Gilberto Freyre e José Lins do Rego

Cauby Dantas · Capítulo 6 de 18

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Gilberto Freyre e José Lins do Rego

O Olhar Senhorial

Cada grupo social, nascendo no terreno originário de uma

função essencial no mundo da produção econômica, cria para

si, ao mesmo tempo, de um modo orgânico, uma ou mais

camadas de intelectuais que lhe dão homogeneidade e

consciência da própria função, não apenas no campo

econômico, mas também no social e no político (GRAMSCI,

1982, p. 3).

Eis aí, em síntese, o conteúdo sociológico (e político) do conceito de intelectual orgânico.

As considerações até aqui têm por objetivo tornar evidentes as implicações político-ideológicas das categorias de hegemonia e intelectual orgânico. É chegado o momento de tentar uma conexão destes aspectos teóricos com a obra de Gilberto Freyre. Nesta empreitada, que é a de situar Gilberto Freyre como intelectual orgânico da casa-grande e do mundo dos engenhos, nos deixaremos conduzir por dois eixos temáticos bem delimitados.

Trata-se de, num primeiro instante, interpelar os significados e conteúdos da noção de cultura veiculada pelo intelectual pernambucano, com especial realce para a ideia de “equilíbrio de antagonismos”, ideia e expressão recorrentes na obra freyriana. No próximo capítulo, será feita uma breve apresentação dos temas constitutivos do seu regionalismo, através da exposição e da análise dos textos mais intensamente marcados pelas circunstâncias e pelos conteúdos deste ideário.

 

O Olhar Senhorial Trata-se agora de tentar explicitar as vinculações orgânicas de Gilberto Freyre e sua obra com as formas de sociabilidade pretéritas mencionadas alhures. Por este caminho, intenciona-se encontrar os elementos constitutivos da visão senhorial que, ademais, expressariam o lugar social ocupado pelo nosso autor. Sabe-se, desde Gramsci, que os intelectuais não formam um grupo à parte, constituído por espíritos iluminados que, produtores e detentores do saber, estariam acima dos interesses e antagonismos políticos ou de classes. Em verdade, as coisas são muito diferentes e a função (papel) social dos intelectuais expressa os dramas e conflitos, opções, concepções e alternativas de sua época:

Não terá sido por acaso, aliás, que uma das melhores

formulações teóricas de todos os tempos sobre o papel do

intelectual proveio de um pensador engajado, como Gramsci,

para quem os intelectuais constituem a expressão social

concreta do vínculo orgânico entre estrutura e superestrutura

(MOTA, 1990, p.285).

Seria interessante situar o momento em que ganha visibilidade e realce esta construção ideológica que, segundo Carlos Guilherme Mota, é “a ideologia mais forte do século XX brasileiro” (MOTA, 2000, p.3).

Voltemos, portanto, ao começo dos anos trinta do século passado. Veremos aí um momento de crise, assinalado por uma transição que vai impregnar os grandes paradigmas explicativos da cultura brasileira que surgem exatamente neste instante, em livros de autores como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Júnior. Trata-se da lenta substituição do modelo agrário-exportador – de raízes imemoriais, fincadas no solo da colonização portuguesa do Brasil – por um modelo urbano-industrial que condensa as transformações em curso desde meados do século XIX: fim do trabalho escravo, chegada dos imigrantes europeus, diversificação da economia, instauração da República, crescimento das cidades, etc. São mudanças, estas, que refletem a gradativa ruptura com aquela herança rural. Sintoma desta passagem é a crise vivenciada pelas oligarquias, desde sempre dominantes, que assistem, impotentes e saudosas, à ruína das bases de um poder que lhes parecia eterno. A decadência é expressa no fim da “República Velha” (1889-1930), na Revolução de trinta, no enfraquecimento de formas tradicionais de dominação – o coronelismo – e pela emersão política de grupos urbanos que irão, nas décadas seguintes, redimensionar o papel do Estado no processo de modernização capitalista do país.

É sob estas circunstâncias que Gilberto apresentará a sua obra mais importante. Lançado em 1933, o livro Casa-grande & senzala terá, de imediato, uma grande repercussão. Apresentando uma linguagem nova, que unia literatura e ciência social, significa um avanço em relação às explicações do país feitas até então. É enorme a fortuna crítica gerada por este livro. Portanto, não iremos aqui fazer mais uma resenha ou apresentação. Move-nos apenas o interesse de surpreender, no seu interior, algumas teses centrais que conduzem a longa exposição. São pontos que consubstanciam uma visão da cultura brasileira, um “olhar senhorial” que vai, neste momento de crise, empreender um talentoso mergulho em busca das origens e das raízes do mundo que o português criou. Que vai em busca do tempo e do fausto perdidos.

O nosso autor apresenta uma visão positiva da miscigenação. Esta teria agido no sentido de corrigir a distância social entre a casa-grande e a senzala. E aqui, cabe uma indagação: teria sido esta valorização da miscigenação o ponto de partida para a construção de uma visão idílica da nossa formação, pintada como exemplo de “democracia racial” e de contemporização? Pelo menos esta é a crítica mais violenta e constante feita a Gilberto Freyre. É uma crítica que faz sentido, ainda que expresse, aos nossos olhos, uma meia-verdade.

Em suas ambiguidades e imprecisões, Gilberto Freyre parece o tempo todo querer convencer seus leitores de que, na formação da sociedade brasileira, combinaram-se os mais profundos desequilíbrios com os mais duradouros ajustamentos, a violência mais hedionda – por exemplo, a escravidão – com a doçura dos afetos e contatos corporais. O céu e o inferno.

Importa aqui destacar que esta visão positiva da miscigenação representa um alívio para as oligarquias em crise. Gilberto Freyre lhes propicia a consciência histórica – lastreada em conhecimentos sociológicos e antropológicos – de que necessitam para enfrentar os novos e difíceis tempos. Culpas são atenuadas. O nosso subdesenvolvimento não seria apenas resultante dos “pecados originais”, inscritos ao longo da nossa formação. Pelo contrário. A colonização portuguesa do Brasil – apesar de todos os seus males, reconhecidos pelo autor – parece ter engendrado um novo homem, mestiço, que, desde que lhes sejam dadas condições, pode vir a ser um elemento decisivo na superação daquele subdesenvolvimento.

Outro elemento constitutivo desta visão senhorial da cultura brasileira reside na ampliação dos espaços e funções atribuídos à família patriarcal, considerada como sendo o centro de irradiação cultural (e social) da colonização lusitana no Brasil. Gilberto Freyre, reconhecidamente prolixo, vai reiterar incansavelmente esta centralidade da família e da residência patriarcais:

A família, não o indivíduo, nem tampouco o Estado nem

nenhuma companhia de comércio, é desde o século XVI o

grande fator colonizador no Brasil, a unidade produtiva, o

capital que desbrava o solo, instala as fazendas, compra

escravos, bois, ferramentas, a força social que se desdobra em

política, constituindo-se na aristocracia colonial mais poderosa

da América. Sobre ela o rei de Portugal quase que reina sem

governar (FREYRE, 1997, p.18-19).

A presença marcante da família na obra freyriana é destacada por vários dos seus críticos e estudiosos:

Obras como Casa-Grande & Senzala, produzida por um filho da

República Velha, indicam os esforços de compreensão da

realidade brasileira realizados por uma elite aristocratizante que

vinha perdendo poder. [...] E, posto que o contexto é de crise,