Gilberto Freyre e José Lins do Rego

Cauby Dantas · Capítulo 8 de 18

Páginas do PDF

Gilberto Freyre e José Lins do Rego

Capítulo II

 

 

A verdadeira percepção da tradição é algo a que só tem acesso

aquele que já leu a respeito dela, ainda que o que esteja em

questão seja sua terra natal, à qual ele já está profundamente

ligado através da memória e de experiências de outro tipo: uma

família e uma infância; uma intensa associação de pessoas e

lugares, que formam sua história pessoal (WILLIAMS, 1989, p.

280-281).

“Ser de sua casa para ser intensamente da

humanidade”

A frase que abre este capítulo é tomada por empréstimo a José Lins do Rego e está inserta no belo texto que escreveu em 1940 e que veio a público, em janeiro de 1941, como prefácio de Região e tradição. É uma referência ao que acredita ser o caráter orgânico, “profundamente humano” (FREYRE, 1968, p.33) do regionalismo de Gilberto Freyre. Sugere, ainda, ser este ideário o resultado de uma dialética entre o local e o universal que teria sido vivenciada por Gilberto Freyre, principalmente ao deixar o Brasil, em 1918, para estudar nos Estados Unidos.

José Lins do Rego tem razão. Pelo menos é o que sugere a leitura de outro prefácio, de Gilberto Freyre, escrito em 1968, para a segunda edição do referido livro. Trata-se, em verdade, de um comovente exercício de memória em que são repassados fatos e personagens e temas dos tempos pioneiros da militância regionalista de ambos, nos anos 1920, em Pernambuco. Gilberto recorda o amigo, morto em 1957. E o faz motivado pela releitura do antigo texto que este lhe dedicara em 1940, acima referendado. O famoso tom nostálgico que perpassa a obra freyriana aqui toma forma e conteúdo, numa tentativa de atenuar, pela revelação, o vazio e a dor provocados pela ausência do mais querido dos amigos:

Acaba o autor de reler, com alguma curiosidade, os seus velhos

ensaios, reunidos em 1941 neste livro; e, com muita avidez, o

ensaio admirável do mais fraterno dos seus amigos de todos os

tempos: aquele que, ao morrer, deixou-lhe na vida um vazio que

permanece tão profundo que é como se o autor, ele próprio,

tivesse sucumbido um tanto com o amigo. Sempre pensou que

envelheceriam juntos: o amigo mais dionisíaco; mais

exuberante; mais capaz de dar umas tantas cores festivas ao

cinzento do envelhecer dos dois (FREYRE, 1968, p.37).

Estes dois prefácios são importantes como testemunhos do início do diálogo entre o sociólogo e o futuro romancista. Por suas linhas somos informados, por exemplo, que muitos dos artigos juvenis de Gilberto Freyre tiveram José Lins do Rego como primeiro leitor; que o jovem paraibano, então um relapso estudante de Direito, em Recife, foi o primeiro a tomar contato com a teoria regionalista: “José Lins do Rego foi o primeiro a inteirar-se; o primeiro a comentá-la; o primeiro a notar possíveis implicações ou projeções literárias e artísticas – os aspectos que mais o seduziam – do seu conteúdo” (FREYRE, 1968, p.42).

Com efeito, os textos iniciais do regionalismo de Gilberto Freyre são tidos, hoje, como a parte mais vulnerável da sua produção intelectual, ofuscados que foram pela repercussão alcançada por sua obra posterior, principalmente os ensaios dos anos 1930. Quem ainda os lê? Entretanto, José Lins do Rego, mais uma vez de forma acertada e com a autoridade de quem lhes presenciou o nascimento, neles identifica, e percebe, de maneira muito convicta, o autor da maturidade: “Todo o seu corpo de idéias de Casa-Grande já se esboçava ali. A terra e a gente não como temas, mas como personagens do drama” (FREYRE, 1968, p.33).

