Gilberto Freyre e José Lins do Rego
A Força Telúrica: Terra e Água
de comer e vestir aos negros que ele tinha. E de facto só com o
trabalho livre conseguiu fortuna.
Em Bangüê, os resquícios da escravidão são ainda mais evidenciados, como que querendo assinalar, pelo tom de nostalgia com que se apresentam, a atmosfera de inevitável decadência que perpassa a narrativa: “Sempre era agradável, no Santa Rosa, ver-se a senzala cheia de negras conversando em voz alta” (REGO, 1996, p.92). Ou, mais adiante: “No Santa Rosa as negras foram ficando a trabalhar pelo que comiam e vestiam, como antes de 88. Comiam bem. Os filhos se criavam na fartura e era tudo para elas” (REGO, 1996, p.93).
Como vimos, os senhores de terra monopolizam também as propriedades mnemônicas, pois, nesta sociedade, eles é que podem lembrar e dar voz à memória. Deixemos agora, no entanto, as memórias senhoriais acerca da escravidão. Vejamos a força telúrica que circunda a ordem social aqui interpelada. Falemos de terra e água e de suas interações com os ricos e os pobres do Engenho Santa Rosa.
A Força Telúrica: Terra e Água
Gilberto Freyre, no seu livro de 1937, apresentado no capítulo dois, nos fala de uma região Nordeste e, dentro dela, de uma sociedade patriarcal dos engenhos, como sendo circundadas por uma natureza exuberante, de solo fértil (massapê), de águas abundantes e límpidas, de sol abrasador e chuvas regulares; com uma grande variedade de espécies animais e vegetais; um ecossistema regional e cultural tingido pelos triângulos rurais característicos da colonização portuguesa. Tudo isso, porém, prejudicado pela monocultura que faz reinar, sozinha, a cana e pelo desapego dos senhores às matas dos seus engenhos, impiedosamente derrubadas para o plantio de novos partidos. Gilberto Freyre, defensor desse modelo de colonização não esquece, porém, de assinalar os seus efeitos deletérios do ponto de vista das relações homem-natureza.
Ninguém lhe tocava num capão de mato, que era mesmo que
arrancar um pedaço de seu corpo. Podiam roubar as
mandiocas que plantava pelas chãs, mas não lhe bulissem nas
matas. Ele mesmo, quando queria fazer qualquer obra,
mandava comprar madeira nos outros engenhos (REGO, 1996,
p.27).
José Lins do Rego, antecedendo em cinco anos o livro de Gilberto Freyre, já mostrara, nas páginas de Menino de engenho, várias nuanças da relação homem-natureza no mundo dos engenhos, a começar pelos significados de que é revestida a terra, como insígnia de poder político e de riqueza material, poder esse potencializado pelo aspecto agrário dessa ordem social.
A compra de terras é o motor das ações de José Paulino. Cada engenho comprado significa a ampliação do seu poder, o alargamento do seu fundamento real. A força que lhe confere a propriedade de terra é revestida pela natureza telúrica desse personagem. O trabalho que nela realiza, por suas próprias mãos ou pelas mãos dos outros, dos seus servos e foreiros, parece impregnar-lhe a personalidade, o seu jeito de ver o mundo, as suas relações com a família, com os seus pares, com as árvores dos seus engenhos, etc. Ilustremos essa afirmação com um trecho do romance Bangüê, onde o ocioso bacharel Carlos de Melo, em seu eterno desencontro com a terra e com a condição de herdeiro, lembra do velho José Paulino, então já perto da morte, como que para realçar, pelo contraste, a sua própria inaptidão para as lides agrárias: “Só se botava à Paraíba para vender açúcar, comprar enxadas. Homem fincado na terra como uma árvore, deitou raízes, espalhou seus galhos. E nunca se ouviu falar que árvores tivessem férias, descansassem um momento. Não fora feliz com os parentes” (REGO, 1993, p.10).
