Fundamentos de Odontologia: Estomatologia
16 Lasers em Estomatologia
Introdução
Tanto o laser de baixa intensidade quanto o de alta intensidade apresentam indicação de uso terapêutico em diversas lesões que afetam a cavidade bucal. O termo fototerapia, ou fotobioterapia, tem sido cada vez mais utilizado na literatura, especialmente ao se referir a tratamento com LED (light emitting diode) ou laser. Neste capítulo serão abordados o tratamento a laser e seus tipos, as indicações e os resultados em Estomatologia. Não serão discutidas as características técnicas de cada tipo; para isso existe excelente literatura disponível.
Constantemente são publicados mais trabalhos com resultados
promissores do uso do laser em lesões estomatológicas; no entanto, muitos casos/resultados não serão apresentados nesse momento, por necessitarem de mais pesquisas com desfechos efetivos. A terapêutica com laser apresenta vantagens relevantes, mas os custos envolvidos, especialmente dos equipamentos de alta intensidade, ainda são um problema a ser solucionado.
Laser de alta intensidade Os lasers de alta intensidade mais utilizados em Estomatologia são os de Nd:YAG (1.064 nm), diodo (810 nm) e CO2 (9.300 nm a 10.600 nm)
(Figura 16.1). Quando emitido sobre o tecido biológico, os seguintes fenômenos podem ocorrer: reflexão e refração, absorção e transmissão, e dispersão. Quando o objetivo é o tratamento cirúrgico das lesões, o efeito desejado mais eficiente nos tecidos é a absorção, que depende primariamente do tecido atingido e do comprimento de onda utilizado no laser (p. ex., o laser de CO2 tem afinidade com as moléculas de água e hidroxiapatita). O aumento da temperatura é particularmente importante na remoção de lesões – a partir de 100°C tem-se o corte; quando a temperatura alcança 150°C, obtém-se a vaporização do tecido (ablação). A maioria dos lasers de baixa intensidade atinge até 100 mW, já os cirúrgicos, de alta intensidade, iniciam por volta de 300 mW chegando até 10 W; cada aparelho deve ser ajustado para a potência mais adequada ao tipo de cirurgia que será realizada.
Lesões epiteliais orais potencialmente malignizáveis
A expressão “desordens orais potencialmente malignizáveis” foi recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2005. A mais utilizada atualmente é “lesões epiteliais orais potencialmente malignizáveis”, que se caracterizam como lesão de mucosa com maior chance de se transformar em lesão maligna quando comparada à mucosa normal. Essas lesões orais com potencial de malignização compreendem leucoplasias, eritroplasias, eritroleucoplasias, líquen plano (LP) e fibrose submucosa, esta praticamente inexistente em Estomatologia.
A realização de biopsia é obrigatória para avaliação de displasia. Essas lesões podem ser tratadas de maneira conservadora, com o acompanhamento periódico a cada 3 ou 6 meses e realização de biopsias em diferentes tempos, porém parece haver consenso entre os autores sobre a intervenção cirúrgica como melhor conduta, mesmo que as evidências sobre a diminuição do risco não sejam tão robustas no momento.
Figura 16.1 Laser de dióxido de carbono (CO ). 2
Leucoplasias
O termo leucoplasia foi introduzido em 1877 por um dermatologista húngaro chamado Schwimmer. Em 2007, a OMS definiu a leucoplasia como uma lesão branca com risco de malignização, desde que fossem excluídas todas as outras lesões ou condições que não apresentassem risco. Sua prevalência na população varia de 1 a 5%. A leucoplasia é a lesão com potencial de malignização mais comumente encontrada; portanto, especial atenção é necessária para seu correto diagnóstico e manejo. Entre os fatores de risco que merecem atenção redobrada quando há leucoplasia, estão: sexo (predileção por mulheres), lesões de longa duração, leucoplasias em não tabagistas, localização da lesão em assoalho e língua, maiores que 200 mm2, lesões não homogêneas e displasia.
A remoção cirúrgica é a estratégia mais recomendada pela maioria dos autores e pode ser realizada com bisturi convencional, bisturi elétrico,
criocirurgia ou laser. Dentre as possibilidades de remoção, o laser de CO2 apresenta vantagens do ponto de vista cirúrgico quando comparado à cirurgia com bisturi, como menos sangramento e índices de bacteriemia, e é especialmente recomendado em lesões extensas na mucosa bucal. Outros lasers cirúrgicos podem ser utilizados com resultados satisfatórios em
lesões menores (Figuras 16.2 a 16.4).
