Entrevista: o diálogo possível

Cremilda de Araújo Medina · Capítulo 1 de 17

Páginas do PDF

Entrevista: o diálogo possível

1. Microfone para as vozes sufocadas

1 Microfone para

as vozes sufocadas

 

“A verdadeira vida comunitária é aquela que permite a cada indivíduo relacionar-se com o próximo em termos da relação EU—TU, e não em termos da relação EU—

ISTO.”

Martin Buber

 

A entrevista pode ser apenas um a eficaz técnica para obter respostas pré-

pautadas por um questionário. Mas certam ente não será um braço da com unicação hum ana, se encarada com o sim ples técnica. Esta — fria nas relações entrevistado—entrevistador — não atinge os lim ites possíveis da inter-relação, ou, em outras palavras, do diálogo. Se quiserm os aplacar a consciência profissional do j ornalista, discuta-se a técnica da entrevista; se quiserm os trabalhar pela com unicação hum ana, proponha-se o diálogo.

Um leitor, ouvinte ou telespectador sente quando determ inada entrevista passa

em oção, autenticidade, no discurso enunciado tanto pelo entrevistado quanto no encam inham ento das perguntas pelo entrevistador. Ocorre, com lim pidez, o fenôm eno da identificação, ou sej a, os três envolvidos (fonte de inform ação— repórter—receptor) se interligam num a única vivência. A experiência de vida, o conceito, a dúvida ou o j uízo de valor do entrevistado transform am -se num a pequena ou grande história que decola do indivíduo que a narra para se consubstanciar em m uitas interpretações. A audiência recebe os im pulsos do entrevistado, que passam pela m otivação desencadeada pelo entrevistador, e vai se hum anizar, generalizar no grande rio da com unicação anônim a. Isto, se a entrevista se aproxim ou do diálogo interativo.

Quando ocorre um a entrevista dirigida por um questionário estanque ou

m otivada por um entrevistador tam bém fixado em suas idéias preestabelecidas (em geral, coincidentes com o questionário) ou no autoritarism o im positivo, o resultado frustra o receptor. Até um leigo em técnicas de com unicação social percebe a ausência do diálogo. Frequentem ente, um adolescente ou um a criança com enta, diante de um a dessas entrevistas em televisão: “O suj eito nem term inou o pensam ento e o repórter cortou . . . ”

Reforçar apenas o fenôm eno de identificação e de fluência do diálogo na

técnica da entrevista perm anece na esfera do desem penho, da eficácia dos m eios de com unicação coletiva. Enquanto insistirm os na com petência do fazer, despoj ada de significado hum ano, pouco se avançará no diálogo possível num a sociedade em que im pera a divisão, a grupalidade, a solidão. Se os m eios são de comunicação, que se encare então o que é comunicar, interligar. O m aior obstáculo é o dirigism o com que se executam as tarefas de com unicação social. Na m aior parte das circunstâncias, o j ornalista (com unicador) im prim e o ritm o de sua pauta e até m esm o preestabelece as respostas: o interlocutor é conduzido a tais resultados. A caricatura deste fato se difunde por aí em entrevistas de televisão, cuj o script é pré-m ontado, ensaiado, ficando pouca m argem para o entrevistado decidir qual o rum o de seu pensam ento ou de seu com portam ento. O que m enos interessa é o modo de ser e o modo de dizer daquela pessoa. O que efetivam ente interessa é cum prir a pauta que a redação de determ inado veículo decidiu.

Os atuais m eios de divulgação acentuam a incom unicação. Um batalhão de

propagandistas atua na form ação e controle da opinião pública. Estam os longe da rede de com unicação em que se resgate a presença da pessoa, se abram canais para os testem unhos anônim os. O diálogo é dem ocrático; o m onólogo é autoritário. O prim eiro interpreta as vozes dos grandes m ovim entos populares do século XX; o segundo satisfaz ao j ogo da livre expressão, plataform a do liberalism o, nos séculos XVIII e XIX.

Desenvolver a técnica da entrevista nas suas virtudes dialógicas não significa

um a atitude idealista. No cotidiano do hom em contem porâneo há espaço para o diálogo possível. Estão aí experiências ou exceções à regra que provam o grau de concretização da entrevista na com unicação coletiva. Sua m aior ou m enor comunicação está diretam ente relacionada com a hum anização do contato interativo: quando, em um desses raros m om entos, am bos — entrevistado e entrevistador — saem “alterados” do encontro, a técnica foi ultrapassada pela “intim idade” entre o EU e o TU. Tanto um com o outro se m odificaram , algum a coisa aconteceu que os perturbou, fez-se luz em certo conceito ou com portam ento, elucidou-se determ inada autocom preensão ou com preensão do m undo. Ou sej a, realizou-se o Diálogo Possível.