Mas nem só por leituras é marcado o início do diálogo. A amizade será consolidada, também, nos passeios que fazem juntos, nas visitas a museus, a rios, a escombros de casas-grandes que lhes sugerem um vasto campo de observação que se revelará bastante profícuo na elaboração futura de ensaios e romances. Numa dessas viagens, à Paraíba, em 1924, José Lins do Rego apresenta ao amigo os engenhos do seu avô, José Lins Cavalcanti de Albuquerque, proprietário de muitas terras:

[...] e o nosso passeio pelos engenhos de meus parentes. Eu

mostrando a minha gente e a minha terra, os partidos de cana,

os bangüês, os tios, as tias, e tudo aquilo lhe parecendo melhor

do que eu pensava que fosse. Levei-o com medo de que não se

desapontasse e, pelo contrário, gostou muito de tudo (FREYRE,

1968, p.26).

Os dois aparecem aí colocados diante de uma matriz temática que será recorrente em seus textos. Apresentando Gilberto Freyre à sua família e ao mundo vivo e pulsante, ainda que decadente, da sociabilidade dos “seus” engenhos particulares, o futuro autor de Menino de engenho ainda não sabia – nem tinha como – mas iniciava ali, com aquela visita, uma participação que seria, a partir de então, efetiva e perene nas pesquisas que o futuro autor de Sobrados e mucambos ainda realizaria. O leitor privilegiado, amigo e discípulo, torna-se, de certa forma, parceiro.

Gilberto Freyre faz o mesmo, lendo, em primeira mão, a produção textual do escritor que, sob seu estímulo, começava a desabrochar:

Gilberto Freyre pediu-me para ler os meus retalhos de jornal.

Leu as crônicas, os contos, e criticou-os, falando-me de alguns

com interesse. Havia nos meus modos de dizer qualquer coisa

que o interessava. E a minha aprendizagem com o mestre da

minha idade se iniciava sem que eu sentisse as lições

(FREYRE, 1968, p.22).

O depoimento de José Lins do Rego é belo, generoso. É impossível exagerar a sua importância para a compreensão da relação intelectual entre ambos. O autor paraibano é explícito em seu reconhecimento, chegando a proclamar: “Posso dizer sem medo que a ele devo os meus romances” (FREYRE, 1968, p.32). Entretanto, parece-me um tanto marcado pelo excesso de reverência e timidez com que se coloca ante o “mestre de Apipucos” que, aliás, daí por diante, passaria a exibir esse depoimento como prova definitiva de sua ascendência sobre José Lins. Nem

precisava. Deixemos isso por conta da sua conhecida vaidade. 7 Vejamos o outro lado, mais substancial e revelador: Gilberto Freyre sentia, com toda razão, orgulho por esse reconhecimento, vindo da parte de um escritor àquela altura, 1940/1941, já consagrado pela crítica e pelo público e que há muito aprendera a caminhar com o próprio talento e que, pouco tempo depois, em 1943, enriqueceria as letras nacionais ao publicar sua obra-prima, o romance Fogo morto.

Em todo caso, o texto é valioso, trazendo informações sobre a agitação de ideias característica do ambiente intelectual dos anos 1920 em Pernambuco, sobre a disputa com os representantes locais do modernismo, principalmente com o jornalista Joaquim Inojosa e, ainda, sobre a importância de jornais e revistas como meios de divulgação. Mais importante que tudo isso são, a meu ver, as indicações acerca da descoberta (e construção) do sentido regional dos autores. Podemos perceber, por exemplo, que, em Gilberto Freyre, o “ser de sua casa” foi despertado pelo contato com outras culturas, a partir de suas experiências como estudante em terras americanas e inglesas. Na Introdução de Região e tradição, escrita de maneira impessoal – e mais uma vez comentando o prefácio de José Lins do Rego – afirma que:

O longo período de estudos no estrangeiro fê-lo ver sua região

e a tradição brasileira não só com a simpatia endogâmica de

nativo que regressa, mas com olhos de exógamo: enxergando

no familiar certo encanto do exótico e, ao mesmo tempo, vendo-

o na sua pureza de linhas e na exatidão de suas proporções

(FREYRE, 1968, p. 63).

