Fundamentos de Odontologia: Estomatologia
3 Princípios de Biossegurança em Odontologia
Introdução
Neste capítulo serão apresentados resumidamente os principais itens em biossegurança odontológica no trabalho clínico com o paciente (PAC). Os detalhes devem ser aprofundados em livro dedicado exclusivamente ao assunto. Neste capítulo, o tema principal é o uso de barreiras físicas conhecidas como equipamentos de proteção individual (EPI).
É importante enfatizar que os PAC e profissionais de saúde (PS) são
expostos a todo momento a microrganismos patogênicos durante seu trabalho. Dentre esses microrganismos, os mais comuns são as bactérias, mas também se tem contato com vírus, príons, fungos e protozoários.
Esses microrganismos podem ser transmitidos para os profissionais, em
consultórios odontológicos, do seguinte modo:
■ Contato direto com sangue e fluidos bucais e outros contaminantes
originados no PAC
■ Contato indireto com objetos contaminados (p. ex., instrumentos,
equipamento ou superfícies)
■ Acidentes perfurocortantes ■ Contato com gotículas contaminadas das mucosas conjuntival, nasais e
orais espirradas a curta distância por tosse, espirro ou fala
■ Inalação de aerossóis suspensos no ar por longos períodos.
O PS não está sujeito apenas aos riscos de natureza biológica, mas também aos de origem física (ruídos produzidos por equipamentos de ultrassonografia e radiografia, radiações não ionizantes e, em alguns casos, até as ionizantes, e acidentes provocados por materiais perfurocortantes); riscos de origem química decorrentes de contato pelas vias respiratória e cutânea, e riscos ocupacionais exemplificados pela lesão por esforços repetitivos.
Atualmente o procedimento que prevalece é a adoção de precauções padrão (antigamente denominadas precauções universais), o que significa empregar as mesmas medidas de biossegurança a todos os PAC, considerando que todos podem oferecer riscos potenciais de transmissão, tendo ciência disso ou não.
As precauções padrão (mais apropriadamente denominadas precauções padronizadas) foram ampliadas e estabelecem padrões para proteção de profissionais e PAC contra patógenos que podem se disseminar por sangue e outros fluidos orgânicos secretados ou excretados, pele (que perdeu a integridade) e mucosas. Nessas medidas preventivas incluem-se manilúvio (do latim, manus [mãos] + luere [lavar]), cuidados com o manuseio de instrumentos contaminados, esterilização e desinfecção, higiene do ambiente, utilização de dique de borracha para minimizar espirros, uso de aspiração potente para minimizar o aerossol, uso de EPI e descarte adequado de resíduos.
Entre as medidas a serem adotadas, devem-se oferecer treinamento inicial e continuado de todos os envolvidos em ambientes acadêmicos (professores, alunos e funcionários); imunoprofilaxia (adoção de todas as vacinações disponíveis contra infecções relacionadas); e quimioprofilaxia pós-exposicional (realização de terapia antes da instalação de doenças e após contaminações reconhecidas, como quando ocorrem acidentes perfurocortantes). É o que determina a Norma Regulamentadora (NR) 32 estabelecida pelo Ministério do Trabalho e Emprego.
Medidas gerais de biossegurança
Higienização das mãos
A higienização das mãos (HM) – ou degermação das mãos – é um procedimento técnico considerado uma das mais importantes medidas de biossegurança que não deve ser confundido com uma “lavadinha”.
A HM reduz o potencial patogênico desta parte dos membros e é
considerada a maneira mais simples de diminuir a infecção cruzada no ambiente clínico.
A microbiota das mãos (e seu comportamento) foi inicialmente descrita
em 1938. Ela abriga microrganismos residentes e transitórios; estes são removidos mais facilmente e, felizmente, são mais patogênicos que os primeiros, que são eliminados mais lentamente.
No exame físico e nos procedimentos não cirúrgicos, a HM pode ser
realizada com água e detergente líquido, com ou sem antisséptico. O objetivo da antissepsia antes dos procedimentos cirúrgicos é eliminar a microbiota transitória, reduzir a residente e prevenir a introdução de microrganismos na ferida cirúrgica, se as luvas contiverem microperfurações ou forem acidentalmente rompidas.