Senhor feudal que governava com o coração, José Paulino sente com muita clareza e para além de possíveis razões afetivas ou propriamente telúricas, a consciência da posse da terra como sendo parte indissociável da sua condição de senhor, razão de ser da autoridade moral de que desfruta. Por isso, quanto mais, melhor:
As terras do Santa Rosa andavam léguas e léguas de norte a
sul. O velho José Paulino tinha este gosto: o de perder a vista
nos seus domínios. Gostava de descansar os olhos em
horizontes que fossem seus. Tudo o que tinha era para comprar
terras e mais terras. Herdara o Santa Rosa pequeno, e fizera
dele um reino, rompendo os seus limites pela compra de
propriedades anexas (REGO, 1996, p.51).
Dentro da paisagem humana das terras do massapê, movem-se diversos tipos. Além do aristocrata da casa-grande: cabras de engenho, mulatas, negros, moleques da bagaceira, sertanejos fugitivos da seca, prostitutas, bacharéis, mascates, etc. Destaque para os loucos e os cangaceiros. Gilberto Freyre nos fala no bandido Cabeleira, assombro dos canaviais no século dezenove; José Lins do Rego, pela boca do adulto Carlos de Melo (mas não exclusivamente por ele) nos fala do fascínio e do medo exercidos junto aos meninos do engenho pela figura do cangaceiro Antônio Silvino. Sinal dos tempos: Gilberto Freyre nos fala, em Sobrados e mucambos, das invasões policiais aos engenhos em busca de criminosos protegidos pelos senhores como sendo um claro sinal de decadência destes que, em tempos áureos, jamais haveriam de passar por tal constrangimento; José Lins do Rego, em vários momentos, nos fala de invasões aos engenhos por parte das volantes policiais, em busca de coiteiros; nos fala também das investidas dos cangaceiros aos engenhos.
Neste sentido, é antológica a cena da invasão do engenho Santa Fé pelo grupo de Antônio Silvino, como forma de pressionar o decadente Lula de Holanda Chacon a aceitar a permanência em suas terras – sem pagamento de foro – do mestre José Amaro, homem ligado ao temido chefe cangaceiro.
O caráter agrícola do trabalho reforça a dependência dos homens em relação aos elementos naturais. É perceptível essa dependência quando, na narrativa de José Lins do Rego, ou nos ensaios de Gilberto Freyre, surgem as cenas descritivas das atividades propriamente produtivas, quase todas desempenhadas ao ar livre, sob um sol ou uma chuva igualmente intensos. Sol e chuva que parecem ditar o ritmo dessas atividades, fecundando, molhando ou fazendo crescer a cana nos vastos partidos.
Ou destruindo tudo, pois, no princípio, tudo era exuberante, mas desequilibrado e primitivo, hostil. Temos aqui, com efeito, uma visão muito pouco idílica quanto às relações do homem com o meio natural. É que, com o reino da mercadoria – a célula da sociedade que aqui se anuncia em torno dos engenhos e suas casas-grandes – modifica-se o meio. Nesse movimento, até se pode ouvir e sentir e respirar aquela nota sádica que vibra das relações entre os homens, entoando “aquele exercício brutal de crueldade a que o capitalismo arcaico submete a natureza e o homem” (BOSI, 1992, p.170).
Nada a ver, portanto, com a fertilidade e equilíbrio inscritos na famosa carta de Pero Vaz de Caminha.
Com a palavra, Gilberto Freyre, no capítulo primeiro do seu livro mais famoso:
Tudo era aqui desequilíbrio. Grandes excessos e grandes
deficiências, as da nova terra. O solo, excetuadas as manchas
de terra preta ou roxa, de excepcional fertilidade, estava longe
de ser o bom de se plantar nele tudo o que se quisesse, do
entusiasmo do primeiro cronista. Em grande parte rebelde à
disciplina agrícola. Áspero, intratável, impermeável. Os rios,
outros inimigos da regularidade do esforço agrícola e da
estabilidade da vida de família. Enchentes mortíferas e secas
esterilizantes – tal o regime de suas águas (FREYRE, 1997,
p.15).