Para remoção pode-se usar a técnica de incisão periférica com margem de segurança e remoção total da lesão; esta técnica possibilita o envio da peça para exame anatomopatológico. A técnica de ablação pode ser utilizada especialmente em lesões muito extensas, mas com a desvantagem de não possibilitar o envio de material para o laboratório, por isso se sugere a realização de biopsia com punch, por exemplo, em áreas específicas da
lesão logo antes da ablação pelo laser de CO . 2
O uso do laser apresenta vantagens, mas não modifica a história natural da doença. Recidivas de lesões são comuns e esperadas, novas intervenções devem ser realizadas e frequentemente novas biopsias também, pois o risco de malignização perdura, obrigando o clínico a manter acompanhamento bastante rigoroso do caso e a orientar devidamente o paciente quanto à
necessidade de observação constante da boca (Figura 16.5).
Hiperplasias traumáticas
As lesões traumáticas causadas por próteses mal adaptadas (totais, parciais ou provisórias) são muito comuns na clínica diária, resultando em tecido hiperplásico inflamatório que pode variar de poucos milímetros a muitos centímetros. O diagnóstico costuma ser bastante simples, considerando-se história da evolução da lesão, característica clínica e causa irritativa presente. Seu tratamento envolve a resolução do fator causador, como a troca da prótese e a remoção cirúrgica do tecido hiperplásico. Quando essa hiperplasia ocorre em fundo de sulco, cuidado adicional deve ser considerado, pois a permanência da profundidade do fundo de sulco na região do rebordo é fator relevante para a confecção da nova prótese.
Figura 16.2 A. Extensa leucoplasia heterogênea em borda direita da língua com 6 meses de duração que, após ampla biopsia, foi diagnosticada como displasia intensa. Deve-se ter cuidado adicional para se evitar o diagnóstico incorreto da lesão. B. Área a ser removida delimitada com laser de CO ajustado em 7 W de potência. C. Após 7 dias de 2 pós-operatório é possível perceber extensa área em cicatrização sem sinais de infecção. D. Após 3 anos de controle clínico, o paciente não apresenta nenhuma alteração de função na língua.
Figura 16.3 A. Extensa leucoplasia em língua com displasia moderada. B. Teste do azul de toluidina para definição da área a ser biopsiada. C. Remoção por ablação em dois tempos distintos da parte leucoplásica na metade direita da língua. D. Pós-operatório de 2 semanas. E. Remoção por ablação da parte esquerda da leucoplasia. F. Controle após 2 anos do tratamento.
Técnicas tradicionais como remoção com bisturi convencional ou elétrico podem ser utilizadas, porém a remoção cirúrgica a laser apresenta vantagens em relação a sangramento, integridade da profundidade do sulco alveolar, cicatrização local mais rápida – mesmo sendo por segunda intenção –, que pode levar de 2 a 4 semanas até total recuperação.
A técnica de remoção consiste em incisar a lesão em sua base, sendo o
mais conservadora possível. Após delimitação da área, todo o tecido deve ser removido, deixando um leito cirúrgico que, na maioria das vezes, não apresenta sangramento. A cicatrização ocorrerá por segunda intenção, podendo concluir-se em 3 a 5 semanas. Essa técnica possibilita o envio de material para exame anatomopatológico. Para a maioria dos pacientes, o pós-operatório ocorre de maneira adequada, sendo necessário o uso de analgésicos e anti-inflamatórios não esteroidais, especialmente nos primeiros 5 dias. À medida que a cicatrização progride, os sintomas melhoram. A recomendação de colutórios à base de clorexidina ou benzidamida traz conforto adicional para o paciente. Uso de antibióticos não é obrigatório e deve ser avaliado em cada caso. Analgésicos de ação central são pouco utilizados, mas podem ser prescritos como medicação de
controle da dor quando necessário, em geral em lesões extensas (Figura
16.6).
Figura 16.4 A. Extensa leucoplasia com atipia moderada em rebordo, fundo de sulco e mucosa jugal. B. Leucoplasia removida por ablação com laser de CO . C. Controle clínico 2 após 3 anos da primeira aplicação do laser. Cabe lembrar a importância da realização de biopsias incisionais antes do tratamento cirúrgico. Em lesões extensas, múltiplas biopsias ou de considerável extensão devem ser realizadas para minimizar a chance de diagnóstico incorreto devido ao tamanho da lesão.
