Entrevista: o diálogo possível

Cremilda de Araújo Medina · Capítulo 10 de 17

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Entrevista: o diálogo possível

10. Esses rebeldes criadores...

10 Esses rebeldes

criadores...

 

Acom panhe este diálogo:

 

( . . . ) Ouvia os passos de Ricardo Reis no corredor, em tão completo sossego dá-se pelo mais leve ruído, não há luz em nenhum quarto, ou neles se dorme já ou estão desocupados, ao fundo brilha tenuemente a chapazinha do número duzentos e um, é então que Ricardo Reis repara que por baixo da porta passa uma réstia luminosa, ter-se-ia esquecido, enfim, são coisas que podem acontecer a qualquer, meteu a chave na fechadura, abriu, sentado no sofá estava um homem, reconheceu-o imediatamente apesar de não o ver há tantos anos, e não pensou que fosse acontecimento irregular estar ali à sua espera Fernando Pessoa, disse Olá, embora duvidasse de que ele lhe responderia, nem sempre o absurdo respeita a lógica, mas o caso é que respondeu, disse Viva, e estendeu-lhe a mão, depois abraçaram-se, Então como tem passado, um deles fez a pergunta, ou ambos, não importa averiguar, considerando a insignificância da frase. Ricardo Reis despiu a gabardina, pousou o chapéu, arrumou cuidadosamente o guarda-chuva no lavatório, se ainda pingasse lá estaria o oleado no chão, mesmo assim certificou-se primeiro, apalpou a seda húmida, já não escorre, durante todo o caminho de regresso não chovera. Puxou uma cadeira e sentou-se defronte do visitante, reparou que Fernando Pessoa estava em corpo bem feito, que é a maneira portuguesa de dizer que o dito corpo não veste sobretudo nem gabardina nem qualquer outra protecção contra o mau tempo, nem sequer um chapéu para a cabeça, este tem só o fato preto, jaquetão, colete e calça, camisa branca, preta também a gravata, e o sapato, e a meia, como se apresentaria quem estivesse de luto ou tivesse por ofício enterrar os outros. Olham-se ambos com simpatia, vê-se que estão contentes por se terem reencontrado depois da longa ausência, e é Fernando Pessoa quem primeiro fala, Soube que foi me visitar, eu não estava, mas disseram-me quando cheguei, e Ricardo Reis respondeu assim, Pensei que estivesse, pensei que nunca de lá saísse, Por enquanto saio, ainda tenho uns oito meses para circular à vontade, explicou Fernando Pessoa, Oito meses por quê, perguntou Ricardo Reis, e

Fernando Pessoa esclareceu a informação, Contas certas, no geral e em média, são nove meses, tantos quantos os que andamos na barriga das nossas mães, acho que é por uma questão de equilíbrio, antes de nascermos ainda não nos podem ver mas todos os dias pensam em nós, depois que morremos deixam de poder ver-nos e todos os dias nos vão esquecendo um pouco, salvo casos excepcionais nove meses é o quanto basta para o total olvido, e agora diga-me você que é que o trouxe a Portugal. Ricardo Reis tirou a carteira do bolso interior do casaco, extraiu dela um papel dobrado, fez menção de o entregar a Fernando Pessoa, mas este recusou com um gesto, disse, Já não sei ler, leia você, e Ricardo Reis leu, Fernando Pessoa faleceu Stop Parto para Glasgow Stop Álvaro de Campos, quando recebi este telegrama decidi regressar, senti que era uma espécie de dever, É muito interessante o tom da comunicação, é o Álvaro de Campos por uma pena, mesmo em tão poucas palavras nota-se uma espécie de satisfação maligna, quase diria um sorriso, no fundo da sua pessoa o Álvaro é assim, Houve ainda uma outra razão para este meu regresso, essa mais egoísta, é que em novembro rebentou no Brasil uma revolução, muitas mortes, muita gente presa, temi que a situação viesse a piorar, estava indeciso, parto, não parto, mas depois chegou o telegrama, aí decidi-me, pronunciei-me, como disse o outro, Você, Reis, tem sina de andar a fugir das revoluções, em mil novecentos e dezanove foi para o Brasil por causa de uma que falhou, agora foge do Brasil por causa de outra que, provavelmente, falhou também, Em rigor, eu não fugi do Brasil, e talvez que ainda lá estivesse se você não tem morrido, Lembro-me de ler, nos meus últimos dias, umas notícias sobre essa revolução, foi uma coisa de bolchevistas, creio, Sim, foi coisa de bolchevistas, uns sargentos, uns soldados, mas os que não morreram foram presos, em dois ou três dias acabou-se tudo, O susto foi grande, Foi, Aqui em Portugal também tem havido umas revoluções, Chegaram-me lá as notícias, Você continua monárquico, Continuo, Ser rei, Pode-se ser monárquico e não querer um rei, É esse o seu caso, É, Boa contradição, Não é pior que outros em que tenho vivido, Querer pelo desejo o que sabe não poder querer pela vontade, Precisamente, Ainda me lembro de quem você é, É natural. ( . . . ) (Saramago, José. O ano da morte de Ricardo Reis. Lisboa, Caminho, 1984)

 

Esses artistas rebeldes. . .