Os microrganismos das mãos podem multiplicar-se rapidamente na pele
umedecida sob as luvas, se as mãos forem degermadas apenas com detergentes e sem o uso de antissépticos com efeitos residuais. Estes devem reduzir a contagem de microrganismos, agir rapidamente e apresentar efeito residual e não devem ser irritantes e alergênios. Entre os antissépticos mais comuns, os mais recomendados são as soluções de clorexidina a 2% (preferencialmente) ou de iodopovidona.
Não serão descritas aqui todas as etapas da técnica do manilúvio, no entanto, é válido enfatizar que o ensaboamento deve ser profuso, da prega do cotovelo às pontas dos dedos, que o uso de escova macia melhora o desempenho e que não se deve usar toalha contaminada para enxugar as mãos, particularmente no preparo pré-cirúrgico.
O uso de luvas não diminui a importância de se fazer um rigoroso manilúvio. Este deve ser realizado imediatamente após a remoção das luvas, que podem conter microperfurações, já que na remoção pode ocorrer contaminação das mãos; além disso, o uso de luvas, por si só, provoca proliferação de bactérias no local selado.
O álcool gel a 70% é o substituto ideal do manilúvio tradicional. Pesquisas recentes mostraram sua maior eficiência comparando-se com o sistema “água e sabão”. Atualmente recomenda-se seu uso para as mãos sem sujidades visíveis e até mesmo quando estão comprovadamente contaminadas e sujas, mas essa recomendação ainda está em fase experimental, sendo ainda vigente o procedimento anterior.
Em sua aplicação devem-se fazer os mesmos movimentos realizados no sistema “água e sabão” até que seja totalmente absorvido, a partir da aplicação inicial de uma quantidade comparável a uma moeda de R$1,00 (um real), ou seja, não basta dar uma “molhadinha” nas bactérias.
Não deve ser substituído pelo álcool a 70% comum, que é útil para a limpeza de superfícies, mas provoca desidratação da pele.
Equipamentos de proteção individual
São barreiras mecânicas designadas para proteger a pele, as mucosas oculares, nasais e bucais, os cabelos, as roupas e os pés contra a contaminação por sangue e outros fluidos orgânicos.
Na atividade odontológica, há situações que não ocorrem em outras
profissões de saúde. Os instrumentos cirúrgicos e rotatórios (p. ex., alta rotação, seringas tríplices e raspadores ultrassônicos) criam uma névoa visível e espirros que contêm gotículas de saliva, sangue, microrganismos e outras partículas. Os espirros alcançam uma distância curta e se depositam no piso, sobre as superfícies operatórias ou sobre os profissionais e o PAC.
A névoa visível pode conter partículas invisíveis e respiráveis do
aerossol, com diâmetro inferior a 10 μm, e não deve ser confundida com a névoa e os espirros. Os aerossóis podem ficar suspensos no ar por longos períodos e ser inalados. O uso de dique de borracha e de aspiradores de alta potência minimiza a névoa e o aerossol.
Os EPI incluem luvas, máscara ou respirador, óculos, escudo facial,
gorro e avental. Alguns incluem também os propés, mas estudo mais aprofundado mostra que seu uso ainda é controvertido, havendo prós e contras; geralmente mais contras. Já se ouviu dizer que eles somente devem ser indicados para preservar pisos de museus.
Os EPI devem ser colocados somente dentro do ambiente de trabalho e
removidos antes de abandoná-lo. EPI reutilizáveis devem ser lavados com água, sabão e hipoclorito de sódio a 1% e ser trocados assim que visivelmente contaminados. Não mais se aceita que os profissionais trabalhem apenas com uniformes, calças ou saias, camisas ou blusas.
As máscaras devem fornecer filtração maior que 95%, por isso são
denominadas respiradores N95 ou PP2 dos microrganismos, além de proteger contra névoas, espirros e aerossol.
Infelizmente, constatou-se a maioria das máscaras disponibilizadas no
mercado brasileiro não tem essa capacidade. A proteção necessária apenas foi atestada em alguns respiradores (N95, N99 e N100), que deverão ser adotados na prática clínica, se quisermos atingir essa eficiência. Eles têm capacidade filtrante muito superior e possibilitam melhor adaptação à face do operador. Essa atenção deve ser redobrada nos casos de doenças sabidamente transmitidas pelas vias respiratórias, como, por exemplo, em PAC portadores de tuberculose.
Interessante notar que para PS que têm barba, há vazamento mesmo em respiradores.