Figura 16.5 A. Leucoplasia em paciente de 83 anos, do sexo feminino, com queixa de 2 anos de duração com displasia intensa. B. Remoção por incisão com margem de segurança. C. Pós-operatório com 1 ano de controle. D. Pós-operatório com 4 anos de controle.
Figura 16.6 A e B. Extensa leucoplasia com 10 anos de evolução em fundo de sulco da maxila devido ao uso de prótese mal adaptada. C. Remoção por incisão de toda a hiperplasia sem a necessidade de sutura. D. Pós-operatório de 4 semanas sem perda de profundidade do sulco vestibular.
Após cicatrização, nova prótese deve ser feita. Próteses anti-gas em uso podem ser reembasadas, favorecendo assim uma cicatrização guiada, preparando o tecido para nova moldagem. Todo tecido removido deve ser enviado para exame anatomopatológico.
Lesões vasculares
A cavidade bucal é frequentemente afetada por lesões vasculares. Várias classificações dessas lesões foram propostas até o momento, e a Sociedade Internacional para Estudos das Anormalidades Vasculares as classifica em tumores e malformações vasculares, sendo os hemangiomas as lesões mais frequentes. Hemangiomas são tumores benignos que se originam no endotélio vascular, podem estar presentes ao nascimento, mas seu surgimento é mais comum nos primeiros meses após o nascimento, mais de 50% acometem cabeça e pescoço, e 75% desses regridem naturalmente.
Malformações vasculares são lesões benignas não tumorais, e sempre
existentes ao nascimento, mas somente detectadas semanas ou meses depois; diferentemente dos hemangiomas elas não regridem, persistem e crescem lentamente por toda a vida. Elas são classificadas de acordo com os vasos afetados: capilares, venosas, linfáticas, arteriovenosas e combinadas.
Diferentes modalidades podem ser utilizadas no tratamento dessas
lesões, como cirurgia com bisturi frio, criocirurgia, embolização, corticosteroides, esclerosantes e lasers de alta intensidade. A primeira publicação sobre tratamento de lesão vascular com laser cirúrgico é de 1965 com equipamento de Nd:YAG (1.064 nm) com grande absorção vascular, boa penetração nos tecidos (6 mm) e larga dispersão nos tecidos, ocorrendo seu efeito principal abaixo da superfície de mucosa. Esse tipo de laser não é indicado para todas as malformações vasculares, pois depende da intensidade do fluxo sanguíneo das lesões, sendo mais adequado para tratamento de lesões capilares e venosas de baixo fluxo. O tratamento a laser de Nd:YAG é o mais recomendado pela sua afinidade com a hemoglobina e pela baixa liberação de calor nos tecidos ao redor, pois ele destrói seletivamente a área-alvo sem danificar o entorno das malformações vasculares.
Em 2018, Cadavit et al. relataram os resultados no tratamento de mais
de 100 lesões sem intercorrências e com bons resultados terapêuticos com o uso do laser de Nd:YAG (Power Laser C) ST6 Lares Research®, com 3 W por pulso, frequência de 50 Hz e duração do pulso entre 125 e 150 microssegundos, com comprimento de onda de 1.064 nm e diâmetro de fibra de 400 micrômetros. O tempo de exposição ao laser variou de 15 s a 2 min de irradiação, na dependência da extensão da lesão. Imediatamente após o início da aplicação é possível observar alteração na cor da superfície da lesão, passando de arroxeado para branco. O procedimento deve ser mantido até que toda lesão esteja esbranquiçada.
Os casos apresentados neste capítulo são exemplos de malformações vasculares e hemangiomas tratados com esse modelo de equipamento. O tratamento com laser de alta intensidade exige anestesia local para sua
realização (Figuras 16.7 a 16.11).
Figura 16.7 A. Malformação vascular em mucosa jugal direita. B. Aparência imediatamente após irradiação com o laser; notar aspecto esbranquiçado da área tratada. C. Pós-operatório de 15 dias: área ainda em cicatrização.
Figura 16.8 A. Extenso hemangioma em comissura labial direita. B. Aspecto imediatamente após a aplicação do laser. C. Pós-operatório de 30 dias após a aplicação do laser.
