Entre irmãs

Frances de Pontes Peebles · Capítulo 14 de 20

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Entre irmãs

Capítulo 12

 

Luzia

 

Em plena caatinga, Pernambuco

Novembro de 1933-agosto de 1934

 

1

 

U m pescoço é como os galhos das árvores da caatinga: fino, mas rijo. Há ali tendões, músculos, vértebras e outras estruturas fibrosas que dificultam o corte. De pessoa para pessoa também há diferenças. Alguns pescoços são mais grossos que outros. Luzia percebeu que andava avaliando os homens por aquela parte do corpo: qual seria mais difícil de cortar, qual seria mais fácil. Essas ideias surgiram com tanta naturalidade que, a princípio, a assustaram, e ela precisou se concentrar no fato de que, se os soldados de Vargas a capturassem, cortariam a sua cabeça. Na verdade, fariam coisa pior: primeiro, a desgraçariam. E seriam recompensados pelos seus esforços; Vargas oferecia uma quantia considerável pelo crânio da Costureira. O tenente Higino também procurava incentivar os seus homens: quem capturasse um cangaceiro podia se apossar do que quer que encontrasse com o cadáver. Luzia viu uma carta de agradecimento publicada no Diário. Era de um soldado que matara um dos seus homens recentemente.

“Ganhei vários cordões e anéis de ouro para minha esposa e minhas filhas”, escreveu o soldado. “Graças a Deus e a Vargas! No bornal daquele ladrão, consegui dinheiro suficiente para fazer uns consertos na casa da minha mãe!”

Pensando nisso, Luzia adotou uma nova lei no seu bando: qualquer soldado que fosse capturado, mesmo morto, teria a cabeça cortada e os seus pertences saqueados.

– Vargas não pode ficar ditando as regras – dizia ela aos seus homens depois de cada ataque. – Somos nosso próprio patrão.

À noite, quando não conseguia dormir, se lembrava das bolandeiras de algodão. Antes da seca, esses moinhos funcionavam a um ritmo vertiginoso, operados por duas mulas bem fortes. Os animais ficavam presos à roda do moinho e iam andando em círculos amplos, fazendo a roda girar e girar. No fim do dia, as mulas não conseguiam parar de andar em círculos. Ficavam atordoadas com o giro da roda, com o movimento circular do moinho, e davam coices quando os homens tentavam tirá-las dali. Tornavam-se, assim, o seu próprio patrão. Enredadas na própria necessidade de seguir andando, trabalhavam até caírem mortas.

Luzia compreendia esses animais. Os ataques às obras da rodovia geravam artigos de jornal, que aumentavam o prêmio pela cabeça dos cangaceiros, o que fazia com que mais macacos fossem enviados à caatinga, o que deixava os cangaceiros indignados e levava a mais ataques... A Costureira e seu bando estavam enredados num grande círculo que eles mesmos haviam criado, e seguiriam em frente até a morte.

Sempre que um soldado de Vargas cortava a cabeça de um cangaceiro, todos supunham se tratar do Carcará ou da Costureira. Até que os crânios chegavam ao Recife, mergulhados em latões de querosene, e os cientistas declaravam que os espécimes pertenciam a outros cangaceiros desconhecidos. Ou até Luzia mandar um telegrama para a capital, depois de um ataque frustrado a um canteiro de obras ou a um campo de retirantes, provando que estavam vivos. Os telegramas eram assinados “Capitão Antônio Teixeira e Esposa”. Quando as autoridades tentavam confirmar quem havia enviado tais mensagens, não conseguiam nada. O posto telegráfico tinha sido queimado, com os telegrafistas dentro.

Nesses postos, bem como nos canteiros de obras e nos trens que o bando saqueava, Luzia sempre encontrava jornais. A manchete mais recente do Diário afirmava:

 

Capturado!

O Carcará foi e nfim capturado!

 

Na segunda página, havia uma foto com um aviso, recomendando que as senhoras evitassem olhá-la. Via-se ali um caixote de munição e, ao seu redor, uma pilha de chapéus com a aba em meia-lua e de bornais bordados. Em cima do caixote, cuidadosamente enfileiradas, havia cabeças. Todas elas com o cabelo desalinhado e comprido. Os rostos pareciam mais gordos, com a mandíbula flácida e desabada sem o pescoço para sustentá-la. As bocas estavam abertas e os olhos, fechados, como se dormissem profundamente. Só os olhos de Orelhinha estavam entreabertos, como se tivesse piscado na hora em que bateram a foto. Segundo o jornal, os crânios haviam sido levados para o Instituto de Criminologia do Recife, onde seriam medidos e estudados. Orelhinha tinha andado fingindo ser o Carcará e acabara pagando caro por essa farsa. Luzia recortou o tal retrato e o guardou no bornal para usá-lo mais tarde. Teria de provar aos tais cientistas de Vargas que estavam errados: o Carcará não tinha morrido, nem a Costureira.

No canteiro de obras próximo a Rio Branco, os operários eram divididos por equipes: uma delas encarregada de arrancar árvores e cactos; outra, de retirar os troncos; e uma terceira, de aplainar a terra. Os bois puxavam as carroças por esse chão aplainado, esmagando as pedras com os cascos e deixando o solo ainda mais plano. Sempre que via a terra assim nua, Luzia sentia um aperto no estômago. Era como se aquelas árvores derrubadas, aquelas pedras, aqueles agaves arrancados tivessem se instalado dentro dela, curvando-a com o peso da sua morte. Compreendia o amor de Antônio pela caatinga: os pássaros, a areia, as pedras, os cactos e as fontes secretas não procuravam a Costureira para lhe pedir conselhos ou comando. A caatinga não lhe pedia nada. E, com a sua rodovia, Vargas queria lhe tirar isso, o seu único consolo.

Ali perto, havia várias barracas para os operários. Parecia até a disposição dos campos de retirantes, só que sem as mulheres e as crianças. Protegendo o local, viam-se inúmeros cães lustrosos amarrados às árvores, farejando tudo ao seu redor. Luzia e seu bando se agacharam contra o vento, para que os animais não pudessem sentir o seu cheiro. Ela vigiava o canteiro de obras com o velho binóculo de Antônio. Ao seu lado, Ponta Fina espiava com a luneta alemã que pegara de um engenheiro meses antes. Às suas costas, os outros cangaceiros esperavam.

