Gilberto Freyre e José Lins do Rego

Cauby Dantas · Capítulo 9 de 18

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Gilberto Freyre e José Lins do Rego

Apresentando a Região

O texto termina com um lamento. É o canto triste de alguém que, olhando o século que finda, percebe o desinteresse da “gente atual desta região” por suas tradições, pelos seus mortos, pelo seu passado. Gilberto desconfia – na verdade, tem certeza – de que essa “independência das tradições” (FREYRE, 1968, p.199) seja capaz de criar valores superiores àqueles criados pelos antepassados.

Treze anos depois, reforçará o ideário regionalista, colorindo-o com o verde da cana e acrescentando-lhe um sabor telúrico circundado por uma pioneira visão de ecologista.

 

Apresentando a Região

A elaboração de um ponto de vista sociológico regional volta-se para a revalorização do passado, visto como glorioso, abundante, em contraposição à decadência do presente. Esta reconstrução histórica será feita não apenas nos ensaios interpelados no item anterior, como também num livro, Nordeste, publicado em 1937, momento que marca a consolidação do projeto varguista de poder, através do golpe que instaura o chamado Estado Novo (1937-1945), intensificando a crise vivida pelas oligarquias de bases agrárias.

Nesse contexto, a região Nordeste é vista como marcada pelo atraso político, econômico e cultural, em contraposição ao Sul e Sudeste, representantes da modernidade, da indústria e da urbanização. Gilberto Freyre – intelectual orgânico do regionalismo – fará a reconstituição histórica de um Nordeste que não seja sinônimo de seca e atraso, apresentando aos seus leitores “o outro Nordeste”, marcado pela abundância de águas e de terras férteis: o Nordeste da cana-de-açúcar, base inicial da colonização portuguesa do Brasil. O critério central do livro Nordeste é o ecológico. Trata-se de um estudo das relações entre a cana-de-açúcar e o ecossistema regional.

Partindo do critério acima mencionado e de uma nítida noção de região, entendida como espaço físico, geográfico e, principalmente, cultural, o autor procura demonstrar o sentido do estudo regional para a compreensão de uma realidade mais ampla, a Nação.

Gilberto Freyre faz distinções intrarregionais, identificando a existência de, no mínimo, dois nordestes: o da cana-de-açúcar, litorâneo, e o nordeste pastoril, dos sertões.

Feitas estas considerações gerais, faz-se agora uma apresentação panorâmica de cada um dos capítulos da obra.

No capítulo I – A cana e a terra – o realce fica para os significados e funções atribuídos às terras de massapê, sustentáculo da construção da nacionalidade:

Durante o período decisivo da formação brasileira, a história do

Brasil foi a história do açúcar; e no Brasil, a história do açúcar,

onde atingiu maior importância econômica e maior interesse

humano foi nessas manchas de terra de massapê, de barro, de

argila, de humus (FREYRE, 1985, p. 9).

Dessa forma o nosso autor identifica as bases territoriais do patriarcalismo.

Chega-se ao capítulo II – A cana e a água. Verifica-se toda uma mística das águas. O autor é, neste sentido, taxativo: “No Nordeste da cana-de-açúcar, a água foi e é quase tudo” (idem p.19). E passa a destacar a importância dos pequenos rios para a expansão dos canaviais: “Rios às vezes feios e barrentos, mas quase sempre bons e serviçais, prestando-se até a lavar os pratos das cozinhas das casas-grandes e as panelas dos mucambos” (FREYRE, 1985, p.21).

Observa-se que a água, nesta civilização rural, tinha uma multiplicidade de usos: regava os campos; banhava gentes e cavalos; os rios eram “estradas” por onde fugiam escravos e amantes; banhos de rios com funções profiláticas, etc. Nesse capítulo sobre a importância da água para a civilização do açúcar vai aparecer uma formulação relevante que resume, metaforicamente, a sociabilidade e o regime de mando característicos do mundo dos engenhos, e que Gilberto apresenta como sendo a “geometria da colonização agrária”, formada pelo triângulo engenho – casa-grande – capela:

Esses triângulos logo se tornaram clássicos: engenho, casa-

grande (com senzala) e capela. Eles foram quebrando as linhas

virgens da paisagem, tão cheia de curvas às margens dos rios,

mesmo quando povoadas de tabas de caboclos. E introduzindo,

nessa paisagem desordenada, aqueles traços novos de ordem

e de regularidade. A geometria da colonização agrária

(FREYRE, 1985, p.20-21).