Temos ainda vermes, larvas e insetos e cobras passeando pelos telhados, e que caem, as cobras, nas camas de couro cru e os homens, pela manhã, são surpreendidos, ao calçarem as botas, com sua peçonhenta presença. Eis o quadro de insalubridade que o colonizador português e o negro africano encontraram nos trópicos. Uma situação ecologicamente insalubre que nos faz lembrar, ainda uma vez, dos romances de Jorge Amado sobre os pioneiros desbravadores da zona sul da Bahia – isso já nos séculos XIX e XX – derrubando a mata, enfrentando onças e sendo mordidos por cobras venenosas e matando e morrendo nas tocaias, tudo fazendo e sofrendo em luta ensandecida pela posse das terras boas para plantar cacau, mesmo quando adubadas pelo sangue dos homens que a “civilizam”.
Voltemos aos romances do paraibano. Passemos agora da terra à água: eis aí um tema que parece escorrer pela narrativa de José Lins do Rego, pois, fluente como esta narrativa, só as águas que correm pelo leito do rio Paraíba.
Gilberto Freyre vê na abundância das águas, um sinal distintivo da civilização do açúcar. Nem sempre, como já mencionado, são águas amigas dos homens. Por vezes se revoltam: e vêm as enchentes com o seu caudal destruidor. É bastante expressivo, neste sentido, o final que José Lins do Rego dá ao seu ciclo da cana-de-açúcar, fazendo desaparecer sob as águas do Paraíba, no último capítulo de Usina, a usina Bom Jesus, que sob a direção do Dr. Juca, filho de Zé Paulino, se espalhara pelas terras do antigo (e finado) Santa Rosa.
Apesar das irregularidades que alternam períodos de escassez com períodos de excessos, as águas do Rio Paraíba e dos pequenos rios e riachos têm uma multifuncionalidade na vida do engenho. Além da óbvia irrigação dos vastos canaviais, podemos surpreender as pescarias, os banhos de animais (principalmente os cavalos), os banhos matinais que, aos domingos, se transformavam em verdadeiros momentos de sociabilidade entre membros de várias famílias senhoriais; em suas vazantes, a plantação de batata-doce para os pobres, e as pequenas cacimbas que, no período da seca, serviam para o “abastecimento de gente que vinha das caatingas, andando léguas, de pote na cabeça” (REGO, 1996, p.17); ainda temos, em suas margens, o capim para o gado; os banhos e as brincadeiras infantis; os passeios de canoa; as serenatas; etc.
Pelos exemplos, podemos entender o rio – esse “caminho que anda e vai resmungando talvez uma dor” da bela definição do cancioneiro
popular 13 – como um grande espaço onde acontecem diversas práticas de sociabilidade e de cultura. Quem mora em suas margens, mesmo que seja pobre, pode contar com sua providencial ajuda em momentos difíceis. Deixemos falar José Lins do Rego: “Os da beira do rio eram mais felizes. O Paraíba dava-lhes tudo: banho para os meninos, piaba para as moquecas e vazantes para a batata-doce crescer e o jerimum enramar” (REGO, 1993, p.69).
Os resmungos do rio aumentam com a chegada das chuvas, ansiosamente aguardadas por aqueles homens e mulheres tão dependentes dos elementos naturais. Para os pobres, o bom inverno significa fartura de batata-doce e feijão verde, além da certeza de trabalho; para o senhor da terra, a garantia de renovação dos partidos de cana que faziam sua riqueza: “O meu avô ficava pelo alpendre a olhar o céu, batendo com a vara de jucá pelas calçadas. Era a sua grande alegria: a bátega d´agua amolecendo o barro duro dos partidos, a enverdecer a folha amarela das canas novas” (REGO, 1996, p.74).
Época de inverno é sinônimo de muito trabalho, de doze horas no eito, enxada na mão, sob a supervisão do feitor exigente. De vez em quando as águas do Paraíba transbordavam e invadiam os partidos de cana, os roçados, as casas, as capelas e os engenhos construídos às suas margens, perturbando os aparentemente sólidos pilares daquela organização social e ameaçando, momentaneamente, os símbolos de sua riqueza, mas sem ameaçar a sua estrutura de dominação. Era a força da natureza agindo sobre a cultura.
