Entrevista: o diálogo possível
8. E agora, que faço com tudo isso?
8 E agora, que faço
com tudo isso?
Desçam os à nossa pobre condição. Já obtive a entrevista, enfrentei a fera,
preparei o cam po de trabalho, a conversa engrenou, acho que tenho um a boa m atéria nas m ãos, nada m e garante, m as sinto, sei lá. E agora, quando chegar à redação, que faço com tudo isto?
Penso no cam inho. São poucos m inutos. Lem bro da voz de Mercedes Sosa
cantando versos de Victor Jara, Te recuerdo Amanda, la calle mojada, corriendo a lafábrica donde trabajava Manuel. . . La sonrisa ancha, la lluvia en el pelo, no importa nada, ibas a encontrarte con él. . . con él, con él, con él, con él. . . Son cinco minutos, (. . .)
Nada além de cinco m inutos e os am antes se encontram , se alim entam .
Pronto, j á m e distraí um pouco, faz bem depois de um a entrevista em que as palavras dançam na cabeça. E agora, por onde com eçar, com o m ontar esta m atéria? Preciso tirar o cavalinho da chuva, porque, prim eiro de tudo, tenho de discutir com o editor, afinal, qual o espaço, qual o aproveitam ento dessa coisa toda. . .
Aí está. Um a m atéria j ornalística faz parte de toda um a engrenagem , um
processo de decisões. Quer o repórter queira ou não. Vom os a um desses esquem as que não são tão agradáveis com o um a canção de Victor Jara:
Não há com o escapar às características industriais: inform ação tocada por
m uitas m ãos. Im porta agora destacar o m om ento em que o repórter chega da rua com a m atéria colhida e deve dar-lhe a prim eira form a. Há dois aproveitam entos básicos que o editor, em geral, determ ina. (De repente, pode ser m enos autoritário e ouvir o repórter, convencer-se de que a sensibilidade de quem esteve exposto à realidade dê um a orientação m ais adequada. O diabo é que isso exige espaço ou tem po, m atéria-prim a que se sobrepõe, na escassez, às virtudes da inform ação . . . ) Mas vam os aos dois aproveitam entos possíveis da entrevista realizada:
1) O depoim ento coletado pode ser um sim ples aval de um a notícia curta.
Ouviu-se fulano ou beltrano sobre o fato que se está relatando de form a m uito sintética, um a notícia de 10, 20, 30 linhas. Qualquer nota j ornalística, dentro do estilo noticioso, colhe algum a declaração entre aspas de um dos protagonistas da ação social para dar vivacidade e autenticidade à narrativa de terceira pessoa desenvolvida pelo j ornalista. Protagonistas (e/ou antagonistas), ainda que através de um a esquem ática inform ação, consagram o fato com o real e presentificado. Nesse caso, o repórter realiza um pobre trabalho de cam po, quase sem pre se valendo do telefone, que é m ais côm odo. Outras vezes, quando sente que deve investir na entrevista, traz um grande núm ero de inform ações m as, depois, passa pela frustração de reduzir tudo a 20 ou 30 linhas. Se for desses teim osos resistentes, ainda põe no papel, por descargo de consciência, tudo que aconteceu. Mais trabalho dará para o copidesque, que reescreverá, cortando às vezes até m esm o o essencial da m atéria. Nesta situação, se após brigar com o editor, o repórter não vendeu sua m atéria (a que efetivam ente foi obtida j unto à fonte de inform ação), é preferível que ele próprio reduza na prim eira form a do que deixar ao arbítrio nem sem pre tranquilo do redator ou editor do texto final, da m atéria. Há ainda a rara possibilidade, nesse alucinado processo industrial, de ocorrer um certo diálogo entre o repórter e o copidesque após a entrega da prim eira form a. Esta negociação ou troca de ideias resulta positivam ente para am bas as partes. Muitas vezes, sej am os j ustos com o redator m aduro e responsável, ele cham a a atenção do repórter para um a inform ação que lhe parece fundam ental e está diluída na m atéria ou até lá pelas últim as linhas. Ou então um dado im preciso, m al encam inhado. A estrutura ou m ontagem das inform ações ganha m uito com o trabalho a quatro ou m ais m ãos.
De qualquer m aneira — m ais ou m enos lubrificado o processo solidário (ou
autoritário) deste fabrico da notícia —, o aproveitam ento cotidiano das entrevistas realizadas no dia a dia da com unicação coletiva é frustrante. E o j ovem repórter recebe, de im ediato, ao se iniciar na profissão, essa ducha fria: executa um trabalho superficial, fugaz. Quase sem pre as entrevistas rápidas em que se aproveitam um a ou duas declarações e caem na vala com um do noticiário são m uito m ais um logotipo das cham adas fontes de inform ação que avalizam o j ornalism o, do que sinais de diálogo na com unidade.
2) A Entrevista (com E m aiúsculo) com o finalidade em si atinge a perfeita
caracterização de um gênero j ornalístico. Assim a conceitua losé Marques de Melo em seu livro Opinião no jornalismo brasileiro (Petrópolis, Vozes, 1985). Assim tam bém a distingue o leitor, o ouvinte de rádio, o telespectador. Ele sabe perfeitam ente quando está diante de um a Entrevista. Talvez não chegue ao conceito intrínseco, às subdivisões quanto ao tratam ento, m as identifica o traçado geral — ocupa m ais espaço im presso ou tem po no ar, estende a conversação entre j ornalista e entrevistado, realiza ou não um a aproxim ação do diálogo, flui ou não sem quebras, interferências ideológicas, encam inbam entos forçados por parte do entrevistador. Um adolescente reconhece virtudes e defeitos na entrevista a que está assistindo na televisão e tece com entários instantaneam ente.
