dr. Duarte. Quase todos esses homens usavam botas de cano alto e ternos simples, feitos de linho grosseiro. O sogro de Emília os recebia um a um no escritório.

Ela própria não podia entrar ali durante essas conversas. Tampouco podia ficar escutando do pátio porque o Dr. Duarte fechava escrupulosamente todas as portas do aposento. O interrogatório de certos coiteiros era divulgado, mas as declarações dos que vinham à casa dos Coelhos eram rigorosamente mantidas ao largo da imprensa; todos sabiam que o Carcará e a Costureira liam o Diário. Quando a seca terminasse, os coronéis e fazendeiros que tinham se encontrado com o Dr. Duarte voltariam para o interior. Emília sabia que, na sua condição de coiteiros, procurariam enganar os cangaceiros para manter a sua amizade. E, então, tentariam armar-lhes uma cilada.

Desde que adotara Expedito, Emília o levava a todos os acontecimentos sociais possíveis. Usava sempre as roupas mais ousadas: paletós justos; um vestido com um decote insinuante; calças compridas. Queria que a sua foto saísse na coluna social. Sempre aparecia segurando o menino pela mão ou com ele no colo. Nunca posava para os fotógrafos sem ele. Algumas semanas antes de as suas remessas beneficentes serem expedidas, fazia questão de mencioná-las para os jornalistas. Tratava de garantir que a imprensa divulgasse o nome do trem e o seu destino nas notinhas que publicavam a esse respeito. Quando tais notícias saíam na coluna social, os trens não eram atacados. Emília tinha a sensação de que a Costureira lhe dava ouvidos.

Depois que os coiteiros começaram a vir procurar o Dr. Duarte, Emília apareceu em diversos acontecimentos sociais. Ali, encontrava repórteres e se postava sempre ao lado deles. Mantinha-se calada quando se tratava de assuntos nacionais, mas dava opinião sobre os internacionais, tais como o boicote ao comércio judeu na Alemanha.

– Odiaria morar lá! – disse ela, ciente de que, falando em alto e bom som, e usando termos ousados, os jornalistas publicariam o que dizia. – Imaginem um lugar onde não se pode distinguir os amigos dos inimigos! Onde aqueles que antigamente nos apoiavam já não podem mais fazê-lo.

Tinha esperanças de que a Costureira desse atenção aos seus avisos. Emília tinha se tornado uma mulher da cidade, mas ainda guardava aquele orgulho teimoso da caatinga, o que a fazia detestar qualquer traição. Usar os coiteiros para capturar os cangaceiros era um jeito desonesto de lutar. À noite, na cama, não conseguia dormir, imaginando se os seus avisos não poderiam criar problemas em vez de ajudar. Será que aqueles coiteiros vira-casacas não estavam salvando vidas inocentes? Afinal, a Costureira andava matando engenheiros e operários. Mas ela também lhes dava o direito de escolha: abandonar aquele trabalho ou lutar. Se optassem por lutar, a loucura era sua, e não da Costureira. Emília tratava de esquecer todas essas dúvidas e continuava aparecendo nos jornais.

As suas frases eram citadas regularmente, pois a opinião das mulheres em termos de política tinha se tornado assunto atraente. Toda manhã, o Dr. Duarte ria ao ler a coluna “O que se passa na cabeça de uma eleitora” publicada pelo Diário. Emília detestava as histórias que faziam circular. “Dá para imaginar mulheres debatendo para escolher um candidato?”, escreveu um jornalista. “Qual deles é mais bonito? Quem tem o bigode mais elegante? Na hora da eleição, eu preferiria mil vezes estar trancafiado no Hospital da Tamarineira, para doentes mentais, que numa cabine eleitoral!”