Essa ideia já aparece em seus escritos da década 1920, textos, inclusive, anteriores ao Congresso Regionalista de fevereiro de 1926. Em artigo publicado na Revista do Norte, Recife, em outubro de 1924, onde tece comentários acerca “do bom e do mau regionalismo” – título do artigo – lemos:

Não há mal algum, antes grande bem ou vantagem, em viver

qualquer indivíduo ou grupo em contato com os cartões postais,

os figurinos, as fitas de cinema, as revistas, os livros e os

jornais estrangeiros. Este contato é fecundante, excitante,

estimulante. O perigo está na tirania mística do exótico, em

prejuízo ou com sacrifício, às vezes, de tão boas tradições

locais, de tão boa prata da casa (FREYRE, 2001, p. 22).

Portanto, a abertura para o outro, para “a humanidade”, no sentido da frase de José Lins do Rego, teria sido fecundada por estímulos intelectuais adventícios. Além da óbvia referência ao culturalismo de Franz Boas, temos a presença de Herbert Spencer, que desperta em Gilberto Freyre o interesse pelo estudo do cotidiano e pela ecologia, e a leitura de autores franceses e ingleses e russos. Nesse mesmo artigo já aparece a justificativa para o regionalismo como necessário para a defesa e preservação das tradições e dos valores regionais.

Em seu trabalho de 1922, Vida social no Brasil nos meados do século XIX, este neto de senhor de engenho se coloca como tarefa a reconstituição do passado mais íntimo de “sua gente.” Esta atitude empática em relação aos objetos que aborda será uma marca distintiva de toda sua obra, o que nos ajuda a entender seu gosto por fontes como, por exemplo, velhos álbuns de família, já fartamente utilizados nesse texto inicial. A perspectiva aqui é dada pela sensação de crise da sociabilidade dos engenhos criada pelos portugueses e que conta com a simpatia explícita do autor. Por isso, deseja compreender o período áureo desse mundo. Gilberto Freyre quer apenas “encontrar-se a si mesmo nos seus avós, nos seus antepassados, nos brasileiros de uma época anterior à sua e à dos seus pais” (FREYRE, 1964, p.63). Ao fazê-lo, encontra as raízes de “sua” região, matrizes essas apresentadas como as mais “legítimas” da nacionalidade. Portanto, já podemos surpreender no texto “do jovem Freyre” aquele sentimento de perda e o tom nostálgico em relação à colonização portuguesa do Brasil que serão exaustivamente assinalados por seus críticos ao longo de sua carreira de escritor. Esta motivação, clivada pela história de vida do autor, é lucidamente resumida pela historiadora Rosa Godoy Silveira, ao analisar as contradições do regionalismo de Gilberto Freyre:

A preocupação que o orienta, é este mundo em mudança, este

mundo de suas raízes familiares, de sua infância, de suas

relações sociais. Motivações pessoais e grupais permeiam o

seu labor intelectual, combinando sentimentos, reminiscências,

busca de uma certa racionalidade que explique a crise regional

(DANTAS ; BRITTO, 2002, p. 96).

Motivação idêntica, quanto ao desencadear da produção literária, pode ser observada em relação a José Lins do Rego. Em 1936, ao fazer um balanço de seus primeiros romances, o autor paraibano, nascido no engenho Corredor, nos diz que começara a carreira de escritor “querendo apenas escrever umas memórias que fossem as de todos os meninos criados nas casas-grandes dos engenhos nordestinos. Seria apenas um pedaço de vida o que eu queria contar” (REGO, 1993, p. xiii).

FOTO 4 - José Lins do Rego, Olívio Montenegro (de pé) e Gilberto

Freyre

FONTE: Acervo da Fundação Gilberto Freyre – Recife –PE

Além das motivações político-ideológicas, comentadas, seria interessante, aqui, indagarmos acerca do significado sociológico desse exercício mnemônico. Colocando-se o problema em termos precisos: o que impulsiona alguém a fixar, em textos, pedaços de suas experiências existenciais, transformando-as, assim e ao mesmo tempo, em aventura cognitiva e substância para uma trajetória intelectual e artística prolixa? Esta pergunta nos remete àquele conflito, eternamente renovado, nunca totalmente dissecado, entre o indivíduo e o grupo. Com efeito, a atmosfera de crise, de decadência e o desmoronar de uma ordem de raízes temporais profundas, como era a do mundo dos engenhos, vão afetar a visão de mundo daqueles grupos que, nesta ordem que se dissipa, eram os dominantes.

