Entrevista: o diálogo possível
15. No país do Diálogo Possível
15 No país do
Diálogo Possível
O erro
Um amigo meu, de Berlim Oriental, rua Leipzig,
da Academia Alemã, abriu faz pouco tempo
um campo totalmente novo à pesquisa:
a Lingüística dos Erros. Sim,
haveria muito que fazer (diz ele).
Como leigo, não posso me permitir julgamento nenhum,
mas tenho a impressão
de que os erros se multiplicam:
ratos brancos de olhos vermelhos,
que sobem uns em cima dos outros,
sobre poltronas e camas,
parindo sempre novos ratos brancos.
Conversas no guiché de um banco,
palpites sobre a Gang dos Quatro,
diretrizes para o futuro do gênero humano.
Consciência falsa, dizem os filósofos.
Se fosse só isso.
Frear ou acelerar,
calças com ou sem barra revirada,
a tua moral ou a minha.
Quem crê ter razão
já está julgado.
Livrar-se de um amontoado
de sempre mais pás enferrujadas
usando as mãos nuas como pás — eu temo
que isto não tenha sentido. Tudo errado,
suponho que esta frase também.
Quando se escutam as próprias palavras,
durante certo tempo,
elas ribombam na própria cabeça —
a gente gostaria de fechar os olhos
como uma criança,
e tapar os ouvidos
e, de preferência, já não dizer nada mais.
Mas isso seria um erro.
(Hans Magnus Enzensberger)
Pausa. Ou silêncio. As palavras atordoam :
( . . . ) gostaria de fechar os olhos
como uma criança,
e tapar os ouvidos
e, de preferência, já não dizer nada mais.
“Mas isto seria um erro.”
Então, ainda m ais um esforço. Onde as portas do Diálogo Possível neste
planeta devorado por isolam entos, solidão, desencontros? Com a palavra, m ais palavras (vãs?), os teim osos. Não eu, apenas discípula. Invoco, neste fôlego final, m inhas m usas. Dispo-m e de pretensões, entrego-m e à fé, partilho a paixão de poucos, os que persistem nas utopias e de tanto esculpi-las na m atéria, na condição hum ana, chegam a ter nas m ãos pedaços da m assa, a prova de que o sonho se fez concreto.
Para mim, saber é experimentar. E uma experiência não se
conceitua; nem é eventual: para mim, a experiência própria, ela é
incomunicável. Dela os senhores, digo, a Ciência nada sabe.
(Márcio Tavares D'Am aral, “Eu, Individuo”)
A palavra está sempre carregada de um conteúdo ou de um sentido
ideológico ou vivencial.
...... (Mikhail Bakhtin, Marxismo e filosofia da linguagem)
Talvez reassumindo esta paixão ontológica (a mítica das narrativas)
possamos re-pensar o campo das ciências humanas. São sabências-
buscas-tentativas que demonstram a paixão de viver.
(Ieda Tucherm an, “A Paixão da Narrativa”)
Viver não é necessário, mas, ao optar pela vida, é fundamental que
a dimensão pessoal seja preservada. Somos uma espécie social,
carregamos a sociedade dentro de nós, mas, antes de tudo, cada um
almeja ser ele mesmo, almeja ser reconhecido como pessoa distinta,
deseja ser senhor do seu destino e lutar por suas aspirações.
(Milton Greco, A aventura humana entre o real e o imaginário)
A realidade que só se inventa com a própria realidade, ensaiando e
dramatizando. ( . . . ) O pensador assume a condição de náufrago
que, ao se debater pela vida — vive. Vive e sobrevive como pensador
vital.
(Ortega y Gasset, na interpretação de Eduardo Portella, em “A Vida do
Náufrago”)
Assum o a condição do náufrago, escrevo este ensaio. No com eço era a
inquietude de um cam inho possível, busca perm anente de m eu fazer j ornalístico desde 1960. Aos poucos foi crescendo a energia, a resistência diante das desum anas lim itações da entrevista j ornalística. Com unguei essa energia de ruptura com os com panheiros, depois com alunos na Universidade de São Paulo. As idéias se concretizaram , a bibliografia científica e a arte m e reforçaram , m e indicaram com m ais solidez o cam inho da reflexão. Ou a fundura do naufrágio. Resta agora convidar outros náufragos a se lançarem no país do Diálogo Possível. A profissão de j ornalista pode ser aventurosa, m as só um a das aventuras — o Diálogo Social — terá força para enfrentar o naufrágio.