Emília estava empolgada com a ideia de votar até ler a lista dos candidatos: todos eram do partido verde. As eleições estavam marcadas para o dia 15 de maio e, embora o presidente Vargas houvesse prometido convocar uma eleição presidencial, os brasileiros só poderiam escolher os seus representantes na Assembleia Nacional Constituinte. Esses representantes eleitos é que escolheriam o próximo presidente: para esse cargo não haveria voto direto. Já que o partido verde dominava as cédulas, os parlamentares certamente designariam o próprio Vargas. Não havia nenhum outro candidato.

Antes da eleição, houve desfiles e comícios dos verdes. Filas de estudantes uniformizadas, com laços de fita verdes nas tranças bem presas, caminhavam em formação organizada, carregando faixas com os dizeres: “Eleitoras de amanhã!” As lojas de departamentos da cidade anunciavam promoções para as eleitoras inscritas. A Justiça Eleitoral assumiu prédios abandonados e os transformou em zonas de votação, munidas de áreas cercadas por cortinas para que os eleitores preenchessem a cédula secretamente.

No dia 15, Emília vestiu uma saia justa e uma blusa impecavelmente passada. Na cabeça, levava o fez que Lindalva tinha trazido da Europa. Dona Dulce balançou a cabeça ao ver aquele chapeuzinho marrom, em casa de abelha. O Dr. Duarte havia recomendado que a família toda estivesse elegantíssima naquele dia, pois haveria fotógrafos na principal zona eleitoral, perto do teatro Santa Isabel. Apesar de a legislação exigir que os eleitores fossem alfabetizados, o presidente Vargas insistia na ideia de uma votação popular; portanto, os Coelhos não usaram o Chrysler Imperial para ir votar. Como todas as outras famílias ligadas ao partido, foram incentivados a ir até lá a pé. O Dr. Duarte mandou que Degas estacionasse o carro na porta do ateliê de Emília. Dali, os quatro iriam de braços dados até a zona eleitoral.

Quando desceram do automóvel, Degas e o Dr. Duarte se detiveram por um momento perto da confecção. Dona Dulce cruzou os braços e ficou batendo o pé no chão. Emília também estava louca para votar logo e ir para casa; não gostava de deixar Expedito e a ama de leite sozinhos com as criadas dos Coelhos.

O ateliê estava fechado, pois elas haviam dado folga às costureiras. O Dr. Duarte ficou andando diante do prédio. Degas o seguia de perto, apontando para a loja e falando baixinho. Emília não conseguia ouvir o que o marido dizia. Afastou-se do carro para tentar ouvi-lo melhor. Antes que tivesse conseguido avançar um metro, a sua sogra a segurou pelo braço.

– Deixe os dois – disse ela. – Você já ocupa demais a atenção do pai dele.

Enquanto Degas falava, o Dr. Duarte se voltou para ele. Arregalou os olhos, como se o filho o estivesse surpreendendo. Depois, lhe deu uns tapinhas nas costas.

– Brilhante! – declarou.

Degas enrubesceu. O Dr. Duarte o segurou pelos ombros.

– Está vendo? – disse o pai, em tom alto e empolgado. – Você andou exercitando a disciplina nos últimos anos, Degas, e veja só o resultado: isso fortaleceu a sua mente!

Aproximou-se então da mulher e da nora.

– Vamos! – exclamou ele, acenando para o filho. – Depois discutimos os detalhes. Não podemos nos atrasar para a eleição.

O Dr. Duarte pegou a mão da mulher. Degas deu o braço a Emília.

– O que aconteceu? – perguntou ela.

Degas não a encarou. Saiu andando depressa, tentando chegar mais perto dos pais. A rua estava movimentada. Ambulantes solícitos dirigiam-se à multidão bem-vestida para vender abanos e bandeirolas verdes. Barraquinhas vendiam caldo de cana para dar aos eleitores “energia na hora de votar!”. A distância, tambores soavam furiosamente, seguidos pelos trompetes em seu ritmo acelerado, tocando o hino nacional.

– Eu lhe dei uma ideia – disse Degas afinal.