Voltando à condição do repórter que chega à redação com um a grande
entrevista (seu discurso perante o editor tende a enfatizar, com j usta em oção, o grande para negociar um espaço m ais generoso). É preciso que ele aprofunde a notícia, condição inerente a um aproveitam ento pleno. Eis algum as subdivisões da grande entrevista (grande):
2.1 O repórter captou, j unto a fontes especializadas, conceitos sobre determ inado
tem a. Muitas vezes se coletam j uízos de valor im ediatistas e prim ários, m as
não se está no dom ínio de um a argum entação profunda que dê à pauta
sustentação conceitual. É m uito im portante a pesquisa de fontes (capítulo 6)
e o preparo profissional do entrevistador para levar a fundo um a dessas
situações. A revista Veja, nas suas páginas am arelas, é pródiga em bons e
m aus exem plos da entrevista conceitual. Caracteriza-se com o o espaço
nobre da Im prensa brasileira para tal finalidade, m as m uitas vezes não
atinge o obj etivo pelos fatores acim a apontados.
2.2 O repórter coletou, através de m últiplas fontes, versões de vários ângulos do
acontecim ento, em geral um fato de im pacto. Tom em os, por exem plo, um
terrem oto: o entrevistador procura protagonistas da ação e colhe vivências,
depoim entos. Terá, então, nas m ãos, um m ural que será m ontado num a
espécie de coral de vozes habilm ente encadeadas. Com o se fosse um a
colagem de entrevistas. Um exem plo cinem atográfico bem logrado: Hearts
and minds (Corações e mentes), de Peter Davis.
2.3 O repórter coletou pistas, indicações que conduzem a um a grave denúncia, no
cham ado jornalismo investigativo, que os norte-am ericanos consagraram no
Caso Watergate. Em nenhum dos subgêneros da entrevista a declaração é
tão decisiva quanto neste tratam ento. É verdade que se parte, m uitas vezes,
de inform ações em off , m as toda a luta ou a caça se dá em função de
descobrir docum entação que com prove a denúncia, bem com o encontrar
fontes que, diante de docum entos, assum am os fatos revelados. Há, nesse
tipo de m atéria, um a com pulsão para as aspas e a retaguarda do repórter
assegurada em anotações ou no gravador.
2.4 O repórter captou um perfil hum ano. O depoim ento desceu ao subsolo do
entrevistado, afloraram traços de sua personalidade, revelaram -se
com portam entos, valores. É a humanização conquistando um espaço na
com unicação coletiva. O j ornalism o noticioso ortodoxo não adm ite esses
luxos com o indivíduo, que não m erece tanto espaço. . . No entanto, os
rebeldes novos j ornalistas dos Estados Unidos, na década de 60, contestaram
tais preconceitos. E rom peram com a tradição. Esse novo procedim ento
transform ou-se em um lidertipo. No Brasil, tam bém na década de 60 (final),
as revistas Quatro Rodas, Realidade e o Jornal da Tarde com eçam a praticar
com intensidade os perfis hum anos.
2.5 O que pegou desta m atriz foi sua caricatura, que coleta traços de
espetacularização dos olim pianos. A entrevista com “grandes
personalidades”, “grandes figuras”, tem , no entanto, raízes históricas m ais
antigas do que o sim ples perfil hum ano; ascende ao sensacionalism o. Desde
que se pretendeu im plantar o j ornalism o de m ercado, de venda am pla e
garantida, sem pre se apelou para a espetacularização, o olim pianism o. Só
que após o perfil hum ano no fim dos anos 60, com eço dos anos 70, no Brasil,
se esperava a m aturidade do aproveitam ento do indivíduo com o fonte
original e única de inform ação e isso não aconteceu. Vêem -se hoj e grandes
espaços de pseudo-hum anização que, de fato, são apenas hinos ao vedetism o
dos tipos bem situados na bolsa de valores da sociedade de consum o.
2.6 O repórter coletou, através de um a pauta m ais am biciosa, um debate
polêm ico sobre determ inado assunto. Tom e-se, por exem plo, a cobertura da
Aids em 1985 no Brasil. Em determ inado m om ento, todos os veículos que se
prezassem prom overam debates, m esas-redondas, confronto de posições
diante do tem a. Mom entos políticos decisivos, com o eleições, tam bém
exigem essa confrontação de vozes. Mas, fora das em ergências sociais, há,
a rigor, um a pauta aberta para tais debates. Basta um a decisão de pauta
quanto aos problem as prioritários para a com unidade.
2.7 O repórter coletou um painel de opiniões, pontos de vista, através do que se
convencionou cham ar de enquete. Nossa História, por m ais desconhecida
que sej a, oferece exem plos em várias décadas. Mas um dos pioneiros a
praticar a enquete com o um subgênero da entrevista foi João do Rio (Paulo
Barreto), no início deste século, quando decidiu fixar o “m om ento literário”
e entrevistar os escritores nacionais. Distribuiu um questionário, colheu as
respostas e elaborou o livro que as reúne (Momento literário. Rio de Janeiro,
Garnier, s. d.). Desde então, eis um tratam ento da inform ação clássico no
j ornalism o. Ele se fundam enta na am pliação de opiniões, um a expansão tão
rica quanto possível dentro das contingências da com unicação coletiva ou da
Indústria Cultural.