Do local das obras, erguiam-se nuvens de poeira. Os operários estavam cobertos daquela terra que deixava a sua pele cinzenta e fosca, parecendo pedra. Ao entardecer, um capataz apitou encerrando os trabalhos. Os bois foram libertados dos arreios e beberam água em tigelas rasas. Os homens foram voltando bem devagar para as suas barracas. Em vez de usar pás ou enxadas, todos tinham armas. Os novos macacos de Vargas não eram rapazes da cidade inteiramente desorientados e nada familiarizados com o calor e a vegetação da caatinga. Os soldados de agora eram ex-moradores da região, que sabiam lutar e se esconder ali. Em vez dos uniformes verdes, tão visíveis naquele mato ressecado, os ex-flagelados se vestiam como operários.

Luzia e os seus cangaceiros também usavam uniformes humildes, mas não por opção. Nessa época de seca, acabaram trocando a máquina de costura por comida. Não tinham energia para carregar coisas tão pesadas, nem tempo para ficar bordando. As suas roupas estavam manchadas e esfarrapadas. As aplicações e os belos pontos tinham desbotado. As suas joias estavam amassadas e sem brilho. As medalhas de ouro dos santos eram sagradas e, portanto, não podiam ser trocadas ou vendidas. Os anéis, relógios e outras joias que haviam roubado ao longo dos anos eram considerados inúteis em tempos de seca – os habitantes da região só queriam coisas úteis, como facas, chapéus, sapatos e máquinas de costura. Só os soldados de Vargas cobiçavam as joias dos cangaceiros.

A moça dizia ao seu grupo que aquela aparência deplorável não tinha a menor importância. Não eram as roupas elegantes e as sandálias engraxadas que faziam o cangaço. Muitas vezes, ouvia a voz de Antônio, aquela voz branda e confiante, soando nos seus ouvidos, e repetia tudo o que ele lhe dizia. O cangaço era uma questão de liberdade. De dignidade. A estrada era como uma cerca, como um curral gigantesco que a cidade e Vargas usariam para aprisioná-los. Eles eram cangaceiros, não gado.

Era esse tipo de coisa que dizia ao bando antes de um ataque, embora soubesse que tais discursos não eram necessários; aqueles homens e mulheres atacariam sem maiores incentivos ou motivação. Queriam briga, e ela também.

Olhando aqueles operários e soldados mal disfarçados, Luzia sentia os dedos comicharem. Os seus ouvidos zumbiam. O seu pulso disparara.

Antes dos primeiros ataques de que participou, procurava excitar o próprio ânimo pensando na morte de Antônio e na ausência do filho. Pensava em Vargas. Pensava naquela gente da cidade, que se dizia civilizada e correta e, mesmo assim, ficava esperando ansiosa as matérias sangrentas do Diário. Cangaceiros que cortavam a cabeça de soldados eram chamados de monstros, mas soldados que decepavam a cabeça de cangaceiros eram chamados de patriotas e cientistas. Agora, antes de um ataque, Luzia não precisava estimular a própria raiva. Ela já existia. Não gostava de Vargas, da rodovia, dos soldados, da cidade, da seca, de nada que não fosse os seus cangaceiros e aquela região; e esse sentimento tinha crescido tão depressa e tão sorrateiramente quanto o cajueiro da caatinga. A copa e o tronco dessa árvore eram pequenos, o que enganava a todos, pois as suas raízes eram grossas e profundas, desenvolvendo-se mais no subsolo que na superfície. Antes que pudesse controlá-la, a sua raiva tinha se arraigado tão profundamente quanto essas raízes. Tinha virado ódio. Dava para sentir o seu gosto na boca, como o sal, a tal ponto que a sua língua chegava a comichar. Luzia deixou de lado o binóculo.

– Está na hora – sussurrou, dirigindo-se a Neném e a Maria Magra.

Aquelas eram as suas melhores cangaceiras. Tinham posto uns vestidinhos simples e tirado os coldres. Escondida por baixo da roupa, levavam a peixeira com a lâmina bem protegida debaixo do braço. As duas se ajoelharam para receber a bênção de Luzia. Com os dedos, a capitã fez o sinal da cruz na testa de ambas.

– Eu fecho o meu corpo – disse ela.

Depois disso, as mulheres se levantaram e entraram no mato. Foram andando a favor do vento, em direção ao canteiro de obras. Os cães de guarda começaram a latir. Enquanto o cheiro das duas distraía os cachorros, o bando foi cercando o local.

Com a chegada das duas mulheres, os guardas gritaram. Neném e Maria Magra levantaram as mãos.

– Estamos querendo trabalho! – disse Neném, também aos gritos.

Dois soldados vieram se aproximando, andando com cuidado, como se tivessem os pés queimados. Era por isso que Luzia sempre atacava ao anoitecer: operários e soldados estavam cansados depois de um dia de trabalho sob o sol da caatinga. O cansaço deixa os reflexos dos homens mais lerdos, embota os seus sentidos. Luzia, Ponta Fina, Baiano e o restante dos cangaceiros, trinta ao todo, foram se dirigindo para lá ainda agachados. Luzia podia sentir o cheiro de bosta de boi fresca. Podia ouvir as perguntas que os soldados faziam às cangaceiras.

– Que tipo de trabalho procuram?

– Qualquer um que sirva para uma mulher – respondeu Neném, sorrindo e mostrando os dentes miúdos e escuros.

Das barracas, os operários espiavam a cena. As poucas mulheres que já trabalhavam ali vieram chegando mais perto para avaliar as concorrentes. O soldado ia responder, mas se deteve. Olhou para o mato.

– De onde vocês vêm? – indagou ele, erguendo o rifle. – Não estão trazendo água, nem comida.

Maria Magra desabotoou o primeiro botão do vestido. Antes que o soldado pudesse apontar a arma, ela meteu a mão por dentro da gola e deu um passo à frente. Neném a seguiu. Os soldados não tiveram tempo de gritar ou correr. Na verdade, parecia que as forasteiras estavam abraçando aqueles homens. Ficaram ambos parados ali, imóveis e apanhados de surpresa, até que um deles levou as mãos à barriga. Neném recuou. Na altura do umbigo do sujeito, via-se o cabo de uma faca. Ela tinha feito exatamente como Luzia e Baiano haviam ensinado, abrindo a barriga com um talho em forma de Z para que a morte fosse certa. As duas mulheres se apoderaram das armas dos soldados. Perto delas, um operário gritou e mais soldados vieram se aproximando. Luzia fez pontaria e atirou.

Durante os ataques, algumas mulheres se mantinham à parte, escondendo-se como mariposas da caatinga, junto às árvores. Outras aprenderam a atirar e a usar a faca. Lutavam ao lado de Luzia e de seus maridos. Atacavam sem floreios ou ostentação. Miravam a cabeça. Mordiam a mão dos soldados, obrigando-os a largar a pistola. Agiam com rapidez e eficiência, com a mesma frieza que demonstravam, na vida que levavam antes, ao torcer o pescoço de uma galinha ou decepar a cabeça de uma cabra, sabendo, desde sempre, que essas tarefas não eram nada agradáveis, mas eram necessárias à sua sobrevivência.