Mas dizer isso é dizer uma platitude, enunciar um truísmo, nada mais. Descobrir, no entanto, em que medida essa configuração social interveio na produção intelectual de Gilberto Freyre e José Lins do Rego é que já não parece tão fácil de mensurar. Netos de senhores de engenho, intelectuais, sensíveis, terão tido a clara consciência da crise que os afetava. Terá sido também por isso que ambos pensaram, no início de suas carreiras, em escrever sobre a infância nos engenhos?

É importante registrar aqui o fato de que, na grande reflexão sociológica e histórica que será feita na década 1930, bem como nos romances aí produzidos, podemos sentir a percepção da permanência dos padrões herdados das matrizes rurais da colônia, vistas como a matriz da nacionalidade: “Vê-se, assim, que, na formulação de alguns dos principais autores dos anos 30, o legado das formas de organização social do mundo rural pesa sobre o presente de uma forma bem mais substancial do que uma simples tradição a ser superada” (GARCIA, 2002, p.49).

A destacar em Vida social no Brasil nos meados do século XIX dois aspectos temáticos fulcrais da visão regionalista. Somos aí colocados diante de uma boa caracterização da vida cotidiana do engenho e da casa-grande coloniais. Trata-se, efetivamente, de uma sociabilidade que será dissecada por Gilberto Freyre em cada um dos livros que escreveria a partir de então. É nesta sociabilidade que identificará as matrizes regionais, a quem irá atribuir, em seus entusiasmos e arroubos etnocêntricos, uma amplitude espacial que transborda, em muito, os limites do canavial. É dentro do seu cotidiano, sociologicamente irradiador, que situa a comida, a terra, o negro, o sexo, a religião, a miscigenação, a mulher, etc.

Logo no início deste trabalho de estreia podemos surpreender um raro, digamos, desvio hermenêutico, que quase não se repetirá nos textos seguintes. É quando Gilberto Freyre vai, meio de soslaio, voltar os olhos para aquilo que entende ser a “estrutura econômica” da sociedade brasileira do século XIX e, dentro dela, uma divisão de classes: “Analisando a estrutura econômica da sociedade brasileira nos meados do século passado, encontramos, de um lado, uma classe de proprietários de terra e de escravocratas; de outro, a massa de escravos” (FREYRE, 1964, p.80).

A citação serve como registro, feito até com certa curiosidade, deste raro momento em que Gilberto Freyre lança mão de uma terminologia de nítido sabor marxista que, obviamente, não aplica à sua análise. Atribuamos isto a um descuido de autor noviço. Muito mais relevante é a boa, repitamos, caracterização que faz dos engenhos e fazendas, verdadeira base sociológica do seu regionalismo:

O grande engenho patriarcal ou a grande fazenda brasileira era

uma comunidade que se mantinha por conta própria –

econômica e socialmente – poucas vezes abrindo para o

mundo exterior suas enormes cancelas, por necessidade de

caráter econômico. Possuía canaviais ou cafezais e plantações

de mandioca, feijão preto e outros produtos, utilizados no

consumo interno. A população incluía, além do proprietário e da

sua família, feitores ou superintendentes, vaqueiros ou

pastores, algumas vezes um capelão e um preceptor,

carpinteiros, ferreiros, pedreiros e uma multidão de escravos

(FREYRE, 1964, p.96).

À autonomia da produção dos engenhos e fazendas acrescente-se o “estilo feudal” de vida dos grandes proprietários. Aqui, se nos apresenta um ícone, o que nos remete ao segundo aspecto anteriormente mencionado. Com efeito, já neste momento inicial, o senhor de engenho aparece como protagonista do espetáculo da colonização, determinando-lhe o enredo, ocupando-lhe os espaços; civilizando; mandando: “nos meados do século XIX, eram os chamados senhores de engenho os mais poderosos desses senhores de terras e de escravos” (FREYRE, 1964, p.81).