É feita uma crítica contundente ao caráter destruidor da monocultura:

O empobrecimento do solo, em tantos trechos do Nordeste, por

efeito da erosão, não se pode atribuir aos rios, à sua ânsia de

correr para o mar levando a gordura das terras, mas

principalmente à monocultura. Devastando as matas e

utilizando-se do terreno para uma cultura única, a monocultura

deixava que as outras riquezas se dissolvessem na água, se

perdessem nos rios (FREYRE, 1985, p.22).

Essa crítica prossegue no capítulo III – A cana e a mata – onde é denunciada, de modo pungente, a destruição da mata pela queimada, para que a cana pudesse reinar de forma absoluta. “A cana começou a reinar sozinha sobre léguas e léguas de terras avermelhadas pela coivara. Devastadas pelo fogo” (FREYRE, 1985, p.46). Gilberto Freyre exaspera-se ao falar da destruição da mata e da vida animal, da derrubada de árvores nobres para a construção de navios e portas de conventos e igrejas em Portugal, da insensibilidade e ignorância dos senhores de engenho: “O brasileiro das terras de açúcar quase não sabe os nomes das árvores, das palmeiras, das plantas nativas da região em que vive – fato constatado por tantos estrangeiros. A cana separou-o da mata até esse extremo de ignorância vergonhosa” (FREYRE, 1985, p. 48). Parte do subdesenvolvimento do presente seria consequência dessa exploração predatória dos séculos fundantes. E arremata: “Não se brinca em vão, ou sem correr algum risco sério, com a vida vegetal de uma região” (FREYRE, 1985, p.50).

A cana e os animais é o título do capítulo IV. Gilberto Freyre propõe uma curiosa transposição interpretativa ao hierarquizar o mundo animal a partir de determinantes sociais e culturais. É assim que o cavalo e o boi aparecem como sendo os dois grandes animais da civilização da cana-de-açúcar no Nordeste do Brasil, expressando o antagonismo entre senhor e escravo.

Nessas páginas o cavalo é tratado como símbolo do poder senhorial: “Seu trote, o ruído imperial de suas patas, se tem feito ouvir através da nossa história social com a majestade do próprio ritmo da ordem, da autoridade, do domínio” (FREYRE, 1985, p.65).

Ainda:

O senhor de engenho do Nordeste foi quase uma figura de

centauro: metade homem, metade cavalo. (...) O cavalo dava

ao aristocrata do açúcar, quando em movimento ou em ação,

quase a mesma altura que lhe dava o alto da casa-grande nas

horas de descanso (FREYRE, 1985, p. 66).

Essa importância do cavalo como insígnia do poder patriarcal é bem nítida na literatura de José Lins do Rego, em vários romances, notadamente naqueles que têm por temática central a sociedade açucareira. No seu romance de estreia – Menino de engenho, 1932 – o leitor encontra a personificação literária do patriarca freyriano. Trata-se do coronel José Paulino que, montado em seu cavalo, passeia pelos canaviais supervisionando os trabalhos, dando gritos, berrando ordens, exercendo o poder.

No outro lugar social e cultural vão aparecer o negro e o boi, companheiros inseparáveis na dor e no sofrimento da lida estafante do eito: “O aliado fiel do escravo africano no trabalho agrícola, na rotina da lavoura de cana, na própria indústria do açúcar, foi o boi; e esses dois – o negro e o boi – é que formaram o alicerce vivo da civilização do açúcar” (FREYRE, 1985, p.73-74).

Fica, assim, delineada aquela transposição que sugere a reprodução da estratificação entre os homens também em suas relações com os animais.

