Entre irmãs

Frances de Pontes Peebles · Capítulo 5 de 20

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Entre irmãs

Capítulo 3

 

Emília

 

Taquaritinga do Norte, Pernambuco

Junho-novembro de 1928

 

1

 

E mília teve uma noite para fazer a roupa com que a tia seria enterrada. Era um vestido de linho preto, o linho mais macio que o coronel conseguiu encontrar. Dona Conceição lhe deu quatro botões de madrepérola e um metro de renda preta. Emília foi trabalhar na Singer a pedal, na casa do coronel, deixando tia Sofia estirada na cama, aos cuidados de dona Maria Chaves e da comadre Zefinha, que choravam e reclamavam enquanto acendiam as velas, murmuravam ave-marias e punham rodelas de limão em água fervente para espantar o cheiro da morta. Emília já sabia as medidas da tia. Foi esperta, usando a renda na gola e os quatro preciosos botões no corpete, onde todos os que comparecessem ao velório poderiam vê-los. Quando o vestido ficou pronto, a moça o mergulhou em água com goma. Depois, apesar do cansaço, das pernas entorpecidas e dos olhos inchados, tirou o vestido daquele molho e preparou o ferro de passar. Os carvões chocalhavam de encontro ao metal. Emília sacudiu o ferro para frente e para trás, como se fosse arremessá-lo de um lado a outro da sala. Voaram brasas. O utensílio metálico soltou fumaça pelo nariz. A superfície plana chiou ao tocar no tecido. Emília trabalhou depressa para que o vestido não secasse e as partes amassadas ficassem marcadas. O suor lhe entrava pelos olhos. Ela continuou passando. Com força. Como se cada preguinha, cada dobra úmida fosse uma ruga escura dentro dela mesma, uma ruga que precisasse ser aquecida, suavizada e desmanchada.

Só tio Tirço e ela presenciaram as últimas horas de vida de tia Sofia. Emília pôs a caixa com os ossos ao lado da tia, na cama. Não quis que ninguém a ajudasse. Sozinha, ferveu mastruz com leite e foi dando à tia, às colheradas, para acalmar a tosse. Sozinha, pôs toalhas quentes com hortelã no seu peito, para ela respirar melhor. Sozinha, esfregou os lençóis sujos, levou o lenço ao nariz da tia e passou óleo de coco nos seus lábios rachados. Nos piores momentos, quando a tosse amainava e a febre subia, tia Sofia falava.

– Tirço! – gritou ela, dirigindo-se à caixa de madeira. – Ah, esses malditos urubus! – A sobrinha pôs uma toalha fresca na sua testa. A tia a segurou pelo pulso. – Maria – disse, confundindo Emília com a mãe. – Cuidado com esse filho que está carregando na barriga. Vendo-a tão bonita assim, grávida, as pessoas vão botar olho grande em você. Vão botar olho grande nas meninas.

Quando Sofia começava a falar de sua mãe, Emília queria saber mais; inevitavelmente, porém, a tia fechava os olhos e mergulhava num sono febril. Teve alguns momentos de lucidez. Sorria então brandamente para a sobrinha e rezava, pedindo a Deus que cuidasse das duas quando ela deixasse este mundo. Emília mandava que se calasse. Garantia-lhe que ela não ia deixar este mundo, não agora. Mas, uma noite, tia Sofia não conseguiu parar de tossir. Lutou desesperadamente, tentando respirar. O seu peito estremeceu. Depois, ficou olhando fixamente para o teto, como se tivesse notado alguma coisa nas telhas. Soltou então um longo suspiro sibilante e se aquietou.

– Tia? – sussurrou a moça. – Tia?

Naquele último acesso de tosse, Sofia jogou as cobertas para o lado. Emília viu uma mancha acinzentada surgir no colchão. Pondo a mão no lençol, sentiu que ele estava quente e úmido. Ficou animada: se a tia havia se aliviado, era porque ainda estava viva e dormindo. No entanto, uma hora, duas horas depois, tia Sofia ainda estava absolutamente imóvel apesar dos esforços da sobrinha para acordá-la. A mancha no colchão esfriou. Emília acendeu então uma vela e a pôs nas mãos da tia.

 

2

 

O vestido ficou pronto a tempo para o velório. Tia Sofia estava deitada no chão, em cima da rede que Emília tinha posto sob o seu corpo. O coronel havia lhe emprestado a rede que pretendia usar no seu próprio funeral. O tecido era macio e resistente, com uma varanda toda trabalhada que chegava até o chão quando a rede estava pendurada. Como manda a tradição, Sofia estava descalça, com os pés virados para a porta, pois assim a sua alma poderia deixar aquela casa com facilidade. Emília a cercou de dálias e dona Maria Chaves usou um frasco inteiro de água-de-colônia Dirce, de cheiro bem forte, para borrifar o seu corpo. Apesar dos dois chumaços de algodão enfiados nas suas narinas, o rosto de Sofia tinha se enrijecido com uma expressão severa, de lábios contraídos, como se ela não aprovasse o perfume com que a tinham banhado.

O vestido estava elegantíssimo. Emília se orgulhou do trabalho que fizera.

– Ela não está ótima? – sussurravam os presentes, ajoelhando-se junto ao corpo.

Ninguém a chamava “Sofia” pois, se ouvirem o próprio nome, os mortos ficam assombrando o mundo dos vivos, acreditando que estes ainda precisam deles por aqui.

Na manhã seguinte, um grupo de homens carregaria a rede contendo o cadáver para o serviço fúnebre na igreja do padre Otto e, de lá, para o cemitério. Até então, Emília tinha de receber quem aparecesse em sua casa. Era véspera de são João, ocasião nada oportuna para um velório. Todos queriam comemorar: soltar fogos de artifício, acender fogueiras em família e ver os filhos dançando quadrilha. Tia Sofia sempre gostou da algazarra daqueles festejos. Todo ano, juntamente com as sobrinhas, passava a semana inteira fazendo um balão com varetas e pedacinhos de papel colorido. Na véspera de são João, ateavam fogo à pequena bucha embebida em querosene e soltavam o balão para homenagear o santo. Ficavam paradas ali, vendo-o subir bem devagar no céu escuro. Primeiro era o papel que se incendiava, depois as varetas, até que o balão todinho ficava em chamas e começava a descer, como um cometa caindo na terra. Esse ano, não haveria balão. Haveria apenas um enterro.

A casa estava absolutamente enfumaçada. Inúmeras velas se apinhavam na mesa de costura e no parapeito das janelas. Ao redor do corpo, o coronel tinha disposto quatro castiçais de latão da altura de Emília. Decididamente, não poupara nas despesas. Afinal, a culpa era toda dele. Emília sabia que havia outros culpados: os cangaceiros que levaram a sua irmã, o ar frio da noite e a chuva. Mas o coronel podia ter evitado tudo aquilo. Podia ter convocado os seus peões e os seus vaqueiros para irem atrás de Luzia. Podia ter arranjado um médico de verdade para a sua tia. Sempre que via aquela postura encurvada e aqueles olhos que não conseguiam encará-la, percebia o remorso que o coronel estava sentindo e o acusava ainda mais.

As pessoas iam entrando uma a uma. Cumprimentavam Emília e, depois, se agrupavam em torno de Sofia. Xavier, o dono do armazém, pegou a mão que Emília tinha pousado sobre a caixa contendo os ossos de tio Tirço e a apertou entre as suas.

– Se precisar de alguma coisa – disse ele –, não hesite em pedir. Ponho na conta.

Com os olhos, Xavier percorreu a casa toda. Não encontraria nada, pensou Emília. Ninguém encontraria o que quer que fosse. Aquela casa tinha se tornado motivo de curiosidade – o lugar que os cangaceiros haviam invadido, levando consigo a pobre Vitrola – e essa gente bisbilhoteira ficava procurando vestígios de luta. Mas não havia nenhum. Antes mesmo da morte de tia Sofia, as pessoas insistiam em convencê-las a guardar luto por Luzia, dizendo-lhes que mandassem rezar uma missa e cobrissem com um pano preto o velho retrato da primeira comunhão, única foto da moça. Agora, aquela insistência aumentou ainda mais. Emília, porém, recusava-se a lhes dar ouvidos. Deixou o retrato na parede. Usou o baú de roupas para bloquear a porta do quarto, evitando assim que os curiosos fossem circular por lá. E fez o mesmo com a entrada do quartinho dos santos da irmã, usando uma das cadeiras da cozinha.

A porta da frente estava apinhada de gente. Um grupo de mulheres rezava ave-marias sem parar e Emília foi ficando entorpecida com o som daquelas vozes. Lá de fora, vieram relinchos de cavalos, interrompendo as orações. Dona Conceição e o coronel estavam chegando.

Quando tia Sofia ficou doente, dona Conceição mandou uma caixa de sabonetes para expressar a sua solidariedade. Eram bolinhas perfumadas, embrulhadas uma a uma em papel de seda. Emília não usou os tais sabonetes. Preferiu distribuí-los em volta do corpo da tia, junto com as dálias e as tigelas de água com limão. Dona Conceição trazia um lenço na mão enluvada e estava usando um chapéu com um véu preto. Semanas antes, Emília teria achado a sua patroa o suprassumo da elegância; hoje, porém, essas roupas da moda lhe pareceram bobas, quase uma demonstração de insensibilidade. Dona Conceição ergueu o véu.

– Minha querida – disse ela, segurando o rosto da moça nas mãos enluvadas –, o que posso fazer por você?

Os presentes se calaram. As ave-marias tornaram-se um murmúrio. Todos esperavam que Emília agradecesse à esposa do coronel, que implorasse para que o seu auxílio jamais lhe faltasse.

– Ainda tem mais uma aula de costura – respondeu ela. Dona Conceição arregalou os olhos. – É a última. Não posso perdê-la.

A mulher recuou, tirando as mãos do rosto da moça, e voltou a baixar o veuzinho.

– Claro – disse então. – Claro. Vou providenciar alguém para acompanhá-la.

Emília tinha faltado às aulas de maio e junho, desde que Luzia fora raptada e a tia caíra doente. Pediu ao velho capataz que as acompanhava que levasse um bilhete, explicando ao professor Célio as dificuldades que sua família vinha enfrentando e dizendo-lhe que não deixaria de comparecer à última aula. Faltava uma semana e a moça estava preparada. Assim que terminou o vestido para o enterro da tia, passou na loja do Xavier e pôs todas as suas economias em cima do balcão: cinquenta mil-réis, uma pequena fortuna. Apontou para uma mala forrada de tecido. Era verde, com cabo de osso e cantoneiras metálicas. Voltou para casa levando o vestido numa das mãos e a mala na outra. É claro que as pessoas comentaram o que viam, mas ela aguentou tudo. Recusava-se a fugir com o professor levando uma sacola de juta nas costas, como se fosse uma matuta qualquer. Ela, Emília dos Santos, não era uma camponesa rude.

