Entrevista: o diálogo possível
7. Real e imaginário, uma só aventura
7 Real e im aginário,
um a só aventura
“A aventura humana é essencialmente
pensante e reflexiva, ou deixará de
ser aventura para se tornar peregrinação.
Nas potencialidades intrinsecamente
humanas reside a esperança da nossa aventura,
na percepção de que hoje ela é planetária,
envolvendo-nos a todos num caminhar
comum, no entendimento de que o
'amai-vos uns aos outros' não é uma
simples mensagem religiosa —
é a única saída.”
Milton Greco
Diante da densa textura que é um a pessoa, posta diante de m im , repórter, para
ser entrevistada, pensem os um instante j unto com o autor do texto acim a reproduzido:
O homem é um produto recorrente de 15 bilhões de anos de existência do Universo e de alguns quatro ou cinco bilhões de anos de evolução do planeta Terra, que existem nele e nele se manifestam. O homem é energia, matéria, vivo, animal, metazoário, cordado, mamífero, placentado, primata, antropoideo, hominoideo, hominida, homo e sapiens. Todas essas etapas estão no homem,
nele se manifestam, tanto na sua aventura ontológica como filogenética. (A aventura humana entre o real e o imaginário. São Paulo, Klaxon, 1984)
É desse acúm ulo recorrente que se alim enta a investigação do autor quanto ao
real e o im aginário na vida dos hum anos:
O ancestral do homem, o antropóide da era terciária, aqui considerado o Ramapithecus, era certamente um ser objetivo como
qualquer animal, pautando sua luta pela sobrevivência por uma programação totalmente direcionada e o que o fazia investir toda a sua atenção no momento presente. A atividade puramente objetiva
talvez tenha permanecido mesmo nos primeiros hominídeos, pois não se sabe exatamente quando se deu o salto para a subjetividade, só reconhecida nos recentes neandertalenses. Não importa porém em que época e com que espécie de homem se tenha iniciado o novo ciclo — o ciclo do mundo subjetivo na espécie humana. A entrada do homem no mundo subjetivo estabelece um marco fundamental na aventura humana, pois é a conquista de um novo universo, de uma nova realidade, onde o pensamento já não se investe totalmente no momento presente, onde irrompe a noção de tempo no seio da consciência, onde surge a consciência de, transformação de um estado para outro — um salto noológico e verdadeiramente humano.
Aproveitando o em balo, saltem os tam bém para a contem poraneidade, bilhões
de anos nesse pulo, para surpreender o contato hum ano de um entrevistado e de um entrevistador. Até que ponto eu, repórter pautado por m eu j ornal, tenho de ser objetivo perante a fonte de inform ação que vou entrevistar? É preciso usar nosso traço hum ano, a recorrência acum ulada, a m em ória. Valho-m e de Edgar Morin: quando o hom em tom ou consciência da m orte, rom peu definitivam ente com o puro ser obj etivo; para se defender da m orte, o hom em constrói um novo m undo, o subj etivo, liberto de tem po e espaço. “Irrom pera o im aginário na percepção do real, e o m ito na visão do m undo” (O enigma do homem). Que ingenuidade, a de m eu editor, ao m e instruir na total objetividade. Volto a Milton Greco e ao resgate da aventura hum ana:
O trato subjetivo, deflagrado provavelmente pela morte, propaga-se pouco a pouco a todas as atividàdes humanas, passando cada objeto, cada situação a ter uma dupla existência, uma empírica, outra mental, uma real, outra simbólica, uma concreta, outra imaginária.