Nos dois últimos capítulos – o V e o VI, intitulados A cana e o homem, o leitor é colocado diante dos principais tipos humanos engendrados pela sociedade açucareira: o aristocrata da casa-grande, o negro escravizado, o cabra, o mulato, o moleque da bagaceira. Gilberto Freyre refuta a ideia que apresenta o negro como sendo “mau agricultor.” As deficiências do seu trabalho – do negro – são atribuídas aos males resultantes de questões culturais – monocultura e escravidão – e não de questões raciais. Sobre o patriarca da casa-grande, o que ressuma das páginas de Nordeste é apenas a reiteração da nobreza da figura do senhor de engenho – “O tipo mais puro de aristocrata brasileiro” – que Gilberto Freyre vinha lapidando desde os textos iniciais, escritos no começo da década vinte, como cremos haver demonstrado no tópico anterior.

Nas páginas finais Gilberto Freyre – ainda uma vez explicitando suas vinculações orgânicas com o seu objeto – quer convencer seus leitores de que, apesar de todos os seus defeitos – violência, masoquismo, sensualidade exacerbada, destruição das fontes naturais, etc. – a civilização do açúcar foi capaz de gerar expressões culturais de grande valor e permanência: faculdades, grandes médicos, poetas, romancistas, ensaístas, pintores, estadistas, músicos, etc.

Diga-se ainda – concluindo esta breve apresentação – que Nordeste é considerado o livro mais lírico dentre todos escritos por Gilberto Freyre. Talvez pelo fato, já aludido nestas páginas, de que a adesão do autor ao seu objeto é completa. É um texto feito de impressões e de subjetividade, com açúcar e com afeto. É evidente a sua qualidade literária o que, de resto, é uma constante neste autor que escrevia como poucos sabem fazê-lo. O tom nostálgico perpassa cada parágrafo: saudade dos engenhos, dos rios de águas transparentes, dos negros fiéis aos seus senhores. É como se o autor quisesse, pela força e brilho da narrativa, garantir a sobrevivência das marcas deste passado glorioso que se desfaz no presente, sob o impacto das mudanças ditadas pela história. Em contraposição ao nordeste sertanejo, seco e miserável de, por exemplo, Euclides da Cunha, o autor sugere a volta ao nordeste litorâneo, “oleoso e gordo” das casas-grandes e do açúcar.

Nordeste pode ser visto como um esforço de síntese das ideias regionalistas espalhadas nos textos da década de 20. Tem-se, aqui, o autor, maduro e consagrado, revisitando os temas que abordara quando jovem e que o acompanharão por toda a vida. A novidade é o revestimento geográfico e ecológico que confere à abordagem.

Podemos dizer, com razoável segurança, que, neste livro e a partir dele, ficam cristalizados temas e concepções que conferem um acabamento final àquilo que o seu autor entendia por região. Manuel Correia de Andrade explicita este aspecto, no seu entender fulcral, em recente estudo feito para a apresentação da 7ª edição, em 2004: “Uma das grandes contribuições do livro Nordeste à cultura brasileira, foi a de definir o que é uma região e a sua importância no contexto do território nacional”.

Falta-nos abordar o Manifesto regionalista. Pelo conteúdo impresso em suas páginas poderia, sem restrições, ser lido como mais um roteiro temático da proposta regionalista freyriana o que, de resto, está implícito na própria noção de manifesto. O problema é que, nos anos 1920, que marcam o proselitismo de Gilberto Freyre em torno da organização do movimento regionalista, o tal Manifesto simplesmente inexistiu. Efetivamente, só virá a lume bem depois, em 1952, apesar da versão do seu autor de que o teria apresentado aos participantes do I Congresso Regionalista, em fevereiro de 1926, no Recife.

É o que ficou provado nos anos 1960 quando, Wilson Martins e Joaquim Inojosa, divulgador local do modernismo e rival de Gilberto Freyre nos anos 1920 – só neste momento: o escoamento dos anos e a trajetória intelectual de ambos, principalmente depois de 1933, tornariam evidente o abismo intelectual que havia entre o “mestre de Apipucos” e Joaquim Inojosa – vão colocar em dúvida a publicação, no distante 1926, do Manifesto. Voltando à cobertura jornalística realizada em torno do Congresso, Inojosa não encontrará nenhuma alusão ao tal texto que, caso tivesse sido lido, obviamente não haveria de passar despercebido, pelo simples motivo de que o seu autor foi o principal organizador daquele evento.