Tinha dado a Luzia a sua mala velha – uma bolsa de couro, já arranhada – na noite em que ela foi embora com os cangaceiros. Depois disso, não podia nem pensar em comprar uma nova; a simples ideia de fazer as malas lhe embrulhava o estômago. Nos dias que se seguiram à partida dos cangaceiros, o padre Otto liderou uma expedição de busca. Todos esperavam que voltasse trazendo um cadáver, mas, quando o grupo regressou sem ter encontrado nada, até o coronel ficou desnorteado. Dizia-se que os cangaceiros eram inconstantes: às vezes, roubavam mercadorias, outras vezes pagavam por elas; certas pessoas eram mortas, outras simplesmente castigadas; certas mulheres eram desgraçadas, outras deixadas em paz. No entanto, ninguém jamais ouvira contar que um bando tivesse levado uma mulher e ficado com ela.

A cidade inteira tinha esperanças de que a notícia do rapto de Luzia e da morte dos dois soldados se espalhasse. O coronel telegrafou para o litoral. Os corpos ficaram na praça, cobertos de cal virgem, como prova do ocorrido. Mas não veio resposta alguma da capital. Não apareceu nenhum regimento. Taquaritinga era pequena demais e ficava longe demais para merecer tal consideração. Teriam mesmo que se defender sozinhos.

Enterraram os cadáveres. O padre Otto organizou diversos círculos de orações por Luzia, com novenas que se estenderam por nove dias e nove noites, e, depois, recomeçaram. Quando os olhos de Emília começavam a se fechar e a moça chegava a cabecear de sono, tia Sofia a cutucava para continuarem rezando. Os seus joelhos já estavam esfolados. Sentia o pescoço enrijecido. Na época em que a febre da tia piorou, ela mal conseguia se ajoelhar.

Passava a maioria das noites praticamente em claro. Cochilava numa cadeira, ao lado da cama da tia, para socorrê-la durante os acessos de tosse. Preferia ficar ali a ir se deitar na cama, pois acordava confusa e atordoada vendo aquele espaço vazio ao seu lado. Será que Luzia tinha ido ao banheiro, ou tomar um copo de água? Até que as coisas clareavam em sua cabeça e vinha aquela dor no peito, aguda e pungente, como um fogo queimando de dentro para fora. Luzia tinha ido embora. O seu corpo lhe dizia isso, mas a sua mente não conseguia acreditar. Sempre que estava cozinhando ou varrendo a casa e percebia alguma coisa se movendo, ficava na expectativa de que fosse a irmã surgindo num canto da casa, saindo do quartinho dos santos ou voltando dos seus passeios matinais. Acabava invariavelmente desapontada ao perceber que o tal movimento era apenas a sua própria sombra, uma mariposa ou um lagarto perseguindo um mosquito. Mesmo depois que o mês de maio terminou, que os círculos de orações foram se tornando menos frequentes, que a saúde de tia Sofia piorou e Emília tirou a caixa com os ossos de debaixo da cama dela, continuava acreditando que a irmã ia voltar. Espanava o altar dos santos. Botava no sol o bordado que Luzia não tinha terminado, para protegê-lo do mofo e das traças.

Quando dona Conceição foi embora, os presentes se mantiveram calados. Fitavam Emília por sobre as mãos postas e os terços que desfiavam. Viúvas podiam morar sozinhas, protegidas pela memória do falecido marido. Homens órfãos podiam fazer o que bem entendessem. Mas uma moça solteira, e, ainda por cima, atraente, sem família e sem uma renda efetiva, era coisa rara e perigosa, alvo fácil para os falatórios. Emília não saiu dizendo o que pretendia fazer. Como não contou a ninguém quais eram os seus planos, todos ali a espreitavam por detrás das mantilhas pretas ou por baixo da aba dos chapéus de couro, na esperança de descobrir o que quer que fosse. Ela, porém, mantinha o rosto impassível, composto. Levantou-se, pôs tio Tirço debaixo do braço e saiu da sala.

As pessoas ficaram comentando sobre aquela caixa de madeira. Diziam que era a prova de que Emília não estava nada bem. A moça a levava consigo sempre que saía de casa. Ou para a cozinha quando ia preparar as refeições. Para ela, a caixa era a certeza de que não estava só. Ainda tinha o tio, e a sua presença a reconfortava.

A maior parte dos que vieram até ali se aglomerou na sala da frente; alguns, porém, precisavam de um copo de água ou de uma fatia de bolo de macaxeira para aguentar o velório até o fim. Estes logo se dirigiram para a cozinha. Postaram-se junto ao fogão apagado e ao redor da mesa. Tentavam falar baixinho, mas Emília podia ouvi-los do corredor. Parou perto da porta, de um jeito que ninguém podia vê-la e praticamente prendendo a respiração, exatamente como havia feito tantas vezes, quando ficava espiando os seus antigos pretendentes.

– Coitadinha – sussurrou uma mulher.

– Vai ter de ser forte – disse dona Maria Chaves, cuja voz fanhosa Emília conhecia tão bem. – Desde pequena, sempre foi cheia de nós pelas costas, toda convencida, e Sofia a encorajava. Agora, queira ou não, vai ter de se casar com um dos rapazes de Taquaritinga.

– Estava pensando na irmã.

– Ah – suspirou dona Maria. – Claro. A pobrezinha da Vitrola! Só Deus sabe o que terão feito com ela...

– Ele devia se envergonhar – observou o seu Chaves, que veio se unir ao grupo. – O coronel Pontes jamais teria deixado acontecer uma coisa como essa lá em Caruaru.

– Isso é porque o coronel Pontes não teve tudo dado de bandeja – observou outro homem, mais velho. Emília não conseguiu identificar aquela voz meio rouca. – Quando era criança, não tinha onde cair morto. Aquele ali sabe muito bem o que significa lutar para ter alguma coisa.

– Se o coronel Pereira não fosse o frouxo que é, para começo de conversa, os cangaceiros nem teriam vindo até aqui.

– É, mas se fosse a filha dele, a essa altura já teriam encontrado o corpo. Ela teria um enterro decente.

– Se fosse minha filha – resmungou o velho –, eu teria atirado nela, bem na cara daqueles filhos da mãe. Prefiro ter uma filha morta que levada embora por um bando de homens.

Emília entrou na cozinha. Todos se calaram. Pôs então a caixa com os ossos de tio Tirço bem no meio da mesa. Dona Maria e os demais sequer a olharam; ninguém tirava os olhos da caixa. Aos poucos, foram saindo da cozinha. A moça se sentou. Serviu-se de um copo de água e cortou uma fatia de bolo. Ouvia vozes vindo lá da sala. Não era a cantilena monótona das orações, mas uma conversa agitada e generalizada. Emília preferiu ignorá-la.

Mais tarde, quando o céu escureceu e todos foram embora para acender as fogueiras de são João e comer espigas de milho na brasa, Emília ficou sozinha ali com tio Tirço. Quando se sentou, ou melhor, se deixou cair numa cadeira, ao lado do corpo da tia, e os fogos lá fora a despertaram, lembrando-lhe que tinha de se levantar para acender mais velas, o tio estava ali, firme, na caixa aos seus pés.

 

3

 

Emília ficou com medo de que os cangaceiros fossem lhe fazer algum mal, e não a Luzia. Ao passar, de um lado a outro, diante daquela fileira de homens no quintal da casa do coronel, anotando as medidas das suas roupas, ficou pertinho de tia Sofia. Encolheu os ombros e segurou o bloquinho bem alto, para esconder o peito. Não os encarou uma vez sequer. E, quando o Carcará chamou “Ei, você!”, Emília se virou. Empertigou-se e ergueu os olhos. Percebendo que era para Luzia que ele olhava, e não para ela, ficou a um só tempo espantada e aliviada.

Aquele homem a deixava nervosa. Não pela aparência – ele seria até bonito, se não fossem a higiene precária e o rosto desfigurado. O que a incomodava era o jeito dele. Emília estava habituada a homens que falavam alto: fazendeiros que se comunicavam aos gritos de um sítio a outro, açougueiros e comerciantes que se cumprimentavam na feira semanal aos brados e com uns tapas violentos nas costas. Só os homens de nível social mais alto, como o professor Célio, eram contidos. Mas o Carcará atraía a atenção de todos sem dizer nada – só movendo o lado bom do rosto, mexendo ligeiramente a cabeça ou apontando com aquele dedo grosso. Vira e mexe os membros do bando, parados ali na fila para as medidas, baixavam os olhos diante desses sinais silenciosos. Ele podia enganar a todos, fazendo-se passar por discreto e contido, mas não a enganava. A sua voz o traía. Falava pouco, mas, quando o fazia, era com voz tonitruante, e todos acabavam se assustando e virando-se para fitá-lo. Era um sujeito tão rude quanto qualquer um daqueles pobres camponeses. Ou pior ainda, na opinião da moça, já que tentava disfarçar.

Viu quando a irmã tirou as medidas dele. Ergueu os olhos do bloquinho e viu Luzia deixar cair a fita. Aquela não era uma atitude comum. Desde que sofreu o acidente, Luzia tinha perdido qualquer noção de nervosismo ou de vergonha. Se não gostava de alguém, tirava partido da própria altura para fitar a pessoa lá de cima, como um pássaro, agindo como se ela não fizesse parte do seu mundo, mas fosse algo mais baixo, inferior. O Carcará também estava agindo de uma forma estranha. Quando Luzia parou atrás dele para medir as suas costas, esticou a fita métrica de um lado a outro dos seus ombros e alisou-a com a palma da mão do braço bom. Enquanto a moça fazia isso, o Carcará fechou os olhos. Emília viu muito bem. Parecia até que estava saboreando uma comida gostosa. E, quando Luzia se afastou, ele abriu os olhos e fitou a fileira dos seus homens, fingindo que não estava absolutamente interessado naquelas medidas. Aquele sujeito era desequilibrado, concluiu Emília. Completamente desequilibrado.

Mais tarde, quando voltavam para casa, disse isso a Luzia. Já passava das dez da noite. Emília ia andando entre a tia e a irmã, de braços dados com ambas. Os seus vestidos fediam a suor e a fumaça da fogueira. Os olhos de Emília estavam ardendo. As suas pernas doíam. Luzia estava muito calada, até a irmã cochichar sua opinião sobre o Carcará.

– Ele não bate bem... – disse, e a tia resmungou alguma coisa, concordando.

– Você nem falou com ele – murmurou Luzia.

– Nem precisava – retrucou Emília. – Ele quase nos matou de susto, nos mandando ficar de joelhos no quintal. E tudo isso para quê? Para rezar diante de uma pedra! É o cúmulo!

– Pelo menos eles são tementes a Deus – observou tia Sofia, e logo mandou que as duas se calassem, com medo de que alguém pudesse ouvi-las.

Emília não teve forças para discutir com a irmã. Quando chegaram em casa, uma ajudou a outra a tirar o vestido e ambas se jogaram na cama, de combinação e calcinha. Emília logo caiu num sono profundo. Tão profundo que, horas depois, não ouviu 21 pares de alpercatas marchando pela estrada lamacenta. Não viu a luz das lamparinas de querosene cercando a frente da casa. E quando ouviu aquela voz – uma voz de homem, branda e severa –, achou que estivesse sonhando. Virou-se na cama e sorriu, acreditando que fosse a voz do professor Célio que tinha feito todo aquele trajeto morro acima só para acordá-la.