Sabe-se que máscaras e respiradores não devem ser tocados durante os procedimentos e que perdem eficiência quando umedecidos. Nestas últimas condições, a resistência ao fluxo de ar aumenta na área umedecida, forçando o ar a exalar pelas bordas. Quando as máscaras e respiradores ficam molhados, devem ser substituídos tão logo quanto possível. Sua remoção deve ser feita tocando-se exclusivamente nos seus elásticos de contenção.
Os demais EPI devem ser usados para prevenir a contaminação oriunda do ambiente externo ao local de atendimento e proteger os PS da contaminação originária do PAC, e vice-versa.
Os aventais preferidos são os de manga longa, para proteção dos braços.
Luvas de procedimento ou estéreis são EPI descartáveis, não devendo ser reaproveitadas sob nenhuma hipótese. Procedimentos invasivos não devem ser feitos com luvas de procedimento, já que eles requerem esterilidade. Devem ser trocadas entre PAC ou quando se nota perfuração.
As microperfurações das luvas causadas pelo uso variam de acordo com material, duração e tipo de procedimento realizado. A frequência dessas perfurações varia de 6 a 16%, não sendo definida, por falta de estudos, a periodicidade com que as luvas devem ser trocadas durante os procedimentos.
Durante a conduta, as luvas entram em contato com muitos materiais e produtos químicos que podem comprometer a integridade do látex (material de que são feitas). Seria importante que os fabricantes informassem a compatibilidade de suas luvas com esses diversos produtos.
A lavagem das luvas com detergentes, clorexidina ou álcool pode
favorecer o aparecimento de microperfurações; por isso, essa atitude não é recomendada. Se as mãos estiverem umedecidas com álcool antes de calçar luvas, devem ser secadas rigorosamente, pelos mesmos motivos.
Devido às limitações apontadas, alguns estudiosos aconselham duplo
enluvamento, pois perceberam que, quando com esse cuidado, a luva interna apresenta menos perfurações que a externa. Assim, o duplo enluvamento pode oferecer melhor proteção ao operador. Aparentemente, essa prática não diminui a destreza e a sensibilidade necessárias ao trabalho.
A luva de vinil não é recomendada em outros países, pois apresenta
qualidade inferior e risco de contaminação muito maior quando comparada à de látex. A Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) no 55/2011 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em vigor desde maio de 2012, exclui as luvas de vinil e de borracha sintética do sistema de certificação compulsória do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), ou seja, estes modelos não passarão mais por avaliação de qualidade, sendo comercializadas livremente no mercado nacional sem comprovação de eficácia, diferentemente das luvas de látex, que continuam tendo sua qualidade verificada a cada 6 meses, conforme disposto na Portaria no 233 do Inmetro, de 30 de junho de 2008.
Outro risco da luva de vinil é o fato de ela apresentar bis(2-etil-
hexil)ftalato (DEHP) na sua composição, um componente prejudicial que pode ser transferido da luva para o organismo e apresenta toxicidade, especialmente em meninos em fase de desenvolvimento.
Em casos de hipersensibilidade às luvas de látex tradicionais, a
recomendação é a sua substituição por luvas de látex sem pó (powder free) e/ou luvas de borracha sintética, como a nitrila.
Para lavagem de instrumentais não se recomenda o uso de luvas de
látex, que não têm a resistência suficiente; as adequadas são as de polinitrila (luvas domésticas ou de jardinagem).
Campos e coberturas das superfícies clínicas
As superfícies clínicas podem ser diretamente contaminadas por fluidos provenientes do PAC ou dos membros da equipe odontológica e por
instrumentos, equipamentos, mãos e luvas. No Quadro 3.1 são listados alguns exemplos dessas superfícies.
O uso de barreiras de proteção pode prevenir a contaminação dessas superfícies. Sua importância aumenta quando há superfícies difíceis de limpar e desinfetar.
As barreiras incluem folhas de policloreto de vinila (PVC) e de alumínio de uso doméstico, sacos de papel, canudinhos de refresco, bicos plásticos para seringas tríplices, mangueiras de cobertura de PVC ou de tecido não tecido (TNT), campos cirúrgicos estéreis de TNT e outros materiais impermeáveis.
Essas barreiras contaminam-se pelo uso, por isso devem ser substituídas a cada troca de PAC, enquanto os PS permanecem enluvados.