Laser de baixa intensidade
A fototerapia com laser de baixa intensidade tem sido cada vez mais estudada em variadas situações clínicas que envolvem inflamação e dor. Neste capítulo vamos nos ater às indicações do laser de baixa intensidade com maior arcabouço de evidência científica, cientes de que muitos estudos estão sendo desenvolvidos em outras doenças que afetam a cavidade bucal.
O tratamento com laser de baixa intensidade começou a ser estudado no
final da década de 1960 e tem sido utilizado em variadas situações odontológicas, como sensibilidade dentinária, osteonecrose, cicatrização de dentes extraídos, aftas, LP, herpes, xerostomia, trismo muscular, penfigoide benigno das membranas mucosas, nevralgias, parestesias e síndrome de ardência bucal (SAB), entre outras situações.
Como ocorre em qualquer início de tratamento, o diagnóstico preciso da
lesão a ser tratada é fundamental para se avaliar e estabelecer a conduta terapêutica. Mesmo que o laser de baixa intensidade não apresente sérios efeitos colaterais ou indesejados, ele só deve ser utilizado com a correta indicação após o diagnóstico da doença. Seu uso apenas para se obterem efeitos de modulação da inflamação e da dor deve ser evitado em lesões ainda não diagnosticadas.
Figura 16.9 A. Malformação vascular em mucosa labial com comprometimento estético. B. Controle pós-operatório após 2 meses do tratamento.
Figura 16.10 A. Hemangioma em comissura labial esquerda com queixa de desconforto e sangramento eventual. B. Única aplicação de laser de Nd:YAG com 2 W, totalizando 90 s. C e D. Controle pós-operatório de 1 ano, sem sintomas; pode-se observar discreta área cicatricial.
Um fator complicador do uso do laser é a variação de tipos e equipamentos, que resultam em variação bastante grande de protocolos e indicações, fato que pode dificultar a correta escolha do protocolo a ser utilizado.
Mucosite
A mucosite oral é uma complicação frequente do tratamento oncológico com rádio e quimioterapia, apresenta-se na forma de eritema, ulcerações, sangramento e edema, acompanhados de sintomatologia dolorosa (sua intensidade depende do regime quimioterápico e da dose de radioterapia utilizada). O laser de baixa intensidade tem apresentado bons resultados em prevenção e tratamento da mucosite oral decorrentes de rádio e quimioterapia. O tratamento de mucosites com laser foi iniciado no final de 1960 e recentemente foi recomendado como opção de tratamento nas orientações da Multinational Association for Supportive Care in Cancer/International Society for Oral Oncology (MASCC/ISSO).
Existem inúmeros estudos com parâmetros variados da aplicação do
laser de baixa intensidade (Quadro 16.1), como pode ser visto nessa revisão sistemática sobre o tratamento e a prevenção de mucosite em crianças e jovens, com variações no comprimento de onda do laser (660 a 940 nm), energia (0,3 a 3,2 W), dose (0,35 a 72 J) e tempo de aplicação por ponto (10 a 54 s por cm2). Os autores concluíram que a fototerapia de baixa intensidade apresentou resultados favoráveis tanto usada como estratégia preventiva quanto terapêutica no controle de mucosites decorrentes de tratamento oncológico.
Figura 16.11 A. Malformação vascular com queixa de comprometimento estético. B. Aspecto imediatamente após 50 s de aplicação de laser a 3 W. C. Controle pósoperatório de 2 meses.
As doses terapêuticas para mucosite mais normalmente utilizadas variam de 20 a 80 mW, de 2 a 4 J por ponto irradiado. O número de pontos irradiados vai depender do objetivo da aplicação, preventiva ou terapêutica, e mesmo da gravidade da mucosite instalada. A frequência pode variar de uma a duas aplicações diárias por 10 a 15 dias de aplicações. O objetivo é prevenir, evitar, minimizar a gravidade da mucosite e diminuir a duração da mucosite.
Parâmetros de irradiação no uso do laser.
Quadro 16.1
Comprimento de onda (nm) Comprimento da onda in uencia quais cromóforos vão
absorver a energia irradiada
Energia (W) Número de fótons por segundo
Área irradiada (cm2) Superfície irradiada
Diâmetro de ponta (cm2) Área útil da ponta do equipamento que irradia o laser
Densidade de energia (W/cm2) Maior densidade de energia pode resultar em menor
tempo de irradiação por paciente
Energia radiante (J) Energia pelo tempo de irradiação
Tempo (s) Tempo de irradiação por área tratada
Dose (J/cm2) Diferentes resultados podem ser obtidos na
dependência da dose depositada nos tecidos
Modo de operação – Contínuo ou Irradiação pulsada ou contínua podem ser ajustadas
pulsado
Tempo de tratamento/frequência Pode variar de tratamento diário a algumas vezes por
(× semana) semana
Fonte: Zecha et al., 2016; 2016a.