Em outro trecho, o autor apresenta contornos mais precisos dessa estrutura de dominação e de como, em seu interior, o poder era exercitado:

Os proprietários desses canaviais viviam numa espécie de

estilo feudal, formando uma classe homogênea, com os

mesmos interesses econômicos; a mesma vida social; a mesma

atitude política. Governavam suas propriedades agrícolas e as

pequenas cidades em volta dessas propriedades, ou situadas

dentro delas, como se fossem feudos. [...] Com eles, os estilos

e os costumes aristocráticos tinham a vivência de várias

gerações. Descendiam muitos deles de portugueses de boa

estirpe – as famílias que haviam acompanhado Duarte Coelho e

sua mulher, Dona Brites de Albuquerque, quando aquele fidalgo

veio de Portugal para o Brasil como donatário da logo

denominada Nova Lusitânia; e essa vaga coisa que chamamos

cultura, no seu sentido mais restrito, foram esses colonos os

primeiros a fazer chegar à América Portuguesa (FREYRE,

1964, p.85-86).

Ficavam assim delineados, inscritos, dois dos mais importantes elementos constitutivos da ideologia regionalista de Gilberto Freyre.

Eram os começos de sua batalha pela preservação dos valores de “sua” província. Em 1936, discursando em um jantar em sua homenagem, oferecido por amigos recifenses, louvará a “intensa personalidade regional” e a “larga sensibilidade humana” – leia-se: apego ao passado – de sua gente. Em parte sente-se, com razão, responsável pelo reforço desse sentido de regionalidade.

Nesse discurso para amigos que o homenageavam, Gilberto, referindo-se a Pernambuco como sendo sua terra, sua província, faz uma telúrica declaração de amor que é, em si, uma espécie de roteiro temático do seu regionalismo:

Eu amo a minha [província] menos por causa de seus cajueiros,

de seus coqueiros, de suas mangueiras, de suas jaqueiras, das

águas dos seus rios, das suas noites de lua, de seus meios-

dias de sol, do que por causa de sua gente e do seu passado e

de tudo que a sua gente fez aqui e continua a fazer de

expressivo de uma intensa personalidade regional e ao mesmo

tempo de uma larga sensibilidade humana: os sobrados, as

igrejas, as ruas estreitas calçadas a pedra de Lisboa, as

jangadas, os mucambos, os engenhos, a guerra contra os

holandeses, a revolução de 17, os hospitais, as escolas, as

irmandades, as confrarias, os doces, os bolos, os livros, os

quadros, a campanha da Abolição, as músicas, os dobrados, as

marchas de carnaval, os xangôs, as poesias, os mal-

assombrados, os maracatus, as pontes, os jardins (FREYRE,

1968, p.261).

Mas voltemos aos anos 1920, mais precisamente, 1924, por ser este o ano da redação do ensaio Aspectos de um século de transição no Nordeste do Brasil, que seria publicado em 1925, como um dos ensaios constitutivos do aqui já referendado Livro do Nordeste, em comemoração ao centenário do Diário de Pernambuco. Trata-se de texto fundamental na construção de Gilberto Freyre. Por duas razões principais: a primeira é que, não sendo um “Manifesto”, pois este efetivamente só aparecerá em 1952, este ensaio expõe o roteiro temático do seu regionalismo; a outra razão é que, sendo o momento de sua escrita marcado pela militância cultural do seu autor, organizando e institucionalizando o movimento regionalista, talvez nos permita, através de leitura atenta, surpreender, no gesto da escrita, as intenções de quem escreve.

Passemos, então, à leitura.

Começando pelo título, o século de transição a que se refere é o de 1825-1925. As mudanças pelas quais passou a região no período foram profundas. Já na abertura do ensaio, o autor constata: “Comparando o Nordeste de 1825 com o de 1925 tem-se quase a impressão de dois países diversos” (FREYRE, 1968, p.125). Insinua-se, já nesta primeira frase, a busca a ser empreendida, que é a de um tempo quase perdido. Mas a quem inculpar a perda? Aqui, aparece uma expressão da mudança. O autor chama atenção para o predomínio recém-alcançado pela usina na paisagem rural nordestina, que sinaliza, claramente, o despedaçar da herança portuguesa outrora ali fincada.

