Entrevista: o diálogo possível
3. Espetáculo ou compreensão?
3 Espetáculo ou
com preensão?
Num a classificação sintética da entrevista na com unicação coletiva,
distinguem -se dois grupos: entrevistas cuj o obj etivo é espetacularizar o ser hum ano; e entrevistas que esboçam a intenção de com preendê-lo.
Edgar Morin, no entanto, enum era quatro tipos na sua classificação:
1) A entrevista-rito. “Trata-se de obter um a palavra, que de resto não tem
outra im portância senão a de ser pronunciada hic et nunc.” Um exem plo típico são as palavras dos cam peões no final dos j ogos, das m isses após ter ganho o troféu, um ator com o Oscar na m ão. “As próprias palavras da entrevista-rito são rituais. Elas com pletam a cerim ônia.”
2) A entrevista anedótica. “Muitas, a m aior parte sem dúvida, das entrevistas
de vedetes são conversações frívolas, ineptas, com placentes, onde o entrevistador busca a anedota picante, faz perguntas tolas sobre as fofocas e os proj etos, onde o entrevistador e o entrevistado perm anecem deliberadam ente fora de tudo que possa com prom eter. Esta entrevista se situa no nível dos m exericos.”
3) A entrevista-diálogo. “Em certos casos felizes, a entrevista torna-se diálogo.
Este diálogo é m ais que um a conversação m undana. É um a busca em com um . O entrevistador e o entrevistado colaboram no sentido de trazer à tona um a verdade que pode dizer respeito à pessoa do entrevistado ou a um problem a. O diálogo com eça a aparecer no rádio, na televisão [Edgar Morin fala nos anos 60]. Foi necessário tem po para que a palavra hum ana se descongelasse diante do m icro e da câm ara.”
4) As neoconfissões. “Aqui, o entrevistador se apaga diante do entrevistado.
Este não continua na superfície de si m esm o, m as efetua, deliberadam ente ou não, o m ergulho interior. Alcançam os aqui a entrevista em profundidade da psicologia social. Tal entrevista traz em si sua am bivalência: toda a confissão pode ser considerada com o um strip-tease da alm a, feita para atrair a libido psicológica do espectador, quer dizer, pode ser obj eto de um a m anipulação sensacionalista, m as tam bém toda a confissão vai m uito m ais longe, m uito m ais profundam ente que todas as relações hum anas superficiais e pobres da vida cotidiana.”
Nesta classificação se observa o entusiasm o de Morin pela raridade das duas
últim as e a crítica velada ou explícita do autor à superficialidade das duas prim eiras. É neste sentido que vale agrupar as entrevistas em duas tendências: a de espetacularização e a de compreensão (aprofundam ento). No fundo, o prim eiro resultado é sem pre um a caricatura das possibilidades hum anas do segundo. Há, no entanto, subdivisões. À m edida que o j ornalism o e a com unicação coletiva vão desenvolvendo estilos de abordagem e aproveitam entos dinâm icos da entrevista, teríam os o desdobram ento dessas duas chaves.
• Subgêneros da espetacularização:
1) Perfil do pitoresco. Muito em voga com o caricatura do perfil hum ano,
fazem -se retratos e retratos de figuras proem inentes (em geral do m undo das artes, m as a onda chega ao m undo político, econôm ico, científico), em que se salienta quase exclusivam ente a fofoca, o grotesco, os traços sensacionalistas, o picante de acordo com os m odism os sexuais.
2) Perfil do inusitado. Mais do que a norm alidade e o cotidiano revelador da
pessoa em foco, procura-se extrair dela o que a caracterizaria, m esm o que à força, com o excêntrica, exótica.
3) Perfil da condenação. Muito utilizado no setor policial do j ornalism o, força a
entrevista para que o “bandido” sej a im plicitam ente condenado (raras vezes, isso se desloca para o policial). Ideologicam ente pautada pelo m aniqueísm o e o j ulgam ento apriorístico, este perfil trata o ser hum ano dentro da redução m ocinho/bandido.