– Luzia.

Emília se sentou na cama.

– Luzia.

Luzia estava deitada, de olhos abertos e com a manta puxada até a cintura, como se esperasse por aquele estranho visitante.

– Luzia – chamou novamente aquela voz. – Venha aqui fora.

Tia Sofia foi a primeira a chegar à porta. Emília e Luzia ficaram juntinhas, atrás dela. Pelas frestas das venezianas entrava uma chuvinha miúda. Era o tipo de chuva de inverno que Emília detestava – parecia quase nada, mas era tão persistente que acabava encharcando o cabelo, as roupas e o chão, enlameando tudo. A moça enrolou um xale nos ombros. Luzia tinha arrancado a manta da cama, derrubando o cortinado.

– Por que vêm nos incomodar assim? – murmurou a tia. – A essa hora!

Emília espiou pelas frestas da janela. Lá fora, viu o coronel, tremendo, junto do bando de cangaceiros.

– Coronel? – indagou tia Sofia, abrindo a porta da frente. – O que houve? Os uniformes ficaram bons?

O coronel assentiu. Emília só via os homens que estavam na frente, segurando as lamparinas. O resto não passava de sombras. Via apenas as silhuetas daqueles chapéus com abas em forma de meia-lua. Assim, pareciam maiores, mais fortes. Estavam usando os trajes novos, mas tinham jogado nas costas umas mantas envoltas em oleado que lhes cobriam o torso. Por cima disso, cada um carregava dois bornais de lona a tiracolo, com as alças se cruzando no peito. Eram alças grossas, de pelo menos um palmo de largura, e enfeitadas com tachinhas que brilhavam à luz das lamparinas. As alças das espingardas também eram enfeitadas com tachinhas que reluziam nos seus ombros. As calças pareciam terminar na altura dos joelhos, mas, quando olhou mais de perto, Emília percebeu que aqueles homens estavam usando umas perneiras de couro, presas por cordões entrelaçados. Na cintura, tinham grossas cartucheiras, molhadas e lustrosas por causa da chuva. E, enfiadas no canto daqueles cinturões, facas compridas e reluzentes. A do Carcará era a maior de todas.

– Dona – disse ele, dirigindo-se a tia Sofia. – Vim falar com a Srta. Luzia.

Emília sentiu que, ao seu lado, a irmã ficou tensa ao ouvir o seu nome. O Carcará estava carregando uma trouxa debaixo do braço. Usava um daqueles chapéus comuns de lavrador e a sombra projetada pela aba escondia os seus olhos.

– O que eles estão querendo com a minha menina? – perguntou a mulher, dirigindo-se ao coronel, que baixou a cabeça.

– Não vamos lhe fazer mal algum – retrucou o cangaceiro. – Eu lhe garanto.

Emília segurou o braço aleijado da irmã. Tia Sofia segurou o outro. As três saíram juntas para o quintal. Tudo ali estava enlameado e cheio de poças. Emília sentiu o chão frio sob os pés. Com um gesto, o Carcará mandou que Luzia se aproximasse. As outras duas a acompanharam. Quando as viu fazerem isso, o sujeito ergueu a mão espalmada, dizendo-lhes que ficassem onde estavam.

– Podem deixar – sussurrou Luzia.

Embrulhou-se mais no cobertor e se empertigou, assumindo toda a sua altura. A coberta ia arrastando no chão atrás dela, como se fosse um manto. A chuva brilhava em seu cabelo. O Carcará ergueu a aba do chapéu e levantou a cabeça para encará-la. Ele não parecia páreo para a sua irmã, o que deixou Emília aliviada. Não podia ver o rosto de Luzia; só a trança escura e comprida. O cangaceiro sussurrou alguma coisa. Os seus lábios se retorceram ao se mover. Estendeu-lhe então a trouxa que trazia debaixo do braço. Luzia permanecia impassível. A boca do Carcará voltou a se mover. A moça pegou a trouxa e lhe deu as costas. Saiu andando na direção da casa. Passou por Emília e Sofia, fitando algum ponto ao longe. Tinha os lábios bem contraídos. Emília reconhecia aquela expressão – Luzia fizera aquela cara anos atrás, quando tiraram a tala do seu braço e lhe disseram que ele nunca mais voltaria a se esticar. Foi a cara que fez quando trouxeram o corpo inchado de seu pai lá das montanhas até a cidade. E era também a expressão que assumia antes de cada briga no pátio da escola, quando a implicância dos colegas ameaçava perturbar a sua postura rígida.

– Ei, você – disse o Carcará, interrompendo as lembranças de Emília. – Venha cá, por favor.

A moça se adiantou. O xale nos seus ombros pesava por causa da chuva.

– Vá lá dentro e faça a mala dela – disse ele, bem devagar, como se tentasse convencer uma criança pequena. – Não ponha muita coisa. Só o que der para carregar.

Baiano, o mulato alto, a acompanhou até a casa e ficou de guarda diante da porta do quarto. Quando Emília entrou, o seu quarto estava vazio, bem como o de tia Sofia. Não se ouvia nenhum barulho na cozinha. A moça se alegrou com isso: Luzia tinha se escondido ou fugido pela porta dos fundos! Foi andando devagar, para dar mais tempo à irmã. As suas mãos tremiam. Com todo o cuidado, afastou o mosquiteiro e pôs em cima da cama a velha mala, com o trinco enferrujado e solto. Remexeu no baú das roupas, tirando dali a combinação mais velha, as calcinhas mais esmolambadas que encontrou. Se Luzia tivesse fugido, não ia precisar daquilo. Mesmo assim, caprichou ao dobrar cada peça de roupa antes de botá-las na mala, sabendo que o cangaceiro estava de olho nela. Pegou também o vestido de algodão mais desbotado, um pregador de cabelo quebrado, uma camisola rasgada, algumas meadas de linha de bordar de cores estranhas, uma velha almofada de alfinetes.

– O que está fazendo?

Emília gelou. Luzia estava parada ali, na porta do quarto. Tinha a camisola arregaçada e enfiada de qualquer jeito no cós de uma calça amarelada curta demais para a sua altura, e que deixava à mostra os tornozelos e os pés grandes calçados com sandálias. Por cima da camisola vestia um gibão desabotoado. Emília reconheceu aquele tecido: era a lonita grosseira que tinha passado a tarde inteira costurando. As mangas do paletó também deixavam de fora os pulsos da sua irmã e o pano fazia uma prega apertada no seu cotovelo aleijado.

– Por que está aqui? – perguntou ela. – Onde você se meteu?

– Estava no quartinho dos santos – respondeu Luzia. – Rezando.

Emília se apoiou no baú. O seu peito estava apertado; a respiração, entrecortada.

– Ele mandou eu arrumar as suas coisas – disse ela.

Luzia assentiu. À luz da vela, as suas sobrancelhas grossas reluziam com a água da chuva. Os seus olhos brilhavam. Emília não conseguia se concentrar em mais nada. Quando eram crianças, seguravam firme os braços uma da outra e ficavam girando, girando, no quintal da frente. E rodavam tão depressa que Emília se sentia impotente e amedrontada. O mundo ficava fora de foco e a única coisa que via nitidamente era o rosto da irmã à sua frente, aqueles olhos verdes refletindo o medo que ela estava sentindo. Mas também havia ali um certo consolo, porque, se caíssem, cairiam juntas. E havia deslumbramento – um prazer estranho, ansioso – por saber que tinham acionado algo que não podiam deter.

Ouviu-se um assobio vindo lá de fora.

– Está na hora – declarou Baiano.

– Espere – disse Emília, voltando a fitar o quarto, a cama, a mala aberta contendo aqueles trapos velhos.

O canivete de Luzia estava onde ela sempre o deixava antes de ir se deitar: em cima do baú, entre a fita métrica e os grampos da irmã. Num gesto um tanto vago, pegou o canivete junto com os grampos. Botou tudo na mala e, mais que depressa, fechou o trinco.

Quando tia Sofia viu a sobrinha com aquele uniforme de cangaceiro, levou a mão ao peito. A chuva tinha engrossado. Os seus cabelos brancos pareciam translúcidos. Emília viu luz de vela por trás das janelas fechadas das casas mais próximas. A cidade inteira assistia àquela cena.

– Impeça essa loucura! – exclamou Sofia, dirigindo-se ao coronel, que se mantinha ali, imóvel, a não ser pelos dentes que batiam. – Chame os seus homens! – gritou ela. – Chame os seus vaqueiros ou os seus outros capangas! – Vendo que ele não respondia, a mulher ergueu o braço e apontou dois dedos trêmulos na direção do Carcará. – Eu o amaldiçoo – disse ela. Conseguindo, então, reunir forças, adiantou-se e repetiu: – Eu o amaldiçoo!

O cangaceiro também veio se aproximando. Emília tentou fazer a tia baixar o braço.

– A senhora já é velha – disse ele, chegando tão perto que o seu rosto ficou quase encostado na ponta daqueles dedos. – Saia dessa chuva.

Dois cangaceiros cercaram Luzia, segurando-a pelos braços. Ela não lutou nem gritou. Ficou rígida, ereta, como se posasse para uma foto. Era mais alta que os homens que a levavam, e, pela primeira vez, Emília tentou imaginar como seria ter essa visão: ver o topo da cabeça dos homens, saber que as pessoas tinham de erguer o rosto para falar com a gente, o que fazia com que todos parecessem infantis e reverentes. E como tudo devia ficar distante: o chão lamacento, as sandálias molhadas dos homens, as pistolas e facas que eles traziam enfiadas na cintura. Quando o bando foi se afastando, Emília sabia que tinha de dizer algo. Tinha de se oferecer para ir no lugar da irmã. Era mais velha, com dois braços e duas pernas sadios. Mas não queria ir com aqueles homens e tinha medo de que, caso propusesse a troca, eles aceitassem sem hesitação.

– Luzia! – gritou de repente, surpreendendo-se ao ouvir o som da própria voz.

O bando reduziu o ritmo. Luzia virou a cabeça. Mechas de cabelo molhado lhe grudavam no rosto. Ela sempre tinha sido boa com as palavras, ao contrário de Emília, que ficava muda e sem reação durante uma briga qualquer. Chamou Luzia sem saber por quê, ou o que poderia dizer.

– Desculpe – exclamou, fitando o rosto da irmã. – Pus tudo errado na sua mala.