Já não se sucedem, entre os canaviais, os casarões vastos de

outrora, as casas-grandes de uma alvura liricamente

portuguesa de cal e às vezes cor de ocre amarelo ou pintadas

de azul, tendo perto o longo telheiro avermelhado do engenho,

a casa de purgar, a de farinha e a capela também muito branca

de cal, uma ou outra pintada de azul. Elevam-se usinas, as

maiores arrivistas da paisagem, que dominam com o escândalo

enorme de suas chaminés. Usinas, ostentando letreiros de

firmas comerciais das cidades; algumas com um ar de quartéis

em terras conquistadas (FREYRE, 1968, p.126).

As mudanças do século atingem, portanto, o campo e a cidade nordestinos, modificando-lhes a paisagem social. O impulso é dado por novas técnicas de produção e de transporte, um contato maior com o estrangeiro, secas periódicas e perturbações externas e por guerras que afetam os mercados consumidores dos produtos regionais, principalmente algodão e açúcar.

No amplo painel aqui interpelado ganham relevo as grandes secas de 1825, 1845 e, principalmente, 1877. São vistas como desarranjos, “crise de clima”, que cravam no solo da região as marcas da fome, da prostituição e da degradação moral, expressos no “promíscuo das retiradas”. A seca aparece como elemento perturbador dos pilares daquela sociabilidade: “A vida de família exige ritmo; exige fixidez; exige condições de permanência e, sendo patriarcal, de hierarquia. E as secas trazem a promiscuidade e forçam a dispersão. Desmoralizam a hierarquia” (FREYRE, 1968,

p.128). 8

Família patriarcal, promiscuidade, seca: o culturalismo de Gilberto Freyre já começa, com efeito, sob o signo da ambiguidade. Mas, pelo menos neste texto, por pouco tempo. Algumas páginas são percorridas e logo o critério e o foco mudam. O olhar migra do seco sertão onde, fugaz, estivera, e volta-se para o espaço que realmente deseja, conhece, domina. O texto ganha plasticidade; a análise ganha em densidade. O culturalismo, implícito em Vida social no Brasil nos meados do século XIX, torna-se explícito. Os valores que remetem ao cotidiano dos canaviais e cuja preservação impulsiona e justifica o ensaio, são apresentados em suas cores vivas, em seus tons, móveis, ao longo do século. Poder-se-ia dizer que Gilberto Freyre faz – aqui pela segunda vez – um exercício de memória e de história social em torno da região e da tradição. O leitor é, assim, apresentado à tradição da mesa farta das casas-grandes, com suas peixadas, seu arroz doce, com o luxo da porcelana vinda da China; fica sabendo das moças de finas famílias, e de suas mãos maviosas, tocando o seu piano, dando sons às tardes ensolaradas e longas; do desalinho dos trajes caseiros das senhoras do engenho, manhosamente “deixando-se deliciar pelos cafunés, em que eram ligeiros e peritos os dedos das mucamas” (FREYRE, 1968, p.146); das festas e procissões e casamentos; da precocidade sexual dos meninos: “no menino de engenho o instinto sexual assim excitado, desembestava-se sem demora. O menino perdia-se ainda criança” (FREYRE, 1968, p.174); das visitas; dos amores proibidos; etc.

Movem-se as relações entre os senhores e os seus trabalhadores. Nestes cem anos, o crescente assalariamento e a implantação de relações capitalistas – principalmente nas usinas – vêm substituir a mediação paternalista do favor e da “proteção”, outrora oferecidos pela casa-grande. Como resultado dessas mudanças nas relações de trabalho temos a quebra da antiga coesão patriarcal, o que é lamentado por Gilberto.

A antiga divisão do trabalho dos engenhos é apresentada. E vêm os escravos domésticos misturados aos escravos do eito (de enxada): eis a maioria daquela população trabalhadora. Vários são os artífices: seleiros, pedreiros, marceneiros, carapinas, caldeireiros, tecelões, sapateiros, doceiros.

