Gilberto Freyre e José Lins do Rego
Considerações finail
Considerações finais
Escrevo sobre ele, e quase falo de mim mesmo, tanto me sinto
obra sua, tanta influência exerceu sobre a minha pobre
natureza, tão sujeita aos ventos e aos tormentos das
tempestades (José Lins do Rego sobre Gilberto Freyre). 14
Sempre que nos reuníamos sua voz era uma festa para mim.
Sua voz, sua palavra, suas risadas, seus gestos - tudo nêle era
festa para mim. Sua presença era das que traziam bom ânimo
aos amigos (Gilberto Freyre sobre José Lins do Rego).15
Francisco Ortega (1999, p.156), em seu estudo sobre as concepções de Foucault acerca da amizade, apresenta alguns traços usualmente vistos como característicos desse tipo de interação: confiança, espontaneidade, reciprocidade simétrica, etc. Mais importante que essas características é o entendimento da amizade como um tipo de interação que significa a possibilidade de se buscar novas formas de vida, como uma compensação àquilo que acredita ser um fenômeno típico do mundo moderno, a falência de “vínculos orgânicos” como a família, o matrimônio, a escola. Ortega privilegia a dimensão social da amizade, em detrimento do seu aspecto privado.
Isso nos leva a pensar, ainda uma vez, nos vínculos sociológicos que propiciaram aos dois autores aqui interpelados a construção de uma amizade tão duradoura quanto intensa. Circundados por uma mesma origem familiar e envolvidos que estavam com a militância intelectual, e, ainda, atuando em uma mesma faixa de ideias e concepções, na mesma cidade, estavam como que predispostos ao estabelecimento de uma interdependência marcada, sim, pelo pessoal, pelo afetivo, mas claramente movida por planos e projetos de fundas repercussões sociológicas, ligadas ao trabalho intelectual e a agitação de ideias. A relação de amizade parece ser aqui a substância a potencializar e incentivar esses interesses, colocando-se como intermediário entre o individual e o coletivo. Quando transposta para o plano material das realizações a que se propuseram os amigos, irá aparecer nas obras, nas escolhas temáticas: nas afinidades eletivas, enfim.
Assim, somos levados de volta ao começo. Os ensaios, cartas e romances que forneceram a matéria-prima da abordagem aqui feita de parte da produção de Gilberto Freyre e José Lins do Rego e de suas interações, expressam a organicidade e a substância inerentes à noção de sistema literário registrada no primeiro capítulo. Viemos, pois, acompanhando esse conjunto de textos nos colocando sempre, na travessia, sob a cobertura dessa noção, que se nos apresenta como instrumento privilegiado para a compreensão do diálogo e do quadro de relações inferidos a partir dessas fontes e desse material. Então busquemos como tarefa conclusiva e tentativa de síntese, os pontos que, na nossa leitura, caracterizam esse sistema.
Gilberto Freyre e José Lins do Rego chegam à produção de romances e cartas e ensaios movidos – não exclusivamente – por uma intensa e profunda necessidade de contar, pela escrita, as vivências e experiências suas e de seus familiares. E o fazem numa perspectiva que valoriza, nesse passado, a vida íntima de família, o que acontecia no espaço doméstico e no cotidiano de uma sociedade marcadamente clivada por relações e contatos primários.
Gilberto Freyre, por exemplo, escreve uma dissertação de mestrado para reencontrar os modos de vida dos seus avós no Brasil dos meados do século XIX. José Lins do Rego quer apenas contar as memórias do seu avô materno e escreve todo um grupo de romances que trazem à tona a sociabilidade dos engenhos, do apogeu à decadência. Ou seja: partindo de um desejo de fixar as memórias idas e vividas, de sabor acentuadamente autobiográfico, nossos autores trouxeram para a literatura e para a sociologia brasileiras todo um painel que reproduz os séculos fundantes do mundo aqui criado pelos portugueses. Essa afinidade eletiva nos parece poder ser colocada como a origem, o verdadeiro elemento desencadeador do diálogo e das relações entre ambos. Contar para entender o vivido que se fazia história: eis o que ainda lhes coube e lhes aproximou. O resto são os frutos luminosos dessa origem comum.