 

4

 

Emília teve de usar luto para ir à última aula de costura. Depois do enterro da tia, fez dois vestidos, um preto, outro cinza, ambos com um tecido estranho, que pinicava, que dona Conceição havia lhe dado. A moça tentou fazê-los de acordo com a moda, com mangas japonesas e cintura mais baixa, terminando numa saia justa e comprida, como os vestidos elegantes que tinha visto na Fon Fon. Mas, por si só, o seu talento não bastava. O tecido não tinha bom caimento e, segundo a tradição, os trajes para tais ocasiões deviam ser práticos, e não estar na moda. Oficialmente, deveria ficar de luto pela tia durante um ano. Um ano daqueles vestidos que pinicavam. Um ano numa casa escura, com as janelas fechadas e qualquer espelho coberto por um pano. Um ano de uma rígida contrição que Emília não podia aguentar. Sentia muita saudade da tia, mas o luto não a traria de volta. Os vestidos escuros e a casa sombria só serviam para fazer as pessoas se lembrarem de que tinham de lhe dar os pêsames. Ela própria, porém, não precisava de qualquer lembrete das suas perdas. Não precisava dos conselhos daquelas línguas ferinas, dizendo-lhe que não podia continuar morando sozinha, que devia se casar, caso contrário arruinaria sua reputação. Emília ignorava aquilo tudo; recusava-se a ficar aprisionada ali no interior e não obedeceria às suas regras mesquinhas. Iria embora de Taquaritinga e cada sussurro, cada olhar severo, cada abanar de cabeça só faziam fortalecer a sua decisão.

Antes da última aula de costura, Emília vestiu uma combinação bordada e uma calcinha nova por baixo do vestido de luto. Passou bastante água de jasmim no pescoço, atrás das orelhas, na parte interna dos braços e atrás dos joelhos. Nunca tinha posto tanto perfume assim, e, cada vez que a mula em que ia montada se agitava e espirrava, tinha certeza de que o animal a estava punindo por aquele exagero.

Mantinha os olhos fixos além do topo das montanhas, incapaz de olhar para a mula que ia ao seu lado.

A garupa do animal estava vazia, a não ser por alguns cestos de transportar mercadorias. A mala verde – tão pequena que a moça só pôde botar ali dentro umas poucas peças de roupa íntima, uma camisola, o vestido azul e a bolsa de costura – estava enfiada num desses cestos. O velho capataz a fitou com um ar estranho quando ela lhe deu a valise.

– É a minha nova bolsa de costura – disse a moça.

E ele acreditou. Emília sabia que todo mundo ia comentar esse detalhe da mala, mas só para dizer que ela já tinha retomado aqueles seus velhos hábitos extravagantes. Melhor levar uma valise que os ossos do tio, diriam todos.

Na véspera, ficou acordada até tarde, escondida no seu quarto, que não tinha janelas, para que ninguém ficasse especulando ao ver a luz da vela. Fez a mala, engraxou os sapatos que dona Conceição tinha lhe dado e enrolou o cabelo com tirinhas de pano para que ficasse com um ondulado perfeito. Pela manhã bem cedo, levou os azulões para o quintal dos fundos e abriu a porta da gaiola. Fechou os olhos para não vê-los ir embora. Depois, escreveu um bilhete para o caso de Luzia voltar. A mensagem era bem simples: estava indo para São Paulo, mas um dia voltaria. Antes de sair, tirou o retrato da primeira comunhão, que estava pendurado na parede, e o enfiou na valise.

No enterro de tia Sofia, Emília depositou tio Tirço na sepultura, junto com a mulher. Depois, sozinha naquela casa, sem ter sequer o tio para consolá-la, pensou no professor Célio. Releu os seus bilhetes, percorreu cada página do seu manual da Singer, ajoelhou-se diante do altar de santo Antônio e ficou imaginando uma nova vida para si mesma. Uma vida tranquila, só interrompida pelo barulho de uma máquina de costura, os gritos e os risos de crianças e o assobio de uma chaleira no fogão a gás. O professor não tinha escrito nem ido visitá-la, mas cavalheiros eram discretos. Talvez tivessem lhe falado dos seus infortúnios e ele não quisera perturbá-la. Emília ficou imaginando a sua máquina vazia durante as aulas. Imaginou o professor Célio sentindo a sua falta, exatamente como acontecia com ela. E, caso ele não tivesse ficado com saudade, ia fazer com que percebesse, pelo simples fato de voltar a vê-la, que, bem lá no fundo, tinha, sim. Só não havia se dado conta disso.

Os moradores de Taquaritinga iam pensar as piores coisas possíveis diante da sua ausência. Diriam que Emília tinha se tornado uma mulher daquela espécie contra a qual Sofia sempre a alertara, uma mulher de vida fácil. A maioria das suas ex-colegas de turma tinha arranjado um emprego decente na cidade. Tornaram-se criadas na casa do coronel ou se casaram com lavradores e ajudavam o marido na lavoura. Mas havia outras moças, que jamais foram à escola e usavam muito ruge e batom. Estas ficavam um longo tempo perto dos bêbados, nos barracos de madeira. Às vezes, de manhã cedo, quando estava indo para a aula de costura, Emília as via andando trôpegas, a caminho de casa, sem sapatos e com o cabelo todo desgrenhado. Jamais seria como elas. É certo que estava fugindo, mas ia se casar. Seria uma mulher respeitável, uma dona de casa. As pessoas iam chamá-la de “dona Emília”, e ela acenaria a cabeça e lhes estenderia a mão.

Fechou os olhos. Passou os dedos pela crina áspera da mula. A viagem até Vertentes estava lhe parecendo interminável. Sentia o estômago embrulhado. Aquelas coisas que Luzia vivia dizendo não lhe saíam da cabeça. Achava mesmo que o tal de Célio ia se casar com ela, uma matuta? Acreditava que ele tinha boas intenções a seu respeito? Emília balançou a cabeça, tentando afugentar a voz da irmã. Tinha consciência de que gostava mais do professor do que ele dela. Sabia que podia assustá-lo com o que ia lhe propor. Mas também tinha certeza que o professor Célio era um cavalheiro. Tinha lhe escrito aqueles bilhetes. Estimava-a. Um cavalheiro não se corresponde com uma moça se não tiver boas intenções. Emília tinha lido isso na Fon Fon e decorara o trecho. Agora, esforçava-se para acreditar nessa afirmação, apesar das próprias dúvidas e dos conselhos da irmã. Luzia tinha ido embora e não sabia o que significava ter perdido tia Sofia. Não tinha ideia da vergonha que Emília sentia por receber caridade do coronel e de dona Conceição. De repente, passaram a chamá-la para fazer cortinas, lençóis e toalhas de mesa novos. Nunca mais dona Conceição lhe disse para economizar nos tecidos. Não ficava mais perto da máquina para controlar o trabalho da moça. E, quando ela lhe entregava os trabalhos terminados, a mulher simplesmente os punha de lado ou enfurnava tudo num armário, sem sequer avaliar a qualidade da costura, como fazia antes. Luzia não tinha nada que ficar invadindo a sua cabeça com aqueles conselhos infundados. Ela não podia imaginar como a vida de Emília era solitária agora.

Mais que depressa, censurou-se por pensar assim. Olhou para a mula vazia ao seu lado. Não sabia o que era pior – aceitar a ideia de que Luzia estivesse morta ou continuar acreditando que estava viva. Neste caso, era provável que a irmã estivesse sofrendo mais do que ela poderia imaginar. Mesmo assim, não podia se impedir de continuar desejando que Luzia estivesse viva. Sentia muita falta da sua força, do seu bom senso. Emília tinha tantas dúvidas, tantas perguntas... Sabia muito bem o que precisava fazer para se tornar mulher de verdade. Ou, pelo menos, tinha uma noção. Os folhetins da Fon Fon falavam de abraços apaixonados. Isso ela podia imaginar. Podia ver o professor Célio – com aquelas mãos brancas e macias, aquele corpo magro recurvado sob o terno de linho – abraçando-a, até mesmo beijando-a; o que a deixava confusa, porém, era o que exatamente acontecia depois disso. Várias vezes, antes de dormir, Luzia e ela ficaram especulando a este respeito.

– O que você acha que acontece? – indagou Emília, sussurrando com a mão em concha bem juntinho da orelha da irmã, para que tia Sofia não pudesse ouvi-la. – Deve ser tão romântico!

– É igualzinho aos animais – respondeu Luzia. – Foi o que Ana Maria disse.

– Não! – exclamou Emília, que não gostava da filha do dono do armazém. – Ana Maria é vulgar.

Já tinha visto as galinhas-d’angola ficarem todas alvoroçadas e cacarejando sempre que o galo de dona Maria Chaves inflava as penas e corria atrás delas. Também tinha visto porcas e cabras no cio ficarem batendo com a cabeça ou arranharem o seu cercado até que alguém as pusesse junto a um macho. Uma vez, a caminho da escola, Emília e Luzia tinham visto dois cavalos realizarem “o ato sagrado”, como dizia tia Sofia. Dois homens vieram trazendo uma égua amarrada com uma corda e a puseram num cercadinho bem pequeno onde estava um garanhão. O animal estava indócil, indo de um lado a outro do cercado, soltando umas bufadas curtas e ofegantes pelas narinas. A égua começou a relinchar e saiu correndo em círculos, erguendo nuvens de poeira. Quando se acalmou, o garanhão empinou. As suas patas traseiras pareciam magras demais para suportar todo aquele peso. Tinha a barriga arredondada, as patas dianteiras encolhidas e as suas partes eram escuras e pendiam, chegando quase até o chão. Desceu então sobre a égua que pareceu se curvar sob ele, mas aguentou o seu peso. Emília se recusava a acreditar que, entre homens e mulheres, as coisas fossem daquele mesmo jeito. Talvez os grosseirões de Taquaritinga agissem como animais num cercado, mas os homens educados eram diferentes.

A mula ao seu lado zurrou. O velho capataz bateu no lombo do animal com uma vareta. Emília fechou os olhos. Ficou imaginando que, com o professor Célio, só sentiria brandura, uma imensa brandura que a consumiria até fazê-la pegar no sono tranquilamente ao seu lado. “É isso mesmo”, garantiu para si mesma; “é assim que vai ser”.

 

5

 

Emília estava tremendo ali atrás da máquina; chegou a prender o pé no pedal. Tinha tirado o lenço da cabeça antes da aula, enfiando-o na mala e deixando à mostra o cabelo cacheado. Mas o calor daquela sala e o seu próprio suor acabaram sabotando os cachos tão caprichados, transformando-os em mechas lisas e frouxas. A máquina número 17, de Luzia, estava vazia bem à sua frente. A última aula era sobre bordados. O professor Célio foi gentil e atencioso, garantindo-lhe que as suas faltas não chegariam a atrapalhar. As outras mulheres passavam as toalhas de mesa para a frente e para trás sob as grossas agulhas da máquina, até os pontos formarem desenhos sólidos e volumosos de flores e trepadeiras enlaçadas. Emília, porém, não conseguia se concentrar. As suas flores nem pareciam flores, e sim umas manchas vermelhas horrorosas. Ficou aliviada e amedrontada quando o relógio acima da mesa do professor finalmente soou, indicando que a aula tinha terminado.

As velhas matronas se aglomeraram em torno de Célio, fazendo-lhe as suas últimas e desesperadas perguntas. Puxavam as mangas do seu paletó, tentando chamar a sua atenção.

– E se a minha agulha quebrar, professor?

– E se o pedal da minha máquina emperrar, professor?

– E se os meus pontos saírem sempre tortos, professor?

Emília não teve pressa alguma em limpar a sua mesa. Dobrou e redobrou o pano que tinha usado para treinar. Enrolou todas as suas linhas nos carretéis de madeira. Trancou o fecho da maleta. A jovem mãe da máquina 12 se inclinou junto à sua cadeira. Olhou para o vestido preto da moça e perguntou:

– Onde está a sua irmã, querida?