Líquen plano
O LP é uma doença mucocutânea inflamatória imunologicamente mediada, com prevalência de 0,5 a 2% na população, afetando principalmente mulheres acima de 35 anos de idade. O LP oral é considerado lesão potencialmente malignizável, com risco aproximado de 1% de malignização ao longo dos anos. Pode ser classificado conforme sua aparência clínica: reticular, erosivo, atrófico, bolhoso, em placa e do tipo papular. O reticular é o mais frequente e o de menor potencial de malignização. O tratamento só deve ser instituído se houver sintomas de ardência ou dor. O LP erosivo é considerado pela maioria dos autores o de maior risco de malignização. O desenvolvimento do LP é atribuído a uma infiltração dos linfócitos T que medeiam uma reação inflamatória em resposta a antígenos da mucosa bucal, resultando em apoptose das células da mucosa e, consequentemente, nas lesões clínicas visíveis.
Os trabalhos sobre o tratamento do LP foram realizados com lasers de baixa e de alta potência. A dose para tratamento do LP variou de 1 a 2 J/cm2.
Em revisão sistemática com metanálise do tratamento do LP com o uso do laser de baixa intensidade, Hoseinpour et al. concluíram que este é opção válida para o tratamento de lesões sintomáticas, especialmente como alternativa ao tratamento padrão com corticosteroides ou imunossupressores. O tratamento com laser de baixa intensidade não demonstrou nenhum efeito colateral. Já o tratamento do LP com o uso de corantes (terapia fotodinâmica), não apresentou resultados favoráveis.
Atualmente o tratamento padrão do LP sintomático é o tradicional, com corticosteroides e imunossupressores; mais estudos ainda são necessários para sua prescrição terapêutica.
Úlceras aftosas recorrentes
Também denominadas aftas, são bastante frequentes na clínica diária, com prevalência bastante variável na população mundial, afetando cerca de 20% das pessoas. As aftas caracterizam-se por úlceras de forma arredondada, com diâmetros que variam de 1 mm a 2 cm. Sua etiologia é incerta, mas pode estar relacionada com vários fatores predisponentes, como traumatismos e alguns alimentos (chocolates, frutas cítricas, tomates, amêndoas, trigo), deficiência de nutrientes (vitaminas B1, B2 e B6, folato, zinco, ferro), condições sistêmicas (menstruação, baixos níveis de insulina, doença de Crohn, doença celícaca, colite ulcerativa, anemia, neutropenia cíclica, doença de Behçet, doença MAGIC, síndrome de Marshall, eritema multiforme, entre outras), presença de alguns microrganismos, hábitos tabagistas, estresse, uso do bifosfonato alendronato e de alguns anti-inflamatórios não esteroidais.
O tratamento medicamentoso varia desde medicações tópicas a
sistêmicas, devido à grande variedade de apresentações clínicas e doenças correlatas. Mais uma vez o diagnóstico correto é bastante importante antes de se iniciar o tratamento. Em revisão sistemática publicada em 2016, por Najeeb et al., avaliaram-se nove trabalhos de tratamento das aftas com o laser de baixa intensidade, com uma dose de 100 mJ a 6,3 J. Os auto-res concluíram que o efeito analgésico foi observado em todos os estudos, mas outros estudos são necessários para se avaliar o real valor do tratamento com laser de baixa intensidade para aftas, que devido à grande variedade de protocolos, não é possível recomendar um protocolo como padrão.
Síndrome de ardência bucal
A SAB é definida pela Sociedade Internacional de Cefaleia como “sensação de queimação ou disestesia recorrente por mais de duas horas por dia por mais de 3 meses, sem sinais clínicos evidentes de outras lesões”. Esta definição não a classifica como dor psicogênica, como era considerada há duas décadas, mas como uma neuropatia cranial dolorosa. A Associação Internacional do Estudo da Dor reconheceu a SAB, em 1994, como doença específica inicialmente denominada “glossodinia” ou “boca dolorida”.