Luzia compreendia essa brutalidade. Ela própria a sentia. Os homens podiam se vangloriar ou fazer piada durante os ataques porque enfrentavam apenas a morte – os soldados queriam a sua cabeça e nada mais. Com as cangaceiras era diferente. Se fossem capturadas, teriam de enfrentar a desgraça, o estupro e só então, se tivessem sorte, viria a morte. Era nisso que pensavam quando combatiam.

Os operários saíram correndo para todo lado. Assustados com o barulho do tiroteio, os bois começaram a empinar, a recuar, e acabaram se soltando das amarras. Como não são animais acostumados a correr, ficaram meio atarantados. Alguns caíam e, incapazes de reerguer o corpo maciço, esmagavam barracas e os homens que se escondiam ali dentro. Preocupada com os seus próprios homens, Luzia mirou a cabeça dos animais. Quando atirou, pensou em voltar a comer carne, um rabo de boi ou um lombo grelhado. O seu estômago roncou.

– Bruxa! Cobra! – bradou uma voz às suas costas.

Luzia se virou. Em meio às grandes nuvens de poeira e de fumaça, viu um homem, armado com uma enxada, pronto para atacá-la. Em vez disso, porém, ele ficou fitando a cangaceira.

Antônio havia lhe ensinado que a reputação de um homem era a sua maior arma. Um belo revólver ou o mais afiado dos punhais eram inúteis nas mãos de alguém sem qualquer reputação. O que podia salvar uma pessoa era o medo, o respeito do adversário. Esses sentimentos faziam tremer as suas mãos, acabando com a sua pontaria. Faziam essas mãos suarem, destruindo a firmeza com que seguravam a faca. Despertavam a curiosidade, fazendo com que o sujeito quisesse ver como era a Costureira antes de atacá-la. Foi isso que permitiu que Luzia atirasse primeiro.

 

2

 

Quando uma dessas investidas fracassava e os cangaceiros caíam numa emboscada ou eram expulsos do local pelos macacos, todos ficavam envergonhados e furiosos. Luzia não precisava motivá-los para atacar outro canteiro de obras da estrada de rodagem ou posto telegráfico. Instintivamente, o bando queria se vingar. Depois de um ataque bem-sucedido, porém, quando a excitação da luta já tinha amainado, os corpos dos cangaceiros começavam a lhes dizer que estavam exaustos, famintos, feridos.

Apesar do cansaço, tinham de vasculhar todo o local, pegando armas e munição dos cadáveres, revirando sacolas e tonéis em busca de comida. Ninguém se animava com essa atividade. Ninguém se orgulhava dela. Os cangaceiros eram como urubus: dependiam da morte para sobreviver.

Luzia percorreu o acampamento, saltando sobre corpos e tendas derrubadas. Tinha os olhos lacrimejando por causa da fumaça. Piscou e ajeitou os óculos. Havia pequenas fogueiras espalhadas aqui e ali; logo o sangue atrairia moscas, urubus, todo tipo de pragas e predadores da caatinga. Aquelas fogueiras os deteriam até os cangaceiros terminarem o trabalho que tinham a fazer. Todos circulavam apressados, tirando roupas e chapéus dos mortos. Inteligente ficou experimentando as alpercatas dos soldados, tentando calçá-las naqueles pés enormes. Perto dele, Canjica cortava os bois mortos. A carne reluzia à luz do fogo. Debaixo dos animais, formava-se uma poça escura. Canjica suava ao executar aquela tarefa, retirando nacos de gordura e passando-os a Sabiá, que os distribuía entre os cangaceiros feridos. Os homens usariam aquela gordura para extrair alguma bala que houvesse ficado alojada sob a pele. Ponta Fina já tinha reabastecido sua sacola de medicamentos com os estoques de iodo e mercuriocromo, gaze e agulhas encontrados no acampamento. Não houve nenhuma baixa no bando, apenas uns poucos feridos, mas estes apresentavam furos de bala consideráveis. Uma cangaceira havia perdido dois dedos. Os feridos teriam de descansar depois que saíssem dali. Luzia e Ponta Fina costurariam os ferimentos e usariam os velhos remédios de Antônio para evitar infecções. Sairiam à cata de cascas de árvore para fazer cataplasmas. Se as feridas não sarassem, precisariam recorrer ao Dr. Eronildes.

Luzia prendeu o pé em alguma coisa. Olhou para baixo e viu um braço dobrado num ângulo muito estranho, com o punho cerrado. Havia um corpo junto dele. Ela se agachou. Metade do rosto estava coberta de areia que brilhava à luz da fogueira. A outra metade estava limpa. Tinha os olhos arregalados como se, mesmo morto, temesse a Costureira. E a boca aberta. Não havia sinal de pelos no queixo ou nas faces; ele devia ter no máximo uns 12 ou 13 anos. A cangaceira levou a mão àquele queixo, empurrando-o para fechar a boca do morto. Pensou em Expedito.

Bem no fundo do bornal, levava sempre um envelope. Ali dentro, uma coleção de fotos rasgadas das páginas do Diário: Emília com uma trouxinha nos braços; Emília tendo, no colo, um bebê gorducho de olhos escuros; e, mais tarde, de pé, ao lado de um menino vestindo uns ternos miúdos, parecendo até um homenzinho. Ele segurava firme a mão de Emília e franzia as sobrancelhas diante da câmera. Luzia só se permitia olhar para essas fotos uma vez, no momento em que as encontrava, e nunca mais. Tirava aqueles retratos da cabeça. Às vezes, porém, quando enfiava a mão no bornal para pegar um pouco de comida ou o velho binóculo de Antônio, os seus dedos roçavam o envelope e ela sentia um aperto no estômago, como se uma mão fria lhe comprimisse as entranhas.

Ultimamente, não vinham aparecendo fotos dele na coluna social. Emília estava sempre sozinha e fitava a câmera com certa pose. Anunciava o embarque das suas remessas de caridade para o interior. Luzia entendeu a mensagem da irmã: tinha lhe feito um grande favor e, em troca, queria proteção. A cangaceira respeitava os favores – a sua sobrevivência dependia deles –, e obedeceu aos desejos de Emília. Não tocava naquelas remessas na esperança de que a irmã, por gratidão, voltasse a exibir Expedito nas fotos. Não esperava um comportamento tão mercenário por parte de Emília e ficou furiosa com a Sra. Degas Coelho por agir assim. Mas também ficou agradecida. Talvez, pensou ela, fosse melhor não saber que cara tinha o seu filho agora.