Nos engenhos grandes se fabricavam, além de peças de

tornearia e de talha, estribos, candeias, sapatos, tijolos, telhas,

arcos de tanoagem, pipas para aguardente, bacias, tachos,

cochos, caldeirões, cocos para beber água; faziam-se velas de

sebo, raspava-se, espremia-se e torrava-se a mandioca; moia-

se a farinha; pilava-se o café e pilava-se o milho para o cuscuz, Mas voltemos ao regionalismo freyriano. Sobre a terra, espraia-se a sombra do dono. A idealização do patriarca, do civilizador, prossegue: “O ambiente era bom ou mau conforme os senhores” (FREYRE, 1968, p.144). Há, nesta afirmativa, o reforço de uma colaboração direta do amigo José Lins do Rego, que se revela interessante para a nossa leitura, não apenas por representar uma futura matriz temática dos seus romances, mas, também, por explicitar a nascente troca de cartas entre os amigos:

para o angu, para a canjica. Isto sem falar na fiação, no

charque e na manteiga, nos vinhos de caju e jenipapo –

trabalhos todos caseiros, como também o de rendas, o de bilros

e o de preparar pavio para as candeias (FREYRE, 1968, p.

132).

Eis a indústria patriarcal dos engenhos, que lhes dá a autonomia alhures mencionada. Importante, também, são as insígnias de poder que o nosso autor identifica: terra, casa, móveis, número de escravos. A terra é a unidade de riqueza e poder. A luta por sua posse e propriedade desencadeia conflitos, brigas de famílias, tocaias e assassinatos.

Aqui, um parêntese: o tema da luta pela posse da terra será exaustivamente explorado pelos romancistas nordestinos da década de 1930. Lembro-me aqui do olhar marxista do Jorge Amado de romances como Terras do sem-fim, de 1943, Seara vermelha, de 1946 ou, Tocaia grande, de 1984, sendo esta última obra bem menos marcada pelo dogmatismo ideológico. Escritos em momentos distintos, estes romances trazem roteiros idênticos, recheados de coronéis brutais, exploradores, assassinos e lúbricos, digladiando-se em lutas de morte pelo poder e pela terra. Completando o quadro, uma plêiade de miseráveis, composta por jagunços e matadores de aluguel, cangaceiros, beatos, camponeses esfomeados, prostitutas, filhinhos de papai, advogados e políticos inescrupulosos. Em Seara vermelha, aparece a figura do militante comunista que virá salvar o mundo de todos os seus males através da ação redentora do Partido. Neste Jorge Amado não há meio-termo. Seu roteiro, impresso de acordo com os matizes do chamado “realismo socialista”, é maniqueísta, quase caricatural. Para o leitor interessado nos vínculos sociais dos romances, os exemplos acima trazem, no entanto, uma boa dimensão do ritmo da mudança social (prejudicada, é certo, pelo proselitismo ideológico), principalmente quando o escritor baiano narra, em Tocaia grande, a lenta passagem do rural ao urbano nos quadros de um mundo ainda marcadamente assinalado pelo poder do latifúndio e dos seus coronéis.

Do velho José Lins, dono na Paraíba de muitas terras, e figura

boa de senhor de engenho, escrevia-me recentemente o seu

neto, o meu amigo José Lins do Rego: “O meu avô José Lins

governou vários engenhos e ninguém jamais viu na sua cinta

uma arma qualquer” (FREYRE, 1968, p.183).

A residência é a mais reluzente das insígnias do poder patriarcal. Imponentes, seus móveis de jacarandá, sua larga varanda, suas paredes militarizadas, espalham sombras e recolhem obediência; escravos, agregados, eleitores e homens livres, porém pobres, lhe são submissos, pedem a bênção aos seus senhores.

O que os velhos casarões de engenho da região – o de Itapuá,

por exemplo, na Paraíba – fazem sentir, logo ao primeiro

contato, é a idéia de domínio. Eram bem os casarões de

homens que sabiam ser donos de suas terras; mandar;

multiplicar-se em filhos e escravos; receber à grande (FREYRE,

1968, p.178).

Poder-se-ia dizer, sem exagero, que os comentários e a citação imediatamente anteriores, evidenciam uma apurada percepção que flagra no cotidiano do espaço doméstico, qual seja, na casa patriarcal, as funções e irradiações que esta exerce sobre a vida pública, seja enquanto instância de domínio ou, enquanto instância econômica (comprando escravos, por exemplo), ou, ainda, em seus desdobramentos culturais enquanto banco, cemitério, escola, hotel, etc. A centralidade ou ubiquidade da casa-grande é outra ideia central do regionalismo freyriano.