Emília ficou puxando a linha que estava na base da máquina.

– Lamento informar que ela está doente – atalhou o professor Célio, vindo postar-se ao lado da sua máquina. – Espero que a senhorita lhe ensine tudo o que aprendeu hoje.

Emília fez que sim com a cabeça. Sentiu que corava de tanto amor por ele. Ao seu redor, as mulheres começaram a fazer milhares de recomendações para a doença imaginária de Luzia: óleo de copaíba para dor de cabeça, chá de arruda para dores em geral. Emília só fazia assentir, distraída. Viu o professor passar o pente de metal no cabelo. Com gestos rápidos e graciosos, limpou as máquinas e ajeitou as cadeiras em seus lugares. Depois que a última aluna foi embora, Emília ficou para trás.

– A aula de hoje foi ótima – disse. – Lamento ter perdido as anteriores. – Sentia o suor a lhe escorrer pelo corpo. Baixou a voz. – Sabe por que tive de faltar?

O professor Célio ergueu as mãos brancas, mandando que ela se calasse.

– Aquele senhor que traz vocês passou por aqui e me contou o que houve – respondeu ele. – É um assunto que exige muita discrição.

– Claro – observou Emília, suspirando, aliviada.

“Um assunto que exige muita discrição.” Que delicadeza! Espiou pela janela da sala; o velho capataz estava atrasado. Agora, o tempo era precioso. A alça de osso da maleta lhe escorregava das mãos. Tinha preparado com todo o cuidado o que ia dizer. Nos dias que antecederam a essa aula, as palavras se embaralhavam em sua mente, enquanto ela tentava aprimorar cada frase, praticar cada pausa, ensaiar a formulação do que pretendia, na esperança de que aquilo assumisse mais um tom de dignidade do que de desespero. Pigarreou.

– A que horas vai encontrar o senhor que a leva para casa? – indagou o professor.

– Não vou encontrá-lo hoje.

– Ah! – exclamou ele, mas calou-se por um instante, observando a malinha. – Vai ficar em Vertentes? Tem parentes aqui?

– Não tenho nenhum parente.

– Desculpe – disse o professor num tom grave.

Balançou a cabeça e, depois, pegou a mão de Emília entre as suas. Os seus dedos eram tão delicados e úmidos quanto os de uma criança. Colou os lábios na mão da moça. Ela sentiu a garganta seca e engoliu saliva para não tossir e acabar estragando aquele momento. Célio ergueu os olhos, mantendo a mão de Emília junto da boca.

– Perdoe a ousadia – acrescentou ele. – Estou voltando para São Paulo daqui a alguns dias. Outro representante da Singer vai se encarregar desta região. Tinha a esperança de passar algum tempo com a senhorita – acrescentou o professor, enrubescendo. – Talvez sem a presença daquele senhor.

– Célio – principiou Emília. Tinha as palavras gravadas na memória como grossos traços azuis num molde de costura, mostrando-lhe o que reter e o que cortar fora. – Como você bem sabe, estou numa situação desesperadora...

– Claro – observou ele, interrompendo-a. – Eu compreendo. Só estava...

– Eu sei... – prosseguiu a jovem, com aquele molde bem claro na cabeça. – Estou apressando o nosso namoro.

– Namoro?

– É – disse Emília, suspirando, um tanto aborrecida com tantas interrupções.

Célio soltou a sua mão. Emília procurou a dele e a segurou. Não tinha sido assim tão difícil quando estava sozinha em casa, pronunciando aquele discurso enquanto areava panelas ou fitava as vigas escuras do telhado antes de ir se deitar.

– Sei que estou apressando o nosso namoro. Não gostaria em absoluto de me tornar um fardo para você. Mas, como sabe, nós nos damos bem...

– Namoro?

Emília apertou a mão dele com mais força, exasperada por ele ficar repetindo aquele detalhe tão ínfimo. Nervosa, resolveu prosseguir.

– Sou uma boa costureira. Posso ajudá-lo sem ganhar nada por isso. Tenho condições de pagar a minha passagem de trem – acrescentou ela, e respirou fundo.

Era mentira. Não tinha dinheiro suficiente para a passagem, mas esperava que Célio fosse insistir em pagar a sua viagem. Se ele não pudesse fazer isso, ela pediria ao coronel.

– Não sei se estou entendendo o que está insinuando, Srta. Dos Santos – disse ele, recolhendo a mão que a moça segurava.

– Estou lhe pedindo para apressar as coisas. Para me levar com você para São Paulo.

– Está me deixando muito confuso, Srta. Dos Santos. Vou viajar sozinho para São Paulo.

– Ah! – exclamou Emília. Temia que ele pudesse dizer isso, mas tratara de afastar essa ideia da cabeça. – Isso significa que pretende prolongar o nosso namoro?

– Não estamos namorando – balbuciou ele.

– Mas... e as suas cartas? As nossas cartas...

– Bilhetes. Bilhetes não são cartas, Srta. Dos Santos.

Emília sentiu uma tonteira. Concentrou toda a sua atenção num fiapo de linha preso à lapela cinzenta de Célio. Contava que ele fosse chamá-la pelo nome de batismo e não de Srta. Dos Santos, que soava pomposo e afetado, como se ela fosse uma solteirona. Tentou voltar a se concentrar no discurso que havia preparado, mas as palavras que tinha na cabeça eram agora uma miscelânea inútil.

– Estou numa situação desesperadora – sussurrou ela. – Sou ótima costureira. – Finalmente, respirou fundo e o encarou; o professor tinha os olhos arregalados e assustadíssimos. Emília resolveu prosseguir. – Se me der essa chance, prometo que nunca vão lhe faltar cuidados ou afeição. Sei cuidar de uma casa. Sei passar uma camisa. Vou estar sempre bem-arrumada. Por favor – disse, pegando novamente a sua mão.

O professor se deixou cair na cadeira diante da máquina número 15. Contraiu os lábios e expirou longa e lentamente.

– Sinto muito, Srta. Dos Santos. Julguei que tudo isso fosse apenas um flerte inofensivo – disse ele, balançando a cabeça. – Devia ter desconfiado...

– Desconfiado de quê? – indagou ela, sentindo os olhos quentes.

– A culpa não é sua, Srta. Dos Santos. É toda minha. Não me lembrei de onde estava – observou Célio, fazendo um gesto largo com a mão. – A senhorita parecia muito brincalhona. Muito moderna – acrescentou ele, balançando a cabeça mais uma vez. Ficou batendo com o pé na base de ferro da máquina. – Passei muito tempo longe de São Paulo.

Emília tossiu e escondeu o rosto com as mãos.

– Por favor, Srta. Dos Santos. Não se culpe. É perfeitamente compreensível que tenha se afeiçoado a mim.

Sem tirar as mãos do rosto, Emília soluçou. Adoraria ter a compostura de Luzia. Adoraria conseguir engolir as lágrimas, escondê-las em algum lugar bem lá dentro de si mesma, como a sua irmã fazia.

– É melhor ir agora – disse Célio, pegando o cotovelo da moça com aquela mão fria e acompanhando-a até a porta envidraçada da sala. – Por favor, aceite as minhas desculpas, Srta. Dos Santos – acrescentou então, estendendo-lhe a malinha verde. – A senhorita é uma jovem muito atraente e tem uma letra belíssima. Mas foi irresponsabilidade minha começar esse flerte. Superestimei a sua sofisticação. Acredite que lamento muito qualquer mágoa que possa ter lhe causado.

Antes que Emília pudesse dizer o que quer que fosse, ele a levou para fora, deixando-a na rua ensolarada. Vendedores empurrando carrinhos de mão carregados de coentro e outras ervas ou legumes de inverno passavam por ela apressados. As mulas do coronel estavam do outro lado, sozinhas, com as rédeas amarradas a uma árvore mirrada; o velho capataz devia ter ido atrás de alguma mercadoria esquecida. Aos seus pés, a valise verde parecia pequena e patética. A moça ouviu a porta sendo trancada atrás de si.

 

6

 

Os saltos dos sapatos herdados de dona Conceição faziam-na andar meio cambaleante naquele chão de terra. As tirinhas finas de couro lhe esfolavam o peito dos pés. Na primeira curva da estradinha que levava a Taquaritinga, Emília tirou os sapatos. Foi carregando os dois numa das mãos enquanto, na outra, levava a malinha verde. Queria ficar sozinha; não podia nem imaginar fazer o trajeto de volta com o velho capataz do coronel, montada naquelas mulas deploráveis. Na metade da subida, arrependeu-se da decisão que tomara. Começou a chover. A princípio, era uma chuvinha miúda, rala, e Emília foi andando em zigue-zague, tentando evitar os pingos. Uma camada de nuvens cinzentas cobria a serra íngreme e, em determinado ponto da subida, ela já não conseguia ver a cidade de Vertentes lá embaixo. De repente, a chuva engrossou e ficou mais forte.

O seu vestido de luto já pesava. O tecido molhado lhe batia nas pernas. No entanto, aquela chuva foi um alívio para o seu rosto. Ainda em Vertentes, tinha esfregado os olhos com tanta força que a pele ao seu redor estava inchada e sensível. Não conseguia mais chorar, e aquilo a deixava irritada. Por que teve de se desmanchar na frente do professor Célio e recobrar a compostura quando estava sozinha? Caiu uma gota verde no seu pé. Emília parou. Ergueu a malinha. As varetas que sustentavam o tecido tinham amolecido, afundando com a chuva. O pano tinha agora umas listras desiguais; a tinta verde pingava no chão.

– Não aguento mais você! – esbravejou a moça, sacudindo a valise.

Estava louca para atirá-la num barranco da serra. Saiu andando mais depressa. Os seus pés batiam ruidosamente na terra molhada. Rogou mil pragas ao professor Célio. Desejou que o seu pente metálico enferrujasse. Que todo aquele precioso cabelo caísse. Amaldiçoou também santo Antônio e decidiu desmanchar o seu altar, jogar aquela rosa branca de pano na latrina. Nunca mais pediria ajuda aos santos. Ia costurar até ficar com os dedos machucados. Até ficar com as pernas doendo. Ia economizar todo o dinheiro que ganhasse. Ia embora por conta própria.

Uma égua castanha estava bloqueando o caminho, logo à frente. Pastava tranquilamente o mato alto que, no inverno, brotava às margens da estradinha. Um homem, montado no animal, batia com os pés nos seus flancos.

– Ande! Vamos! – gritava ele.

Na cabeça, trazia um chapéu-panamá. O paletó estava embolado à sua frente, enfiado entre o seu corpo e o pito da sela. Tinha a camisa azul encharcada e, por baixo daquelas dobras molhadas, dava para ver o contorno do seu corpo, largo e cheio, como uma jaca. As calças eram de linho. A bainha de uma das pernas estava presa à correia do estribo, ficando meio enrolada na altura da panturrilha. À diferença do torso, as pernas daquele homem eram magras e torneadas. Contornando a panturrilha, via-se uma tira e a meia estava presa a ela por um clipe prateado. O tal prendedor era redondo e lavrado, como um medalhão. Emília achou uma pena que aquela coisa tão bonita ficasse escondida por baixo das calças.