No capítulo 13 de Menino de engenho, reiteradamente elogiado pelo amigo Gilberto Freyre em seus ensaios, temos a impactante descrição de uma enchente e das alterações que traz à rotina do engenho. O relato começa com a observação dos relâmpagos nas cabeceiras do Paraíba, prenúncio de chuvas iminentes: “Era inverno na certa no alto sertão” (p.17). Os pobres começam a arrancar as batatas e os jerimuns plantados nas vazantes. A enchente é aguardada como alguém que vem de longe, há muito esperado:
O povo gostava de ver o rio cheio, correndo água de barreira a
barreira. Porque era uma alegria por toda parte quando se
falava da cheia que descia. E anunciavam a chegada como se
se tratasse de visita de gente viva: a cheia já passou na
Guarita, vem em Itabaiana... (REGO, 1996, p.18).
Não se fala de outra coisa no engenho. O menino Carlos sonha com a chegada da cabeça da enchente. É a primeira vez que vai ver uma. As canoas já estão preparadas para o transporte dos moradores em sua fuga para áreas mais distantes das margens. Até que, numa tarde, um dos moleques do engenho avisa que a cheia já atingiu o engenho de Seu Lula: “-É água muita! O rio vai às vargens. Vem com força de açude arrombado” (p.18).
Com a cheia, a narrativa atinge o ápice, tornando-se tão intensa quanto o que está sendo contado, em perfeita sintonia entre estilo e conteúdo. O leitor parece ouvir o barulho das águas:
O povo a gritar por todos os lados. E o barulho das águas que
cresciam em ondas nos enchendo os ouvidos. Num instante
não se via mais nem um banco de areia descoberto. Tudo
estava inundado. E as águas subiam pelas barreiras.
Começavam então a descer grandes tábuas de espumas,
árvores inteiras arrancadas pela raiz (REGO, 1996, p.18).
E vêm os animais mortos, restos de alpendres e cumeeiras de casas, madeira: tudo boiando. Muito barro e, à noite, a cantiga dos sapos. Distribuição de bacalhau para os desabrigados. Para os meninos do engenho tudo é festa. José Paulino, vendo a cana submersa e a safra perdida, calcula os prejuízos. Mas não se lamenta, pois sabe que, passadas as águas, a terra estará pronta para receber e fazer germinar as novas sementes: “- Gosto mais de perder com água do que com sol” (p.20). E recorda enchentes passadas e toma providências para socorrer seus moradores.
Se em Usina a enchente significa o fim total e irreversível, em Menino de engenho é apenas um transtorno passageiro, que causa prejuízos, é verdade, mas que, ao fim e ao cabo, e retornadas as águas ao seu leito natural, tudo fica igual como era antes e restabelece-se a ordem social, com seus dominantes e dominados, senhores e servos em harmonia. Antagônicos, porém equilibrados.
A enchente no Rio Paraíba, com toda a desordem momentânea que provoca, nos leva de volta à noção de equilíbrio de antagonismos, emblemática da visão freyriana acerca da formação brasileira. Por quê?
Creio que podemos começar a responder a essa questão introduzindo uma outra formulação de Gilberto Freyre, “zona de confraternização”, bem menos conhecida que a anterior e que, assim nos parece, pode conferir uma maior substância empírica àquela noção inicial, já exposta em Casa-grande & senzala. Ao menos gostaríamos aqui de propor essa leitura.
Com efeito, nesse ensaio inicial, Gilberto Freyre se deixa conduzir por uma célula explicativa cujo núcleo é composto pela família patriarcal, com sua casa e sua senzala, seu engenho e sua capela, advindo daí todo um conjunto de ações de sentido sociológico e cultural voltadas para as tarefas de colonização sob bases agrárias. Estamos ainda no mundo dos engenhos, circundado pelos desequilíbrios ambientais, pelos excessos sexuais e pela precariedade das relações entre brancos, negros e índios. São esses antagonismos que o nosso autor deseja equilibrar.
