Entrevista: o diálogo possível

Cremilda de Araújo Medina · Capítulo 4 de 17

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Entrevista: o diálogo possível

4. Pauta - Edição. O ovo ou a galinha

4 Pauta - Edição.

O ovo ou a galinha

 

Antes de se abordar o trabalho de cam po do repórter, isto é, a execução da

entrevista, não se pode deixar de lado o processo de produção da inform ação j ornalística. Há princípios que regem o fenôm eno j ornalism o e a com unicação coletiva; há variáveis im plícitas ao processam ento da notícia; e há fontes de conteúdos que orientam a seleção de pautas. Quando se chega a executar a entrevista, j á se está às voltas com toda esta rede com plexa de variáveis.

Em Notícia, um produto à venda; j ornalism o na sociedade industrial (São

Paulo, Alfa-Ôm ega, 1978), procuro entrar nessa estrutura da m ensagem j ornalística com m aior profundidade. No que diz respeito à entrevista, no entanto, vale destacar que essa técnica está inserida num processo, em que o ponto de partida se cham a, no j argão profissional, pauta. Seria conveniente adotar um a perspectiva global do processam ento da inform ação na com unicação coletiva e intitular de edição. Em bora o m om ento em que se executa um a matéria, sej a em um veículo im presso ou audiovisual ou eletrônico, tam bém se intitule de edição (ou fecham ento), na realidade desde que surge um indício de notícia e se form ula um a pauta, j á estam os no processo de edição. Afastam os, com isso, etapas estanques — pauta, trabalho de cam po (reportagem ) e entrevista, redação e edição — para encarar a dinâm ica do processo cuj os fios condutores estão m uito m ais subj acentes do que explícitos, com o pretendem os m anuais e norm as de redação.

As determ inações que regulam o processo j ornalístico da pauta à distribuição

do produto inform ativo foram teorizadas pelo alem ão Otto Groth num a obra que pretende definir a Ciência do Jornalism o. São as quatro leis que regem o fenôm eno: atualidade, periodicidade, universalidade e difusão. Com isso, nenhum a pauta é processada se não tiver “gancho”, gíria de redação para, de um a só tacada, qualificar um fato de atualidade e universalidade (am plo interesse hum ano, para além das próprias barreiras locais, regionais, nacionais). Por outro lado, se não m antiver o ritm o dessa presentificação, através da periodicidade, não se sustenta nem econom icam ente com o em presa j ornalística nem quanto à credibilidade na recepção do m ercado. É tam bém da natureza da com unicação coletiva contem porânea o propósito de que seu produto se difunda ao m aior núm ero possível de indivíduos ou coletividades.

Qualquer tem a suj eito à consagração com o pauta, que dará origem a um a

m atéria j ornalística, passa, inevitavelm ente, pelo crivo m ais ou m enos técnico (de acordo com o estágio de avanço da em presa ou instituição de Com unicação) desses princípios (ou leis, segundo Groth). Daí tantas pautas possíveis serem diariam ente descartadas: na drástica seleção do dia-a-dia, provocada tam bém pelo afunilam ento de espaços de edição, estes critérios sem pre estarão presentes ainda que de form a não consciente por parte dos que decidem no processo. A tradição oral, traduzida em experiência profissional, se encarrega de delegar a “sabedoria” acum ulada acerca do fenôm eno. Muitas vezes se com etem erros, inj ustiças, deform ações, m as o “gancho” da pauta é um a dessas técnicas básicas assim iladas nas redações.

Há três variáveis fundam entais no processam ento da inform ação: qualquer

ação ou decisão j ornalística atende à influência grupal — a oferta na sociedade capitalista ou a ideologia do grupo institucional que coordena ou orienta certo veículo de com unicação; atende tam bém à influência coletiva — dem anda do consum idor ou exigências de público a quem se dirige o produto inform ativo; e atende à criação e iniciativa dos produtores individualizados. Nesta com plexa dinâm ica, a m atéria que é veiculada na indústria cultural dificilm ente pode ser dissecada através de um a dessas influências, pura e abstratam ente isolada. Este esquem a corresponde à indústria cultural contemporânea e, se determ inada sociedade ainda não ingressou definitivam ente no contexto industrial, tais influências tendem a se desequilibrar: a ditadura da oferta é inevitável na m edida em que o consum idor (considerando a sociedade capitalista) não tem canais de participação e não form ula criticam ente suas exigências por um produto que corresponda à sua expectativa. Se nas cam panhas das diretas-j á (de j aneiro a abril de 1984), os m ovim entos populares m anifestaram , na rua, seu descontentam ento com os m eios de com unicação coletiva no Brasil, é porque tinha explodido nos com ícios, nas passeatas, a voz atrofiada de m ilhões de pessoas, havia um canal de expansão — a rua. De m aneira geral, cartas de leitores (da form a com o são editadas, tam bém com prom etida com a ditadura da oferta), pesquisas quantitativas de audiência e outras aferições sem elhantes, ficam m uito aquém da m oderna m anifestação da dem anda. Por outro lado, quanto m ais m odernizado for o sistem a de com unicação, m ais exige produtores que, além de com petentes no desem penho de rotina, sej am capazes de avançar, ou sej a, criar. Abraham Moles (Sociodinâmica da cultura de massa. São Paulo, Perspectiva, 1974) reforça a participação do criador individual neste processo em inentem ente coletivo. Assim acontecesse nas nossas circunstâncias, que acusam , para nosso desprazer, a pouca m argem de ação e decisão de um repórter, de um editor. Analisar esse em pobrecim ento de um a das influências fundam entais — a criatividade — seria obj eto de outro trabalho. Grosso modo, podem -se apontar alguns fatores históricos: as em presas da indústria cultural brasileira, feitas um a ou outra exceção, sem pre investiram m ais na m odernização tecnológica do que no aperfeiçoam ento e qualificação de seus quadros hum anos de produção da inform ação; o profissional m édio, sem estím ulos na rotina desgastante da sobrevivência, não investe, por conta própria, no crescim ento e am plitude de repertório; a universidade que, em tese, deveria oferecer novos quadros, novas energias, m al se viu com a própria. crise de em pobrecim ento e quase destruição, situação típica das ditaduras. Não há sequer um veículo de crítica dos m eios (media criticism). Os poucos cursos de extensão e aperfeiçoam ento são freqüentados, em geral, por um a clientela que não a que está à frente dos processos de decisão. Estes, os editores, chefes de reportagem , repórteres especiais, perm anecem preocupados com o im ediato desem penho, satisfazendo as exigências dos próprios em pregos. Não são sensíveis à discussão crítica sobre a própria profissão.