Usando o chicote, o homem fustigava o animal com gestos desajeitados. A égua abanava o rabo. O sujeito fez menção de bater com mais força; deteve-se, porém, surpreendido ao avistar a moça. Não era bonito, mas tinha os dentes incrivelmente miúdos e brancos, e o seu sorriso era tão largo que dava para ver as gengivas tanto de cima quanto de baixo.

– Não estou conseguindo fazer essa besta andar – disse ele.

Emília sempre ficava muito irritada quando alguém, especialmente um homem, chamava uma égua de idiota. Naquele momento, ficou furiosa.

– Ela não é besta coisa nenhuma – exclamou. – Parece mais esperta que o senhor.

O sujeito levou a mão à aba do chapéu. Respingou água em seus ombros.

– Verdade – disse ele, arregalando os olhos como se só agora tivesse dado pela presença da moça. – Tem toda a razão.

Emília estava esperando ouvir uma resposta grosseira. Mas ficou lisonjeada ao ver que ele acreditava no que havia dito. Pôs a malinha no chão.

– Está subindo ou descendo o morro?

– Subindo – respondeu o homem, largando as rédeas e fitando a égua. – Detesto os bichos.

Balançou os pés nos estribos. As solas das botas que lhe batiam nos tornozelos eram lisas, sem arranhões. O couro não tinha nenhuma rachadura. Emília pôs os sapatos no chão. Aproximou-se do animal e segurou a metade inferior das rédeas. Estalou a língua e puxou a égua, afastando-a da beira da estrada. O animal resfolegou. Sem soltar as rédeas, a moça se agachou para pegar a valise e os sapatos com a mão livre.

– Espere aí – exclamou o homem. – Assim não pode ser. Não vou permitir que uma dama vá puxando o meu cavalo.

Ergueu uma das pernas, passando-a sobre o animal. A égua se adiantou alguns passos. O outro pé do sujeito ficou preso no estribo e ele deu uns pulinhos para soltá-lo. Quando se viu com os dois pés no chão, passou a mão no paletó embolado na sela e o vestiu.

– Por que não vou puxando e a senhorita vai montada? – perguntou ele.

Emília balançou a cabeça. Estava cansada, com frio.

– Ela sabe que não precisa obedecer ao senhor. Não vai deixar que a conduza.

O homem franziu as sobrancelhas. Passou os dedos pelo bigodinho fino, balançando a cabeça, como se refletisse sobre alguma coisa importantíssima.

– Bom – disse ele afinal, com um suspiro. – Então, vamos os três a pé.

Insistiu em carregar os pertences de Emília, que ia puxando a égua. A moça ficou sem jeito ao lhe entregar aqueles sapatos velhos e a malinha toda deformada. Levou a mão aos cabelos, ajeitou o vestido de luto; estava horrível. Mas ele também. Saíram andando em silêncio. Na subida, o homem começou a ofegar. Parou inúmeras vezes, fingindo admirar a vista enevoada; Emília, porém, sabia muito bem que ele estava tentando recuperar o fôlego.

– Não estou acostumado com essas caminhadas – disse ele. – Não fazia ideia de que era tão longe. Em Vertentes, disseram-me que só havia duas formas de subir o morro: a cavalo ou a pé. Está indo visitar essa cidade, Taquaritinga?

– Não – respondeu a moça. A dor de sua conversa com Célio voltou e sua voz saiu embargada. – Moro lá, mas preferia não morar.

De repente, um sapo bem grande, que estava meio invisível misturado à lama da estrada, saltou na direção do grupo. O homem recuou, deixando cair o chapéu. Emília riu. Ele ficou vermelho, mas riu logo em seguida.

– Lá no Recife não temos sapos grandes assim – disse ele, limpando a lama da borda do chapéu que pegara do chão.

– O senhor é do Recife? – indagou Emília. – Que diabo veio fazer aqui?

– Estou fazendo uma visita. Tenho um amigo da faculdade de direito que mora aqui.

A moça o fitou. Aquele sujeito parecia velho demais para ser estudante. Devia ser mais velho que o professor Célio, lá pelos 30 e tantos, talvez até 40 anos.

– O seu amigo é o filho do coronel? – perguntou ela. – Felipe?

– Exatamente – respondeu ele. – Como adivinhou?

– Ele é a única pessoa por aqui que estuda na universidade.

– Estamos nas férias de inverno – disse o visitante, assentindo. – Pretendo passar o resto do mês de julho aqui. O meu pai acha que o campo vai me fazer bem – acrescentou, revirando os olhos e chutando uma pedra com as botas novas. Gesto estranho, aquele; parecia mais um menino emburrado do que um adulto.

– O senhor parece mais maduro que Felipe – arriscou-se a dizer Emília.

– Só me interessei pelo direito já mais tarde na vida – retrucou ele brevemente. – Antes, tentei a medicina e os negócios; mas as duas atividades combinam mais com o meu pai.

Parou, como se tivesse falado demais. Observou Emília. Os seus olhos se detiveram nos cabelos da moça e, depois, desceram até os seus pés descalços.

– Lá no Recife, as moças estão usando o cabelo desse jeito. A princípio, pensei que a senhorita fosse da cidade.

Emília compreendeu muito bem o peso das palavras que ele usou: a princípio. Ou seja, o tal sujeito tinha se enganado, achando que ela fosse uma moça da cidade quando, na verdade, não passava de uma matuta. Às suas costas, a égua balançou a cabeça e puxou as rédeas. Emília também as puxou.

– Estou indo morar na cidade – disse ela. – Talvez o veja por lá – acrescentou, estendendo a mão. – Emília dos Santos.

O homem abriu um sorriso largo, deixando à mostra os dentes miúdos e as gengivas escuras. Pôs a malinha no chão e tirou o chapéu com um gesto floreado.

– Onde está a minha educação? – falou ele, segurando com força a mão que ela lhe estendia. – Degas Van der Ley Feijó Coelho. Mas, por favor, me chame de Degas, como o pintor.

Emília assentiu, embora não soubesse a que pintor ele estava se referindo. Aquele sujeito tinha um nome estranho, mas o que a deixou espantadíssima foi a sequência de sobrenomes enfileirados. Todos soavam importantes, como se as três famílias que ele havia listado representassem uma longa e nobre linhagem que se pudesse acompanhar até o começo dos tempos. E faziam o seu próprio nome parecer tão pobre, tão banal...

– Olhe! – exclamou ele, arquejando e apontando para alguma coisa atrás dela.

Emília se virou. As nuvens que envolviam o morro tinham se dispersado. O mato estava verde. As casinhas brancas que pontilhavam a paisagem e a torre amarela da igreja de Vertentes pareciam pequenas e simplórias em meio a tanta terra...

– Que vista maravilhosa! – acrescentou o visitante, com um suspiro.

Dirigiu-se à beira do penhasco, levando o chapéu ao peito, na altura do coração. O vento agitava o seu terno branco, fazendo as lapelas úmidas do paletó lhe baterem no peito. A corrente de ouro bem fina do relógio pendia do bolso do colete e balançava de encontro à barriga dele como uma serpente encantada. Emília ficou olhando para o seu perfil: a pele cor de café com leite; o nariz, proeminente e adunco, terminava numa bolinha arredondada que lembrava até uma lágrima. Aquele homem parecia poderoso, com um ar de árabe, como um dos xeques dos romances que ela lia. Por duas vezes, a égua cutucou o seu braço com o focinho macio, como se quisesse fazê-la despertar daqueles devaneios.

 

7

 

De volta a Taquaritinga, Emília ficou feliz com a caridade do coronel. Fez para dona Conceição mais vestidos, toalhas de mesa e panos de prato que nunca. No fim de cada semana de trabalho, escondia o pagamento – uma pilha de notas amarfanhadas de mil-réis – debaixo da cama, perto das Fon Fons agora esquecidas. Preparava o próprio fubá e comprava carne-seca da pior qualidade, daquelas que só dava para comer depois de um dia inteiro de molho. Usava o pior sabão, daqueles bem escuros, para lavar a roupa e o corpo. Podia perfeitamente dispensar alguns luxos se aquilo ia ajudá-la a comprar uma passagem de trem. Era só uma questão de paciência.

O trabalho a impedia de sentir como a casa estava vazia. E também de ficar pensando em Luzia. Além de distraí-la das fofocas que circulavam a seu respeito. Só “mulheres da vida” moravam sozinhas. Ou eremitas. Portanto, Emília era indecente ou meio doida, ou até mesmo as duas coisas. A vizinha, dona Maria Chaves, aparecia inesperadamente, para ver como a moça estava vivendo. Logo todos falavam da péssima dona de casa que ela era, já que a poeira cobria o parapeito das janelas e havia retalhos de pano espalhados pelo chão. O padre Otto a aconselhou a ir morar com dona Maria ou, então, a ir trabalhar como empregada na casa de dona Conceição. Emília não lhe deu ouvidos. Era como se todos estivessem falando de outra pessoa, de outra Emília, enquanto ela era apenas a espectadora passiva de uma vida que nada tinha a ver com a sua própria. Os seus dias se limitavam à monotonia de apertar o pedal da Singer, ao ruído da agulha, ao toque do pano nos seus dedos cheios de calos. Em pouco tempo, conseguia identificar um tecido pelo tato: as rugas do crepe da china, os sulcos do linho, o brim mais grosso, a delicadeza do algodãozinho. Toda essa monotonia só era quebrada pela pilha de notas de mil-réis que ia crescendo debaixo da cama e a presença de Degas Coelho.

Não tinham voltado a se falar desde aquele dia lá no morro. Quando chegaram ao portão da casa do coronel, Degas viu Felipe, de olhos claros e sardento, deitado na rede da varanda, esperando. Mais que depressa, despediu-se de Emília e correu portão adentro, esquecendo-se da égua. A moça prendeu as rédeas do animal a uma árvore e foi para casa. Na manhã seguinte, viu três mulas passando diante da janela, indo em direção à casa do coronel. Havia três malas de couro presas com correias ao lombo dos animais, juntamente com duas raquetes de madeira e uma caixa de chapéu redonda. Depois disso, sempre que estava costurando na máquina a pedal de dona Conceição, ouvia a voz de Degas Coelho que ecoava pelo chão ladrilhado em duas cores, chegando até o quarto de costura. Reduzia então o ritmo das pedaladas para poder ouvi-la melhor. Ele elogiava a cozinheira e dava instruções às criadas sobre como engomar as suas camisas. Bufava e gemia jogando badminton com Felipe no quintal ao lado da casa. Agradecia ao moleque sempre que este ia correndo apanhar a ave que ele tinha acertado com um tiro. Durante as refeições, comentava com dona Conceição as fofocas da sociedade do Recife. O seu português era pontilhado de frases em língua estrangeira. As palavras que usava eram estranhas e incompreensíveis.

– Que diabo ele disse? – perguntava muitas vezes o coronel, dirigindo-se ao filho, e não a Degas, como se o hóspede não estivesse presente.

