Entrevista: o diálogo possível

Cremilda de Araújo Medina · Capítulo 6 de 17

Páginas do PDF

Entrevista: o diálogo possível

6. Descoberta de fontes. Ou lobby dos grupos

6 Descoberta de fontes.

Ou lobby dos grupos

 

Ponto de partida da entrevista, a escolha da fonte de inform ação está associada

à própria pauta. Dentro de um processo autoritário (a ditadura da oferta), esta seleção preexiste a um a pesquisa de cam po. A predeterm inação de quem se deve ouvir na reportagem é inerente ao j ornalism o acoplado a grupos de poder (econôm ico ou político ou cultural). Torna-se sum ária a seleção de fontes de inform ação: j á estão à disposição do editor, chefe de reportagem , repórter ou pauteiro aqueles nom es, endereços e telefones dos entrevistados habitues. Outras possíveis fontes são descartadas ou porque não servem (não se explica o m otivo), ou porque “a casa” (entidade m ítica que significa a em presa) não aceita esses nom es (m alditos), ou porque, por desconhecim ento total, um a sugestão inovadora por parte do repórter pega de surpresa o produtor cultural que está à frente do processo de decisão.

O autoritarism o institucional acentuou a lim itação de vozes no circuito da

com unicação coletiva. Com o não podia deixar de ser, a pluralidade de pontos de vista foi negada à sociedade brasileira através do grande sistem a da indústria cultural, ou pela censura explícita ou pela autocensura im plícita nos m eios de com unicação dependentes do beneplácito econôm ico (publicidade das estatais) ou político (no caso das concessões dos m eios eletrônicos). O autoritarism o institucional, nas ditaduras brasileiras, tam bém reforçou a voz oficial, em detrim ento das vozes anônim as, do debate nacional. Verificou-se a extrem a centralização de fontes de inform ação em todos os tem as (pautas) que diziam respeito diretam ente a qualquer cidadão brasileiro — problem a salarial, habitacional, de em prego etc. Tais tem as foram alij ados do Direito à Inform ação. Em m eu livro Profissão jornalista: responsabilidade social (Rio de Janeiro, Forense, 1982), no capítulo “A Ação das Forças Autoritárias”, assinalo esta personalidade corporativo-fascista.

O fato é que se tornam bem visíveis hoj e os efeitos desta centralização

autoritária e pseudotecnificante das fontes de inform ação. A rigor, o princípio da inform ação privada em detrim ento da inform ação pública se alastrou para todos os grupos da sociedade brasileira (há os que apontam sintom as em indivíduos com o, por exem plo, nos condôm inos de um edifício de apartam entos). Todo e qualquer agrupam ento m ontou seu lobby, conceituou a inform ação que pode ou não ser liberada à Im prensa.

Nesse contexto, entende-se que im ediatam ente após o anúncio do pacote da

Reform a Monetária (28 de fevereiro de 1986), j á sem censura explícita (em bora o ato censório com etido contra um film e em 1986, Je vous salue Marie, do cineasta francês Jean-Luc Godard), os m eios de com unicação, com raríssim as exceções, form aram um coral uníssono de reforço às m edidas do decreto-lei. No próprio dia dessa cobertura, apenas a TV Gazeta, em São Paulo, deu espaço a vozes discordantes. Tam bém se com preende por que um a fonte de inform ação m aldita durante m uito tem po, im pedida de ocupar espaço em m eios de com unicação — a econom ista Maria da Conceição Tavares — de repente tenha sido “reabilitada” e incorporada ao cast global. Claro, desem penhou nesse m om ento, para os m eios de com unicação, viciados no tradicional com portam ento centralizador, o papel “oficial”, um a vez que passou a defender o pacote. (Não está aqui em j ogo o valor e o peso da opinião da pesquisadora que, certam ente, refletiu m uito antes de assum ir essa face pública. O que está em j ogo é a seleção de fontes de inform ação prom ovida pela pauta dos m eios de com unicação.)

A convalescença dessa ordem de coisas terá de vir da descoberta e renovação

oxigenantes das fontes de inform ação. Tam bém aí, com o em todos os dem ais tópicos j á abordados, se trata, por um lado, da m odernização técnica dos processos profissionais e, por outro, da perm anente busca do Diálogo Possível. A seleção das fontes de inform ação terá de se enriquecer através da pluralidade de vozes e, ao m esm o tem po, da qualificação hum anizadora dos entrevistados descobertos. Não é fácil m exer nas listas de telefones convencionais, à m ão de qualquer profissional com certo tem po de experiência. Daí o significado da contribuição renovadora de um j ovem profissional, consciente de seu papel com o distribuidor de inform ações. Dois procedim entos podem abrir j anelas na poluição am biental das salas de redação:

1) O repórter reconhece que não é ele que detém a inform ação

(com portam ento autoritário concentrado no produtor de notícia), m as que deve ir em busca daquela fonte que efetivam ente tem o que dizer. Neste sentido, a criteriosa pesquisa de entrevistados deveria ser a em preitada de cada pauta. O que se vê, no entanto, é o contrário — o repórter sai com endereços (tradicionais) certos e até se revolta se, por acaso, a entrevista não for m arcada previam ente pelo pauteiro. A fam iliaridade e a “sintonia” de fontes “dom ésticas” leva a que se difunda burocraticam ente o com portam ento de entrevistar pelo telefone. Se não há um processo de pesquisa de novas fontes, os resultados são recorrentes à “linha” desenvolvida por aquele veículo de com unicação e cada nova m atéria acrescenta pouco ou quase nada ao “debate”.

2) Todo com unicador deve vestir a pele de um representante (através das leis

da universalidade e difusão) de um grande núm ero de pessoas (o m aior e m ais heterogêneo possível). Nesse sentido, ele tem de se esforçar não por satisfazer a própria curiosidade, m as o que, pressente, a audiência quer saber. Enquanto ficar exposto e frágil perante os lobbies ou suas preferências estritam ente pessoais, não terá com o pesquisar, intuir, conscientizar aquilo que lhe está pedindo a grande dem anda social. O com unicador, costum a-se dizer, não tem horas livres em que se desprende do m eio social, m atéria-prim a das pautas. Nunca essa “m ais-valia”, usada m uitas vezes com m ás intenções por veteranos j unto a novos profissionais, foi tão válida quanto nesse perm anente estar no m undo, sentindo as expectativas, necessidades e com portam entos da com unidade por onde transita.

Estam os m uito longe de um a com unicação dem ocrática com canais e

interm ediadores à disposição da dem anda social. Estam os longe do conceito de Direito à Inform ação, em substituição ao liberal Direito de. . . de se dizer o que se quer (só que quem diz são as fontes de Poder). De qualquer m aneira, há dificuldade de m udanças estruturais na sociedade brasileira e há as pequenas estratégias da ruptura possível. Entre elas, a do repórter se conscientizar de que o processo j ornalístico tal com o se apresenta — a form a m ais côm oda de executar um a pauta — por certo não responde ao anseio dialógico.

Convido você, rebelde, a voar m ais longe. E, no próxim o capítulo, a encarar

com igo a desm itificação da “entrevista obj etiva”, aquela que trata o entrevistado, finalm ente frente a frente do entrevistador.