A área mais afetada é a língua, especialmente nos dois terços anteriores,
sendo a única área afetada em metade dos pacientes com queixas, seguida por região anterior do palato e gengiva, lábios inferiores e faringe. Em casos típicos os sintomas são bilaterais e simétricos, apesar de localização unilateral ser possível, dependendo da anatomia dos nervos periféricos. Geralmente a dor tende a piorar durante o dia, desaparecendo à noite e durante caminhadas, apesar de poder ser constante, sem intervalos.
O registro da dor em diários é recomendado para se entender melhor como ela se manifesta em cada paciente. A etiologia da SAB é complexa e provavelmente multifatorial, pode estar associada a distúrbios da percepção da dor, transtornos psicológicos, disgeusia, distúrbios hormonais e neuroendócrinos, distúrbios no ciclo circadiano e transtornos do sono.
A prevalência da SAB varia bastante, conforme resultado de estudo realizado (0,01 a 40%), porém parece que o número mais próximo do real estaria em torno de 1,5%, apesar de ainda ser considerado muito alto; portanto, sua prevalência ainda não contempla índices definidos.
O diagnóstico da SAB primária deve ser feito por exclusão, após todas as outras possibilidades serem descartadas, e é um dado relevante o paciente não apresentar nenhuma alteração clínica visível.
O tratamento da SAB é sempre desafiador. Desde o início o paciente deve ser esclarecido sobre a complexidade de sua doença, a inexistência de cura e o tratamento sintomático. As expectativas de resultado devem ser administradas com parcimônia. A atenção durante a anamnese já deve ser considerada parte do tratamento, e o esclarecimento da condição ao paciente é muito importante, visto que muitas vezes esse paciente apresenta sinais de cancerofobia, além de normalmente ter passado por outros profissionais sem obtenção do diagnóstico prévio. O clonazepam é um dos medicamentos mais utilizados no tratamento, tópica ou sistemicamente, isoladamente ou em associação a outros. Podem ainda ser utilizados topicamente capsaicina e lidocaína, além de medicações sistêmicas, como antidepressivos tricíclicos, inibidores da recaptação da serotonina, opioides e benzodiazepínicos. Os resultados terapêuticos são muito variados, não existindo, portanto, tratamento padrão. Em geral o paciente passa por várias tentativas para, se não cessarem os sintomas, que pelo menos eles sejam minimizados.
O laser de baixa intensidade atualmente é bastante estudado como
alternativa de tratamento. Santos et al. (2011) trataram 10 pacientes de SAB com laser de baixa intensidade (660 nm, 40 mW, 20 J/cm2, 0,8 J/ponto) por semanas e obtiveram resultado na escala VAS de 58% nos sintomas relatados. Em 2016, Sugaya et al., em estudo duplo-cego, controlado por placebo, trataram 30 pacientes separados em dois grupos, com os seguintes parâmetros – 790 nm, 20 mW, 6 J/cm2 – irradiados por quatro sessões e controlados até 90 dias após a irradiação. Os resultados obtidos nesse protocolo demostraram resultados semelhantes de benefício entre o grupo laser e o grupo placebo, daí a necessidade de realização de estudos realizados com maior rigor científico.
Em um estudo cegado, no qual foram observados três grupos de
pacientes com SAB tratados por 4 semanas, o primeiro grupo (G1), com 16 pacientes, foi tratado com laser de GaAlAs (815 nm, 1 W, 4 s, 4 J e fluência de 133,3 J/cm2), o segundo grupo (G2) também, porém com parâmetros diferentes (815 nm, 1 W, 4 s e fluência de 200 J/cm2). Comparando-se o resultado com o G3, que utilizou laser placebo, obteve-se discreta melhora na escala de dor de 15,7% no G1, 15,6% no G2 e 7,3% no G3.
Em revisão sistemática publicada em 2017, por Al-Maweri et al., que
analisou somente ensaios clínicos randomizados, concluiu-se que o laser parece trazer benefícios aos pacientes, porém, devido ao pequeno número de pacientes tratados, muita variação nos protocolos utilizados e inconsistência nos escores de VAS utilizados, há necessidade de estudos mais bem conduzidos, especialmente os duplos-cegos, controlados por placebo, e com maior casuística para recomendar o laser como tratamento da SAB.
O tratamento da SAB com laser de baixa intensidade ainda necessita de
maiores evidências para sua recomendação regular, porém deve ser uma alternativa terapêutica a ser avaliada devido aos resultados presentes na literatura até o momento.
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