Era o único que não havia se rendido aos encantos do rapaz. Enquanto dona Conceição estava experimentando os vestidos novos atrás do biombo do quarto de costura, o marido ficava andando de um lado para outro, reclamando com a mulher em voz baixa. Emília se mantinha calada diante da máquina. O hóspede não sabia montar e não estava interessado em visitar a fazenda que ficava ao pé do morro. Não dava a mínima para bois ou cabras. E, o que era ainda pior, seguia os horários da capital. Felipe e ele ficavam jogando xadrez ou lendo poesia até altas horas da noite e só acordavam para o almoço. De manhã, o coronel sempre insistia para que Emília deixasse a porta do quarto de costura aberta. Como se não bastasse o barulho da máquina, o coronel ainda falava alto, arrastava cadeiras e batia portas até conseguir o que queria: o filho e seu convidado acabavam se levantando numa hora decente, mal-humorados e de olhos inchados.

– Você é um homem, não um morcego, Felipe – reclamava o coronel, dirigindo-se ao filho.

O mês de julho terminou, mas a situação naquela casa não mudou. Os professores da faculdade de direito da Universidade Federal haviam entrado em greve e Degas não foi embora quando as férias de inverno acabaram. Durante os primeiros meses que passou ali, sequer deu pela presença de Emília. O quarto de costura, próximo à lavanderia e ao tanque, ficava numa parte da casa onde Degas raramente punha os pés. A janela, porém, dava para a varanda lateral onde, certa tarde, o rapaz ficou andando de um lado para outro. Rodelas de suor escureciam a sua camisa debaixo dos braços. Era final de setembro e o sol estava quente e abafado, sinal de que a seca de verão logo começaria. Degas tinha um telegrama nas mãos. Leu o texto, fez uma cara emburrada e recomeçou a andar para lá e para cá. Emília nunca tinha visto alguém receber tantos telegramas. Praticamente a cada semana um mensageiro vinha trazer um envelope com uma mensagem enviada de Recife. A moça parou de pedalar. De onde estava, via um pedaço daquele papel fino e amarelo. Um dia, pensou consigo mesma, também receberia telegramas.

Degas parou de andar. Ergueu a cabeça. Emília não sabia se ele tinha acabado de ler a mensagem ou se, habituado ao barulho da máquina, estava espantado com aquele súbito silêncio. Mas o rapaz olhou na direção da janela do quartinho. As venezianas estavam abertas; as finas cortinas de algodão também. Podia-se portanto ver perfeitamente a moça ali dentro. Degas se aproximou do parapeito.

– Ah! – exclamou ele. – A minha salvadora. A minha amazona.

Emília ficou sentada. Inclinou-se para a máquina e voltou ao trabalho, acionando febrilmente o pedal. Quando ergueu os olhos, ele tinha ido embora. Continuou então a costura, de medo que ele percebesse o silêncio e voltasse. Sentia os dedos quentes. A garganta apertada. Sua salvadora. Sua amazona. Jamais alguém a tinha chamado de “sua”; nem lavradores, nem um cavalheiro. Aquilo era impertinente, audacioso. Algo que uma criança mimada diria. Teve ódio dele: não era amazona coisa nenhuma! Mesmo assim, sentiu-se reconfortada por aquela atitude. Significava ter uma existência fora do quartinho de costura, fora da sua própria casa escura e vazia, e ocupar um lugar na cabeça de um homem que não conhecia.

No dia seguinte, Degas cruzou os braços grossos no peitoril da janela e observou o seu trabalho. Na outra semana, postou-se à porta do quartinho. Emília começou a ouvir os seus passos no chão ladrilhado. Esperava que ele pigarreasse, anunciando a sua presença; só então erguia os olhos e dava com aquele sorriso que deixava as gengivas à mostra. Degas acabou entrando no quarto. Sentava-se numa cadeira diante da máquina de costura. No começo, falava pouco, queixando-se de estar entediado, dizendo que adoraria voltar para o Recife. Emília pedalava mais devagar para ouvi-lo. Talvez tenha sido aquele seu silêncio ávido, ou o calor, ou a rotina monótona dos dias passados ali, ou o barulho regular e hipnotizante da Singer, que acabou fazendo-o soltar a língua. Ou, quem sabe, pensou Emília mais tarde, Degas simplesmente gostasse de falar de si mesmo.

Tinha 36 anos. Era filho único. O pai tinha estudado medicina, mas descendia de uma longa linhagem de financistas e comerciantes que vendiam máquinas importadas para os canaviais. A família de sua mãe, os Van der Leys, eram proprietários dessas terras. Com a queda do preço do açúcar, não puderam pagar as máquinas compradas. Deram então a mão da filha, Dulce, em casamento ao jovem comerciante, e as suas dívidas foram perdoadas. Em criança, Degas foi mandado para um colégio interno na Inglaterra. Emília se lembrava de ter visto essa ilha no mapa do padre Otto. Viajou num navio a vapor. No porto do Recife, seus pais prenderam em seu paletó uma etiqueta com o seu nome, mas, durante a longa viagem, o pedaço de pano acabou caindo e o menino ficou apavorado, com medo de ter se perdido para sempre.

Quando Degas falava das suas viagens, Emília queria parar de trabalhar e ficar só ouvindo, mas temia que, com isso, o rapaz parasse de contar aquelas histórias. Ele descreveu a neve e como a sensação do frio intenso pode se parecer com a do calor intenso – aquela coisa dolorosa, que chega a fazer a pele arder. Descreveu o mingau de aveia aguado que comia diariamente no café da manhã, lá no refeitório do colégio interno. Contou que os meninos ingleses o atormentavam, chamando-o de “cigano sujo”, por causa do seu nariz e da cor da sua pele.

– Por quê? – indagou Emília, interrompendo-o. – Todo mundo por lá é rosado? Como o padre Otto?

Degas riu, inclinando a cabeça para trás. Emília puxou um fio solto de linha da agulha da Singer. Censurou-se por ter perguntado aquilo. Ajeitou o pé no pedal, mas, antes que pudesse recomeçar, o rapaz estendeu o braço na direção da máquina e pôs a mão sobre a dela.

– Você é uma gracinha – disse ele.

À diferença dos dedos do professor Célio, os de Degas eram grossos e morenos. A sua mão estava úmida de suor. Ali, em cima da sua, era quente. Emília tentou livrar a própria mão, na esperança de que ele prosseguisse com as suas histórias. Assim que ela deu o primeiro puxão, bem de leve, o sorriso do rapaz desapareceu. De repente, o seu rosto se anuviou e o seu bom humor se desvaneceu tão subitamente que parecia jamais ter existido. Como se o verdadeiro Degas não fosse aquele homem falante, encantador, mas a figura sombria, desagradável que estava ali debaixo. Ele se remexeu na cadeira, parecendo desconfortável no terno engomado. Havia uma sinceridade infantil, uma pontinha de desespero nos olhos que fitaram a moça. Naquele instante, desejando deixá-lo à vontade, ela não retirou a mão que ele segurava.

– Lá no Recife, as mulheres são verdadeiras tigresas – acrescentou ele. – Só pensam em fofocas e segredinhos. São dissimuladas. Mas você... – prosseguiu, apertando a mão da moça com mais força – Você é doce como uma criança. Uma criança linda.

Daquela tarde em diante, Degas ficava esperando-a junto à porta da cozinha, em meio às roupas que secavam nos varais e os sacos cheios de fubá, para acompanhá-la até em casa. Durante o trajeto, segurava a bolsa de costura com uma das mãos e acendia um cigarro com a outra. Fumava depressa, dando algumas longas tragadas e jogando fora o cigarro pela metade bem perto dos próprios pés. Enquanto pisavam com cuidado nas pedras irregulares da rua, Emília ia admirando os sapatos de duas cores que ele usava. À medida que as tardes iam ficando mais quentes, com o início do verão, a poeira passou a cobrir aqueles sapatos e as biqueiras de couro se tornavam opacas, como a casca dos besouros.

Ao lado dele, Emília não se sentia atordoada ou nervosa como quando estava perto do professor Célio. Nunca teve vontade de pegar a mão de Degas ou ajeitar o seu cabelo. Nunca sentiu aquele calor na barriga quando ele se aproximava. A não ser naquela ocasião, lá no quarto de costura, ele tampouco tentou pegar a sua mão. Nunca andou muito colado a ela. Nunca a fitou achando que ela não estivesse olhando. À noite, quando não conseguia dormir porque a cama parecia vazia demais e a casa silenciosa demais, Emília tentava imaginar cenas românticas com Degas, mas aquele torso roliço e o sorriso com as gengivas aparentes vinham se intrometer nos seus pensamentos, fazendo com que buscasse outras imagens: o rapaz apertando um copo de água contra a testa larga; tirando discretamente um fiapo do ombro do vestido dela; pegando um lenço meio amarfanhado do bolso do paletó de Felipe, dobrando-o com todo o cuidado e pondo-o de volta no lugar delicadamente.

Quando o verão começou, as bananeiras perderam boa parte da folhagem, deixando a serra de Taquaritinga marrom, com a aparência de uma região árida. Na volta para casa, enquanto caminhavam, Emília via as casinhas brancas dos sítios, parecendo menores que uma unha, encarapitadas nos flancos dos morros. Numa dessas tardes de verão, quando o sol ia se pondo lentamente, fazendo com que as suas sombras se alongassem distorcidas à sua frente, Emília teve vontade de interromper aquele caminhar calado e dizer a Degas: “A minha irmã tinha um braço aleijado. O povo daqui a chamava de Vitrola.”

Mas nunca lhe disse isso. Quando ele enfim lhe perguntou sobre a sua família, a moça lhe disse que todos tinham morrido. Como Degas era um cavalheiro, não lhe pediu maiores detalhes. Desconfiava que ele já tivesse ouvido falar do rapto de Luzia, mas não podia saber ao certo. O coronel não era de alardear as próprias falhas, especialmente diante de um hóspede de quem não gostava. Felipe estava na capital na época da invasão dos cangaceiros. Era bem provável que o filho do coronel soubesse do rapto, mas, com aquele frio desprezo que tinha por Taquaritinga, não devia nem se lembrar de Vitrola ou ligar uma coisa a outra, pensando nela como irmã de Emília. E os habitantes da cidade evitavam mencionar Luzia, como se, pronunciando o seu nome, fossem invocar um fantasma que viria assombrar a todos. Era como se a sua irmã nunca tivesse existido, nunca tivesse passado por aquelas ruas ao seu lado, nunca tivesse quebrado os dentes de um menino com uma cabeçada, nunca tivesse caído daquela mangueira. Emília só falava de Luzia com o padre Otto. Toda semana, sentava-se naquele confessionário apertado e ficava olhando o perfil do padre através da treliça de madeira. Confessou que estava dormindo no quarto da tia. Que tinha posto uma cortina na porta do seu antigo quarto porque ficava com o estômago embrulhado de vergonha sempre que olhava lá para dentro e via as coisas da irmã: roupas de baixo feitas de tecido grosseiro, um par de meias grossas, um xale que teria ajudado Luzia a se aquecer se Emília tivesse posto aquilo tudo na mala. Embora essas ideias a atormentassem, jamais comentou nada com Degas a esse respeito. Uma tarde, porém, falou da pilha de notas de mil-réis que guardava debaixo da cama.