Também não queria saber do menino morto à sua frente. Parou de ficar tentando imaginar qual seria o nome dele, que idade teria, do que gostaria ou não, e por que motivo teria vindo trabalhar na rodovia. Não tivera uma vida antes daquela que havia escolhido: a de ser soldado. E essa escolha o tinha condenado. Luzia pegou as suas armas.

Eram duas: uma pistola Browning preta, com uma coronha grande, e uma Winchester, comprida e reluzente, com um tipo de bala que ela jamais vira antes. Tinham umas pontas finíssimas e agudas, ao passo que a outra extremidade era grossa e achatada.

– Essas aí estouram no corpo de um homem. Rasgam tudo lá por dentro – disse Baiano.

O cangaceiro estava parado ali, ao seu lado, com uma expressão de dor no rosto e o braço numa tipoia. Ponta Fina estava junto dele.

– Armas novas – disse Luzia. – Todas essas armas são novas. E as balas também.

– Onde é que estão conseguindo isso? – indagou Ponta Fina. – Precisamos descobrir.

– Elas vêm lá do Recife – respondeu Baiano. – Talvez recebam tudo isso quando são admitidos como recrutas. E já saem da cidade com elas.

– Não é o que aparece nos jornais – retrucou Luzia, balançando a cabeça. – Nas fotos, os recrutas saem de mãos abanando. Tudo o que têm é um uniforme e comida. Vargas não lhes daria armas assim, de cara, para eles não ficarem tentados a fugir e se juntar a nós. É só aqui que recebem as armas, quando já estão trancafiados nesses acampamentos.

– Mas elas não vêm nos trens que trazem equipamentos – observou Ponta Fina, suspirando. – Isso nós sabemos.

Luzia assentiu. Já haviam atacado inúmeros desses trens e nunca encontraram armas em nenhum deles.

– Poderia ser um coronel – disse Baiano.

– Como? – exclamou Ponta. – Teríamos visto isso acontecer. Ou alguém teria vindo nos contar. Essas armas estão vindo do litoral. Afinal, elas não dão em árvores...

– Se derem, vou querer essas sementes... – disse Luzia, sorrindo.

– Fico cismado com esses carregamentos de caridade – prosseguiu Ponta Fina, balançando a cabeça.

– É mesmo? – indagou Luzia. – Por quê? Anda querendo roupas novas?

– Mãe – retrucou Ponta, com voz aflita –, roubamos de tudo: equipamentos telegráficos, trens de transporte de mantimentos, coronéis. Por que não essas remessas de caridade? Uma só, para a gente ver o que encontra ali?

– Não vamos encontrar nada.

– Tem certeza?

– Está duvidando de mim?

Ponta Fina e Baiano ficaram olhando para ela. Durante o período de seca, eram obrigados a deixar a barba crescer por causa da falta de água. No começo, os homens coçavam o rosto e o pescoço, pois os pelos que iam nascendo pinicavam. Em pouco tempo, tinham o rosto escondido atrás de uma barba grande e emaranhada, suja de poeira. Pareciam selvagens e relaxados. Antônio não teria aprovado isso, mas Luzia gostava deles assim; tinham um ar mais assustador.

– É que essa ideia não me agrada nada – respondeu Ponta Fina, apontando para as armas novas. – Desculpe, Mãe, mas fico cismado com isso. Tem alguma coisa estranha com os trens de caridade.

– Esses carregamentos são para pessoas que queremos ter ao nosso lado. É a nossa gente – disse Luzia. – Se nós os atacarmos, vamos parecer criminosos. É exatamente o que Vargas quer.

– Mas atacamos trens que levavam comida – retrucou Ponta, balançando a cabeça. – Ninguém reclamou, pois todos viram que distribuímos a comida que havia a bordo. Podemos fazer a mesma coisa com as roupas. Não vamos atacar o trem para roubar. Só para ver o que tem ali.

– Não – insistiu Luzia, e o peso que sentia no estômago só fez aumentar. – Tenho meus motivos.

– E são bons? – perguntou Ponta.

– Nem sempre compreendemos o que Deus faz, ou os santos, mas confiamos neles – respondeu Luzia, fechando os olhos.

– Não somos Deus, Mãe – replicou Ponta, num sussurro. – Não podemos ver as coisas como Ele vê.

O rapaz era delicado demais para desafiá-la diretamente; preferiu transformar a sua loucura em algo coletivo. Aquele “nós” significava, na verdade, “você”. Você não é Deus. Você não pode ver as coisas como Ele vê. Mas as palavras de Ponta Fina a deixaram brava. Havia uma razão estratégica para ignorar aquelas remessas de caridade, mas os motivos de Luzia eram também egoístas. Será que Ponta desconfiava disso? Será que achava que ela os estava pondo em perigo para respeitar um acordo pessoal, garantindo a segurança do próprio filho ao deixar Emília em paz? Teve vergonha quando pensou nisso.

– Se não gosta das minhas decisões, pode ir embora – disse ela. – Não preciso de você.

O rapaz a fitou, assustado. Esfregou os olhos injetados.

– Vou aonde você for – disse ele.

Luzia sentia o peito arder. Era a mesma agitação incontrolável que experimentava antes de um ataque; só que o ataque já tinha terminado. Os inimigos estavam mortos. Não havia mais ninguém com quem lutar.

Pegou então o cristal de rocha debaixo do gibão. A pedra estava envolta num papel: era uma oração que ela havia encontrado no bornal de Antônio. Gostava daquela oração e sempre a usava depois de um ataque bem-sucedido, antes que o grupo se dispersasse. Chamou todos os cangaceiros, que se ajoelharam ao seu redor. As moças a observavam atentamente. Ouviam o que Luzia lhes dizia, obedeciam-lhe e se ajoelhavam à sua frente, mas, ao contrário dos homens, ficavam olhando para ela. Percebiam cada tremor das suas mãos, cada hesitação, cada passo mais inseguro. Ao vê-las, Luzia se lembrava dos seus primeiros tempos no bando, quando ficava espreitando os cangaceiros, em busca do menor sinal de fraqueza. Podia comandar aqueles homens despertando o seu respeito. Os cangaceiros ficavam intimidados com a sua altura, o seu cabelo curto e a ameaça do fantasma de Antônio. Com as mulheres era diferente; às vezes, chegava a lamentar ter permitido que se juntassem ao grupo. A impressão que a sua aparência pudesse lhes causar se dissipava ao cabo de uns poucos dias de convivência. Durante esse período crucial, Luzia precisava se tornar outra coisa. Não podia ser vista simplesmente como mais uma mulher. Se não era capaz de surpreender as moças do bando, precisava assustá-las. Aos poucos, foi se tornando a Costureira: nem mulher, nem homem, mas algo diferente. Uma espécie de predador da caatinga: impiedoso e indecifrável.