4) Perfil da ironia “intelectualizada”. Aparentem ente um pouco m ais sutil do
que o tratam ento anterior (3), extrai da pessoa (em geral, um a fonte do m undo artístico ou cultural, político ou científico) um a form a de condenação: suas ideias, sua contribuição são ironicam ente contestadas. A seleção de frases, as contradições ocasionais, isoladas do contexto, e a adj etivação atribuída pelo entrevistador ao entrevistado acabam por transform ar em m onstro o m ocinho original. O exem plo histórico brasileiro m ais recente é o perfil da econom ista Maria da Conceição Tavares na revista Visão de 19 de m arço de 1986.
• Subgêneros da compreensão—aprofundamento:
1) Entrevista conceitual. O entrevistador busca bagagem inform ativa, põe sua
curiosidade e espírito aberto a serviço de determ inados conceitos que, reconhece, a fonte a ser entrevistada detém . O repórter no sentido m ais am plo de sua função de interm ediador na sociedade não é um especialista. É especializado, sim , na técnica de reportagem , na qual a entrevista ocupa espaço privilegiado. Vai procurar especialistas de várias correntes de inform ação e interpretação. No caso, está acim a de tudo interessado em conceitos, não em com portam entos. Isto, se entrevista um filósofo, um sociólogo, um cientista, um econom ista.
2) Entrevista/enquete. Aqui, o tem a é o fundam ental da pauta e procura-se
m ais de um a fonte para depor em relação ao tem a. Adm ite-se, neste caso, um a pauta ou questionário básicos para dar unidade à enquete. É im portante salientar que o aleatório será o critério j ornalístico na seleção das fontes. Não haverá pruridos de j ustificar a “representatividade” das pessoas ouvidas, porque não se trata de técnica de am ostragem da pesquisa em Ciências Sociais. Mas tam bém não bastam dois ou três depoim entos colhidos na rua (o fam oso “povo fala” tão utilizado pela rádio e tevê, com repercussões até m esm o no j ornalism o im presso) para dar a form a de um a enquete especializada.
3) Entrevista investigativa. O j ornalism o norte-am ericano e sobretudo o Caso
Watergate firm aram um paradigm a de cobertura: aquela que vai investigar onde a inform ação não está ao acesso do j ornalista. Os tem as de repercussão pública, com o adm inistração governam ental, gestão dos dinheiros públicos, abusos de poder são os preferidos para que se paute este tipo de investigação. A habilidosa entrevista em off e em on, que dê retaguarda ao off (de consum o interno do entrevistador), é a técnica essencial deste gênero de trabalho.
4) Confrontação—polemização. Em tem as polêm icos onde se pressente a
cham ada sem ente da discórdia ou, m ais do que isso, em que se visualizem as am bigüidades e contradições que se estabelecem sobre o fato, os veículos de com unicação coletiva apelam para o debate, a m esa-redonda, o painel, o sim pósio ou sem inário. O j ornalista deve denotar habilidade de m ediador, instigador e investigador, porta-voz de dúvidas do senso com um : a coordenação do debate é sua atitude específica.
5) Perfil humanizado. Ao contrário da espetacularização, a entrevista com
finalidade de traçar um perfil hum ano não provoca gratuitam ente, apenas para acentuar o grotesco, para “condenar” a pessoa (que estaria pré-condenada) ou para glam orizá-la sensacionalisticam ente. Esta é um a entrevista aberta que m ergulha no outro para compreender seus conceitos, valores, com portam entos, histórico de vida.
A entrevista j ornalística, em prim eira instância, é um a técnica de obtenção de
inform ações que recorre ao particular; por isso se vale, na m aioria das circunstâncias, da fonte individualizada e lhe dá crédito, sem preocupações científicas. Por um a distorção do poder nas sociedades, m uitas vezes se atribui esse crédito apenas a fontes oficiais, vale dizer, fontes do Poder, sej a ele político, econôm ico, científico ou cultural. Enfatiza-se, com isso, a unilateralidade da inform ação: só os poderosos falam através das entrevistas. Mas o que não se pode negar é que existe na entrevista a possibilidade de um diálogo dem ocrático, do plurálogo. Isso não aconteceria em um a com unicação hum ana dinam icam ente inserida em um a sociedade dem ocrática?