Gilberto Freyre queixava-se muito de haver encontrado, na sua volta ao Recife, depois de haver concluído seus estudos nos Estados Unidos, um clima de hostilidade à sua pessoa por parte de alguns militantes intelectuais e jornalistas. Essas queixas estão registradas em seu diário de adolescência, onde também se anunciam os claros sinais de uma vaidade gigantesca e precoce. Daí podemos até imaginar que Gilberto Freyre, tantos anos após e ainda dentro de um contexto provinciano em que enfrentavam-se e queimavam-se vaidades e egos inflados, e, ainda, reivindicando para si a centralidade cultural da “província”, simplesmente falseou a data de publicação do seu texto, antecipando-lhe em quase trinta anos. O fato é que, a partir da quarta edição, publicada em 1967, o até então chamado Manifesto regionalista de 1926 passará a ser apenas Manifesto regionalista.

Essa polêmica em torno da data do Manifesto regionalista encontra-se fixada, e esclarecida, no trabalho do professor Neroaldo Pontes de Azevedo aqui já citado. Este autor afirma que muitas das ideias de Gilberto Freyre, insertas no texto que presumivelmente seria de 1926, aparecem em artigos divulgados pela imprensa à época do Congresso Regionalista, ocorrido entre 7 e 11 de fevereiro daquele ano. Mas não há alusões à leitura de Manifesto algum:

Assim, as ideias de Gilberto Freyre, expressas na década de

20, devem ser buscadas nessas colaborações [Refere-se

Neroaldo Pontes aos ensaios que Gilberto publicou no Livro

do Nordeste, de 1925] e não no Manifesto regionalista de 1926,

que é texto de 1952. Consequentemente, a avaliação do

Congresso Regionalista do Nordeste não pode ser feita a partir

de um Manifesto que não existiu (AZEVEDO, 1996, p. 154).

Outro pesquisador, Antonio Dimas, no prefácio à 7ª edição do Manifesto regionalista, afirma:

Incorreu em erro Gilberto quando falseou a datação deste

Manifesto, sem dúvida. Não era preciso lançar mão desse

expediente, quem, anos antes, já tinha criado uma das obras

fundamentais para a compreensão da sociedade brasileira,

reconhecida por intelectuais de vários espectros ideológicos e

de várias latitudes, nacionais e internacionais. [...] Por fim, não

era preciso, porque, desde que fora publicado Casa-grande &

Senzala, em 1933, Gilberto construíra uma carreira que só

fizera consolidar seu prestígio intelectual (FREYRE, 1996,

p.38).

Polêmicas à parte, de que trata o Manifesto freyriano? Em nossa leitura, não encontramos nele muita novidade em relação aos textos da década de 20 aqui já comentados. Caso estejamos certos, representa um esforço de síntese, um exercício de memória, feito com a perspectiva propiciada pelo escoamento de quase três décadas e o prestígio adquirido com a publicação, nos anos 1930, de algumas obras fundamentais para a compreensão da cultura brasileira. Em sua página inicial, podemos ler uma definição do regionalismo, entendido como sendo “um movimento de reabilitação de valores regionais e tradicionais desta parte do Brasil” (FREYRE, 1996, p.47). Os temas e o modo de tratá-los são os de sempre. Podemos sentir o envolvimento pessoal do autor no passado que evoca; reiteram-se as raízes da região cultural; revisita-se a sua história. Mais uma vez, ganha relevo a visão etnocêntrica, autocentrada, que pensa o “seu” espaço como matriz da nacionalidade:

Talvez não haja região no Brasil que exceda o Nordeste em

riqueza de tradições ilustres e em nitidez de caráter. Vários dos

seus valores regionais tornaram-se nacionais depois de

impostos aos outros brasileiros menos pela superioridade

econômica que o açúcar deu ao Nordeste durante mais de um

século do que pela sedução moral e pela fascinação estética

dos mesmos valores (FREYRE, 1996, p. 52).

Que valores são esses? Velhas ruas estreitas, Igrejas coloniais, a rede cearense, o algodão do seridó, o mascavo dos velhos engenhos, os cavalos de corrida, a rica doçaria das frutas regionais, etc. Como sempre, a preocupação com a casa. Aqui é o mucambo, elogiado como modelar por sua harmonia com a natureza: “Com toda a sua primitividade, o mucambo é um valor regional e por extensão, um valor brasileiro, e, mais do que isso, um valor dos trópicos” (FREYRE, 1996, p.54).

