Entrevista: o diálogo possível

Cremilda de Araújo Medina · Capítulo 2 de 17

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Entrevista: o diálogo possível

2. Técnicos e artífices do Diálogo

2 Técnicos e

artífices do Diálogo

 

A entrevista, nas suas diferentes aplicações, é um a técnica de interação social,

de interpenetração inform ativa, quebrando assim isolam entos grupais, individuais, sociais; pode tam bém servir à pluralização de vozes e à distribuição dem ocrática da inform ação. Em todos estes ou outros usos das Ciências Hum anas, constitui sem pre um m eio cuj o fim é o inter-relacionam ento hum ano. Para além da troca de experiências, inform ações, j uízos de valor, há um a am bição ousada que filósofos com o Martin Buber j á dim ensionaram : o diálogo que atinge a interação hum ana criadora, ou sej a, am bos os partícipes do j ogo da entrevista interagem , se m odificam , se revelam , crescem no conhecim ento do m undo e deles próprios. Esta situação, que pode ser rotulada de ideal, se realiza no cotidiano, até m esm o em um a entrevista j ornalística levada às últim as consequências.

Há, portanto, patam ares a serem perseguidos. O prim eiro deles se situa no

desem penho técnico da entrevista, tal qual o sedim entaram as Ciências Sociais. Os fundam entos psicanalíticos da relação paciente—terapeuta dão sólidos alicerces para o debate teórico sobre o encam inham ento da entrevista. A Psicologia Social, segundo os autores dessa área, no fértil período de sistem atização dos anos 40, sobretudo nos Estados Unidos, reúne bibliografia extensa sobre a técnica da entrevista.

Em um corte m uito particular, Charles Nahoum (L'entretien psychologique.

Paris, Presses Universitaires de France, 1958), após a generalização de que todos os profissionais que tratam de problem as hum anos — e, por isso, devem ter contato direto com os indivíduos — lidam fatalm ente com a entrevista, propõe as seguintes m etas: vender, j ulgar, curar. Médico, j uiz, vendedor, sindicalista, seções de pessoal de em presas, j ornalista operam cotidianam ente com a entrevista. Os m ais diretam ente vinculados à técnica: assistentes sociais, pesquisadores, sociólogos-pesquisadores, psiquiatras, psicanalistas, psicólogos. (O autor deixa de lado os com unicadores.) Para Nahoum , a entrevista se classifica em três troncos: recolher fatos (os propriam ente ditos, com o se entende notícia na teoria tradicional do j ornalism o, e sentim entos ou com portam entos tom ados tam bém com o fatos); inform ar; m otivar. Após toda a contribuição sistem ática, no esforço para “purificar” a técnica, Charles Nahoum deixa entrever os lim ites do desem penho frio do entrevistador:

 

A entrevista é uma situação psicossocial complexa, em que as diferentes funções, embora analisáveis formalmente, são

dificilmente dissociáveis na prática profissional.

 

A. Garrett, em A entrevista, seus princípios e métodos (Rio de Janeiro, Agir,

1981), am plia o âm bito dessa prática hum ana: todas as pessoas, de um a m aneira ou de outra, são envolvidas na entrevista, ora entrevistando, ora sendo entrevistadas. Adm ite tam bém que qualquer dessas situações contém aspectos obj etivos e subj etivos. Um ponto básico de sua teorização é proj etar coraj osam ente a técnica para a ARTE da entrevista. Garrett identifica no entrevistar, acim a de tudo, a arte de ouvir, perguntar, conversar. José Bleger (Temas de psicologia — entrevista y grupos. Buenos Aires, Nueva Visión, 1976) enfatiza, por isso m esm o, o papel do observador participante (entrevistador) e a presença decisiva de sua personalidade, desm itificando, com isso, a pretensa obj etividade de quem pergunta ou encam inha a conversação, ou ainda de quem ouve as respostas do entrevistado. Segundo esse e tantos outros autores das áreas de Psicologia Social, Antropologia, Sociologia, Ciência Política, enfim , das Ciências Sociais e Hum anas, o entrevistador deve investir, de im ediato, na própria personalidade para saber atuar num a inter-relação criadora.

O acúm ulo teórico sobre a técnica da entrevista conduz ao ponto culm inante

proposto por Nahoum : a com plexidade psicossocial. Por outro lado, filósofos com o Martin Buber elevam essa m esm a com plexidade a um nível ontológico. Quando o autor estabelece um a divisão clara entre o propagandista e o educador, salientando neste últim o as virtudes possíveis do diálogo, está abrindo nossos olhos para a m ais profunda eficiência da entrevista. O propagandista (e a propaganda) se im põe ao interlocutor, não crê sequer na própria causa, pois não confia na possibilidade de que ela atinj a seu efeito pelas próprias forças, sem os m étodos de que se vale. Já o educador (e a Educação) proporciona a abertura, crê na força prim itiva que se espalhou e se espelha em todos os seres hum anos. Buber j ustifica esta bipolarização:

 

Esclareci em dois exemplos extremamente antitéticos o caráter das duas atitudes básicas e a relação que entre elas existe. Mas, onde quer que os homens mantenham relações entre si, uma ou outra atitude é encontrada em maior ou menor escala (Do diálogo

e do dialógico. São Paulo, Perspectiva, 1982. p. 151).