Emília tropeçou numa pedra do calçamento. Um dos seus sapatos – de salto alto e deixando os dedos ligeiramente à mostra, coisa que dona Dulce declarou ser anti-higiênica – lhe escapou do pé. Ela torceu o tornozelo e sentiu uma dor aguda. Cambaleou, mas Degas a segurou. Passou o braço pela sua cintura e Emília se apoiou nele, bem colada ao seu peito. Um passante assobiou, como se acabasse de ver um abraço ilícito. Mais que depressa, Degas afrouxou o braço, fazendo com que a moça tivesse de pisar firme com o pé machucado. Ela se encolheu. Mais adiante, o Dr. Duarte e dona Dulce desapareceram na multidão.

– Papai vai enfaixá-lo – disse Degas, olhando para o tornozelo da mulher. – Depois que tivermos votado.

– Vá você – replicou Emília. – O meu voto não conta mesmo. É puro exibicionismo.

– Agora não quer votar! – exclamou ele, rindo. – Essa criança fez de você uma mulher diferente.

– Não tem nada a ver com ele.

– As suas prioridades mudaram – prosseguiu Degas, ainda com o braço na sua cintura. – Eu entendo.

Emília o fitou. Ele tinha o rosto afogueado.

– Que ideia você teve lá perto do ateliê? – perguntou ela.

– Preferi falar primeiro com papai – respondeu ele, suspirando. – Sabia que você compreenderia.

A moça respirou fundo. O seu tornozelo estava latejando.

– Estão procurando um jeito de fazer remessas para o interior – prosseguiu ele –, sem que os comboios sejam atacados e assaltados.

– Remessas de quê? – indagou ela.

– De armas. De munição. Coisas que não poderiam cair nas mãos dos cangaceiros.

– E daí?

– A Costureira não ataca as suas remessas de caridade – respondeu Degas. – Você aparece nos jornais, anuncia o destino do carregamento e essas coisas sempre chegam em segurança.

– São trens que levam doações para os retirantes – disse Emília. – Os cangaceiros sabem disso. E respeitam a caridade.

– Exatamente. Foi o que eu disse a papai.

– Por quê?

– Porque podemos tirar partido disso – respondeu ele. – Vamos esconder munição no meio das suas doações de roupas. Ela chegará aos acampamentos e será distribuída aos soldados. Se eles tiverem armas novas, os cangaceiros não vão sobreviver.

Emília soltou a mão que segurava o braço do marido. Conseguiu ficar de pé sozinha, mas sentiu uma dor fortíssima lhe subir pela perna. O tornozelo estava inchado, sobrando pela lateral do sapato.

– Não vamos mais mandar nada – retrucou ela. – Lindalva e eu decidimos que já mandamos o suficiente.

– Se essa ideia der certo, Emília, o mérito será todo meu, entende? As pessoas vão acreditar que sou um homem capaz. Vão esquecer... todo o resto.

– Você está querendo me usar. Como sempre.

– Não. Estou querendo a sua ajuda.

– E se eu não ajudar?

A multidão de eleitores os empurrava, impaciente por eles estarem ali parados. Degas passou o braço pela cintura da mulher, puxando-a bruscamente. Mancando, ela saiu da frente daquela gente toda.

– Com você, nada é fácil – disse ele, entre dentes, soltando-a. Fechou os olhos e apertou o rosto com as mãos. – Você... todo mundo... faz de mim alguém que não quero ser. Gosto daquele menino. Sofreria muito se tivesse que dizer a papai quem ele é. Não quero fazer isso.

– Pois então não faça – retrucou a moça.

– Não sou eu o vilão, Emília – disse Degas. – Ela é que é. É uma criminosa. Já matou muita gente. Não se esqueça disso.

– Nunca esqueço – replicou Emília. – Mas Expedito não deve pagar por isso.