Há sugestões claramente conservadoras, exóticas até, que renderão a esse texto uma desafortunada tradição crítica que lhe adjetivará de populista e reacionário. É o que acontece quando o nosso autor, não contendo o ímpeto passadista, sugere a abertura, no Recife, de cafés e restaurantes onde os eventuais clientes pudessem experimentar a “cor local”, que estaria pintada entre palmeiras, gaiolas de papagaios, caritós de guaiamuns e “uma preta de fogareiro, fazendo grude ou tapioca” (FREYRE, 1996, p.68). Aparecem ainda indicações bibliográficas de nítido sabor machista, surpreendentes num autor que, àquela altura, já escrevera este belo ensaio que é Sobrados e mucambos (1936), onde aparece um capítulo, sugestivamente intitulado A mulher e o homem, em que analisa as funções sociológicas e culturais da mulher nos quadros da antiga família patriarcal brasileira, de maneira que poderia muito bem ser adotada por qualquer intelectual militante do movimento feminista. Mas, no Manifesto, o nosso autor sugere às mulheres que leiam atentamente – aliás, única leitura que lhes seria aceitável e recomendável – os velhos livros de receitas de famílias, de receitas de doces e de guisados e livros de missas. Chega a lamentar o abandono, por parte das novas gerações de moças, deste tipo de texto, que, caso lido, contribuiria para reforçar a manutenção da figura feminina ali onde sempre estivera: “O senso de devoção e o de obrigação devem completar-se nas mulheres do Brasil, tornando-as boas cristãs, e, ao mesmo tempo, boas quituteiras, para assim criarem melhor os filhos e concorrerem para a felicidade nacional” (FREYRE, 1996, p.67).

De resto, a recorrente exaltação da cozinha regional como elemento estruturante da sociabilidade, desta vez de forma mais direta. Gilberto Freyre alerta para o perigo representado pela descaracterização e pelo abandono dos pratos típicos da velha cozinha dos engenhos. Aguça o paladar dos seus leitores ao apresentar-lhes esses manjares, regalo dos senhores de antigamente, em lauto banquete onde quase podemos sentir o cheiro emanado das tigelas de arroz doce, das peixadas, do pirão, de paca assada, do molho de pimenta, dos quitutes finos, dos doces e bolos, das fritadas de siris, servidas à sombra de paus d ‘arco e de mangueiras, do cuscuz, da água de coco verde, etc. Somos pegos pelo estômago. Depois, o alerta: “Toda essa tradição está em declínio ou, pelo menos, em crise, no Nordeste. E uma cozinha em crise significa uma civilização inteira em perigo: o perigo de descaracterizar-se” (FREYRE, 1996, p.67).

Alguns trechos são dedicados aos artistas do povo, mestres de música e dança, jangadeiros, negras de tabuleiro, curandeiros que, em sua rusticidade – como no caso dos mucambos, cuja celebração será alvo da fina ironia do poeta João Cabral de Melo Neto, aliás, primo de Gilberto, em poema famoso – estariam contribuindo para a manutenção dos valores tradicionais, reforçando, ainda, a necessária miscigenação de culturas: “Pois o Brasil é isto: combinação, fusão, mistura” (FREYRE, 1996, p.72).

Encerremos esta apresentação do Manifesto regionalista. Evitemos repetições. Mas não antes de fazermos, no entanto, uma concessão, ainda que parcial, aos descaminhos cronológicos que circundam a publicação deste texto, e que envolveram-no na polêmica acima mencionada. É claro que antes da existência do Manifesto regionalista, já havia toda uma militância e divulgação deste ideário na imprensa de Pernambuco, seja através dos artigos enviados dos Estados Unidos, publicados na coluna Da outra América, seja nos artigos numerados, publicados no Diário de Pernambuco, entre 22 de abril de 1923 e 15 de abril de 1925, ou, ainda, na criação do Centro Regionalista do Nordeste, em 1924, etc. Admitamos, portanto, que ao menos alguns dos seus trechos tenham, efetivamente, sido lidos aos participantes do Congresso de 1926.

