Entrevista: o diálogo possível

Cremilda de Araújo Medina · Capítulo 14 de 17

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Entrevista: o diálogo possível

14. Muita emoção. Temperada de clareza

14 Muita em oção.

Tem perada de clareza

 

A m agia de qualquer estória — “Era um a vez. . . “ — transposta para um a

peça j ornalística ressalta a em oção. A história hum ana da m atéria terá tanto apelo em ocional quanto a ficção, o folhetim . E é preciso resgatar essa energia que vem do próprio ser hum ano tom ado com o fonte de inform ação para um a entrevista. A expressão dram ática do real e do im aginário, até m esm o im plícita no m odo de dizer conceituai — um a entrevista pergunta-e-resposta sobre determ inados conceitos —, transborda em oção. Não aquela em oção fácil traduzida na adj etivação vulgar, gasta. Ainda um a vez invoquem os a arte: um escritor contem porâneo, por m ais que se situe no im aginário, na subj etividade de seus personagens, sabe expressar este universo através de estruturas substantivas. (No texto de O ano da morte de Ricardo Reis, transcrito nas páginas 59-61, losé Saram ago m ostra a densidade do im aginário e do m etaim aginário — Ricardo Reis, invenção de Pessoa e m etainvenção do rom ancista — sem se valer de adj etivação.)

Ao salientar a força em otiva de um texto não quero dizer, portanto, que se

apele para o pieguism o dos adj etivos ultra-rom ânticos. O parto da em oção terá de ser substantivo; a em oção deve passar por m eio da atm osfera narrativa, da penetração sutil nas entrelinhas do diálogo, nos silêncios, nos ritm os de cada pessoa. Todos os artifícios da experim entação que a linguagem artística acum ula e reinventa: essa, a fonte inesgotável de aprendizado para o com unicador social. Mas há neste com prom isso social, ou m elhor, no pacto de am pla difusão da com unicação coletiva, um outro dado: a clareza e precisão do estilo. Aí se encontra a fronteira entre o experim entalism o totalm ente livre na arte e o experim entalism o sob a m edida do legível no j ornalism o ou na com unicação.

O equilíbrio entre inovação a serviço da expressividade e clareza a serviço da

eficiência da m ensagem — eis o segredo do Diálogo Possível na form ulação da entrevista, na estruturação de um a m atéria e na definição do foco narrativo. Não se pode aceitar, porém , certos manuais de redação que decretam leis de estilo, em função da língua-padrão gram atical. Estabelecem -se critérios de certo e errado e se confunde a noção de clareza e precisão com “vícios de linguagem ou m au português”. A gram ática (conservadora) inspira tais princípios, equívocos que regem a disciplina do texto na m aioria das em presas j ornalísticas. Esta fôrma (com acento para diferenciar de forma) é tão nefasta para a m ontagem de um a m atéria quanto o é o questionário fechado (pauta fechada) para um a entrevista. Exigem -se certos com portam entos tradicionais — da estrutura narrativa de um a m atéria, à estrutura de frase, à colocação do pronom e pessoal indireto, à concordância e regência exclusivam ente lógicas. Os holofotes se voltam para questões ou superadas ou, no m ínim o, controvertidas na Estilística, na Filologia, na Lingüística e até m esm o na Gram ática Histórica, enquanto os aspectos específicos da Com unicação, com o clareza e precisão, ficam de lado.

O presidente José Sarney, logo nos prim eiros m om entos de seu governo, em

1985, convocou um a com issão nacional para debater o ensino de Português no Brasil. A propósito desse tem a, os j ornais pautaram páginas de discussão e editou-se um autêntico festival de ignorância: editores e repórteres transpuseram para as pautas e para a execução das m atérias todos os conceitos equivocados do bom português, o que os próprios m anuais de redação prescrevem . Na Universidade brasileira há um reduto de pensadores que por certo puseram as m ãos na cabeça diante desse festival de besteiras que assola o País (o que excitaria tam bém Stanislaw Ponte Preta e irrita profundam ente Millôr Fernandes). Talvez por isso têm sido publicados vários ensaios m uito oportunos que se recom endariam aos j ornalistas em questão. Entre eles, Celso Pedro Luft, com Língua e liberdade, o gigolô das palavras; por um a nova concepção da língua m aterna (Porto Alegre, L& PM, 1985); Mário A. Perini, com Para uma nova gramática do português (São Paulo, Ática, 1985); Evanildo Bechara, com Ensino da gramática: opressão? liberdade? (São Paulo, Ática, 1985); Hildo H. do Couto, com O que é português brasileiro (São Paulo, Brasiliense, 1986).

A confusão entre dom inar um bom português (gram atical, padrão conservador

da norm a culta) e se expressar com fluência, clareza, precisão, tem rendido m uitos exem plos na Im prensa brasileira. Mesm o aqueles veículos que se identificam com o portadores de textos im pecáveis, segundo esses critérios, com etem diariam ente deslizes estilísticos contra a fluência, a clareza e a precisão. No início da década de 70, acom panhei diariam ente o Jornal da Tarde com o propósito profissional de observar seu texto. Das constantes anotações e dos usos que ofereciam barreiras de fluência e legibilidade extraí um quadro de tendências registrado no m eu livro Notícia, um produto à venda (São Paulo, Alfa-Ôm ega, 1978, p. 181). Nessa análise foram enum erados os seguintes ruídos na m icroestilística da frase com unicacional:

1) Frase m uito extensa, processo de subordinação acarretando, às vezes,

desconexão (ausência da oração principal). Leitura m uito difícil.