– Vai ser melhor para ele quando ela for apanhada – prosseguiu Degas. – Quando esse menino crescer, quem vai protegê-lo se o seu crânio for malformado? Quanto mais papai me respeitar, mais chances Expedito terá. Acha que os meus pais vão querer mandar um bebê flagelado para uma escola decente? Você sabe muito bem que não. Sabe que contam que o menino venha a ser jardineiro ou faça qualquer outro tipo de trabalho lá em casa. Se esse plano der certo, papai vai me dar sociedade nos negócios. Poderemos comprar a nossa própria casa. Vou poder ter privacidade. E você vai poder lhe dar tudo o que for necessário. Podemos até lhe deixar uma herança.

Ao longe, a banda parou de tocar. Emília ouviu gritos; estava aberta a votação. E ela sentia exatamente a mesma coisa que experimentou anos antes, tantos carnavais atrás, quando Degas pôs o lenço encharcado de éter no seu rosto: estava estonteada, confusa, sem saber ao certo se tinha ouvido aquelas palavras. Só sabia que tinha de escolher: condenar a irmã ou condenar Expedito.

– O crânio dele é normal – disse ela. – Você não pode provar nada.

– Eu, não – retrucou Degas. – Mas o Dr. Eronildes pode. Ele não foi detido porque está prestando serviços naquele campo. Assim que a seca terminar, papai vai pressioná-lo, obrigando-o a falar. Sabe como meu pai pode ser persuasivo. Se o Dr. Eronildes for frágil, vai sucumbir e teremos de defender o menino e a nós mesmos. Quanto mais perseguirmos a Costureira agora, menos problemas teremos mais tarde.

Degas voltou os olhos para a rua.

– Nada disso estaria acontecendo se você tivesse deixado o menino por lá. Não tinha qualquer obrigação com ele. Com essa atitude, só está atraindo problemas.

– E você? O que está atraindo? – perguntou Emília. – Sei por que atravessa a ponte diariamente.

Degas a fitou, de olhos arregalados. Deixou-se cair de encontro à vitrine da loja.

– Lamento, Emília, mas agora não tem mais escolha. Papai ficou empolgado. Você vai enviar outra remessa, querendo ou não. Somos todos forçados a fazer coisas de que não gostamos.

Saíram andando bem devagar em direção à seção eleitoral. O tornozelo de Emília latejava, o sangue pulsando por baixo da pele. Sempre que ela cambaleava, Degas tentava ampará-la, mas a moça recusava a sua ajuda, empurrando as mãos do marido. O local estava repleto de autoridades do governo, jornalistas e a grande maioria das eleitoras do Recife.

– Primeiro as damas! – declarou o tenente Higino.

Os presentes riram e gritaram, animados. Mancando, Emília se dirigiu à cabine. No centro da sala ficava a urna de aço onde eram depositadas as cédulas já preenchidas. Nas cabines, havia uma pilha de cédulas e um potinho com lápis. Com o dedo, a moça escolheu um que estivesse com a ponta perfeita. Quando desenhava os moldes, gostava que os lápis estivessem sempre assim, pois conseguia linhas bonitas e regulares. Se errasse, poderia apagar. Mas as cédulas não deveriam ser preenchidas a lápis, pensou ela; o governo deveria ter providenciado selos ou canetas-tinteiro. Só que numa eleição como aquela, sem disputa efetiva, não haveria nada que valesse a pena apagar nas cédulas. Emília fechou as cortinas da cabine. Não seguiu o exemplo de Lindalva: registrou-se para votar, apesar dos candidatos tão limitados. Agora, estava arrependida. Adoraria ter ficado na casa da baronesa em sinal de protesto. Ficou olhando para a cédula com os candidatos, todos homens de Vargas. Assinalou alguns nomes aleatoriamente, sabendo que, naquela situação, a escolha não tinha a menor importância.

 

3

 

Em julho de 1933, a recém-eleita Assembleia Nacional Constituinte nomeou Getúlio Vargas para cumprir mais um mandato como presidente da República. Quatro semanas mais tarde, as tropas do Nordeste começaram a reclamar da seca interminável e da perseguição ao Carcará e à Costureira.