Mas não apenas dele: a história política do Brasil é clivada por essa presença. Verifica-se secularmente uma nefasta simbiose entre o público e o privado que, trazendo o século XIX ao século XXI, tem a sua face mais visível em práticas fisiológicas, no famoso “balcão de negócios” entre parlamentares e sucessivos governos, nas famílias que se perpetuam no poder, nas concessões de vários tipos, onde ganham relevo interesses particulares e, não raro, inconfessáveis, no compadrio, corrupção e, claro, no nepotismo, nepotismo, aliás, contemporizado por Gilberto Freyre – “Ora, o nepotismo só é inteiramente repugnante quando o exercem elementos de improviso ou acaso” (FREYRE, 1968, p.181). Todas estas práticas são atuais, sendo recorrentes nas páginas dos jornais e nos telejornais diários. São ecos de um passado que teima em ser presente, ainda que à custa do real comprometimento de uma efetiva e salutar construção de uma esfera pública que viesse a ampliar a participação política

qualificada entre nós.9

A defesa da escravidão é absoluta em Aspectos de um século de transição no Nordeste do Brasil. Há o reconhecimento em torno do caráter estruturante das relações escravistas nos quadros da sociedade colonial; atenua-se, no entanto, a sua precariedade, digamos, ontológica, calcada que está na extrema desigualdade e na mais sórdida exploração. Nos textos posteriores, a visão de Gilberto Freyre será matizada, ganhando em densidade e em visão crítica. Denunciará a violência e a degradação física e moral inerentes à escravidão – veja-se, por exemplo, o prefácio à 1ª edição de Casa-grande & senzala. Os textos futuros apresentarão, ainda, categorias como “equilíbrio de antagonismos” e “zonas de confraternização”, numa tentativa de situar, contemporizando-as, as complexas relações entre senhores e escravos. É por esse meio que aparecerão, em sua obra, as confissões, a bagaceira e as brincadeiras dos meninos de engenho, a alfabetização dos senhores pelos escravos, as relações sexuais, os testamentos, o afeto e, também, a violência de senhores que mandavam matar escravos para, com o seu sangue, fortalecer os alicerces da casa-grande e que, ainda, mandavam matar os próprios filhos para purgar dores de amores traídos. Aqui e ao longo de sua obra, o escravo em relevo é o doméstico, surpreendido em seu cotidiano no interior da residência senhorial. Apenas em Nordeste, como veremos a seguir, dará maior ênfase ao escravo do eito.

A abolição, chamada de “violência de 88”, assinala, nas páginas de Aspectos de um século de transição no Nordeste do Brasil, o início da decadência da região:

Foi o Nordeste a parte do Brasil onde se fez sentir mais

profundamente o golpe da abolição contra a economia

patriarcal-escravocrata e a ordem social, a cultura, a moral, a

estética, que sobre ela se baseavam: houve senhores de

engenho que se arruinaram de todo. Outros que

desapareceram quase por completo ou degradaram-se

(FREYRE, 1968, p.197).

No final, aparecem as intenções. Como se ainda fosse preciso, autor e texto, em verdade uma só entidade, explicitam o sabor etnocêntrico da proposta regionalista que vai sendo inscrita. As intenções são conservadoras. São políticas e são ideológicas, portanto.

A centralidade conferida à região, bem como a preservação de sua cultura, implicam, como corolário, a preservação do mando secular das elites gestadas nas entranhas do mundo aqui criado pelos portugueses. As mudanças ao longo do século de transição não podem e nem devem impossibilitar o retorno às matrizes da nacionalidade:

Mesmo com as alterações sofridas na sua ordem social e que

o separam tanto do seu passado, o Nordeste continua a

parte, sob mais de um aspecto, mais brasileira do Brasil; a mais

característica da civilização patriarcal-escravocrata fundada

pelos portugueses na América tropical. [...] Não lhe faltam

elementos para voltar a ser uma região ativamente criadora

dentro da economia brasileira e da cultura nacional e americana

(FREYRE, 1968, p.198).