 

A entrevista não-im positiva, não-diretiva, é resgatada com ênfase pela

contribuição teórica de Carl Rogers. Edgar Morin, na década de 60, retom a esta contribuição ao refletir sobre a entrevista na rádio e na televisão. Diante de duas possibilidades técnicas — a entrevista extensiva (enquetes com aplicação de questionários pré-elaborados por um a equipe especializada) e a entrevista intensiva (a não-diretiva de que fala Rogers) —, Morin se apega à segunda. Eis algum as das possibilidades de enriquecim ento inform ativo na entrevista aberta, sem a cam isa-de-força do questionário fechado: o centro do diálogo se desloca para o entrevistado; ocorre liberação e desbloqueam ento na situação inter-hum ana e esta relação tem condições de fluir; atinge-se a auto-elucidação. Edgar Morin acredita na prática do diálogo. O diálogo é uma práxis, diz ele, portanto trata-se de restaurá-lo com o prática hum ana. E por que não no j ornalism o, cuj a finalidade últim a é a com unicação?

Em bora Morin destaque a atuação na rádio e na televisão (A entrevista nas

Ciências Sociais, na rádio e televisão. In: MOLES, Abraham A. et alii. Linguagem da cultura de massa. Petrópolis, Vozes, 1973), ele reconhece que a linguagem verbal a sustenta:

 

A entrevista, evidentemente, se funda na mais duvidosa e mais rica das fontes, a palavra. Ela corre o risco permanente de dissimulação ou da fabulação.

 

Através da consciência realista destes “desvios”, o autor adverte para a sensibilidade do entrevistador, que deve captar fatores perturbadores que im peçam a “fluência” da entrevista:

Sobre as perguntas de fato, as respostas tenderão a ser

fabuladoras e/ou dissimulativas, no que se refere às grandes regiões-

tabu: o sexo, a religião, a política. Nesse último plano, as

desconfianças serão mais ou menos grandes, de acordo com o

regime do país, liberal ou não, em que estiverem sendo feitas as

perguntas, ou segundo o caráter minoritário ou não, subversivo ou não

das opiniões políticas do entrevistado. Além do tabu, considerações de

prestígio, de standing podem falsear as respostas.

No que concerne às questões de opinião e de convicção, a

consciência fraqueja gradualmente, na medida em que se penetra na

motivação. Em regra geral a motivação é obscura para o entrevistado,

ou é solidamente mascarada por um sistema de racionalização. Para

falar a verdade, dificilmente se pode entrar nesta zona. Interrogado

sobre o porquê de suas opiniões, o entrevistado fornece apenas os

sistemas de racionalização que ele secreta em resposta à

investigação.

De forma extremamente diversa, segundo a situação social,

histórica, a determinação psicológica, o clima e o caráter da

entrevista, os entrevistados reagem à entrevista:

Pela inibição, que se traduz por um bloqueio puro e simples, ou por

uma fuga (resposta lateral);

Pela timidez ou a prudência, que conduzem a respostas de polidez,

procurando-se responder de forma supostamente agradável ao

investigador; que se traduzem pela tendência a responder antes sim

do que não, pela tendência (prudência) a optar pela cifra do meio

quando é proposta a escolha de uma percentagem;

Por mecanismos de atenção e desatenção (em respostas

preformuladas, tendência a escolher o ponto de vista do início ou do

fim);

Pelas múltiplas tendências a racionalizar seu ponto de vista, quer

dizer, a lhe dar uma justificação, uma legitimação aparentes, que

mascaram sua verdadeira natureza. As racionalizações são

“sinceras”;

Pelo exibicionismo, que induz muito “sinceramente” (evidentemente,

é o termo sinceridade que deve ser repensado) as pessoas a

fabulações e comédias;

E, bem entendido, pelas tendências fundamentais a defender sua

pessoa e a compor os x personagens em face do outro.

Martin Buber analisa ontologicam ente este j ogo de aparências entre duas

pessoas j ustapostas no diálogo (verbal ou não-verbal). A única possibilidade de autenticidade, verdade, entre os dois interlocutores é a entrega do EU ao TU, um TU-PESSOA e não um TU-ISTO. Edgar Morin sim plifica esta postura ontológica na entrevista j ornalística:

 

É necessário que o entrevistado sinta um ótimo de distância e proximidade e, igualmente, um ótimo de projeção e de identificação em relação ao investigador.

 

O entrevistador, para Morin, deve corresponder a um a im agem sim pática e tranquilizadora. Acrescenta ele: “Frequentem ente a m ulher com unicará m elhor que o hom em ”. Com o Berger, aposta na personalidade do entrevistador. E quão m ais “im portante” for a do entrevistado (pelo critério de proj eção social), m ais pesa a personalidade do entrevistador.

Para um resultado de interação hum ana logrado e, ao m esm o tem po, um grau

de inform ações m ais significativo, Morin insiste na entrevista não-diretiva:

 

Antes de tudo, ela dá a palavra ao homem interrogado, no lugar de fechá-lo em questões preestabelecidas. É a implicação democrática da não-diretividade; em seguida, ela pode ajudar a viver, provocando um desbloqueio, uma liberação; enfim, ela pode

contribuir para uma auto-elucidação, uma tomada de consciência do indivíduo.