Depois de rezar, os cangaceiros se levantaram e se espalharam pelo canteiro de obras destruído. Cada um deles foi procurar um dos mortos. Sacaram dos facões e Luzia fez o mesmo. Ficou olhando para o menino morto ali no chão à sua frente. Ele não tinha passado, nem futuro. Tinha sido dispensado da vida ao passo que ela própria precisava continuar enfrentando a sua. Era o seu dever para com os cangaceiros e Antônio, embora se sentisse uma velha aos 24 anos. As juntas lhe doíam. A vista andava embaçada. O cabelo havia rareado. Hoje, era tão acabada e cínica quanto aquelas velhas fofoqueiras de Taquaritinga que a tinham apelidado de Vitrola. Foi a vontade de se livrar daquele apelido, da condição de aleijada inútil que os outros lhe atribuíam, que a levou a se transformar na Costureira. Em certo momento, porém, muito tempo atrás, antes do tombo daquela mangueira, fora simplesmente Luzia. Quem era aquela menina? O que teria sido da sua vida se as pessoas não a houvessem aprisionado no invólucro de Vitrola? Se ela própria não tivesse se aprisionado dentro da Costureira?

As únicas recompensas da chefe dos cangaceiros eram a vingança e o esquecimento. O facão desceu, cortando o ar. O ruído da lâmina parecia um longo suspiro de satisfação. Quando atingia o seu alvo, o impacto não era bonito, nem limpo. Mas, sempre que o seu facão cortava algo, era como se Luzia estivesse eliminando aquele fio invisível que a unia a Expedito, o menino que era a sua única fraqueza e a sua última ligação com uma vida normal.

 

3

 

Mas o tal fio era resistente. Não dava para cortá-lo tão facilmente assim. Sempre que Luzia pegava um jornal, na esperança de ver uma foto do filho, sentia que ele a puxava. Na coluna social, só via retratos da Sra. Degas Coelho, enquanto as demais seções vinham repletas de artigos sobre Getúlio Vargas e o seu novo governo. Em fins de novembro de 1933, a recém-eleita Assembleia Constituinte traçou o esboço de uma constituição. Os debates foram intensos. Os estados mais ao sul – como São Paulo, que abrigava vastos cafezais e a sede da Cervejaria Antárctica, que, sozinha, era responsável por uma arrecadação de impostos maior que todo o Nordeste junto – lutavam por mais autonomia para os estados. Por não gostarem do predomínio do Sul, o Norte e o Nordeste eram a favor de um maior fortalecimento do poder centralizado nas mãos de Vargas. Grupos que o presidente havia cortejado durante a revolução também queriam dar os seus palpites: trabalhadores queriam direitos trabalhistas; a Igreja Católica batalhava por uma legislação de cunho moral; os militares, por poder.

O líder pernambucano, tenente Higino Ribeiro, ganhou um novo título. Os “tenentes” eram ligados ao governo provisório, ao passo que os “governadores” faziam parte da República Velha. Os governantes dos estados estavam precisando de uma nova designação e, em dezembro, por decisão da Assembleia Nacional, Higino foi nomeado “interventor” do estado de Pernambuco. O título da Costureira também mudou; o Diário divulgou que um jornal norte-americano ouvira falar dos constantes ataques dos cangaceiros às obras da rodovia. Toda a imprensa nordestina traduziu a manchete estrangeira:

 

Bandida é o te rror do Brasil!

 

Luzia sentiu uma onda de orgulho ao saber que gente de outro continente andava falando da Costureira e que a sua condição havia mudado: não era mais apenas o terror da caatinga, mas de toda a nação. Esse orgulho, porém, durou pouco, pois ela bem sabia que o verdadeiro terror era a seca.

Ela e seu bando estavam enfraquecidos, com as gengivas sangrando. O cabelo perdera a pigmentação, assumindo um tom alaranjado doentio, e caía aos chumaços. Todos começaram a parecer animais assustados. Um muco claro lhes escorria do nariz, as faces eram agora encovadas e os seus olhos esbugalhados, com a parte branca ficando amarelada. Em pouco tempo, não teriam mais condições de lutar. Os soldados e os operários da rodovia também sofriam com os efeitos da seca, e os jornais só se referiam à caatinga como uma terra absolutamente devastada. Alguns editoriais diziam que as obras deviam ser suspensas, que se tratava de uma empreitada dispendiosa e inútil.

Bem lá no fundo, Luzia ficou agradecida pela seca; era melhor morrer de inanição que pelas armas dos soldados de Vargas. Antes, porém, de morrerem, ela teria de dispersar o bando. Se a seca continuasse e as obras da rodovia fossem interrompidas, diria aos cangaceiros que seria melhor se separarem, formando duplas que poderiam tentar a sorte no Sul do país ou no litoral. Antônio nunca faria isso, mas aquela ideia foi um consolo para ela. O Dr. Eronildes tinha lhe dito que poderia consertar aquele braço torto. Que poderia quebrá-lo novamente. Na época, Luzia não acreditou nele. Mas a seca lhe permitia ter esperanças. Talvez, como uma planta, aquele osso reposto no lugar pudesse aprender a crescer de um jeito diferente. Talvez ela pudesse se livrar das roupas de cangaceira, lavar o rosto e o cabelo e pôr um vestido de mulher. Emília era boa nessas transformações e poderia ensiná-la a fazer isso. As duas poderiam ir juntas para o Sul. Ela teria condições de ensinar a Expedito todas as mezinhas de Antônio. E também como se esfola uma cabra, como se enfia a faca no pescoço do animal sem medo. Ia lhe mostrar como se enfia a linha na agulha, como se corta um molde. Com ela, o menino aprenderia a hora de tirar medidas, a de cortar e a de emendar. E ela própria poderia aceitar o fato de as suas mãos calejadas e o seu abraço forte demais o assustarem; de ele preferir a tia linda à mãe desajeitada.

Sempre que os cangaceiros rezavam, pedindo chuva, Luzia participava das orações. Em segredo, porém, nas rezas que fazia sozinha, à noite, o que pedia era um sinal. Se a seca prosseguisse até fevereiro do ano seguinte, abandonaria a Costureira definitivamente. Se chovesse, significaria que o seu destino era continuar sendo cangaceira e que a luta contra a estrada de rodagem ainda não tinha terminado.