Após sua remoção, os profissionais devem examinar as superfícies para verificar se não ficaram inadvertidamente manchadas. De todo modo, as superfícies devem ser limpas e desinfetadas com produtos químicos que eliminem vestígios de vírus, como HIV, HVB, HVC. O álcool a 70% é eficiente, exceto contra o Clostridium difficile, que só é sensível às soluções de hipoclorito de sódio.
Os PS devem exigir dos fabricantes informações sobre a compatibilidade dos materiais que fabricam com os vários desinfetantes e como eles devem ser desinfetados.
Durante a desinfecção, os PS devem estar protegidos por EPI para evitar intoxicação. Um erro comum é a utilização de luvas de látex nessas tarefas. Elas não oferecem resistência suficiente, e as tarefas não exigem refinado trato. Novamente frisando, as luvas de polinitrila (luvas domésticas ou de jardinagem) são as mais adequadas.
Exemplos de superfícies facilmente contamináveis.
Quadro 3.1
• Manoplas dos re etores
• Interruptores
• Aparelhos radiográ cos
• Teclados de computadores
• Lápis e canetas
• Embalagens de materiais odontológicos
• Pontas de embalagens de resinas compostas
• Ponta de fotopolimerizadores
• Puxadores de gavetas
• Torneiras
• Armários odontológicos
• Cadeiras odontológicas e mochos
• Telefones
• Maçanetas das portas
• Mangueiras Sugadores de saliva
Nos ejetores de baixo volume, ocorre um fluxo de retorno quando a pressão no interior da boca do PAC é menor do que a do sugador. Estudos demonstraram que esse fluxo de retorno provoca a injeção dos microrganismos que estavam na mangueira do ejetor quando o PAC sela a boca no ejetor de saliva. Este defluxo tem o potencial de produzir infecção cruzada. Ocorre também quando se usam simultaneamente o sugador de baixo volume e um de alto volume. Embora não haja relatos de efeitos deletérios para a saúde, trata-se de um efeito, no mínimo, desagradável.
Medidas de biossegurança para procedimentos específicos
Antissepsia pré-operatória
Bochechos ou embrocações antissépticas devem ser realizados antes de qualquer procedimento para reduzir a microbiota bucal e, consequentemente, a contaminação do aerossol produzido e a bacteriemia induzida por procedimentos invasivos.
A região perioral deve sofrer antissepsia, porque é impossível não a tocar com a luva estéril, ainda que se use um campo fenestrado. Costuma-se friccionar gaze ou mecha de algodão com clorexidina a 2% (preferencialmente) ou iodopovidona a 1%.
Manejo nas radiografias odontológicas
Quando se obtêm radiografias, corre-se o risco de infecção cruzada. O procedimento deve ser realizado usando-se EPI.
Uma boa medida é encapar os filmes com embalagem normalmente usada para acondicionar dispositivos (slides) antes de sua montagem. Desse modo, a embalagem original de cor branca dos filmes não entra em contato com os fluidos bucais.
O cirurgião-dentista cuidará da colocação do filme na boca do PAC e o
aparelho será disparado por auxiliar, que, por sua vez, não tocará no PAC, exceto para colocar as proteções plumbíferas. O primeiro retira o posicionador com o filme, rasga cuidadosamente a sobre-embalagem e empurra o filme sobre o balcão clínico, descartando-a em lixeira para material contaminado. O auxiliar apanhará o filme e cuidará da revelação, sem levar a contaminação para a caixa de revelação.
De todo modo, a caixa de revelação deverá ser lavada e desinfetada
diariamente. Os posicionadores serão lavados e autoclavados, se forem termorresistentes, ou esterilizados quimicamente se não o forem.
Manejo de biopsias
Para proteger as pessoas que manejam ou transportam os frascos que contêm material de biopsias, deve-se usar frascos à prova de vazamento. Um fragmento de PVC interposto entre o frasco e sua tampa rosqueada ajuda o velamento. O frasco deve ser embalado com o mesmo material usado para embalar instrumental a ser esterilizado, devidamente selado.
Na coleta do material, deve-se tomar o cuidado de não encostá-lo na
parte externa do frasco. Se isso acontecer, o frasco deverá ser desinfetado.
O frasco deve ser etiquetado com o símbolo de risco biológico, ainda
não obrigatório no Brasil devido à amplitude do mercado nacional.
Manejo de dentes extraídos
Descartados em frascos fechados e igualmente etiquetados com o símbolo de risco biológico. São potencialmente infectantes. Uma boa medida é que sejam limpos e desinfetados ou esterilizados antes do descarte.
