Fundamentos de Odontologia: Estomatologia
1 Introdução à Estomatologia
O termo “estomatologia” vem do grego stómato, boca, e lógos, estudo, mas também é conhecido como propedêutica clínica, semiologia, diagnóstico bucal e medicina oral. Independentemente da nomenclatura, seu conteúdo é o que importa.
Antigamente a Odontologia era técnica e artesanal. Em 1920, após a
conceituação de infecção focal, teve início seu despertar científico. Burket (1958) consagra esse despertar quando atribui ao cirurgião-dentista a responsabilidade por estudo, diagnóstico, prevenção e tratamento dos seguintes itens:
■ Doenças dos tecidos mineralizados e não mineralizados dos dentes
■ Doenças dos tecidos de suporte e proteção dos dentes
■ Doenças limitadas a lábios, língua, mucosa bucal e glândulas salivares
■ Lesões bucais e dos órgãos contidos na boca em estados mórbidos
generalizados.
Trata-se de uma disciplina nova em Odontologia, particularmente no
Brasil, introduzida na Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FOUSP). Sua trajetória pode ser resumida da seguinte maneira:
■ 1957: disciplina de Propedêutica Clínica ministrada em todas as
disciplinas clínicas
■ 1963: disciplina de Diagnóstico Bucal, pioneira no Brasil, ministrada
pela primeira vez na 1a Cadeira de Clínicas Odontológicas pelo Prof.
Cervantes Jardim
■ 1970: inclusão da disciplina autônoma de Diagnóstico Bucal na FOUSP
após reforma curricular, cujo primeiro responsável foi o Prof. Dr.
Antônio Fernando Tommasi
■ 1972: fundação da Sociedade Brasileira de Estomatologia
■ 1974: o Conselho Federal de Educação torna obrigatória a disciplina
Estomatologia na grade curricular de todas as faculdades brasileiras de
Odontologia
■ 1992: o Conselho Federal de Odontologia reconhece a Estomatologia
como especialidade odontológica, conforme Resolução no 181/92.
Como se pode observar, a Estomatologia é uma disciplina jovem, mas de grande importância na formação do cirurgião-dentista por ser o elo entre o ciclo básico, fundamentado na Patologia Bucal, e o ciclo clínico, com foco no paciente, para diagnóstico e tratamento das doenças bucais.
Vieira Romeiro (1983) conceitua semiologia como o “tratado ou estudo dos métodos de exame clínico. Perquire os sinais e sintomas da doença, discute seu mecanismo e valor, coordena e sistematiza todos os elementos para construir o diagnóstico e, como consequência, deduzir o prognóstico.”
É composta de três partes:
■ Semiotécnica: técnica de pesquisar os sinais e sintomas; define-se como
a arte de explorar
■ Propedêutica clínica: análise dos dados obtidos pela semiotécnica com o
objetivo de diagnosticar, presumir o prognóstico e definir o tratamento
■ Semiogênese: estuda os mecanismos formadores dos sinais e sintomas
em seus mínimos detalhes (etiofisiopatogenia).
Além de seu conteúdo programático específico, a disciplina é
responsável pelo estudo das lesões próprias da mucosa bucal, do complexo maxilomandibular e dos órgãos anexos, bem como das repercussões das doenças sistêmicas bucais. Seu conteúdo é tão abrangente que os especialistas norte-americanos a denominaram Medicina Oral.
Por ser a primeira disciplina clínica, é por intermédio da Estomatologia
que o acadêmico terá seu primeiro contato com o paciente. Nesse momento, ele deverá transformar-se em um verdadeiro detetive à caça de um criminoso (doença), procurando indícios obtidos (sintomas) por meio de anamnese e sinais observados durante o exame físico, formulando, então, hipóteses diagnósticas. Com base nas informações coletadas, o acadêmico deverá solicitar os exames complementares necessários para estabelecer o diagnóstico (criminoso) e, assim, eleger a terapêutica efetiva (condenação).
Para que tal fato possa ocorrer, o acadêmico terá que analisar os indícios
coletados com base nos conhecimentos obtidos no estudo das disciplinas básicas com fecho na Patologia Bucal. Sem esses recursos, não será possível formular hipóteses corretas e o diagnóstico será dificultado ou formulado de maneira incorreta, consequentemente, a terapêutica será inadequada, podendo, inclusive, causar danos irreparáveis ao paciente, que deve sempre ser visto como um todo biopsicossocial indivisível.
É de grande importância ressaltar o trabalho em conjunto com outros
profissionais da área de saúde, com destaque para o médico, em suas várias especialidades, quando formos tratar de manifestações bucais de doenças sistêmicas. Deve-se lembrar que as lesões bucais são de responsabilidade diagnóstica do estomatologista e, na maioria dos casos, seu tratamento local, e, obviamente, manutenção da higiene bucal. Por exemplo, o cirurgião-dentista tem a obrigação de prevenir e diagnosticar o câncer bucal e de participar da equipe multiprofissional, sempre liderada por um médico oncologista, que tratará e reabilitará o paciente. Em outras doenças da boca, de caráter crônico ou agudo, poderá atuar sistêmica e localmente, visando sempre ao bem-estar do doente.
Após cinco décadas de experiência ministrando esta disciplina, os autores criaram uma filosofia de ensino bem estabelecida, a fim de transmitir seu conhecimento aos alunos de graduação por meio deste manual de Estomatologia.
O grande desafio ao desenvolver este manual foi apresentar as doenças por meio de uma gradação, das lesões fundamentais aos capítulos específicos, tais como: alterações de cor, lesões erosivas e ulceradas, lesões vesicobolhosas, crescimentos teciduais, patologia óssea e outros, o que facilitará ao aluno iniciante a formulação de hipóteses diagnósticas corretas e, por meio de exames complementares, quando necessários, a confirmação do diagnóstico, presunção do prognóstico e instituição da terapêutica específica a cada caso.
De grande importância para a disciplina foi a oportunidade que tivemos para uniformizar os conceitos das doenças e de suas respectivas terapêuticas em linguagem única.
Após inúmeras reuniões e discussões entre os docentes, apresentamos, neste manual, o mínimo necessário que, a nosso ver, o aluno de graduação deve conhecer, com bibliografia que lhe permitirá aprofundar os mais diversos assuntos, se assim desejar.
Apesar deste grande desafio, acreditamos ter valido a pena o trabalho que tivemos na elaboração deste manual. Algumas falhas poderão, inevitavelmente, ser identificadas, e desde já agradecemos as sugestões recebidas para aprimorá-la em uma próxima edição.
Bibliografia
Burket LW. Oral medicine: past, present and future. J Periodont. 1958; 29:67-75. Romeiro V. Semiologia médica. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 1983.
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