Fitava a caatinga em busca de uma resposta. Quando se juntou ao bando de Antônio, só via monotonia naquela vastidão cinzenta. Mas estava enganada: a caatinga estava sempre mudando. A luz, o vento, a posição das nuvens se deslocavam constantemente. Era como se o lugar lhe falasse, e Luzia prestava atenção àquela fala. Durante a seca, ele lhe disse onde escondia água e comida. Quando chegaram mais tropas, Luzia lhe perguntou que estradas eram seguras e onde haveria emboscadas. A caatinga lhe respondia com uma súbita rajada de vento ou com um ninho de marimbondos bloqueando certo caminho, alertando-a para tomar cuidado. Em janeiro, o ar mudou. Não era mais aquele ar seco e ríspido, que parecia rachar com o calor. Agora, ele estava pesado. Nuvens tapavam o sol, mas isso não chegava a ser novidade. No período da seca, havia tantas nuvens pairando ali em cima que Luzia e os cangaceiros deixaram de vê-las como sinal de chuva.

Naquela noite, quando já tinham montado o acampamento, uma das garotas veio puxá-la pelo braço aleijado. Chamava-se Fátima e os seus olhos chispavam, agitados.

– Mãe – exclamou ela. – Olhe só!

Com um dedo, apontava para um mandacaru. Na parte mais alta da planta, havia uma flor de pétalas bem grossas.

– Pode ser sinal de orvalho – disse Luzia. – Uma noite fria que se segue a um dia quente.

Depois disso, a cangaceira não conseguiu dormir. Ficou deitada na manta, à espreita, tentando ouvir o ruído dos sapos saindo dos seus esconderijos. Tudo o que ouviu, porém, foram respirações ofegantes e gemidos baixinhos: vários casais haviam se afastado do acampamento para estar a sós.

Cada homem estava casado com a mulher que tinha escolhido. Luzia havia alertado a todos, dizendo-lhes que aquilo não era brincadeira. Estavam assumindo uma união sagrada que seria abençoada por um padre assim que conseguissem encontrar um. Toda sexta, o dia sagrado, os casais dormiam separados, e também antes de qualquer ataque à rodovia, para que um não sugasse a força do outro. Ninguém poderia trocar de marido ou de mulher. E não haveria bebês. Toda criança que nascesse por ali seria entregue a um padre ou a uma família que estivesse indo embora da caatinga. Se as moças desobedecessem, não haveria avisos nem perdão. Só existia uma consequência para quem a desafiasse. Isso era algo que Luzia deixava bem claro.

– Vocês têm de escolher – disse ela, dirigindo-se a cada uma das moças – entre ser cangaceira e ser mulher. Não dá para ser as duas coisas. E, feita a escolha, não dá para voltar atrás.

Se a garota não estremecia ao ouvir isso, Luzia a admitia no bando.

A maioria delas era vítima da seca. Tinham perdido a família ou sido vendidas para casas de má fama em troca de comida. Algumas imploravam para fazer parte do bando. Outras eram convencidas a isso por um dos cangaceiros. Não tardou muito e cada um dos homens tinha uma companheira.

Luzia sabia que a presença das moças podia acarretar a dissolução do grupo. Sabia que as mulheres traziam consigo a rebelião e o desastre potenciais, mas permitia que elas se integrassem ao bando. E o seu motivo era bem egoísta: elas fariam com que os homens continuassem valentes. Fariam com que eles quisessem lutar, para provar a sua força apesar da fome e das dúvidas. Aquelas moças não tinham se encantado por um bando de rapazes maltrapilhos e de olhos injetados, mas sim por cangaceiros empunhando rifles de cano longo, envergando o chapéu com aba em meia-lua e usando anéis de ouro nos dedos empoeirados. Elas se casaram com bandidos, não com homens comuns, e, diariamente, tratariam de impedir que esse detalhe caísse no esquecimento. Era com isso que Luzia contava.

As moças a chamavam de “Mãe”, nunca de “senhora”. O único nome que a deixava furiosa era Vitrola, e, atualmente, ninguém mais a chamava assim. Luzia pensava nele sempre que queria estimular a própria raiva antes de um daqueles ataques às obras da estrada. Como Vitrola, todos a viam como uma aleijada e, portanto, imprestável. Ser taxada de inofensiva era o pior dos insultos, pois significava que a pessoa podia ser facilmente descartada. Podia ser enxotada como uma mosca. As moças do bando compreendiam esse sentimento. Antes da seca, na vida que levavam como esposas, filhas e irmãs, eram criaturas submissas, acatando estoicamente os castigos da vida e do marido, do pai ou do irmão. Milhares de vezes, ouviram alguém lhes dizendo: “Aguenta, menina!” Eram obrigadas a baixar a cabeça e responder “Sim, senhor” a cada homem da face da Terra. Por isso, quando trocaram o lenço pelo chapéu de aba de meia-lua e pelos trajes de lona, carregavam consigo uma amargura que homem algum era capaz de entender. Mas Luzia entendia, e estabelecia as regras do grupo. Ninguém batia em ninguém. Qualquer divergência entre casais era resolvida com palavras, e, se não fosse possível, ela intervinha, determinando quem tinha ou não tinha razão. As mulheres chamavam os seus companheiros pelo apelido, e nunca de “senhor”. Esse tratamento era reservado para Deus.

– Obrigada, Senhor!

Luzia ouviu o grito de uma das moças assim que caiu a primeira gota.

Já era tarde, mas a maioria dos cangaceiros ainda estava acordada, compartilhando a ansiedade de Luzia. O vento tinha ficado mais forte. O ar estava fresco. A primeira gota pareceu até mentira. Luzia olhou para cima, achando que poderia ser um bicho qualquer fazendo xixi ali na árvore. Depois, veio outra gota, e mais outra. Deu para sentir o cheiro de terra molhada.

Baiano começou a chorar. Ponta Fina, Neném, Inteligente e Maria Magra se puseram a dançar, abraçando-se e gritando. Os cangaceiros largaram as armas e saíram rolando pela lama como crianças. Todos tinham o rosto molhado, de chuva ou de lágrimas, pouco importava qual dos dois. Luzia teve vontade de chorar, mas não conseguiu. Era como se a terra e a areia da seca tivessem se instalado dentro dela, deixando-a pesada, entorpecida. Deus respondeu. A caatinga ia crescer e florescer. As pessoas tirariam do telhado os santos desbotados e mutilados, e voltariam a adorá-los. E Luzia continuaria onde estava; continuaria sendo a Costureira.

 

4

 

Mesmo depois de algumas semanas de chuva, ainda faltava comida; plantas e animais demoravam a crescer e se reproduzir. Mas a caatinga logo ficou verde e florida. As cidadezinhas da região seguiram o seu exemplo e floresceram. Havia gente circulando pelas estradas. Gente consertando casas. Alguns cavavam a terra para plantar milho e melão. Os lugarejos, antes abandonados, agora formigavam em plena atividade e Luzia se perguntava onde todos teriam se escondido. As pessoas surgiam do nada, como cigarras saindo dos seus cantinhos secretos e se espalhando por todo lado.