– Ninguém acredita – disse ela –, mas um dia vou para a cidade. Vou ter uma costureira para fazer as minhas roupas.

Reduziu a marcha e sua voz se tornou quase um sussurro. Um dia, confidenciou Emília, teria uma cozinha ladrilhada. Comeria carne fresca. Teria um chapéu cloche. Tocaria a buzina de um carro.

Degas ficou olhando para a moça. Os cantos dos seus lábios se retorceram. Cobriu a boca com a mão, mas não conseguiu conter o riso. Emília se afastou. Era fácil para um homem como ele rir dessas coisas. Tinha uma camisa social para cada dia da semana; ela já as vira, perfumadas e imaculadas, arrumadinhas na lavanderia como uma fileira de coroinhas da igreja do padre Otto, envergando aquelas batinas engomadas. Degas jamais precisaria esfregar as manchas de suor da própria roupa toda noite. Podia se dar ao luxo de deixar comida no prato, restos que as empregadas de dona Conceição comiam mais tarde, quando a patroa não estava olhando. Emília não gostava da ideia de comer restos dos outros, mas, depois da morte de tia Sofia, a fome superou o orgulho e ela também se servia daquelas fatias de bolo pela metade ou da capa de gordura de uma picanha. Sabia muito bem que havia certas coisas nas quais Degas nunca pensaria: os cadarços de couro dos seus sapatos, o tecido fino das suas roupas, as etiquetas de seda pregadas na parte interna dos seus chapéus, com o endereço de um chapeleiro da rua do Sol. Todos aqueles detalhes que, para ele, pareciam banalidades eram, aos olhos da moça, indícios vitais de um outro mundo, um mundo no qual ela queria ingressar. No entanto, os preços das passagens de trem subiam todo mês. Todo mês Emília precisava refazer as contas do tempo e do esforço que lhe custaria para conseguir juntar o dinheiro necessário. Em meados de outubro, a passagem estava se tornando equivalente aos vestidos de seda de dona Conceição, com suas rendas trabalhadas e seus acessórios de prata: coisas que estavam pertinho dela, mas sempre fora do seu alcance.

O riso de Degas cessou. Ele enxugou os olhos com o lenço. Emília tentou pegar a bolsa de costura de sua mão.

– Não – disse o rapaz, e, de súbito, o sorriso no seu rosto se desvaneceu. – Desculpe. Não era minha intenção rir – acrescentou ele, fazendo uns gestos desajeitados com as mãos. – É a sua inocência que me impressiona, Emília. A sua simplicidade. É algo que me revigora. Me faz ver tudo o mais com outros olhos.

Emília aquiesceu e permitiu que ele a acompanhasse até em casa.

Ao final do mês de outubro, todos comentavam aquelas caminhadas sem ninguém para tomar conta da moça.

– Você está ficando com má fama – disse-lhe a comadre Zefinha, bem zangada. – O que sua tia ia dizer disso?

Emília, porém, não lhe deu ouvidos. Não havia mal nenhum naquelas caminhadas. Todo mundo via que Degas a deixava na porta de casa e voltava para a mansão do coronel. Mesmo assim, a vizinhança ficava se perguntando o que um rapaz da cidade, estudante universitário, poderia querer com uma bela órfã. Na feira, as mulheres julgavam saber a resposta para essa pergunta e fofocavam bem alto sempre que a moça passava por suas barracas: “Essa menina não vai poder mostrar os lençóis da cama depois da noite de núpcias.” Se Luzia estivesse ali, enfrentaria aquelas mulheres, dizendo-lhes alguma coisa bem esperta. Emília simplesmente se afastava, com as mãos trêmulas, o rosto afogueado. Comadre Zefinha tinha razão – aqueles passeios ao entardecer eram um perigo para a sua reputação já bastante comprometida –, mas a moça nem ligava para isso. Não tentava adivinhar quais seriam as intenções de Degas; depois do episódio com o professor Célio, não voltaria a se permitir criar expectativas românticas ou tomar qualquer atitude. Ao que parecia, só os homens tinham esse direito. Apesar de tudo, porém, Emília nutria as próprias intenções. Um dia, iria embora para a capital e precisava saber o que a esperava por lá. As caminhadas com Degas lhe permitiam ouvir as suas histórias, mergulhar na visão que ele tinha da vida na cidade grande, criar uma imagem mental do Recife e até mesmo de outros lugares.

Diante de tanto falatório, o coronel quis pôr fim àqueles passeios ao entardecer, mas dona Conceição tranquilizou o marido. Sugeriu que providenciassem alguém para acompanhar Emília e, quando o coronel concordou, ela piscou o olho para a moça. Graças àquela piscadela, Emília entendeu que as caminhadas com Degas eram mais que simples passeios. Dona Conceição era uma mulher mais velha e sua patroa, mas também era alguém que compreendia tanto os riscos quanto as possibilidades que aqueles passeios representavam. E parecia disposta a apostar nas possibilidades. Daquele dia em diante, Felipe passou a acompanhar o casal, andando um pouco mais atrás, emburrado, chutando pedras pelo caminho, bufando sempre que Degas ria. Com a presença daquele acompanhante, os passeios do casal tornaram-se algo oficial. Nem Emília nem Degas comentaram aquela mudança.

No dia 1 o de novembro, Degas parou no meio do passeio vespertino. Foi na praça da cidade. O rapaz tirou o chapéu. Ali debaixo, o cabelo era liso e fino, como o de um bebê.

– Recebi um telegrama do meu pai – disse ele. – A greve acabou. Tenho de voltar para o Recife.

E ficou esperando uma reação.

Emília tentou ver se sentia alguma coisa, mas, dentro dela, só havia calma. Surpreendeu-se ao perceber que ele não lhe faria muita falta. O rapaz lançava olhares nervosos para Felipe, que estava mais atrás, ocupado em acender um cigarro. O fósforo faiscou em suas mãos. Os últimos raios do sol iluminaram o seu rosto. As suas sardas tinham se acentuado naquele verão, depois de tantas cavalgadas e partidas de badminton com Degas. Parecia até canela polvilhada por todo rosto: menos na testa e em maior quantidade nas bochechas e no nariz. Felipe estreitou os olhos por causa do sol e lhes deu as costas. Mais que depressa, Degas pegou a mão da moça. Ela já tinha deixado que ele fizesse isso uma vez, lá no quartinho de costura, mas havia sido num recinto fechado e não numa praça pública. Emília se lembrou das mulheres da feira fazendo aqueles comentários sobre os lençóis. Recolheu então a mão que o rapaz segurava.

Degas deu de ombros, como se tivesse tentado se aventurar numa cena romântica sem atinar muito bem o que fazia.

– Emília – disse ele, com um suspiro. – Já faz muito tempo que perdi a habilidade de construir castelos no ar. Tanto você quanto eu temos as nossas necessidades. Você precisa ir embora daqui e eu...

Baixou o tom da voz. Voltou a pegar a mão da moça, desta vez com mais firmeza. Tinha a respiração pesada e o seu hálito cheirava a tabaco. Emília se sentiu meio tonta.

– Vou voltar para a capital – prosseguiu ele – E, se você aceitar, virá comigo. Será mais que uma visita. Você irá como minha esposa.

O sol tinha praticamente desaparecido no horizonte. Emília ouviu os pássaros baterem em revoada, deixando a praça, e o ruído das suas asas lembrava o som de tecidos resistentes, de qualidade, esvoaçando num varal. Por trás de Degas, viu a sombra do rosto de Felipe. A ponta acesa do cigarro reluzia. Ouviu o rapaz exalar e a fumaça rodopiar ao seu redor.

– Você irá como minha esposa – repetiu Degas, agora em tom mais alto.

Emília concordou com um aceno de cabeça.

Mais tarde, naquela mesma semana, depois que todos na cidade ficaram sabendo do noivado de ambos e Degas já havia trocado dezenas de telegramas com seus pais lá no Recife, Emília foi procurar o padre Otto. Precisava se confessar e marcar uma cerimônia. O casal viajaria como marido e mulher. Os boatos em Taquaritinga eram que Degas a tinha desonrado e, para salvar o bom nome da cidade – esses rapazes da capital não podiam continuar indo até lá e seduzindo as moças do lugar –, o coronel havia obrigado o seu hóspede a se casar imediatamente. Degas não tentou desmentir tais boatos. Nem Emília; a sua reputação não era tão importante quanto a perspectiva de ir embora. E admitiu isso para o padre durante a confissão.

– Afinal, a maioria das moças de Taquaritinga se casa por necessidade e não por amor – disse ela, fitando o lenço que tinha nas mãos e não o perfil do sacerdote através da treliça de madeira.

Tia Sofia lhe dissera isso mil vezes, tentando convencê-la a ser mais delicada com os seus pretendentes. O amor não é como uma picada de abelha, dizia a tia. Não nos atinge de forma rápida e dolorosa, quando estamos distraídos. É algo que se conquista ao longo de anos e anos de companheirismo e de lutas; o que faz com que um casal possa se entreolhar, ao cabo de décadas de casados, e dizer, cheios de orgulho, que os dois comeram muito sal juntos. Com Degas seria assim, pensava a moça, mas não com tantas dificuldades. Ela era criativa por natureza: já tinha transformado penas de galinha num chapéu da moda, criado modelos adoráveis com pano barato. Degas era, sem dúvida, a coisa mais refinada que já tinha encontrado pela frente. Tinha valorizado a sua inocência, a sua doçura, o seu jeito infantil, qualidades que Emília sequer sabia que possuía até o rapaz vir elogiá-las. Com tempo e imaginação, poderia tornar aquele homem um marido. Poderia moldá-lo. E, com o seu refinamento e o seu conhecimento das coisas do mundo, ele poderia guiar a sua mão.

O padre se manteve circunspecto e gentil. Só falou quando Emília terminou de se confessar.

– Lembre-se, o pecado se insinua com brandura – disse ele – Fala manso. Não grita. Sussurra. Acena para nós com doçura e possibilidades.

Depois disso, a moça foi até a casa do coronel, com as palavras do padre a lhe martelar a cabeça. Quem não quer doçura? Quem não prefere um sussurro a um grito? Quem vai querer apenas trabalho duro e austeridade? A seus olhos, a monotonia da virtude parecia tão estéril e vazia quanto o quarto de costura de dona Conceição – só paredes brancas e trabalho. Tinha perdido a tia e a irmã. Tinha desmanchado o altar de santo Antônio. Tinha deixado de ler os folhetins da Fon Fon. Só havia Degas.

Já faz muito tempo que perdi a habilidade de construir castelos no ar.

Em outra época, e nem fazia tanto tempo assim, aquelas palavras a teriam deixado desanimada. Mas não ficou desapontada ao ouvir a frase de Degas. Não queria nada que fosse feito de ar. Queria ladrilhos e concreto. Queria água corrente. Queria um vestido bonito, um chapéu elegante e uma passagem de trem de primeira classe, para estendê-la com o maior orgulho para o condutor, que pegaria a sua mão enluvada e a ajudaria a embarcar.