Somente assim estaremos em condições de acolher positivamente o significado que os seguidores de Gilberto Freyre atribuem ao seu regionalismo e, dentro dele, ao Manifesto, como um roteiro a ser seguido pelos intelectuais da região. Manuel Diègues Júnior vê nesse texto “todo um acervo de iniciativas ou de ideias que representariam marcos expressivos no movimento cultural do Nordeste”. Edson Nery da Fonseca vê na grande tradição romanesca da década de 1930 no Nordeste a realização estética do

regionalismo de Gilberto Freyre. 10 E apoia sua leitura em depoimentos de romancistas como Jorge Amado e José Lins do Rego. Há mesmo passagens nesse texto que parecem escritas sob medida para a ação de escritores, com nítidas intenções vocativas: “Que é dos poetas do Nordeste que não cantam o vigor regional?” ou, ainda, “que é dos romancistas que não descobrem tais figuras de Dons Quixotes regionais? Dos biógrafos que não as revelam? Dos ensaístas que não as interpretam?”. A última frase é também a repetição do apelo que perpassa os textos da década de 20 aqui resenhados: “É todo o conjunto da cultura regional que precisa de ser defendido e desenvolvido ” (FREYRE, 1996, p.75).

Os textos apresentados neste capítulo sugerem a recorrência de alguns temas que terão um desdobramento nos anos 1930, notadamente nos romances de José Lins do Rego, que significa a materialização, pela via do regionalismo nordestino, de uma interseção entre literatura e sociologia que marcará profundamente as representações acerca desse espaço regional, como também a obra e a percepção dos autores protagonistas da fusão. Portanto, identificar as afinidades eletivas, os temas que aproximam a literatura de José Lins do Rego da sociologia de Gilberto Freyre, nos parece ser o caminho mais interessante para a operacionalização da noção de sistema formulada por Antonio Candido, e, também, para conferir substância ao diálogo.

Começando pela estrutura de dominação presente nos dois conjuntos de textos, nos deparamos com um tema recorrente da sociologia, o patriarcalismo. Na formulação clássica de Max Weber, essa forma de poder se apresenta como a mais ligada à força da tradição, baseada na submissão pessoal ao senhor.

Dos princípios estruturais pré-burocráticos é o mais importante

a estrutura patriarcal de dominação. Em sua essência, não se

baseia no dever de servir a determinada “finalidade” objetiva e

impessoal e na obediência a normas abstratas, senão

precisamente no contrário: em relações de piedade

rigorosamente pessoais. Seu germe encontra-se na autoridade

do chefe da comunidade doméstica (WEBER, 1999, p. 234).

A onipresença do senhor de engenho como elemento estruturante do domínio patriarcal se nos apresenta claramente delineada, nos romances, pela figura de José Paulino, como sugerimos alhures. A sua voz, a sua postura, as relações que estabelece enquanto proprietário do Engenho Santa Rosa (e de outros engenhos) encarnam um conjunto de funções sociológicas que condensam as estruturas de dominação e de apropriação econômica sob as quais atua.

Como não há senhor sem terra, é interessante que busquemos surpreender os significados materiais e culturais que esta assume nos dois autores. Ademais, a própria noção de região que aí é veiculada relaciona-se com um conjunto de características espaciais e físicas e ambientais que informam um perfil regional marcado pelo massapê, pela mata, pela grande extensão de terras. A terra reveste-se de uma gama de representações que vão da vida à morte, passando, claro, pela importância econômica ostentada numa sociedade do tipo rural como a dos engenhos. Há, neste sentido, um belo capítulo em Menino de engenho, em que Zé Paulino, embevecido, contempla o mundo, num final de tarde, do alpendre da casa-grande. E, neste mundo, o que vê? Apenas a terra, de onde lhe chegam o poder e a obediência e a submissão de parentes, trabalhadores, eleitores e agregados. O narrador, também embevecido diante daquele poder patriarcal, intervém para nos dizer que “O velho José Paulino tinha este gosto: o de perder a vista nos seus domínios. Gostava de descansar os olhos em horizontes que fossem seus. Tudo o que tinha era para comprar terras e mais terras” (REGO, 1996, p. 51).