A relação entre José Lins do Rego e Gilberto Freyre sempre esteve aberta aos projetos e planos mútuos, revelados inclusive nas cartas, conforme procuramos mostrar no capítulo terceiro. Os anos de convivência e descobertas, as leituras, as viagens e pesquisas que juntos realizaram representam a necessária preparação conjunta que lhes credenciará para a escrita das experiências que queriam transformar em texto. Dito de outra forma: nossos amigos, quando jovens, tiveram a consciência nítida da reciprocidade como meio de adquirir o capital cultural de que necesssitavam para tornarem-se escritores. Ilustra bem essa organicidade o fato de que ambos se lançaram como autores de livros de forma quase simultânea, José Lins do Rego, em 1932 e Gilberto Freyre, em 1933. Isso não terá sido uma mera coincidência do calendário, mas sim a materialização de um estilo e de temas que resultam das experiências e dos ensinamentos compartilhados.
Portanto, a amizade torna-se fulcral na avaliação desses dois autores. Alimentada que foi por afetos, livros e ideias, resultou, quando impressa em cartas, ensaios e romances, em uma perfeita materialização daquilo que Antonio Candido chama de sistema literário.
Outra afinidade eletiva que salta aos olhos de quem os lê – além do já registrado aspecto biográfico de ambos – é quanto ao universo temático que abordam em seus livros. A preocupação com a residência como algo eivado de significados sociológicos e emocionais; os aspectos telúricos ou ecológicos, expressos na presença dos animais e da terra e da água; a valorização da infância, a construção da figura do patriarca como grande ator do processo civilizador; as relações entre este e os seus agregados, escravos ou ex-escravos; a preocupação constante com o sexo, a loucura (principalmente José Lins do Rego); e, aspecto substancial da interseção, o recorte regional que se depreende de seus romances, ensaios e cartas, dão a configuração narrativa e o universo com que trabalham. Além de temas comuns, há uma marcante presença da oralidade e do tom coloquial em ambos os autores, que vêm a facilitar a comunicação com os seus leitores, sendo, muito provavelmente, um dos principais motivos da popularidade do romancista e do sociólogo, cujas obras, por muito bem aceitas no mercado de livros, são permanentemente reeditadas.
Os enfoques, no entanto, nem sempre coincidem. José Lins do Rego nos parece expressar uma visão bem mais pessimista do que Gilberto Freyre. Mesmo quando edulcora suas narrativas falando, por exemplo, de santos que plantavam cana ou que governavam seus negros com o coração, podemos sentir a atmosfera de crise e de desencontro reinante em sua narrativa, cheia de loucos, doentes e, para usar uma expressão cara a Gilberto Freyre, “náufragos sociais”. A rigor, é apenas em relação a Menino de engenho que se pode dizer que o romancista paraibano apresenta uma visão mais idealizada do mundo rural e isso porque o foco narrativo que predomina aí é ditado pelo olhar de uma criança, embevecida com a figura do avô. Pouca diferença faz se quem está a narrar é o menino feito homem.
Outro momento fluido da interseção reside num deslizamento do conceito de triângulo rural, que não aparece, de modo explícito, nos romances. Aí quase não aparece a capela, substituída pelo quarto dos santos. Esfuma-se, assim, o vértice religioso, ao menos nos dois romances que interpelamos mais diretamente.
Talvez possamos falar desse vértice, com mais relevo, no romance Fogo morto. Entretanto, mesmo aí, a figura do coronel Lula de Holanda Chacon, com sua loucura, expressa na problemática relação que mantém com as rezas e os santos, ambos exaustivamente evocados – o que nos parece querer encobrir uma situação de inevitável decrepitude física e moral que vivencia – funciona melhor como uma metáfora de uma crise de raízes mais profundas onde, evidentemente, aqueles triângulos rurais que Gilberto Freyre apresenta, em Nordeste, como característicos do apogeu da colonização agrária (a sua geometria) não mais têm os mesmos significados sociológicos, desprovidos das bases que, nos tempos áureos, lhes deram substância. Não caberia, nesse caso, uma leitura baseada em um conceito voltado para uma outra configuração social.
