Gilberto Freyre e José Lins do Rego
Capítulo III
O pacto epistolar
A escrita de cartas situa-se na confluência do pessoal com o coletivo. Exercício cultural marcado por intenções subjetivas, implica a existência de códigos e padrões comuns, inteligíveis, bem como a interlocução entre quem escreve e quem lê e guarda o documento. É, também, um meio privilegiado para a formação de uma rede de interações por onde circulam afetos, projetos e ideias pessoais e/ou coletivos. Escrever cartas é desnudar-se, entregar-se numa relação
de cumplicidade, em busca de diálogo.11
As cartas aqui interpeladas claramente traduzem e expressam essa ideia de pacto. Lê-las é penetrar e descobrir – conduzido, muitas vezes, pela emoção – a riqueza de sentimentos que atravessa uma das mais sólidas e profícuas amizades que ainda marcou o universo intelectual brasileiro no século XX. São textos acentuadamente compostos pela percepção emotiva dos missivistas, que se reconheciam como interdependentes e desejavam expressar esse reconhecimento, fazendo-o com alegria, sentindo-se solidários na empreitada. Há, sim, uma configuração sociológica, que se desnuda por meio de informações que remetem à literatura e a situações políticas concretas. Mas não é isso que determina-lhes o conteúdo. Este é afetivo, sincero, despojado, como devem ser os documentos de caráter privado. Por instantes esquecemos a presença de dois intelectuais, escritores, homens de ideias e livros, para surpreendê-los em sua dimensão humana, comezinha, vivenciando problemas cotidianos e, ainda, em seus defeitos e virtudes de homens comuns, ora preocupados com livros e grandes projetos, ora preocupados com fofocas, dívidas e dinheiro por receber. É perfeitamente possível, assim nos parece, fazer o acompanhamento da vida dos escritores, lendo-se essa correspondência. Os mais de duzentos documentos lidos e transcritos trazem uma multiplicidade de temas que vão da situação política nacional ao crescimento dos filhos, passando por problemas domésticos, questões financeiras, saúde, pesquisas em andamento, etc.
A correspondência entre José Lins do Rego e Gilberto Freyre atravessa um período de 32 anos, sendo a primeira carta por nós localizada datada de 17 de janeiro de 1924 e, a última, de 14 de dezembro de 1956, ambas escritas por Gilberto. Entretanto, há um depoimento de José Lins localizando esse início em 1925, quando o paraibano encontra-se residindo em Manhuaçu, no interior de Minas, exercendo as funções de promotor público. Acreditamos tratar-se de um equívoco do nosso romancista.
Dos 238 documentos examinados, 70 foram escritos no período entre 1924-1934; de 1935 a 1944 encontramos uma maior intensidade na troca de cartas: foram 83. Nos anos seguintes, verifica-se um visível espaçamento entre uma carta e outra.
Esse levantamento da periodicidade da correspondência foi bastante prejudicado pela impossibilidade de detectar, em 77 cartas, a data em que foram escritas. Em muitos casos, principalmente em relação a José Lins do Rego, o missivista simplesmente não teve essa preocupação; em outros momentos, as frágeis condições em que se encontram alguns destes documentos – muitos escritos há mais de setenta e cinco anos – impediram essa identificação. Muitos estão apagados pelo tempo; alguns borrados, riscados que foram pelos próprios emitentes; há cartas totalmente ilegíveis, hostis aos olhos.
Aspecto interessante deste epistolário são os timbres. Aparecem os mais variados, em muitos momentos informando o local onde a carta foi escrita: navio, sede de Embaixada, quarto de hotel, redações de jornais, etc. Encontram-se folhas com timbres de hotéis nacionais e estrangeiros, como o Avenida Palace Hotel, em Lisboa, ou o Grande Hotel, em Belo Horizonte; aparecem as marcas do Diário de Pernambuco e do Gabinete do Governador do Estado de Pernambuco , durante o segundo governo Estácio Coimbra (1926-1930), quando Gilberto Freyre aí trabalhava; de universidades estrangeiras, como a Stanford University, na Califórnia, Estados Unidos, etc.