“Os cangaceiros têm comida e mulheres”, disse um soldado ao repórter do Diário. “Essas moças, as cangaceiras, são tão jovens! Parecem até umas ovelhinhas! Quando encontramos um acampamento abandonado, juro que chego a sentir o cheiro delas por lá. Nós, soldados, só temos estômagos vazios, roupas rasgadas e salários atrasados. Somos como animais abandonados à própria sorte.”

Em resposta aos relatos sobre o predomínio dos cangaceiros, o Dr. Duarte insistiu em afirmar que o governo não podia abandonar o sertão; isso só serviria para ajudar esses bandidos a conquistar o coração do povo da região. As obras da rodovia, os postos de telégrafo, novas escolas e as iniciativas de caridade por parte dos cidadãos – como as remessas de roupa de Emília – mostravam aos sertanejos que a capital não os tinha esquecido durante a seca.

Emília e as costureiras do ateliê continuavam a fazer roupas para as vítimas da seca. Uma vez por mês, a equipe de uma firma de mudanças transportava os fardos para um entreposto do governo. Emília insistiu em acompanhar Degas e o Dr. Duarte até esse local secreto. Ali, viu trabalhadores refazerem os pacotes. Revólveres e munição eram enfiados no meio de túnicas, calças, saias e macacõezinhos de bebê. Havia Winchesters novas, todo um carregamento de pistolas Mauser alemãs e várias Brownings, tudo isso visando a substituir os velhos rifles de cano longo que os soldados possuíam.

Por ostentar o nome de Emília, a carga despachada não era alvo de ataques. Uma semana antes da partida da primeira remessa, num trem da Great Western, Emília saiu na coluna social anunciando o fato. A moça parou de procurar os repórteres nos eventos sociais, mas Degas os trazia até ela. Com a mais desanimada das vozes, Emília falava do seu trabalho beneficente. Não sorria nas fotos e deixou de levar Expedito nessas ocasiões, na esperança de que a ausência do menino fizesse a Costureira desconfiar de algo.

Expedito aprendeu a andar com passos firmes, batendo com os pezinhos no chão. Tentava pegar os jabutis, agarrando as bordas do casco e segurando os animais nos braços. Gostava de entrar furtivamente na cozinha e se esconder na despensa. No início, as criadas gritavam assustadas ao vê-lo ali dentro, no escuro, com os olhos arregalados e brilhando. Aos poucos, porém, acostumaram-se à sua presença. E começaram a gostar disso. Quando dona Dulce não estava olhando, elas lhe davam pedaços de bolo ou colheradas de geleia. “O menino da Sra. Emília.” Era assim que as criadas o chamavam no começo. Mas, pouco depois, o Dr. Duarte lhe deu um apelido que pegou.

– De onde ele tirou esse jeito tão sério? – indagou o sogro de Emília, rindo. – Parece até um coronel. Logo, logo vamos vê-lo botando um cachimbo na boca e criticando o governo.

Depois disso, todos passaram a chamá-lo de Coronel. Todos, exceto dona Dulce, que tinha lá os seus nomes para o garoto. Ela o chamava “pequeno bárbaro” ou “terror”. O menino deixava a marca dos dedos nas mesas envernizadas e no vidro das cristaleiras. Às escondidas, arrancava o estofamento das almofadas e escondia tudo no quintal.

Era uma criança calada, mas não tímida. Quando alguma visita falava com ele ou apertava as suas bochechas, Expedito ficava olhando muito sério e ia para junto de Emília. “Que gracinha”, diziam quase sempre as visitas, meio sem jeito, “ele é encabulado”. Mas não era timidez. Ele nunca se escondeu atrás de Emília. Nunca procurou proteção nas suas saias. Ficava ao seu lado, apertando bem os seus dedos com a mãozinha miúda.

O Dr. Duarte admirava a coragem daquela criança, o seu jeitão calado, mas decidido. Toda semana, levava Coronel para a Feira de Pássaros de Madalena e ria quando ele enfiava o dedo nas gaiolas ou dava pedacinhos de banana no bico de um papagaio. Emília ficava sempre preocupada. Tinha medo de que os pássaros da feira pudessem bicar a mão do menino, ou que os jabutis machucassem os seus dedos.