Gostaríamos, neste momento em que nos aproximamos do final, de contrair mais uma dívida, desta feita com o escritor inglês Raymond Williams, tomando-lhe por empréstimo a noção de “estrutura de sentimentos” (1989, p.124), que vem colocar em relevo as experiências e a história social dos escritores.
Em Gilberto Freyre e em José Lins do Rego, se pode perceber um conjunto de sentimentos que vai amalgamar a consciência da crise da ordem senhorial e das mansões rurais a que estavam vinculados por suas origens familiares, com certa dificuldade em perceber ou denunciar a brutalidade e a violência características dessa ordem. Temos denúncia, sim, como em Fogo morto. Mas temos a idealização, como em Menino de engenho; temos a violência senhorial, sim, narrada em detalhes no prefácio à 1ª edição de Casa-grande & senzala, sem que possamos, no entanto, esquecer da visão idealizada dos textos freyrianos da década de 1920. E temos a nostalgia, o sofrimento, o exílio, as doenças, tudo aquilo que as cartas nos revelam. Temos ainda arte, ciência, impressionismos e antropologia. Por tudo isso, acreditamos que, neste momento, a noção de “estrutura de sentimentos”, como sinônimo de valorização das experiências seja mais útil do que, por exemplo, ideologia, ainda que aquela não exclua de todo esta.
Pairando acima de tudo, a amizade mais sincera.
Nem a morte de José Lins do Rego, em setembro de 1957, conseguiu interromper o diálogo. Haveria, ainda, um último eco, um comovente texto de despedida, de rara eloquência. Trata-se do belo depoimento de Gilberto Freyre, aqui reproduzido na íntegra – não faria o menor sentido recortar tão comovente hino à amizade – escrito e publicado no Diário de Pernambuco, em 15 de setembro de 1957, ou seja, três dias após a morte do romancista, e que reverbera uma infinita riqueza de sentimentos que parece sugerir que, mesmo irremediavelmente ameaçado pela perda do amigo maior, o diálogo pede para perdurar só mais um pouco, o tempo suficiente para que Gilberto Freyre expresse sua dor e que, ao fazê-lo, possa retomar a necessária motivação para continuar escrevendo, mesmo que não possa mais contar com os ouvidos e os olhos atentos do amigo que, em tantas oportunidades, foi o seu primeiro leitor.
É texto para ser lido sob o crivo da emoção e da sensibilidade. Se for possível, tentemos esquecer, ao lê-lo, os discursos sociológicos e literários aos quais se liga a imagem pública dos escritores. Terminada a leitura e nunca mais poderemos ler-lhes os ensaios, as cartas e os romances da mesma forma que antes. Porque agora já saberemos da profundidade do diálogo que fecundou e circundou esse sistema, ao qual tanto devem a literatura e a sociologia brasileiras:
JOSÉ LINS DO RÊGO
A noticia da morte de José Lins do Rego chegame aos ouvidos
como o mais brutal dos absurdos. Nunca me pareceu que êle
pudesse ser senão vida. Transbordamento de vida. De modo
que não consigo imaginá-lo morto. Morto como qualquer outro
homem. Morto do fígado e dos rins num quarto de hospital.
Sua vida transbordou de tal maneira na minha que desde que o
conheci deixei de ser um só para ser quase dois. Nunca
ninguém foi mais meu amigo. Nunca ninguém, sendo do meu
sexo, mas não do meu sangue, me deu mais compreensão e
mais afeto. Compreensão e afeto nos momentos mais difíceis
para uma amizade no Brasil: país de muitas camaradagens
fáceis, mas de raras amizades profundas.
Sempre que nos reuníamos sua voz era uma festa para mim.
Sua voz, sua palavra, suas risadas, seus gestos - tudo nêle era
festa para mim. Sua presença era das que traziam bom ânimo
aos amigos. A todos os seus amigos. A Cícero Dias, a Olívio
Montenegro, a José Olympio, a Antiogenes Chaves, a Gastão
Cruls, a José Américo, a Valdemar Cavalcanti, a Silvio Ribeiro,
a Odilon Ribeiro, a João Condé, a Tiago de Melo. Mas com
relação a mim era mais do que isto: era uma presença que me
completava.