Proponho outro salto, não de alhos para bugalhos: Maria da Conceição Tavares,
econom ista e professora universitária, TV Globo, m arço de 1986, im ediatam ente após o decreto-lei da Reform a Monetária (28 de fevereiro). O program a, de m ais de duas horas de duração, se propõe destrinchar o “pacote”, colocar na linha telespectadores e j ornalistas para questionarem os m entores das m edidas adotadas, pedirem explicações e análises aos especialistas no tem a. Tudo se dá no dom ínio da tradicional inform ação obj etiva, na aridez racional dos dados num éricos, econôm icos. Com o então receber, num dado m om ento, as lágrim as da professora Maria da Conceição Tavares? A im agem , carregada de subj etividade (concreta, nas lágrim as), entrou nas câm aras, explodiu os cânones do enquadram ento sob m edida. Depois, só depois, m uitos com entaristas analisaram a situação com o pieguism o; que a Globo faturou o “destem pero” em ocional da professora; cena, j ogo de cena; o governo se reforçou pelo sentim entalism o. E outros diagnósticos. Não im porta o que digam , o fato é que todos se em ocionaram , um a significativa audiência se identificou com aquele instante hum ano da pesquisadora, a subj etividade à flor da pele. Real e im aginário trançaram m ais do que núm eros de tabelas na cabeça preocupada de cada telespectador.
Nesse caso, o m undo interno visivelm ente se pôs no rosto expressivo de
Conceição Tavares. Mas quando o entrevistado se m ascara de um a aparência obj etiva e se presta ao j ogo de obj etividade proposto pela própria pauta do repórter? Há quem o aceite e se satisfaça com o espelho das aparências. No fundo, todos os entrevistados am bicionam levar na conversa qualquer repórter. Se postam na sua aparência j á estereotipada (aquilo que esperam dele nas situações públicas) e o repórter, por sua vez, tam bém cum pre com seu papel — agressividade, agilidade no gatilho, encostar na parede o entrevistado, leis que traz da redação e ai dele que não as execute, principalm ente se for um j ovem aprendiz de feiticeiro. Am bos brincam de entrevista e o resultado é vendido no m ercado em espaços nobres, páginas am arelas. Ou sej a, vende-se o não-dito pelo dito.
Se a em pulhação obj etiva é crim e de lesa-personalidade em um a entrevista
econôm ica, política, j urídica, ecológica, m édica, então o que dizer de um perfil hum ano? Editam -se retratos de pessoas, quase sem pre de olim pianos, que, quando o obj eto do perfil se contem pla nessa interpretação, percorre-o um calafrio de perplexidade no prim eiro m om ento, profunda irritação no segundo m om ento. Só não bota a boca no m undo, porque os m eios de com unicação estão escudados pelo poder que, ditatorial ou predatoriam ente, pode criar ou m atar um a pessoa, um m ito.
Mas ainda resta esperança. Lugar-com um ? Não, a saída para quem investe na
ruptura, na m udança. Justam ente nos perfis há fôlegos de renovação, logros respeitáveis. A rigor, todos os veículos, m uito em especial a partir dos anos 50, com eçam a valorizar a hum anização das cham adas fontes de inform ação. Nesse sentido, j ustiça sej a feita às experiências de O Cruzeiro, Correio da Manhã, Jornal do Brasil, Jornal da Tarde, revistas Quatro Rodas, Realidade e Bondinho. O despertar para os traços hum anos, no fundo, os subj etivos, tam bém foi alim entado pelos novos j ornalistas norte-am ericanos dos anos 60, liderados pela form ulação teórica de Tom Wolfe. Neste m ovim ento de oxigenação na clássica obj etividade j ornalística (dicionarizada pelo j ornalism o noticioso dos Estados Unidos), verifica-se um a aproxim ação intuitiva com a literatura. Tom Wolfe aponta essa identificação no Realism o. Mas o que os j ornalistas não se perguntam é por que as técnicas narrativas os atraem , para além , claro, da am bição de, eles próprios, se guindarem a escritores.
Ao lidar com o perfil hum anizado, consciente ou inconscientem ente se faz
presente o im aginário, a subj etividade. Com o enquadrar nos lim ites de um questionário fechado, dum a cronologia rígida, de um a presentificação radical um a personagem que ultrapassa estes ditam es? O Diálogo Possível, se acontecer, j á contraria esta fórm ula. O entrevistado passeia em atalhos, m ergulha e aflora, finge e é, sonha e traduz seu sonho, avança e recua, perde-se no tem po e no espaço. O repórter, se for um bom curtidor de papos sem lim ites profissionais, em barca e se deleita. Chega então à redação e que fazer? Com o m ontar o perfil se as coisas não se sucederam de um j eito ordenado, com o m anda o figurino dos m anuais de redação? É então que ele se lem bra de algum texto literário que leu recentem ente, de um a solução surpreendente no caos de determ inado personagem ficcional. Nossa! Então é possível representar um diálogo que foge à obj etividade?