No ensaio seguinte – Sobrados e mucambos – o núcleo continua sendo a família e a residência, mas agora com uma diferença substancial: não se trata mais da família rural dos engenhos, mas daquela residente nos sobrados urbanos. A análise parte do início do século XIX, em 1808, com a chegada da família real ao Brasil, acontecimento que vai desencadear um conjunto de mudanças culturais, a que Gilberto Freyre chama de processo de reeuropeização. A rua vai lentamente substituindo a casa, a praça ao engenho, o sobrado urbano ao sobrado rural, etc. Em verdade, Gilberto Freyre narra, neste livro de 1936, a revolução burguesa no Brasil, ainda que não a situe nestes termos.
Na rua ocorrem a despersonalização das relações entre senhores e escravos e a desintegração de valores de cultura inerentes ao mundo rural em declínio. Neste momento, Gilberto Freyre introduz a noção de “zona de confraternização” como sendo uma espécie de versão urbana do “equilíbrio de antagonismos”. A rigor, as duas noções se combinam e se completam quanto ao objetivo de construir uma interpretação minimamente harmônica acerca dos excessos e desequilíbrios profundos que marcaram a formação da sociedade brasileira.
Com as zonas de confraternização Gilberto Freyre enriquece sua análise e premia seus leitores com uma maior visibilidade (concretude) dos fatos culturais que quer ver equilibrados. E reforça a presença do cotidiano na abordagem culturalista que constrói em torno de seus (do cotidiano) elementos empíricos.
No mundo da casa-grande, a zona de confraternização era a bagaceira dos engenhos, onde os meninos brancos e senhoris podiam brincar com os filhos da senzala. No mundo das cidades esses momentos de confraternização se ampliam. E temos as festas de igreja, com violões e modinhas, as procissões, o entrudo e o carnaval; depois, as rodas de samba, a sorveteria, todos esses momentos significando a vitória crescente da rua sobre a casa (FREYRE, 1996, p.XLIII).
Voltemos, agora com o olhar revigorado por essa noção complementar, ao episódio da enchente. A precariedade e o caos por ela provocados na rotina do engenho aparecem, na narrativa, como desencadeadores de expressões de solidariedade e de confraternização que parecem unir – equilibrar – ainda que sob o signo da precariedade e do efêmero, os ricos e os pobres daquela ordem. Materializam-se a “proteção”, o “equilíbrio” e as “confraternizações” possíveis numa ordem atravessada pelo autoritarismo e violência de suas relações de trabalho, com ou sem escravos. E vem a força das águas alterar o ritmo da ordem social, pondo entre parêntese suas diferenças, colocando em suspenso as desigualdades nesse momento de medos e de fugas:
Nós, os da casa-grande, estávamos ali reunidos no mesmo
medo, com aquela pobre gente do eito. E com eles bebemos o
mesmo café com açúcar bruto e comemos a mesma batata-
doce do velho Amâncio. E almoçamos com eles a boa carne-
deceará com farofa. [...] Depois chegou do engenho o
mantimento que tínhamos esquecido com as pressas (REGO,
1996, p.21).
Nos distantes ermos para onde a cheia os impeliu, ainda assim, há obrigações a cumprir, em socorro dos pobres, esses eternos refugiados.
E chegam do engenho os mantimentos para aplacar a fome dos fugitivos:
E a minha tia Maria distribuiu com aquela gente toda a carne-
de-sol e o arroz que nos trouxeram. Eles pareciam felizes de
qualquer forma, muito submissos e muito contentes com o seu
destino. A cheia tinha-lhes comido os roçados de mandioca,
levando o quase nada que tinham. Mas não levantavam os
braços para imprecar, não se revoltavam. Eram uns cordeiros. –
O que vale é a saúde e a proteção de Deus – diziam sempre.
Mas, coitados, com que saúde e com que Deus estavam eles
contando! (REGO, 1996, p.21).