À frente do seu bando, a capitã seguiu pelas margens do São Francisco, rumo à cidade ribeirinha onde, anos atrás, Antônio e ela haviam tirado a primeira foto juntos. A igrejinha tinha recebido uma nova demão de cal e brilhava ao sol da tarde. Ali perto, um homem tinha aberto um cinema. O local era um velho depósito de algodão de teto bem alto com vigas de madeira. Desse teto, saíam fios elétricos que iam dar num poste próximo, depois em outro e mais outro.

Luzia tinha esperanças de que algum dos comerciantes da cidade tivesse munição. Os seus maços de notas de mil-réis estavam minguando, exatamente como os velhos estoques de munição de Antônio, enterrados em vários pontos da caatinga. Nos ataques às obras da rodovia, os cangaceiros se apoderavam das armas dos soldados, mas não era nada fácil encontrar balas para essas novas armas. “Uma arma sem balas é como uma mulher sem marido – inútil”, como dissera Antônio uma vez, bem antes de a estrada cortar a caatinga e aqueles soldados aparecerem por lá com armas modernas. Decididamente, os macacos de Vargas andavam muito mais bem-armados. Era por isso que investir contra canteiros de obras e trens de carga estava ficando difícil. Nessas ocasiões, era mais comum Luzia e seus homens baterem em retirada que atacar.

Depois da seca, cada fazenda parecia uma armadilha. Luzia andava mais cautelosa que nunca: jamais entravam numa casa, fosse ela de um coronel ou de um simples vaqueiro. Passavam o dia inteiro observando uma cidade antes de se aventurar por ela. Tinham desenvolvido todo um sistema para se comunicar com os seus coiteiros, pedindo comida e munição por meio de vários bilhetes que ficavam escondidos em colmeias ou debaixo de pilhas de esterco seco. Luzia nomeou alguns subcapitães e, quando ficava perigoso viajar em bando, eles se dividiam em pequenos grupos de dez, dificultando o trabalho dos soldados que tentavam apanhá-los.

Qualquer coronel ou fazendeiro que houvesse passado uma temporada no litoral era um traidor em potencial. Depois das chuvas, a maioria voltou para a caatinga, mas não veio pedir proteção. Luzia deduziu que aqueles sujeitos confiavam mais em Vargas que no Carcará. Até pequenos sitiantes que, no passado, haviam sido seus coiteiros mais leais agora punham fotos de Vargas nos altares dos seus santos. O Dr. Eronildes tinha razão: é por medo, e não por amor, que as pessoas escolhem os seus heróis.

Luzia tinha esperanças de que, com as chuvas, Emília parasse com aquelas remessas de caridade, mas a Sra. Degas Coelho negou essa possibilidade. Em entrevista concedida ao Diário, deixou bem claro que as chuvas recentes não eliminavam as necessidades daquela gente.

“Vamos continuar com as nossas remessas”, declarou ela. “A necessidade ainda é muito grande. E o perigo também.”

Ponta Fina não voltou a propor que atacassem aqueles trens, mas, sempre que o bando era forçado a bater em retirada durante uma investida contra a rodovia, ele fitava Luzia com um olhar acusador. Ela havia instruído os cangaceiros a considerar qualquer pessoa como um possível inimigo, à exceção da mulher que estava por trás daquelas remessas de caridade. Como comandante, não precisava dar explicações, apenas ordens. Mesmo que quisesse explicar as suas razões, não poderia fazê-lo. Não queria pensar no conteúdo daqueles trens nem de onde vinham as armas modernas dos soldados. Podia pôr em dúvida a lealdade de um vaqueiro e até mesmo a de um coronel, mas não a da irmã.

Foi até aquela cidade ribeirinha na esperança de poder começar a usar as armas roubadas; talvez alguns macacos houvessem trocado revólveres e munição para quitar dívidas de jogo, o que não seria de espantar.

Os comerciantes locais examinaram os novos fuzis Browning e Winchester. Assobiaram e giraram os tambores. Tentaram experimentar outros tipos de balas ali dentro, mas nenhuma delas serviu. Aborrecida, Luzia pediu o Diário de Pernambuco. O vendedor balançou a cabeça, dizendo que a última remessa não tinha chegado.

– Se quiser saber o que anda acontecendo, vá ver o tal noticiário – disse ele, agitado. – Lá no cinema. É melhor que o jornal. O filme é velho, tem pelo menos uns dez anos. Chama-se A filha do advogado. Mas os noticiários são recentes. Chegam de Salvador a cada três meses.

Na fachada do velho entreposto de algodão havia um cartaz desbotado. A filha do advogado, era o que se lia ali. O filme era de 1926, mas no sertão era considerado novo. Colada à base do cartaz, havia uma faixa verde com os dizeres: “Este filme foi trazido até você pelo DPDC, o Departamento de Propaganda e Difusão Cultural, e pelo presidente Getúlio Vargas.”

Luzia comprou trinta ingressos.

A sala estava escura. Havia uns lampiões pendurados nas paredes. A fumaça do querosene a fez se lembrar da cozinha do Dr. Eronildes, anos atrás. Luzia respirou fundo. Numa mesinha alta, numa das extremidades da sala, estava um imenso projetor. As bobinas metálicas e as lentes saltadas lhe davam um ar de uma estranha arma. Diante de um pano branco bem grande preso à parede do galpão estavam dispostas várias fileiras de bancos de madeira. Luzia e os seus cangaceiros lotaram a sala, juntamente com outros espectadores que cochichavam e olhavam para trás com ar cauteloso. Luzia foi se sentar bem no fundo, de costas para a parede. Não queria ser surpreendida ali no escuro. Ponta Fina e Neném sentaram-se no banco à sua frente. Baiano e Maria Magra ficaram ao seu lado. Ouviu alguns espectadores sussurrarem:

– Aquele ali é o Carcará?

– Ele é mulato?

Antes que aquela gente pudesse olhar direito para os cangaceiros, surgiu um menino e foi apagando os lampiões um a um. A escuridão foi um alívio, pois, com ela, Luzia pôde desaparecer. Agora, era apenas mais um espectador no cinema, e não a Costureira. Nunca tinha visto um filme na vida e estava estranhamente nervosa. O escuro da sala, os sussurros do público, os sons de beijos roubados poderiam tê-la distraído das suas preocupações, mas elas persistiram. As dúvidas de Ponta Fina quanto àquelas remessas de caridade haviam exposto as suas próprias e tais desconfianças a atormentavam, fazendo-a se remexer no banco. A última foto de Emília no jornal estava amarrotada no bolso do seu gibão. Luzia a apertou ali dentro.