Observados os usos da entrevista j ornalística, com suas grandezas e lim itações,
é difícil estabelecer nítidas fronteiras em relação às técnicas das Ciências Sociais. Sobretudo se considerarm os que a com unicação hum ana é um dos obj etivos em com um . Em todo caso, eis um a tentativa de diferenciações:
1) Nas Ciências Sociais, quando se faz um a enquete, um a pesquisa de cam po,
a técnica de am ostragem é rigorosa. No j ornalism o, em bora se dê algum a aparência de representatividade, o aleatório é o específico. Assum a-se esse aleatório com o significativo, pois, a rigor, qualquer pessoa procurada no anonim ato tem algum a coisa de im portante a dizer.
2) O encam inham ento técnico do questionário nos processos extensivos e as
rigorosas atitudes do entrevistador nos processos intensivos (psicanalíticos, por exem plo) exigem um a com petência distinta do j ornalista. Este se orienta, num a técnica não-diretiva, num diálogo aberto e fluido, pela arte de construir a entrevista dentro de balizas, ou leis (para o alem ão Otto Groth), que configuram o j ornalism o: atualidade, universalidade, periodicidade e difusão. Por m ais am bição de historiador que tenha o entrevistador, ele estará im plicado em tocar o presente (atualidade); por m ais psicólogo que queira ser diante de um interlocutor confessional, ele terá de se ater a traços significativos para m uitas outras pessoas que, na comunicação anônima, se identifiquem com o entrevistado (universalidade); por m ais profundo que queira ser no tem po e no espaço, tal qual um artista ao pintar seu m odelo, não poderá se desvincular do timing “24 horas ou m enos” (periodicidade); e por m ais vanguardista que sej a, seus ím petos de ruptura artística não poderão colidir com a legibilidade da com unicação coletiva (difusão). No âm bito destas determ inações há, no entanto, espaço para a criação artística de um diálogo.
3) As Ciências Sociais são am biciosas ao tentar recapturar o tem po e o espaço
do hom em . O j ornalism o lida, fatalm ente, com as contingências da presentificação: nem história im ediata ele é, m uito m ais im perfeito e suj eito a erro que aparece ao m icroscópio. A olho nu, porém , cum pre um papel até m esm o ontológico. Este é o fenôm eno que tenta im pedir a morte do momento. Com todos os riscos.
4) Diriam os severos críticos do j ornalism o: o entrevistador das Ciências
Sociais é preparado, aprende técnicas, sistem atiza conhecim entos; o j ornalista age no im proviso, “aprende” no clim a de redação (o tal do faro). A crítica é procedente, m as esta fronteira só se estabelece por deficiências de aprendizado. A rigor, o j ornalism o sistem atiza sua autocom preensão fenom enológica há pouco tem po. A com unicação coletiva, então, nem se fala. Vinte ou trinta anos de estudos teóricos. Estam os, no Brasil, em um patam ar de artífices pouco conscientes de suas próprias possibilidades. Atropelam os, pelo faro, pelo jogo de cintura, pelas agilidades inatas ou pseudo-inatas, a etapa de acúm ulo de conhecim entos. Há até um certo preconceito quanto à teorização, com o se esse cam po específico não estivesse subm etido às m esm as características da reflexão sobre o fazer. Portanto, se o entrevistador das Ciências Sociais é preparado, o repórter tam bém deveria ser. Em bora em preguem ferram entas de trabalho ligeiram ente distintas, am bos têm de investir no aprendizado. E qual seria o aprendizado básico do com unicador social para exercer seu papel de vaso comunicante (conceito de Abraham Moles)? Este trabalho pretende ser um a pequena contribuição para este aperfeiçoam ento profissional.