Sei que influi e muito sôbre êle: e ninguém o confessou mais
insistentemente do que o próprio José Lins em palavras, em
cartas intimas, em artigos: o que se disser em contrário será vã
ou inócua tolice. Mas sei também que fui influenciado por êle e
que sem sua compreensão e afeto eu dificilmente teria vencido
a acídia que no meu regresso ao Brasil, da Europa e dos
Estados Unidos, se apoderou durante algum tempo de mim.
Pois nunca um nativo regressou à sua terra, mais repudiado de
que eu pelos mandões dessa terra, mais hostilizado pelos seus
literatos, mais negado pelos seus moços. José Lins do Rego foi
com Anibal Fernandes, Carlos Lyra Filho, Olívio Montenegro,
José Tasso, Odilon Nestor, Pedro Paranhos, uma das raras
exceções. Devo-lhe muito. Devo-lhe tanto que, sabendo-o
morto, sinto-me como que ferido de morte. E com certeza,
incompleto. Com êle morto, sou um vivo incompleto.
A perda que sua morte representa para o Brasil – esta é na
verdade imensa. Ele era ainda um homem no viço do poder
criador. Capaz, portanto, de nos dar outro Fogo Morto, escrito
quando alguns supunham finda a sua obra extraordinária de
evocação e de interpretação da vida das casas-grandes do
Nordeste, nos dias de decadência dos velhos engenhos. Ou
esgotado seu gênio, ainda no esplendor, de intérprete dêsse
passado, por êle próprio vivido na meninice.
Suas memórias, apenas em comêço – Meus Verdes Anos –
talvez se intensificassem, na evocação da sua mocidade no
Recife e da sua idade madura no Rio de Janeiro, num
depoimento de importância máxima, quer para a revelação da
sua personalidade, quer para a clarificação de aspectos
obscuros das relações dêsse autêntico homem de gênio com o
meio. Seriam a “confissão” com relação à “ficção” a que se
refere a propósito de Graciliano Ramos, o admirável critico
literário que é o paulista Antonio Candido. Tenho do grande
amigo, agora morto, muitas cartas que esclarecem alguns
desses aspectos. Também respostas a umas perguntas que
uma vez lhe dirigi sôbre assuntos relacionados às suas idéias e
às suas crenças de homem então próximo dos cinquenta anos.
É documentação que talvez revele um dia em estudo sôbre o
escritor brasileiro da minha época que mais intensamente
admirei, contente de que êle fôsse também o melhor, o mais
íntimo, o mais fraterno dos meus amigos. O mais constante, o
compreensivo, o mais leal dos meus companheiros de geração.
Aquele a quem mais me abandonei e aquele de quem mais
recebi. Aquele em que mais confiei e aquele que mais confiou
em mim. Aquele em quem eu mais me senti e aquele que mais
se sentiu em mim. Aquele que, vivo, era parte da minha vida e
morto é o comêço da minha morte. Mais do que isto: o comêço
da morte de toda uma geração. São vários os que começam a
morrer com a sua morte.
A reflexão aqui feita pretendeu apenas fazer ouvir um fio da nossa voz em torno de uma melhor compreensão desta relação. Talvez seja, ainda, uma tentativa débil e canhestra de participar do diálogo. O que não nos parece ser de todo irrelevante. Mesmo porque, ao fim e ao cabo, e descontados os inúmeros erros e fragilidades e considerando-se possíveis acertos estaremos, quem sabe, contribuindo para o desvelar de novos conhecimentos acerca de uma sociologia e de uma literatura que, nascidas em grande medida sob o signo do amor e da amizade mais puros, tanto contribuíram, com seus erros e acertos, para uma melhor compreensão do Brasil.
É uma forma, portanto, de manter vivo o diálogo do senhor da casa-grande com o menino do engenho.
14 FREYRE, 1968, p.34.
15 FREYRE, 1957, s/p.