Os seus olhos eram castanho-escuros com uns veios verdes; a mandíbula, quadrada e firme. Era raro vê-lo sorrir. Mesmo quando o Dr. Duarte lhe dava um bicho de pelúcia ou um aviãozinho de brinquedo, Expedito ficava sério. Era só quando Emília gritava ao encostar a mão nos jabutis que ele jogava no seu colo ou quando ela lhe fazia cócegas antes de botá-lo para dormir que ele sorria. Esses sorrisos, doces e raros, eram verdadeiros presentes. Como segredos que os dois partilhassem.

O primeiro carregamento de armas não surtiu efeito. Depois do segundo, porém, os Coelhos receberam um telefonema tarde da noite. Emília ouviu a campainha ao longe, mas só acordou quando seu sogro começou a bater à porta do quarto de Degas.

– Acorde! – disse ele.

Expedito se remexeu no berço. Emília logo se levantou e abriu a porta do quarto. O velho estava andando de um lado para o outro no corredor, com o cabelo despenteado, a camisa para fora das calças. Quando Degas finalmente apareceu, o Dr. Duarte se precipitou na sua direção.

– Vista-se – exclamou ele, ofegante. – Leve-me ao Instituto de Criminologia.

– Por quê? – indagou Degas.

O Dr. Duarte sacudiu os braços.

– Não confio na minha vista à noite e estou ansioso demais para dar atenção à sinalização.

– Mas por que toda essa urgência? – insistiu Degas.

– Um espécime, ora! – respondeu seu pai. – Houve um confronto, um ataque às obras da rodovia. As tropas levaram a melhor e trouxeram uma delas para mim.

– Uma o quê?

– Uma cangaceira! – gritou o Dr. Duarte.

Emília se segurou na maçaneta. Os seus joelhos bambearam e ela se sentiu como as marionetes de Expedito, aqueles bonecos cujas pernas se dobravam com o apertar de um botão. Às suas costas, ouviu o menino se revirando no berço. Do corredor, ouviu o chiar distante de uma chaleira.

– A sua mãe está fazendo café – disse o Dr. Duarte. – Vamos! Depressa!

Degas passou os olhos pelo corredor mergulhado na penumbra. Avistou Emília.

– Um espécime vivo? – perguntou ele, dirigindo-se ao pai.

O Dr. Duarte balançou a cabeça.

– Implorei aos capitães dessas tropas que me conseguissem um vivo, mas é inútil. Acha que deram atenção aos meus telegramas? Estão todos meio enlouquecidos de fome e desejo. Mandaram um crânio. Pelo menos tiveram o bom senso de preservá-lo numa lata de querosene, caso contrário ele ficaria irreconhecível.

– E quem é? – perguntou Degas, olhando mais uma vez para Emília.

– Não sei! – exclamou o Dr. Duarte. – É por isso que estou com tanta pressa.

Acompanhou o olhar do filho e, virando-se, deu com Emília. Sorriu ao vê-la.

– Desculpe por tê-la acordado – disse. – São assuntos de negócios.

A moça estava apertando a maçaneta com tanta força que a sua mão chegou a ficar dormente. Sabia que devia retribuir o sorriso do sogro, aceitar as suas desculpas e dizer que ele não a tinha acordado, mas o seu rosto estava rígido, a boca não conseguia se abrir. Só as suas mãos pareciam funcionar. Foram elas que bateram a porta do quarto.

Ouviu o rangido do portão e o barulho do motor do Chrysler. Sentia um bolo lhe apertando o estômago. Queria um copo de água ou um chá de camomila, mas não tinha condições de enfrentar dona Dulce na cozinha. Ficou no quarto, olhando para Expedito ali no berço. Por uns instantes, o menino também a fitou, mas logo voltou a dormir.