Fora desses momentos excepcionais e dentro da mais absoluta rotina do engenho, uma outra situação se nos apresenta como expressiva zona de confraternização e de equilíbrio: o momento das refeições, quando Zé Paulino comanda lautos almoços e jantares, sempre contando com um número expressivo de comensais das mais diversas estirpes: “Na grande sala de jantar estendia-se uma mesa comprida, com muita gente sentada para a refeição” (REGO, 1996, p.8). A cozinha é outra zona de confraternização bem delineada na narrativa deste livro de estreia do romancista paraibano. É sintomático que seja este o espaço onde costumeiramente vão aparecer, no enredo, os ex-escravos. A confraternização não seria, com efeito, suficiente para fazê-los frequentar espaços mais nobres da casa-grande.
Nas cozinhas das casas-grandes vivem as brancas e as
negras, nessas conversas como de iguais. As brancas deitadas,
dando as cabeças para os cafunés e a cata dos piolhos. E as
negras vão lhe contando as suas histórias, fazendo os seus
enredos, pedindo os seus favores (REGO, 1996, p.71).
Esses seriam os momentos mais expressivos do ponto de vista das interdependências “fraternais” entre dominantes e dominados nos romances aqui interpelados. Em Sobrados e mucambos há uma maior presença de situações desse tipo: no banho de rio entre senhoras e suas escravas, estas ensaboando aquelas, onde o sociólogo claramente insinua a ocorrência, não de todo rara, de casos de lesbianismo; na alfabetização dos senhores pelos escravos vindos de áreas mais desenvolvidas do continente africano (Bantu ou Sudaneses), etc.
Os padres contam com a ajuda de Zé Paulino na organização das festas religiosas ou, ainda, com a madeira do engenho para as reformas no prédio da matriz. No Santa Rosa, no entanto, não existe capela e sim o quarto dos santos. Essa dimensão religiosa do triângulo rural se apresenta de forma atenuada nos romances, Menino de engenho e Bangüê, principalmente na primeira obra. Não dá pra sentir, por exemplo, aquele clima de intimidade doméstica com os santos e de religiosidade exacerbada de que fala Gilberto Freyre em vários textos. Talvez pela indiferença de Zé Paulino em relação às questões de ordem mais transcendental que material. O fato é que as práticas religiosas e orações não ocupam um lugar de relevo na narrativa. Sente-se, inclusive, um olhar nada seráfico do tema, no registro dos meninos ao se depararem com um menino Jesus que lhes chama a atenção apenas por apresentar “por debaixo de suas vestes uma rolinha bicuda de criança” (REGO, 1993, p.28).
No capítulo 17 ficamos sabendo que só em ocasiões especiais, como a semana santa, era aberto o quarto dos santos para quem quisesse visitá-lo, as velas eram acessas e a casa-grande fazia a distribuição de bacalhau e farinha para o jejum dos moradores. Em Bangüê o quarto dos santos é apenas o local onde se refugia Carlos de Melo em seus inúmeros momentos de agonia e de desespero. Nada mais que isso.
É durante uma semana santa que vai aparecer pela primeira vez no engenho a velha Totonha (ou Totônia), contando em versos a Vida, a Morte e a Paixão de Cristo, deixando o menino Carlos de Melo encantado com a sua narrativa.
No capítulo 21 vemos novamente em ação a contadora de estórias, desfiando o seu repertório para uma plateia atenta, composta pela meninada do engenho. Sem dentes e analfabeta, Totonha vem, com suas estórias fantásticas de reis e rainhas, de madrastas malvadas, de homens inocentes condenados à forca sendo salvos na última hora, de bichos falantes e outras lendas, ampliar a imaginação do menino Carlos, tirando-o da rotina de menino asmático e cheio de medos, não apenas dos castigos da Tia Sinhazinha, mas de lobisomens e papa-figos e de mal-assombrados. É uma espécie de meta-narrativa que aqui se configura. Com efeito, pela voz de Totônia podemos sentir a escrita de José Lins do Rego. No mesmo capítulo 21 aparece um comentário do narrador-adulto que nos parece bastante expressivo como caracterização do estilo narrativo e do universo temático do próprio romancista paraibano:
O que fazia a velha Totonha mais curiosa era a cor local que ela
punha nos seus descritivos. Quando ela queria pintar um reino
era como se estivesse falando dum engenho fabuloso. Os rios e
as florestas por onde andavam os seus personagens se
pareciam muito com o Paraíba e a Mata do Rolo. O seu Barba-
Azul era um senhor de engenho de Pernambuco (REGO, 1996,
p.35).