2) Problem as de estruturação da frase que acusam falta de clareza e precisão

das inform ações aí articuladas. “A narrativa é um a grande frase, com o toda a frase constitutiva é, de certa form a, o esboço de um a pequena narrativa”, j á disse Roland Barthes (Introdução à análise da narrativa. Petrópolis, Vozes, 1971).

3) Intercalações excessivas, quebrando a idéia principal.

4) Uso abusivo de parênteses, m esm o problem a das intercalações excessivas.

5) Falta de fluência por inadequação do vocabulário utilizado (o clássico problem a de o j ornalista não consultar dicionários. . . ) .

6) Acréscim os à frase (apêndices em geral “pendurados” por um a oração

subordinada de gerúndio) que “descalibram ” as inform ações principais.

7) Desconexão de tem pos verbais (outra falha tradicional entre j ornalistas) —

uso de presente histórico e passado sem critério, ignorância das possibilidades do subj untivo ou de um m ais-que-perfeito.

8) Som a de elem entos não coordenativos.

9) Passagem de parágrafo (frase-ponte) pouco habilidosa.

10) Acúm ulo de verbos em locuções, uso excessivo de verbos auxiliares, bem

com o do verbo ser.

11) Estrutura verbal passiva analítica pouco fluente, j á que tem os, no

português, a estrutura sintética, m ais expressiva.

12) Ordem indireta sem ritm o, sem fluência.

13) Inform ações, num éricas ou não, am bíguas ou im precisas, ou incom pletas.

14) Falta de eufonia na frase, sobretudo no caso da colocação do pronom e

indireto, que, artificialm ente, segue regras de “atração”, em lugar de atender ao ritm o sonoro brasileiro. O pronom e pessoal indireto (m e, te, se, lhe, nos, vos, se, lhes) é, no Brasil, tônico, enquanto em Portugal é átono. Portanto, a próclise é eufônica e côm oda no Brasil, a ênclise é eufônica e côm oda em Portugal. Basta seguir o ouvido, não as regras de atração magnética (falácia de um a gram ática conservadora).

Se form os verificar a atualidade deste quadro de ocorrências, estudado em um

j ornal de vanguarda dos anos 60 para os anos 70, certam ente localizarem os, nos anos 80, tropeços sem elhantes. O curioso é que para testar sim ples e diretam ente a clareza e a precisão, basta ler em voz alta a frase com posta. Insisto: o ouvido sensível capta o problem a e tenta superá-lo, sem recorrer às regras draconianas do m anual de redação que, na m aioria dos casos práticos, não aj uda em nada.

Nilson Lage, autor de dois livros publicados pela Série Princípios da editora

Ática — Linguagem jornalística e Estrutura da notícia —, avança quanto a esses m anuais. Adm ite a perm eabilidade da linguagem j ornalística, em bora m uito contida no padrão, ao registro coloquial.

 

Do ponto de vista da eficiência da comunicação, o registro coloquial seria sempre preferível. É mais acessível para as pessoas de pouca escolaridade e, mesmo para as que estudaram ou lidam constantemente com a linguagem formal, permite mais rápida fruição e maior expressividade.

 

Isto que o autor nem considera a fidelidade ao m odo de ser e m odo de dizer de determ inado indivíduo representado sim bolicam ente em um perfil. Quer queira ou não determ inada em presa j ornalística, por m ais conservadora que sej a, não haverá com o prender a expressão de determ inada fonte no registro formal. Diante de um Jean-Paul Sartre, que, em seu últim o depoim ento, um a entrevista com um discípulo, diz, a certa altura, merda, com um significado existencial-filosófico-coloquial, com o censurá-lo?

É lam entável que os responsáveis pelas norm as internas só pensem em term os

da legislação a varej o e deixem de lado os pecados capitais. Qualquer veículo que m antém norm as escolásticas no padrão do texto, com ete im precisões e obscuridades a rodo. Um j ornal com o O Estado de S. Paulo, que acusa profissionais j ovens, egressos da universidade, de ignorantes do bom português, com ete um a im precisão com o esta: “Em 1953, por exem plo, existiam 12 ou 13 j ornais diários em São Paulo” (Assessores Disputam Espaço, 5 j an. 1986). Não se trata de um erro de revisão, nem de gram ática, m as de um a falta de precisão inj ustificável que com prom ete a credibilidade da argum entação — neste caso, de inform ação política por ocasião das eleições para a Prefeitura de São Paulo. A Folha de S. Paulo, que tem dedicado espaço à crítica dos “erros de português”, publicou na prim eira página de 21 de m arço de 1986 a seguinte m anchete: Montoro e Ermírio se acusam de aventureiro. Todos os veículos im pressos — sem citar televisão e rádio — acusam estes ruídos da com unicação que provocam danos à legibilidade, à difusão e à confiabilidade das inform ações. No entanto, seus gestores continuam preocupados com o abstrato bom português.

Com o em tudo no País, queim am -se etapas. Só se fala em inform atização e,

no artesanato do dia-a-dia, a im precisão dos dados ou a falta de clareza das inform ações ficam de lado. Tam bém se pretende atingir a genialidade de um a m arca (assinatura), através da pirotecnia que se vale de recursos estéticos gastos, não im portando o conteúdo hum ano que ali deveria com parecer.