Quando preservados pelo formol não oferecem riscos de contaminação
cruzada.
Os dentes que contêm amálgama de prata não devem ser incinerados,
pois haverá exalação de mercúrio.
Anestesia | Tubetes anestésicos
Os tubetes anestésicos não são estéreis e não podem ser misturados com
material estéril, mas devem ser desinfetados (Quadro 3.2).
Princípios básicos para os cuidados com o material cirúrgico e a
cirurgia
A habilitação para a prática cirúrgica, a terapêutica medicamentosa e a biossegurança são ensinadas em disciplinas que frequentemente estão ao final do curso de Estomatologia clínica.
Caberá aos docentes desta disciplina determinar quando os alunos estarão preparados para realizar biopsias. Não há como definir esse momento devido às variabilidades dos diversos currículos.
São abordados alguns cuidados básicos para que sirvam de introdução à necessidade de realização destes procedimentos. Cada conteúdo curricular deverá buscar solução para os problemas pedagógicos envolvidos na ordenação das várias disciplinas dentro do mesmo.
Técnica asséptica
O objetivo da técnica asséptica é proteger o PAC, prevenindo ou minimizando a infecção pós-operatória, criando condições e padronizando procedimentos para evitar a contaminação microbiana em campos estéreis, equipamentos estéreis e no local da cirurgia.
Procedimentos para desinfecção de tubetes anestésicos.
Quadro 3.2
• Devem vir esterilizados e embalados
• Utilizar álcool a 70º por fricção ou imersão; imersão prolongada enrijece as borrachas
• Iodopovidona a 2%, 10 min, por imersão; imersão prolongada corrói a ponta metálica
• Clorexidina a 0,12 a 2% por imersão (mais indicado)
• Anestésicos desinfetados não podem ser colocados junto com material esterilizado, nem
tocados por luvas estéreis. Materiais desinfetados nunca devem se misturar aos esterilizados
• A esterilização a vapor pode degradar o conteúdo, sobretudo a epinefrina
• Toda imersão prolongada provoca riscos de contaminação química da solução anestésica
A equipe cirúrgica pode ser considerada “estéril” – quando, usando EPI
estéril, manipulará o material processado para estas condições – e “não estéril”, circulante ou volante – quando não se enquadra nestas condições. O PAC deverá ser coberto com campo fenestrado estéril.
Nos Quadros 3.3 a 3.5 são apresentados o passo a passo da assepsia nos
preparos pré-cirúrgico, transoperatório e pós-operatório.
Checklist do preparo pré-cirúrgico.
Quadro 3.3
• Identi cação do paciente e leitura atenta do prontuário (p. ex., comorbidades, alergias e
outros dados que podem interferir no procedimento)
■ Procedimento a ser realizado
■ Disponibilidade dos exames complementares (p. ex., radiogra as e exames
laboratoriais)
■ Aderência do paciente aos cuidados pré-operatórios
• Recursos para atuar em situações emergenciais
■ Observar se o lavabo e o material estão prontos para a realização da higiene das mãos
■ Veri car se os desinfetantes estão disponíveis
• Campo operatório
■ Situação da área cirúrgica (p. ex., organização, presença de objetos desnecessários,
limpeza etc.)
■ Desinfecção das superfícies que poderão entrar em contato com as mãos do operador e
auxiliar(es)
■ Disponibilidade dos instrumentos cirúrgicos, EPI e outros itens (p. ex., suturas, lâminas
de bisturi, anestésicos, gases, paramentação etc.)
■ Funcionamentos dos instrumentos mecânicos (aspiradores, rotatórios, iluminadores
etc.)
■ Veri car possíveis falhas nas embalagens (contaminação) antes de o material ser
distribuído no campo cirúrgico estéril (presença de indicadores químicos externos e
internos nos pacotes, integridade e validade dos pacotes)
■ Itens que exibam a data de validade de um fabricante serão considerados inseguros
para uso após essa data. Em caso de dúvida sobre a esterilidade do item embalado, ele
não será considerado estéril. Isso inclui: itens encontrados em áreas não monitoradas;
indicação de que a embalagem está molhada, pacote que já tenha sido usado; pacote
que mostre evidências de esmagamento, perfurações ou furos
■ Sempre que um item estéril tiver tocado em algo comprometedor (não estéril) sólido ou
líquido, o conteúdo da embalagem, o avental ou o campo estéril envolvidos devem ser
considerados contaminados
■ Imersão dos tubetes anestésicos em desinfetante
• Antissepsia fricccional das regiões periorais e intraorais (bochechos). Pode ser realizada pelo
auxiliar volante devidamente equipado com luvas de procedimento, máscara, gorro e óculos
Técnica asséptica transoperatória.
