Gilberto Freyre e José Lins do Rego
Capítulo IV
Que surpresa esse José Lins do Rego! Já tinha mais de vinte e
cinco anos quando apareceu pela primeira vez no Rio, falando
feito cabra de engenho, gaguejando muito, sempre com ar
aperreado, e escrevendo esporadicamente umas notas críticas
meio bambas e meio erradas. Eu não tinha fé no matuto. Nunca
que ninguém tivesse fé, a não ser, talvez, o mestre do
Karrapicho, o modesto sociólogo de Casa-grande e senzala
(BANDEIRA, 1991, p.310).
Afinidades Eletivas nos Romances
O poeta Manuel Bandeira não acreditava. Mas o fato é que, naquele início dos anos 1930, em Maceió, um jovem paraibano, formado em Direito, sem ter a menor vocação para as lides jurídicas e então exercendo a nada literária função de fiscal de bancos, preparava-se para entrar triunfalmente nos salões das letras nacionais. Seu nome: José Lins do Rego. Definitivamente, aquele deslocado burocrata escondia um autor prolixo, de escrita farta, que ainda escreveria doze romances, um volume de memórias, livros de viagens, um livro de literatura infantil, além de crônicas e ensaios. Tudo isso em um período de vinte e cinco anos, se considerarmos como marcos cronológicos o aparecimento do seu primeiro romance, em 1932, e a publicação das suas memórias – Meus verdes anos – em 1956, apenas um ano antes de sua morte.
Parte da obra do autor paraibano é, principalmente nos romances iniciais, assinalada pelo aspecto memorialístico, onde, muitas vezes, a voz que narra e o que é narrado se confundem com a vida e a história do autor, como se percebe pela leitura de, por exemplo, Menino de engenho e Meus verdes anos. Isso é um aspecto já exaustivamente abordado pela crítica e não precisaremos aqui ficar repetindo o que já foi dito por vozes que são, além de precedentes, mais autorizadas: seria chover no molhado. Apenas gostaríamos de lembrar a importância que tem a figuração social na construção da obra de José Lins do Rego, ora sugerindo-lhe temas e pontos de vista, ora funcionando como estímulo à escrita, conforme podemos ler na apresentação (testemunho) do romance Usina, de 1936.
Críticos literários, historiadores e outros estudiosos são unânimes no reconhecimento da crise vivida pela região nordeste no momento em que José Lins publica os primeiros romances. O esvaziamento dos engenhos remanescentes que não tinham sido engolidos pelas usinas, o êxodo de seus trabalhadores, o enfraquecimento do poder coronelístico, a urbanização e a perda de importância econômica são apenas expressões da crise que, transposta para o romance de José Lins do Rego, dará a nota e o tom responsáveis pelo clima de decadência e melancolia, loucura e perda de rumo de algumas das suas personagens centrais.
Aqui, abordaremos de forma direta dois romances: o de estreia, Menino de engenho, e o seu terceiro livro, Bangüê, publicado em 1934. São textos que surpreendem temas e planos sociais também tratados por Gilberto Freyre em seus ensaios de antropologia social. O sociólogo propõe um recorte regional claramente atravessado pelos aspectos culturais inerentes àquela zona espacial onde foram se instalando os engenhos no período mais profundo da colonização. E, dentro desse espaço cultural, vê a presença da casa-grande como símbolo arquitetônico de poder e irradiação de significados sociológicos e culturais. Há mesmo, no prefácio à primeira edição de Casa-grande & senzala, uma passagem que condensa toda essa centralidade:
A casa-grande, completada pela senzala, representa todo um
sistema econômico, social, político: de produção (a monocultura
latifundiária); de trabalho (a escravidão); de transporte (o carro
de boi, o bangüê, a rede, o cavalo); de religião (o catolicismo de
família, com capelão subordinado ao pater famílias, culto dos
mortos, etc.); de vida sexual e de família (o patriarcalismo
polígamo); de higiene do corpo e da casa (o “tigre”, a touceira
de bananeira, o banho de rio, o banho de gamela, o banho de
assento, o lava-pés); de política (o compadrismo). Foi ainda
fortaleza, banco, cemitério, hospedaria, escola, santa casa de
misericórdia amparando os velhos e as viúvas, recolhendo
órfãos (FREYRE, 1997, p.liii).
Os temas que destacamos nos romances são aqueles que acreditamos poder simbolizar esses planos sociológicos. São motivos assinalados por uma ordem social do tipo rural, patriarcal, marcada pela violência das relações sociais, mesmo quando revestidas de “afeto” ou pelos contatos pessoais e familiares. Acreditamos, portanto, que os universos temáticos dos ensaios e dos romances, compõem um sistema – no sentido proposto por Antonio Candido.
Evidentemente essas afinidades eletivas entre autores e obras não devem nos conduzir a uma leitura – que seria, a nosso ver, totalmente equivocada – que os interprete como almas gêmeas ou como sendo os dois lados de uma moeda que mostrar-se-ia ora sob a face ensaística, ora sob a face romanesca. Nada disso. Essa leitura anularia o diálogo. Se há em José Lins do Rego a inegável presença da matriz regionalista freyriana, há, também, momentos de diferenciação, em que sua visão distancia-se da noção de equilíbrio de antagonismos veiculada pelo sociólogo pernambucano. São momentos em que a narrativa evidencia os dramas e os conflitos humanos e sociológicos, engendrados por uma configuração sociológica nova, ainda em construção, ao chocar-se com uma outra, já decrépita, mas que reluta em aceitar como um fato consumado o seu desaparecimento iminente. Com efeito, o senhor de engenho Lula de Holanda Chacon, dono do engenho Santa Fé, ou o Dr. Juca, filho de José Paulino e proprietário da usina Bom Jesus, como vários outros tipos humanos apresentados em Fogo morto e em Usina, por exemplo, em nada lembram o fausto do patriarca da casa-grande em sua formulação típico-ideal elaborada por Gilberto Freyre. Quais seriam, enfim, esses temas que assinalariam, no interior dos romances, a presença de uma determinada ordem social? Ou, ainda, que práticas de sociabilidade se deixam surpreender através da e na ficção? É o que veremos na sequencia deste estudo.