Para com ungarem com o fruidor seu sentim ento perante o m undo são capazes

de todos os riscos. Queim am -se por dentro até encontrar um cam inho por onde passe a criação. Não há fórm ulas, rotinas que sirvam para aplacar a inquietude de quem procura a expressão.

O diálogo de Ricardo Reis e Fernando Pessoa no rom ance de José Saram ago

se presta à discussão aberta, tão aberta quanto o é a am bigüidade desta narrativa. Atrevo-m e a selecionar apenas um ângulo, de acordo com a linha de raciocínio até aqui desenvolvida. Em oções à parte, ou m elhor, em oções j á incorporadas na concretude de nosso subj etivism o, este é um diálogo. E não tem vestígios tradicionais de diálogo — as aspas, os travessões. No entanto, quem não o percebe com o um bate-bola entre dois interlocutores? Claro está do princípio ao fim do fragm ento. A criação de Saram ago ultrapassa os tradicionais am paros, bengalas form ais, da relação dialógica verbal. No início ainda se m antém tím ido na ruptura, fornece pistas — disse fulano, explicou beltrano, ambos falaram —, m as, repentinam ente, desaparecem tais pruridos de narrador e a narrativa se autoconduz livre, solta, apenas aparafusada por vírgulas e alguns pontos, caixa alta (m aiúscula) na letra inicial da palavra do outro. A orquestração não exige a divisão em parágrafos para se m anter afinada. O ritm o de leitura se funde com o ritm o da representação sim bólica de um diálogo profundo.

Aí está um a chave que nos convém : fluência-eficiência. Não é isso que se

pretende na com unicação? Quem não se com unica se trum bica, dizia há m ais tem po o velho Chacrinha. Essa frase virou lugar-com um , o assim ilam os, digerim os e, em nossa autofagia, o deixam os de lado sem , a rigor, ter logrado a efetiva com unicação de nossos recados. Assim , as entrevistas j ornalísticas; a grande m aioria peca pela falta de fluência-eficiência. Quem , ao transcrever um diálogo, sem idiálogo, esboço de diálogo, pseudodiálogo (questionário im positivo, entrevista predeterm inada) está buscando as form as m ais fluentes e eficientes?

Por certo que não são os com unicadores que avançam nas rupturas. Este é o

privilégio da arte. Mas os m ais conscientes, os que se aperfeiçoam , podem aprender m uito e introduzir nas fórm ulas gastas algum as form as que os artistas j á experim entaram . Gilio Dorfles j á teorizou sobre o tem a (Símbolo, comunicación y consumo. Barcelona, Lúm en, 1968). Um a advertência, no entanto: que não sej a pela beleza form al que nos encante a transgressão artística. Claro, esteticam ente (se é que se pode isolar essa qualidade decantada por Boileau) posso m e deleitar com a narrativa dialógica de Saram ago, m as para m eu universo de preocupações interessa a sua naturalidade, a relação hum anizada da conversa, em bora — vej a você — toda ela se passe na m etalinguagem . Diria a voz do senso com um : parece verdade, dois seres vivos, conversando na intim idade. Esta virtude artística, sim , m e deslum bra. Vale a pena até contar um fato ocorrido em Lisboa, dentro de um táxi, pouco tem po depois da publicação e sucesso de O ano da morte de Ricardo Reis. O chofer apontou um a casa para o passageiro, um brasileiro que chegava a Portugal naquele m om ento: “Ali está a casa onde m orou Ricardo Reis, o senhor sabia? O senhor sabe, não é, o Ricardo Reis m orou no Brasil, sabe, não sabe? Pois quando ele voltou para cá foi m orar ali. Um escritor nosso até escreveu um livro sobre isso . . . “ O passageiro silenciou diante desta verdade incontestável. Saram ago, por um lado, Fernando Pessoa, por outro, construíram personagens tão hum anos que hum anos ficaram para a gente sim ples que não está nem aí para m etalinguagens.

Não há nenhum a intenção de absolutizar no exem plo do diálogo Ricardo Reis

—Fernando Pessoa (por Saram ago) determ inada form a para a entrevista e o Diálogo Possível da com unicação coletiva. Apenas um exem plo — ainda que altam ente qualificado e consagrado na m oderna literatura em língua portuguesa — de com o j ornalistas e com unicadores devem se aproxim ar das conquistas artísticas para poderem renovar seu estilo e, em últim a instância, o grau de eficiência de seus textos quanto à com unicação propriam ente dita. E não precisam ir m uito longe: basta lerem textos literários de Ivan Ângelo (A festa, Casa de vidro) ou de Sinval Freitas Medina (Cara, coroa, coragem; Memorial de Santa Cruz).