Junto do projetor, um homem ligou uns botões e verificou as bobinas. Quando a máquina começou a funcionar, parecia até a velha Singer. Emitiu um jato de luz e apareceram umas palavras no pano branco: “Departamento de Propaganda e Difusão Cultural do Brasil”, e, mais abaixo, a bandeira nacional. Era um noticiário do governo e Luzia não sabia de quando ele datava.

Não havia som, só o barulhinho brando do projetor. A tela ondulava com sombras e luz. Surgiu uma cena: o mar cinzento, prédios quadrados e as formas arredondadas do Pão de Açúcar. Na parte de baixo, apareceram umas letras irregulares:

 

Rio de Janeiro – Depois da revisão constitucional, autoridades, convidados e seus familiares juntam-se ao presidente Vargas em visita à recém-inaugurada estátua do Cristo Redentor.

 

A tomada da câmera mostrava um grupo de homens e mulheres, todos eles parecendo minúsculos diante da gigantesca estátua de pedra do Cristo com os braços abertos e a cabeça ligeiramente inclinada. Depois, o foco se concentrou em Getúlio Vargas, que sorria. Estava com o uniforme militar e as botas de cano alto. Os seus movimentos eram rápidos e entrecortados. Circulava em meio à multidão, trocando apertos de mãos com os presentes. Entre tantos rostos estranhos, Luzia reconheceu um. Emília usava um vestido muito bem-cortado; tinha o cabelo preso num coque e seus lábios pintados de escuro se abriram num sorriso. No colo, segurava um menino usando um bonezinho de marinheiro e, quando as pessoas se aglomeraram em torno do presidente, o tal boné caiu no chão. O garotinho abriu a boca num grito silencioso. Os seus olhos – os olhos de Antônio – fitaram a câmera com ar acusador. À sua frente, Getúlio Vargas riu. Deu uns tapinhas na cabeça do menino e seguiu adiante. A câmera o acompanhou. Emília e a criança desapareceram.

Luzia se levantou.

Vargas apareceu de novo na tela, em tamanho natural, sorridente. Era feito de luz e sombra, como um fantasma. Luzia se dirigiu para o corredor central. A sua sombra tapou a projeção e o fantasma desapareceu. Às suas costas, um homem vaiou.

– Sente aí! – sussurrou alguém.

Ela se virou. A luz do projetor a ofuscou. Protegeu os olhos com o braço bom. Na sala escura, o aparelho iluminava apenas a cangaceira, revelando os dentes que lhe faltavam, o braço aleijado, o rosto crestado pelo sol.

– Desligue isso! – bradou ela.

O operador assentiu, mas o aparelho continuou funcionando, lançando aquelas imagens que dançavam no corpo de Luzia. O rapazinho acendeu um lampião. Ouviram-se mais sussurros e vaias. Os seus olhos ardiam por causa daquela luz. Ela os fechou e viu o sorriso respeitoso de Emília. Viu a mão de Vargas se estendendo para tocar o seu filho.

– Desligue isso! – gritou ela, e a sua voz saiu esganiçada por causa da raiva.

No fundo da sala, Baiano ficou de pé. Tinha o rosto escuro e severo.

– Faça o que ela mandou – exclamou ele.

O operador voltou a assentir, puxando umas manivelas com movimentos frenéticos.

– Se não estão gostando, vão embora! – gritou uma voz vinda da parte mais escura da sala.

– Cangaceiros sujos! – disse alguém.

Protegidos pela escuridão e pela presença persistente da imagem de Vargas, os espectadores se sentiam mais corajosos. Luzia ficou transtornada com aquela raiva.

– Comunistas! – disse uma mulher.

– Porcos ingratos! – gritou Ponta Fina, pondo-se de pé também.

Em poucos instantes, o resto do bando já tinha se levantado.

– Amantes dos macacos! – esbravejou Canjica.

– Viva Getúlio! – gritou uma voz bem jovem.

Luzia sentiu o estômago ardendo, como se tivesse engolido cinza quente. Olhou para as sombras dos espectadores no cinema. Tinha salvado gente como eles durante a seca. Tinha livrado as suas filhas da prostituição nos acampamentos. Tinha evitado que a rodovia cortasse as suas terras. Era assim que lhe agradeciam? Como Emília, aquelas pessoas escolheram Vargas em vez dela. Os espectadores a insultavam, sabendo que teria de reagir. Abriu então o coldre e pegou a parabélum.

O projetor continuava funcionando. Luzia fez pontaria. Viu o olho da lente, redondo e insensível, como o de um peixe morto. Atirou. No escuro, uma mulher gritou. Depois foi o ruído de pés se movendo, de bancos sendo arrastados no chão de tijolos. As pessoas se amontoaram nas laterais e no corredor central. Na tela, já não havia imagens, apenas um raio de luz enviesado que saía do projetor e a sombra alta de Luzia. Ela mirou então o único lampião aceso. Ele caiu. A querosene em chamas foi se espalhando pelo chão e começou a lamber os pés de um dos bancos. A fumaça encheu a sala e ouviram-se mais tiros. Luzia mandou que o seu bando saísse dali.

Na confusão, perdeu o seu chapéu. Os seus óculos metálicos, de lentes arranhadas e aro torto, caíram do seu rosto. Luzia foi empurrando e abrindo caminho com o braço aleijado. Sentia a pele quente, mas não sabia se era por causa do fogo ou da raiva. Lembrou-se do que o Dr. Eronildes lhe dissera acerca do seu gênio: “Um dia você não vai conseguir controlá-lo.”

Quando todo o bando já estava do lado de fora, Luzia trancou as portas do depósito. Lá de dentro vinham batidas e gritos. Ponta Fina e Canjica roubaram latas de querosene e derramaram o líquido em toda a volta do prédio.

O cinema queimou como uma imensa fogueira. As chamas se erguiam a uns 15 metros de altura. Com o calor, Luzia sentiu o rosto afogueado. Seus olhos lacrimejavam. A temperatura ali dentro era suficiente para destruir aquele projetor horrível, para acabar com aquele pano branco onde vira o fantasma de Vargas. Uma fuligem grossa caía sobre os cangaceiros. As cinzas alaranjadas que saíam do galpão flutuavam pelo ar e iam cair sobre casas próximas, incendiando os telhados de sapê. Caíam também nas roupas dos cangaceiros, obrigando-os a se estapearem. Uma brasa atingiu a mão de Luzia – a mão do braço bom – e a queimou, como se uma bala tivesse lhe perfurado a pele.

O bando correu para o mato, tentando escapar da cidade em chamas. Luzia sentia o calor do incêndio às suas costas. Sem os óculos, os objetos mais distantes ficavam embaçados, mas ela ainda podia ver a luz do fogo. Aquela luz que sumia e voltava, como uma recordação.