Entrevista: o diálogo possível

Cremilda de Araújo Medina · Capítulo 5 de 17

Páginas do PDF

Entrevista: o diálogo possível

5. Desempenho e toque humano

5 Desem penho

e toque hum ano

 

A entrevista j ornalística, entre o m om ento de definição de pauta e sua

consecução, passa por quatro níveis. Com o se fossem quatro am pliações de propósitos — explícitos ou im plícitos — do com unicador social. Prim eiro, pesa o suporte delim itado pelo estágio histórico da técnica com unicacional. Segundo, o nível de interação social alm ej ado pelo entrevistador. Terceiro, suas possibilidades de criação e de ruptura com as rotinas em pobrecedoras das em presas ou instituições com unicacionais. Quarto, um propósito que ultrapassa os lim ites da técnica im ediatista, ou sej a, a tentativa de desvendamento do real — um a atitude de profunda especulação acerca da pauta.

A com eçar pela com petência técnica, há ingredientes que enriquecem o

com portam ento do entrevistador:

1) A pré-pauta, idéia-m atriz do tem a a ser abordado na entrevista, pode ser

sim plesm ente colocada oralm ente ou por escrito de um a m aneira esquem ática. O repórter sai, pressionado pelo tem po de execução da m atéria, sem m aiores detalhes, vai despreparado para a entrevista que não sabe bem por onde iniciar. Ou então, em um estágio m ais avançado da em presa j ornalística, o pauteiro bola a pauta e a in-forma, ou sej a, desenvolve o assunto nos seus antecedentes, im plicações, ângulos exploráveis e possíveis proj eções. Pode passar um a pauta m ais substancial ao repórter, tam bém através de um a conversação oral ou através de um texto m ais m inucioso. A finalidade precípua desse tratam ento é situar o entrevistador em um quadro com o m ínim o de dados que lhe possibilitem a m ovim entação no tem a, ainda que não tenha experiência nessa área.

2) O preparo do entrevistador vai, a partir de então, encam inhar a pauta. Se ele

não tiver um repertório generalista acum ulado — um a visão do social, do político, do econôm ico, sensibilidade e conhecim entos acerca dos fatos culturais —, terá de fazer um esforço im ediato para se atualizar. Para isso, recorrer ao arquivo de referências da em presa j ornalística (se o tiver organizado) é um a prática necessária, até m esm o para aqueles que se j ulgam conhecedores do tem a da pauta. Ler os textos da pasta, ou as pastas do assunto, reunidas no arquivo, é um a prática técnica fundam ental. Se o veículo de com unicação não proporcionar condições e um m ínim o de tem po para efetuar essa leitura prévia, arrisca-se a um subaproveitam ento da pauta. Há ainda outras form as de com plem entar o repertório que instrui a pauta, com o, por exem plo, telefonar para um a fonte de inform ação especializada que possa dar, verbalm ente, certa assessoria ao repórter que vai enfrentar outra fonte, tam bém especializada. Leituras específicas, m uito im portantes, j á dem andam um tem po m aior de in-form ação da pauta. Em entrevistas especiais, no entanto, não há com o escapar, sob pena de o entrevistador chegar com pletam ente desarm ado, ingênuo ou autoritário (crente que sabe tudo) diante de seu entrevistado.

3) O perfil da personalidade do entrevistador tam bém atua no desem penho

técnico da entrevista. Há neste trabalho um a série de características abordadas nos dem ais capítulos, m as em todos se insiste na personalidade dialógica, e não m onológica. Daí decorre um com portam ento aberto que, dinam icam ente, do ponto de vista de vida, e tecnicam ente, do ponto de vista da profissão, sabe encam inhar com agilidade o que, no princípio, era o questionário básico da pauta. Desenvolver o encadeam ento de perguntas, interferências, interrupções, re-orientações no discurso do entrevistado é, sem dúvida, a dem onstração de um desem penho m aduro do repórter. E dessa evolução da entrevista vai depender, em grande parte, o resultado final quando ela for m ontada na m atéria com unicacional.

A área de interação social envolve, além da técnica, um com prom isso com a

com unicação coletiva. Deixa-se o terreno exclusivo do desem penho individual do técnico, para se valorizar seu papel social. Gostaria de destacar três com portam entos:

1) O entrevistador tem de encarar o m om ento da entrevista com o um a

situação psicossocial, de com plexidade indiscutível. Se for um iniciante sem preparo ou um prático profissional inconsciente da dim ensão psicológica e social daquele encontro com a fonte de inform ação, as coisas acontecerão atabalhoadam ente, com agressividade, im posição, autoritarism o. Se não houver consciência das etapas de observação m útua — nam oro, busca da confiança recíproca, entrega —, a m atéria resultará num a versão pobre do que teria sido um a entrevista.