Neste estágio, a grande audiência está suj eita à deform ação da ditadura da

oferta, esse dirigism o com que a contem plam os m eios de com unicação coletiva.

Qualquer conteúdo processado com o inform ação observa ainda sua identidade

com um a das três fontes de inspiração (outros “ganchos” possíveis): a fonte arquetípica, a lidertípica ou a osm otípica. A contribuição vem de Jean Lohisse (Communication anonyme. Paris, Éditions Universitaires, 1969). Segundo o teórico belga, os conteúdos comuns da cultura de m assa representam a perene herança de tem as arquetípicos. O m elhor exem plo que se pode dar, no contexto brasileiro, são os ingredientes básicos das tram as da telenovela, tão bem -sucedida aqui quanto no Exterior. Os centros produtores m ais avançados, nos países altam ente industrializados, geram , a todo instante, conteúdos lidertípicos. É o caso do rock nos Estados Unidos ou na Inglaterra. A exportação é inevitável, a im portação nem se fala. Pode dem orar um , dois ou dez anos, m as a “m oda” acaba chegando. O consolo são os conteúdos osm otípicos, resultado da dinâm ica de trocas culturais. Por m ais dependente que sej a o Brasil do colonialism o dos lidertipos, j á vai im plantando sua m arca em osm otipos: dizem os m úsicos norte-am ericanos que o encontro da bossa-nova com o jazz não deu sam ba, m as um a cruza interessante.

A gênese de um a pauta, portanto, é m ais enredada do que se im agina à

prim eira vista. Até se precisar o tem a da entrevista, por m ais rápida que sej a esta decisão — e sem pre é veloz na com unicação coletiva —, os parâm etros que a contornam provêm de vários pontos de partida dinam icam ente articulados. E haverá tantos outros quantos a especulação teórica sondar. Vale lem brar Nietzsche: sob a superfície de qualquer fenôm eno há um a rede de forças atuantes. Assim tam bém a análise crítica sobre as fontes de inform ação, os “eleitos” para darem seu testem unho, para falarem , acerca da pauta, à reportagem . Apesar de que, quanto m ais pobre for o esquem a de trabalho da em presa, quanto m ais pré-industrial, m ais im ediatista é a escolha dos entrevistados. Num a com unicação dirigida — a oferta ditatorialm ente se sobrepondo à dem anda, aos interesses da com unidade —, caím os quase sem pre na fonte oficial, na fonte de poder, no olim piano ou vedete da bolsa de valores do m ercado cultural. Não é por acaso que todo eficiente editor tem a agenda de telefones úteis na gaveta da m esa de trabalho (se não for no bolso). Ali estão catalogados, para qualquer circunstância, os entrevistados prêt-à-porter, ou m elhor, pronto-a-editar. São, quase sem pre, figuras proem inentes de cada setor, cuj a palavra se m ede pelo poder que representam . E quando se quer dar um pouco de tom popular à reportagem , j oga-se o repórter (em geral, se iniciando na profissão) na rua, ele vai lá e colhe depoim entos do povo. “O povo fala”, com o se convencionou cham ar na televisão.

A pauta e a seleção de vozes para serem am plificadas pela com unicação

coletiva denotam , portanto, este dirigism o autoritário (e/ou côm odo da rotina) de entrevistas-padrão com figuras sociais tam bém padrão. As ditaduras políticas acentuam o flanco da voz oficial, reduzem o âm bito da circulação das inform ações para aquelas que são permitidas, liberadas. O autoritarism o se vale de m ais um a interm ediação além do com unicador, a do relações-públicas e/ou do press-release. As vozes discordantes, as proem inentes, não as colhidas no anonim ato das com unidades, são tam bém m arginalizadas. Dim inui drasticam ente o acervo de fontes de inform ação da caderneta de endereços dos j ornalistas.

Nem é preciso dizer que estam os a quilôm etros de distância do Diálogo

Possível. Esta prática j ornalística atrasada se configura com o m onológica, ainda que se m ascare de “pluralidade” nas entrevistas editadas. Para rom per esta estrutura — a da ditadura da oferta —, só detonadores de m odernização tanto na sociedade brasileira quanto na com unicação coletiva. Por enquanto, fala-se de utopias. . .