Quadro 3.4
• Somente itens estéreis serão usados em campo estéril. Todo material que acidentalmente
toque em superfície não estéril deve ser descartado
• Todas as superfícies planas devem estar secas e sem poeira antes de cobri-las com o campo
cirúrgico. A umidade pode trespassá-lo, e a poeira pode se espalhar pelo ar e pousar no
campo estéril
• Se o campo cirúrgico não cobrir toda a superfície, uma margem de 3 cm de sua borda não
será considerada estéril
• Os pacotes devem ser abertos o mais próximo possível do início do procedimento cirúrgico.
O potencial de contaminação aumenta com o tempo, e as partículas agitadas pelo
movimento do pessoal podem xar-se nas superfícies horizontais
• Grandes pacotes devem ser abertos em uma superfície plana. Itens grandes e/ou pesados
são difíceis de abrir assepticamente enquanto são mantidos na mão do assistente
• As bordas dos pacotes não são consideradas estéreis
• Se o auxiliar estiver bem capacitado, deverá fazer a higienização técnica das mãos e não
precisará usar luvas para abrir os pacotes, todavia sem tocar nos seus conteúdos
• A abertura dos pacotes deve ser gerenciada para que suas bordas e lados externos não
toquem no campo estéril ou nos seus conteúdos
• As bordas dos pacotes devem ser descoladas – sem que o auxiliar toque no conteúdo – e
não rasgadas ao abrir, e seu conteúdo não deve ser empurrado ou derrubado no campo
cirúrgico. O descolamento deve expor os instrumentos de modo que possam ser apanhados
com as mãos enluvadas e estéreis
• O material cirúrgico deve ser disposto no campo cuidadosamente e na ordem em que serão
usados
• O material estéril deve ser manuseado o mínimo possível. O aumento da manipulação
aumenta o potencial de contaminação
• Os itens que possam ser adicionados ao campo cirúrgico devem ser conferidos quanto a sua
esterilidade
• O material que seguramente não será mais usado pode ser retirado do campo cirúrgico
• Uma vez que o paciente tenha entrado no recinto cirúrgico, onde os materiais estéreis
tenham sido abertos, estes devem ser descartados e/ou considerados contaminados no caso
de o procedimento ser cancelado ou se eles não forem usados
• O auxiliar não deve tocar ou mesmo passar as mãos sobre as áreas estéreis. O derramamento
invisível de pele carregada de microrganismos pode contaminar itens ou áreas estéreis
• Os pro ssionais “estéreis” devem car próximos ao campo cirúrgico. Se precisarem mover-se
ao redor do campo cirúrgico, deverão fazê-lo de frente para o mesmo. Nunca oferecer as
costas ao campo cirúrgico
• O paciente deverá ser coberto com campo fenestrado estéril
• O pessoal “estéril” deverá vestir o EPI de acordo com o padrão técnico usado para cada
elemento a m de não contaminá-lo. O pessoal “não estéril” volante deve ajudar a vesti-lo,
se treinado para isto. É um pouco enfadonho ler todo o processo. Aconselha-se observar os
vários vídeos disponíveis em inúmeros sites existentes na internet
• Sequência para vestir EPI: aventais (ou capotes) → gorro → máscara → óculos → luvas
Checklist no pós-operatório.
Quadro 3.5
• Con rmação sobre as condições para o paciente receber alta (p. ex., hemostasia, bem-estar,
dores, ambulação etc.)
• Sequência para retirar EPI: luvas → gorro → máscara → óculos → aventais (ou capotes)
• Instruções pós-operatórias, receitas e con rmação sobre a compreensão do paciente sobre
as mesmas
• Preenchimento do prontuário
• Agrupamento do instrumental em uma cubeta com umectante sobre o mesmo ou imersão
do mesmo em água e encaminhamento para a área suja de processamento
• Registro de defeitos no instrumental mecânico
• Embalagem do material e preenchimento das informações a serem enviadas ao laboratório.
Proceder ao encaminhamento
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