Em inúmeras cartas, José Lins do Rego serve-se de papéis com a logomarca da Livraria José Olympio Editora, do seu grande amigo e editor José Olympio. Há, também, o timbre do Gabinete do diretor do Jornal A União, na Paraíba; da Aerogramma Via Panair. Pelo menos duas cartas foram escritas em papéis onde aparece a logomarca da Confederação Brasileira de Desportos, o que expressa um lado muito forte e conhecido da biografia do romancista, a sua ligação com a alta cúpula do futebol brasileiro, esporte que foi a sua grande paixão, principalmente quando em campo estava o Clube de Regatas do Flamengo.
Mais importante é, no entanto, que busquemos entender a correspondência entre ambos como momento fulcral para a consolidação da amizade e para o registro, o amadurecimento e a comunicação de planos e projetos mútuos. Não se percebem diferenças entre as cartas dos autores anônimos que eram, nos anos 1920, e aquelas escritas nas décadas seguintes, quando já consagrados pela boa recepção da crítica às primeiras publicações de ambos. O tom, sempre afetuoso; o tratamento, homogêneo. Os temas abordados ampliam-se: com a fama, intensificam-se os convites para conferências e palestras, inclusive em outros países, como Portugal, Uruguai, Argentina, etc; amplia-se, ainda, a atuação editorial, expressa na frequência com que passam a publicar artigos na imprensa; aparece o diálogo, nem sempre pacífico, com os críticos, com outros autores. Toda essa atividade encontra-se sobejamente registrada nas cartas.
Em momentos distintos de suas vidas, os amigos pensaram em tornar pública a correspondência. José Lins do Rego, em 18 de dezembro de 1941, concedeu entrevista ao jornalista Francisco de Assis Barbosa, publicada com o sugestivo título de Foi a velha Totônia quem me ensinou a contar histórias, onde, ao falar da amizade com o intelectual pernambucano, refere-se a troca de cartas, àquela altura já intensa, e de seu desejo de revelá-las : “Guardo comigo todas as cartas do meu amigo, e um dia hei de publicá-las.” Mas não chegou a fazê-lo. Três dias após a sua morte, ocorrida em 12 de setembro de 1957, Gilberto Freyre, em comovente artigo publicado no Diário de Pernambuco, deixa no ar a possibilidade de vir a publicar as “muitas cartas” do amigo agora morto: “É documentação que talvez revele um dia em estudo sobre o escritor brasileiro da minha época que mais intensamente admirei”. Cumpriria parcialmente a promessa cinco anos depois, revelando, e comentando, trechos dessas cartas no ensaio Recordando José Lins do Rego, publicado no livro Vida, forma e cor.
FOTO 5 - Gilberto Freyre e José Lins do Rêgo em passeio pelo Rio
Capibaribe. Década de 1940
FONTE: Acervo da Fundação Gilberto Freyre. Recife –PE
Portanto, a documentação que iremos agora apresentar, é, em grande parte, inédita, o que torna a nossa tarefa ainda mais estimulante. Temos clara a percepção de estarmos diante de textos que, caso bem explorados, de forma criteriosa, e, sobretudo, respeitosa para com a memória dos seus autores, podem contribuir grandemente para um melhor conhecimento de suas vidas e suas concepções de mundo, sobre literatura, etc. Sempre que possível, ou necessário, tentaremos revelá-las, as cartas, numa sequência muito pouco linear ou cronológica, tolhidos que estamos pelas dificuldades acima já assinaladas.
A mudança tipográfica na transcrição das cartas move-se pela intenção de diferenciar os seus trechos, em grande parte inéditos, das citações de livros e ensaios aqui feitas, expressando, ainda, o desejo de reproduzir, minimamente, o aspecto manuscrito característico desse tipo de documento. Procuramos preservar a ortografia observada pelos escritores. Para evitarmos excessivas repetições dos nomes dos missivistas, colocamos, quando necessário, ao lado de cada trecho, apenas as iniciais JLR ou GF, acompanhadas, sempre que possível, da data em que foi escrita a carta em questão.