De certa maneira, a velha Totônia antecipa a consciência literária do escritor José Lins do Rego. Essa meta-narrativa fica mais evidente em algumas passagens do romance Bangüê.
Aí, é um angustiado Carlos de Melo que surpreendemos fazendo comparações entre o mundo à sua volta e o mundo que observa nas páginas dos romances que lê (na maioria das vezes, apenas folheia) nas suas longas horas de ócio. A comparação entre o real e a sua representação literária claramente se lhe apresenta como um contraponto que lhe esclarece acerca da decadência inevitável da aristocracia rural a qual pertence, personalizada na crescente decrepitude do seu avô, José Paulino.
Lembrando do colega de boemia no Recife, Mário Santos, sempre a lhe sugerir a escrita de um livro apologético sobre seus familiares, o bacharel se angustia por não mais observar no engenho para onde voltou os sinais da antiga grandeza, por perceber que o velho que morre um pouco a cada dia, na sua frente, não se parece com um personagem de romance: “Ele não era de romance. A sua existência não dependia da imaginação de ninguém” (REGO, 1993, p.20). Portanto, além da disposição, falta-lhe a matéria viva – aquele necessário vínculo com a realidade social de que fala o professor Edílson – para a composição do tal livro, pelo menos nos termos de nobreza que lhe sugere o colega. Tudo então se perde nas intenções vagas, como palavras que entram por um ouvido e saem pelo outro: “A literatura me cantava aos ouvidos a vida larga dos engenhos, o austero regime patriarcal, a grandeza moral das famílias, todo um mundo de dignidade e nobreza; e o que eu estava vendo não era nada disso” (REGO, 1993, p.14).
Carlos de Melo resolve encerrar o livro que não escreveu mandando-o para o inferno: “nem livro, nem engenho.”
Entre Menino de engenho e Bangüê José Lins do Rego narra, em Doidinho, o cotidiano do menino Carlos no Instituto Nossa Senhora do Carmo em Itabaiana. Em O moleque Ricardo, conta as aventuras e desventuras de Ricardo, padeiro na grande cidade, Recife, habitando os seus mocambos e entregando pão nos seus sobrados, distante do Santa Rosa; e nos fala também do seu envolvimento com o movimento operário e as greves, envolvimento que vai lhe custar a prisão, em Fernando de Noronha. Nesta obra o engenho é apenas uma sombra que se desnuda em algumas reminiscências e num raro encontro, de longe, com o antigo colega de brincadeira na bagaceira, Carlos de Melo, então estudante de Direito. Em Usina, estamos sob o império das relações capitalistas, impessoais, distantes, portanto, do mundo dos contatos primários e diretos dos engenhos, com suas casas e capelas e bagaceiras; a cana invade até as ribanceiras de um poluído Rio Paraíba e agrava a miséria dos pobres acostumados a delas se servirem. A nota aqui dominante é a mais completa desintegração da ordem senhorial, anunciando, também na ficção, o final que já fora imposto pelas forças econômicas e políticas postas em marcha desde a última quadra do século XIX. José Lins do Rego voltaria aos engenhos sete anos depois, com Fogo morto, narrativa desenvolvida em três planos que se interpenetram para nos mostrar, pelas ações de suas personagens centrais – Zé Amaro, Lula de Holanda e Vitorino Carneiro da Cunha – os desencontros e alienações e deslocamentos psicológicos desencadeados pelo avanço do fim daquela herança rural portuguesa, desde longe inscrita nas casas-grandes senhoriais e na figura de seus senhores e seus escravos, mulheres e agregados e que, então, se desmanchava no ar, espalhando os fragmentos desse mundo português que não tinha mais como contar com os precários antagonismos em equilíbrio, num instante em que as relações entre os homens começam a ser determinadas pelos laços frios (e precários) do pagamento à vista.
13 Essa definição aparece na bonita canção Eu e o rio, do compositor Luiz Antônio, gravada pelo cantor Miltinho.