2) O entrevistado tam bém tem de ser considerado. Sua atitude, da m esm a

form a que a do entrevistador, poderá ser m onolítica, autoritária, agressiva (é só lem brar o com portam ento de Jânio Quadros com a Im prensa), sem capacidade ou perm eabilidade para o diálogo. Haverá aí um obstáculo considerável para o entrevistador poder trabalhar. Um a fonte de inform ação que não identifica seu com prom isso social de delegar inform ações à com unidade, certam ente im porá barreiras psicossociais. Ou sej a, um dem ocrata age dem ocraticam ente liberando o diálogo. Um autoritário age autoritariam ente sonegando o diálogo.

3) De qualquer m aneira, m esm o tom ando com o referência um a situação ideal

de em patia entre entrevistado e entrevistador, o que se coloca de im ediato — em todas as entrevistas — é um a dinâm ica de bloqueio e desbloqueio. De fato, as pessoas andam arm adas um as em relação às outras. Então, no que se refere ao contato com j ornalistas, o caso é m ais grave. Por princípio, um j ornalista diante de qualquer pessoa é, no m ínim o, um invasor, um perturbador da privacidade, aquele tipo que quer tornar público o que o indivíduo nem sem pre está disposto a desprivatizar. E, na pior das hipóteses (de desem penho técnico), o j ornalista é aquele que deform a tudo o que se diz. De um extrem o a outro, im põe-se um a tarefa extra à pauta: preparar a atm osfera de trabalho, proporcionar, com habilidades que têm m uito de psicológicas, ou pedagógicas, um a abertura para o desbloqueio, o desarm am ento. Só após desanuviar as desconfianças é que efetivam ente se pode abordar a pauta.

Um repórter criador aceita este desafio da interação social e a transform a

num a obra de arte (social). Alguns traços revelam o grande toque m ágico do entrevistador:

1) Um a sensibilidade diferenciada que se m anifesta através do gesto, do olhar,

da atitude corporal. Um repórter que se debruça sobre o entrevistado para sentir quem é o outro, com o se estivesse contem plando, especulando um a obra de arte da natureza, com respeito, curiosidade (ainda que a fonte de inform ação represente um a ideologia totalm ente contrária à do repórter), por certo esses fluidos positivos de um a percepção aberta chegarão, por com plexos sinais, à percepção do entrevistado. Nunca é dem ais salientar que o diálogo se dá sobretudo no nível da sensibilidade.

2) O toque criador se reforça diante de situações im previsíveis ou

aparentem ente intransponíveis. Um a fonte de inform ação a princípio inexpugnável desafia o criador. Um gesto, um a palavra, um a entrega despoj ada, confessional, serão sem pre configurações das possibilidades criativas num a relação hum ana difícil de enfrentar. Já um técnico rotinizado tende a desistir ou a fazer a m atéria contra a fonte-obstáculo. Não se pode quantificar e sistem atizar as atitudes criativas, elas serão sem pre um a resposta pessoal a dada situação. O que é preciso é aceitar os desafios e praticar a criatividade, experim entar as n saídas para atingir o grande fim — o diálogo.

3) Os trunfos colhidos de um a vitória inicial — enfim , aconteceu o contato,

ocorre a aceitação m útua e há um m ínim o de confiança na relação — não devem ser faturados no prim eiro m om ento, deve-se deixar rolar o resto, relaxadam ente. Só um criador lim itado, ou um pseudocriador, se contenta com o prim eiro verso. Não, a luta vai adiante, não term ina com a relativa vitória inicial. A m édio prazo e até a longo prazo, cada entrevistado representa um a relação hum ana durável, cultivável, por m ais opostas que sej am suas posições, insisto, em relação às do entrevistador. Haverá, portanto, outros capítulos desta relação social e haverá até a possibilidade de acontecer um ato culm inante que se pode nom ear com o interação social criadora. Neste caso, tanto entrevistado com o entrevistador são duas pessoas, sim plesm ente duas pessoas, que se auto-elucidam a respeito de coisas da vida e conceitos específicos, j uízos de valor, ao m esm o tem po que se m odificam entre si. Realm ente, a força de tal encontro dialógico (que não é m isticism o, é realidade possível) ilum ina o instante concreto, sacode a em oção e a razão: am bos saem perturbados e sem definir m uito bem o que aconteceu. Só se sabe que aconteceu. Essas duas pessoas colocadas um a diante da outra por circunstâncias que não seu histórico individual, cruzaram definitivam ente cam inhos, não são m ais indiferentes. A carga em ocional da interação social criadora vai desaguar na m atéria editada com esse tom m aior que fica visível, audível, e será socializado através da plena identificação: o leitor, telespectador, ouvinte comunga com essa relação total, entra nela pela m agia da linguagem sim bólica que substitui o ato da entrevista.

Chega-se ainda ao patam ar m ais elaborado em que são raros, no m ercado

brasileiro, os profissionais que nele investem . O j ornalista que investiga o fato social, que enriquece suas preocupações im ediatas com um a am bição filosófica, esse não se encontra por aí com facilidade. As dificuldades da sobrevivência, a luta com petitiva pelo pão de cada dia, a falta de círculos de estudo alternativos à rotina técnica provocam em pobrecim ento no repertório. Em todo caso, im põe-se que, um dia, o j ornalista avance na decifração do Real, este tom ado com o categoria bem m ais geral do que a notícia e seu estrito sentido técnico.

A especulação de um tem a se configura nos conteúdos desenvolvidos num a

m atéria, considerada então grande matéria. São basicam ente três os instrum entais de aprofundam ento:

1) Enfrentar o Real, recapturado num a pauta, exige um a m oderna

conceituação de busca da Verdade. Os critérios difundidos, em m anuais de redação e livros técnicos (de receituário) de j ornalism o, prosseguem insistindo na categoria da objetividade. Um a categoria m uito pobre, do ponto de vista epistem ológico. Até m esm o os j ornalistas norte-am ericanos, pioneiros da ideologia da objetividade, típica do j ornalism o noticioso da prim eira m etade deste século, recentem ente polem izaram o tem a à luz de um a discussão sobre a Verdade. Na revista Diálogo [19 (1), 1986], o artigo “A Verdade e a Im prensa” reuniu, no debate, j ornalistas, editores de grandes j ornais, professores e pesquisadores, bem com o representantes do setor econôm ico. A discussão não vai desaguar na clássica obj etividade, im parcialidade, m ito do j ornalism o desenvolvido e eficiente. Sem entrarem em categorias filosóficas a propósito do conhecim ento da Verdade, esses debatedores destacam , no m ínim o, as contradições entre obj etividade e subj etividade na representação do Real com que o j ornalista trabalha.

No prim eiro livro que publiquei, em co-autoria com Paulo Roberto Leandro, A

arte de tecer o presente (edição dos autores, 1973, esgotado), reexam ina-se a tentativa de decifração do Real através da grande reportagem , o que se cham ava, nos anos 70, de jornalismo interpretativo. Tom ando por base a Teoria da Interpretação contem porânea que resulta do entroncam ento dos pensadores Karl Marx, Nietzsche e Freud, abordada em profundidade por Paul Ricoeur, procura-se conceituar o esforço de conhecim ento do Real. O repórter se lança a um a pesquisa ou ato de decifração possível perante a com plexa rede de forças que atua sobre o fato j ornalístico (a pauta). Surge então a consciência de que entram os num a especulação ilim itada, um m ergulho na Verdade de m uitas faces, contradições, em que a atuação do j ornalism o é sem pre relativa, nunca totalm ente obj etiva, cientificista, com o pretendem os clássicos do m ito da obj etividade. Diante de um a Realidade cifrada (com o Freud diante do Sonho), inicia-se um processo de decifração. Trata-se da arte de tecer o presente, e não a garantia científica de atingir a Verdade Absoluta.

2) Neste processo de decifração valem outras garantias: os cuidados técnicos

da apuração possível da Verdade. A história do j ornalism o, por um lado, e as técnicas de trabalho das Ciências Hum anas, por outro, acum ulam conhecim entos que dão respaldo a um a reportagem que tenta apurar os fatos e a rede de forças que atua sobre eles. Inevitavelm ente, os cam inhos se bifurcam : as Ciências Hum anas m aturam a pesquisa do Real e atingem resultados m ais aproxim ados da Verdade; o j ornalism o, pela contingência da presentificação e da periodicidade, inform a aproxim ações m ais superficiais, suj eitas a erro, m as, faça-se j ustiça, salvam o presente histórico da m orte; contribuem , por sua vez, com algum as facetas da Verdade possível. De qualquer m aneira as técnicas de apuração dos fatos tendem a se aperfeiçoar, não para atingir a precisão científica, m as um rico quadro de referências para que os próprios cientistas sociais o utilizem em sua análise m ais profunda.

3) Verifica-se a hum ildade da arte de tecer o presente na atitude de

conferência dos dados apurados j unto a fontes especializadas. Pode ser nom eado com o um critério m eram ente técnico, pegar a m atéria em bruto e conferir todos os dados delicados (sej am num éricos, conceituais ou form uladores de j uízos de valor). No fundo, porém , é um a atitude sábia, a de quem se reconhece com o frágil decifrador do Real e precisa se cercar de toda a segurança possível que, certam ente, não reside no seu saber, m as no saber acum ulado pelo conhecim ento científico. O Brasil m uito recentem ente viveu essa situação concreta com a prom ulgação da Reform a Monetária (28 de fevereiro de 1986). Deixo a seu critério avaliar o com portam ento dos j ornalistas brasileiros quanto à decifração da Verdade, apuração dos fatos e conferência de dados antes de os editar.