O que esse repórter não se dá conta é que o artista percebe m uito bem a
interpenetração de real e im aginário e lida com o um bom m aestro diante desses dois m undos que convivem na realidade do hom em . O artista tem a sensibilidade aberta para perceber, se deixar contam inar pela aventura de seu personagem , e constrói ferram entas para transform á-la num a representação sim bólica, o texto.
Há que investir, portanto, na percepção do real— im aginário tal com o ele se
m anifesta no m odo de ser e no m odo de dizer de um entrevistado. A seguir, com o decorrência natural, sem forçar com qualquer form alism o literário, é preciso ter um bom repertório de saídas narrativas, por certo desenvolvidas pela arte, para tentar a representação possível do Diálogo Possível na com unicação coletiva.
Nessa inter-relação sim bólica em que se dá a entrevista, não se pode om itir
tam bém o real/im aginário do próprio repórter. A recom endação expressa de que ele se com porte obj etivam ente tapa o sol com a peneira. Por m ais distanciam ento que se im ponha ao lidar com outro ser hum ano — o entrevistado —, não se evitará nunca a interferência do eu subjetivo do entrevistador, sej a ele escudado na oposição de ideias ou no esforço para não se “perverter” pela sim patia que poderá invadi-lo. Essa ilusão obj etiva cai por terra no prim eiro m om ento de aproxim ação: am bos os oponentes, digam os assim os protagonistas de um a ação convencionalm ente feita de estocadas, entrarão em cam po através de um a linguagem (verbal ou não-verbal), um m odo de dizer, com prom etida com o real—im aginário de cada um .
O desafiador dessa aventura é a inquietude, m antida viva, de ir-ao-encontro-
do-outro, não tom ando o outro com o ISTO, obj eto em que im prim irei, a ferro e fogo, o m eu EU. Com o diz Martin Buber, o TU está pleno de m istérios a serem sondados. À m edida que EU busco a TI, m e proj eto por inteiro, m e perco e m e acho, m e revelo no ENTRE o EU e o TU. O processo é de aprendizado, educativo: eu, entrevistador, lanço esses desafios para que o outro se revele no plano m ais im ediato de m inha pauta (m atéria j ornalística, presentificada) m as m atizado, pelo estím ulo à abertura, por claro-escuros de sua subj etividade, que não estariam na pauta, m as a enriquecem . Ao m esm o tem po, eu aprendo com o m e com portar diante da abertura e certam ente serei eu tam bém exigido para m e abrir, m e colocar no tem a do diálogo. Minhas posições racionalizadas, verbalizadas, m eus rubores e trem ores, piscada de olhos, m ãos inquietas serão captados pelo interlocutor, darão força, confiança à própria abertura, m ergulham os am bos em um abism o im previsível. Se conseguirm os sair dele através do nível consciente do diálogo verbalizado, terem os aprendido algo de cada um de nós e m uito de nossa inter-relação.
Por que insistir no im aginário, se este é o dom ínio da arte por excelência? Diz-
se: o dom ínio do j ornalism o é o do real aparente e im ediato. Mas, ao se tratar do Hom em , sej a ele personagem ficcional ou fonte de inform ação, não há com o desvincular essa am biguidade entre o real e o sonho, o obj etivo e o subj etivo. Mesm o que se trate da notícia de sobrevivência im ediata. Desde m ilhões de anos, “para sobreviver é necessário interpretar o m undo” (Milton Greco). E o que é interpretar o m undo? O m esm o autor responde:
A trajetória do pensamento humano, desde suas raízes míticas, religiosas e filosóficas mais antigas, tem sido o esforço em construir pontes sobre o abismo que separa o mundo real do mundo mental. Ciência, magia, religião, filosofia têm sido fontes de esperança para o projeto existencial humano, buscando resolver, ou pelo menos amenizar, o seu jogo sobrevivencial.
Incluiríam os o j ornalism o entre essas fontes de esperança.