Horas depois, ouviu o carro voltar. Saiu do quarto e ficou esperando no corredor escuro. Degas subiu a escada pé ante pé. Quando viu Emília de camisola branca, deu um pulo.

– Ai! – exclamou ele. – Que susto!

A moça sentia a boca seca. Se falasse, só teria uma pergunta a fazer, e estava com medo da resposta do marido. Mas também estava com medo da reação que as suas mãos poderiam ter. Degas balançou a cabeça.

– Não era ela – disse ele.

Emília fechou os olhos.

– Como sabe?

– Os soldados mandaram um bilhete. E a cabeça era pequena demais. Nenhum dos traços correspondia à imagem daquela foto.

– Então, quem era?

– Não sei. Uma garota. Uma das mulheres dos cangaceiros.

Emília escondeu o rosto com as mãos. Sentia-se aliviada, mas também estava transtornada. Ficou pensando na Menina Sereia, eternamente confinada àquele pote de vidro. As armas que haviam matado a jovem cangaceira eram as mesmas que ela tinha deixado que mandassem junto com as suas doações de roupas. Com alguma hesitação, Degas lhe deu uns tapinhas no braço.

– Eles mesmos é que criaram essa situação, Emília. A culpa não é minha. Nem sua.

A moça voltou para o quarto. Tirou Expedito do berço e o levou para a sua cama. Examinou os seus punhos miúdos e cerrados, as suas pestanas compridas, os seus pezinhos macios.

Haveria novos carregamentos de armas escondidos no meio das suas doações, e, depois, mais espécimes chegariam ao litoral. Ela teria de ficar ali várias outras vezes, naquele corredor escuro, esperando que Degas viesse lhe dizer se o Dr. Duarte tinha conseguido o exemplar que tanto desejava. Sentiu uma pontada entre os olhos. E um nó na garganta. Odiava a Costureira! Por que aquela mulher não dava atenção aos seus avisos, desistia de tudo e desaparecia na caatinga? Mas, não, pelo contrário: continuava lutando, sendo objeto de mais manchetes e tornando o segredo da irmã cada vez mais perigoso. Se não tomasse cuidado, ou se Degas decidisse abrir a boca, o próprio Expedito se tornaria um espécime. Mas, se a Costureira fosse capturada, então a obra da estrada seria concluída, as histórias começariam a rarear e os cangaceiros acabariam esquecidos. Seria melhor para todos que a Costureira morresse.

Emília tapou os olhos. Tentou respirar pela boca, abafar os ruídos do nariz entupido. Por mais que tivesse se esforçado para não fazer barulho, Expedito acordou. Ficou olhando para ela com aquela expressão que as crianças fazem quando veem um adulto chorar – um misto de confusão, preocupação e censura. Naquele momento, Emília viu Luzia fitando-a lá da sua máquina de costura, repreendendo-a por ficar passando bilhetinhos para o professor Célio. Pôs a mão no rosto do menino.

A Costureira era uma criminosa, mas, em algum lugar lá dentro daquela mulher, estava Luzia. E Luzia lhe tinha mandado aquele menino, o maior presente que já recebera na vida. A sua irmã havia lhe confiado não apenas a vida do filho, mas também as suas recordações. Era ela que daria forma à ideia que ele teria da mãe de verdade. E a Luzia de que Emília se lembrava não era uma cangaceira, mas uma moça alta, de cabelo comprido e orgulhosa. Que dançava sozinha no quarto, toda desajeitada. Que dava de comer às galinhas-d’angola no quintal da casa de tia Sofia. Que rezava no quartinho dos santos.

Não tinha como impedir outras daquelas remessas contendo armas, mas podia continuar mandando os seus avisos sutis. Quem sabe até enviar mensagens mais claras, quando houvesse uma oportunidade? Se não tentasse alertar a irmã, estaria ajudando o Dr. Duarte a obter o seu espécime. E, quando chegasse a hora de contar a Expedito como a sua mãe tinha morrido, como poderia olhá-lo nos olhos? Como poderia lhe explicar que havia ajudado a condenar Luzia?