Do senhor e da terra, e a eles umbilicalmente associado, chegamos ao triângulo rural, casa-engenho e capela. Este é um conceito-síntese, a partir do qual se pode apreender a centralidade e o local privilegiado de variadas ações desenroladas nos romances. Temos aí o cenário: o lugar de morada, o lugar de trabalho e o lugar da oração. Por cada um dos vértices, passeiam inúmeros personagens, circulam bens materiais e espirituais; circulam pessoas; a família se efetiva; a cana vira açúcar; etc.

Outra afinidade eletiva nos conduz à infância no engenho e à vida dos meninos. Sabemos que, neste caso, a ideia de Gilberto Freyre de escrever uma história sobre os meninos dos engenhos terminou concretizada por José Lins do Rego logo na sua estreia como romancista. É, também, uma sugestão temática que aparece nas cartas. Eis mais um daqueles momentos de cumplicidade intelectual entre ambos. A intenção de escrever sobre a meninice brasileira foi um segredo compartilhado desde 1924, como se pode ler nesta passagem do diário de Gilberto, Tempo morto e outros tempos, que percorre quinze anos da vida do escritor, de 1915 a 1930:

Descubro a J. L. do Rego o meu segredo: o livro que, nos meus

raros momentos de ânimo, desejo escrever. Um livro sobre a

minha própria meninice e sobre o que tem sido nos vários

Brasis, através de quase quatro séculos, a meninice dos vários

tipos regionais de brasileiros que formam o Brasil. Mostro-lhe as

notas que já tenho sobre o assunto. Peço-lhe que guarde

segredo (FREYRE, 1975, p. 139-140).

O critério ecológico freyriano marca presença nos romances. Cremos ser impossível uma compreensão minimamente consistente da obra de José Lins do Rego sem que sejam interpelados aspectos tais como a relação do homem com a natureza, com as águas, com os animais. A forte presença do Rio Paraíba nestes romances seria o lado mais evidente deste olhar ecológico. É interessante, portanto, que nos preocupemos com o que acontece em suas margens e em seu leito. Inclusive, Gilberto Freyre gostava muito de citar as páginas de Menino de engenho em que José Lins do Rego descreve uma enchente, como sendo das mais belas e fortes já produzidas em toda a literatura brasileira.

Não poderíamos obliterar, evidentemente, a temática da decadência. Mesmo porque, esta é uma temática à qual estão associados os romances de José Lins do Rego. Há, com efeito, toda uma “fortuna crítica”, exaustiva, repetitiva, em torno deste aspecto da produção do autor paraibano. Sendo, como foi, simultaneamente, construção e ruína, a sociedade patriarcal apresenta, já em sua gênese e durante o seu fausto, os sinais da sua lenta destruição.

O lento declínio deste mundo patriarcal, seu outono, é, com efeito, o assunto fulcral de Gilberto Freyre no já mencionado Sobrados e mucambos. A análise aqui ainda centra-se na sociabilidade doméstica, no que acontece na casa. Entretanto, esta não é mais apenas a casa-grande rural e patriarcal. Acontecimentos relevantes como as invasões holandesas, a descoberta das minas, o endividamento dos senhores com os intermediários urbanos na compra e venda de escravos e açúcar e, sobretudo, a vinda da família real para o Brasil no início do século XIX, vieram colocar em cena o sobrado e o mucambo como expressões de uma nova realidade que se descortina: a urbanização e a reeuropeização da colônia. Lentamente, a casa-grande vai sendo preterida em suas funções sociológicas, cedendo espaço para novas instituições urbanas como o sobrado, o hotel, a rua, o banco, a praça e a escola, o teatro, a modinha, os romances de José de Alencar.

O estilhaçamento do mundo senhorial tem largos reflexos na família. De patriarcal ela vai, lentamente, transformando-se em burguesa, monogâmica, “romântica”; são reduzidos os poderes, até então despóticos, do pater famílias. Entram em cena novas figuras de homens, rivais dos senhores naquele domínio: o médico de família, o confessor, o mestre-régio, o diretor de colégio, o correspondente comercial. Entretanto, não imaginemos que o antigo senhor rural vai sair de cena em nome de tantas e tamanhas novidades. Gilberto Freyre alerta: