Gilberto Freyre e José Lins do Rego
A Fortuna Crítica
Mas não vá ninguém abandonar-se à idéia de que os grandes
proprietários de terra, tão poderosos a princípio, acabaram
todos uns reis Lear, sempre traídos por filhos doutores e por
filhas casadas com bacharéis que abandonassem as velhas
casasgrandes de engenho e de fazenda como a navios que não
tardassem a naufragar; traídos por el-Rei que dantes lhes fizera
todas as vontades e todas as festas; traídos pela Igreja que
outrora os adulara. O drama da desintegração do poder, por
algum tempo quase absoluto, do pater famílias rural, no Brasil,
não foi tão simples; nem a ascensão da burguesia tão rápida
(FREYRE, 1996b, p. 19).
Há ainda a presença do sexo, da cozinha, do negro e da mulher, que completam e recortam um conjunto de temas que vão aproximar os dois autores. Em torno destas afinidades eletivas é que podemos ouvir o diálogo entre ambos.
Antes, porém, iremos comentar, em visão panorâmica, alguns estudos onde aparece uma vigorosa desconstrução crítica do ideário regionalista freyriano exibido nos textos apresentados. Diante do volume dessa fortuna crítica, podemos apenas passar em revista, muito sumariamente, reconheçamos, alguns destes estudos que se nos apresentam, pela densidade e pela profundidade, representativos dos diversos momentos e das igualmente diversas percepções que o conjunto de textos aqui interpelados vem obtendo pela crítica especializada, ao longo do tempo, seja em ensaios, em teses acadêmicas, etc.
A Fortuna Crítica Antonio Candido, em ensaio escrito em 1950, faz um balanço da interseção entre o ensaio sociológico e literatura no período de 1900 a 1945, e repõe a noção de “sistema vivo de obras”. Nesta reposição, o que é relevada é a forma literária assumida pelo melhor ensaio produzido no Brasil. Forma literária e ensaio, assim misturados, seriam a marca caracterizadora e mais relevante do período, notadamente na década de 1930.
Com efeito, nesse momento podemos detectar as condições mais favoráveis ao aparecimento de todos os elementos constitutivos da definição de literatura enquanto sistema, conforme discutimos no primeiro capítulo deste trabalho. Verifica-se, principalmente nas grandes cidades, com o despontar de camadas médias intelectualizadas, a presença de um público mais amplo, interessado em conhecer os problemas vividos pelo país que se urbaniza e industrializa e que quer deixar de ser apenas uma grande fazenda. Há, também, a criação de universidades – USP, por exemplo – que trazem a possibilidade real de uma pesquisa qualificada acerca do homem brasileiro e os seus dramas: eis o despontar das ciências humanas entre nós; temos estradas, o rádio e, fundamental, as condições favoráveis à criação de um mercado editorial suficientemente encorpado e capacitado para atender à demanda crescente por informações.
O salto qualitativo da cultura nacional no período se traduz no aparecimento de um conjunto de autores e obras que nos permite afirmar – autorizados pela perspectiva histórica e pelos ricos desdobramentos, sobejamente conhecidos – que, raras vezes, assistiu-se no Brasil uma explosão de inteligência quanto esta: culturalismo, missões internacionais de estudos, interpretação marxista da história do Brasil, Weber, romances voltados para a pesquisa humana e social, Sérgio Buarque, Jorge Amado, Graciliano Ramos, etc. Os exemplos são a face mais reluzente a estampar a radicalização de um processo civilizatório que vinha, desde o século XIX, anunciando o lento, porém persistente, rompimento com a “herança rural” portuguesa. Antonio Candido define o período como marcado por “intensa fermentação espiritualista” (CANDIDO, 2000, p.115). Os avanços do ponto de vista “científico”, no entanto, não são suficientes para deslocar a centralidade da literatura na nossa vida espiritual, pois, segundo Candido:
Apesar de a cultura intelectual se haver desenvolvido em ritmo
acelerado desde o início do século; apesar da intensa divisão
do trabalho intelectual, com o estabelecimento da vida
científica, em escala apreciável; apesar do surto das ciências
humanas a partir sobretudo de 1930; apesar de tudo isto, a
literatura permaneceu em posição-chave. [...] Em todo o caso,
os decênios de 20 e de 30 ficarão em nossa história intelectual
como de harmoniosa convivência e troca de serviços entre
literatura e estudos sociais (CANDIDO, 2000, p.122-123).
Será este, também, o momento da verdadeira estreia, como autores de livros, de José Lins do Rego (1932) e de Gilberto Freyre (1933). É como se os encontros, as cartas, os artigos jornalísticos, os estudos e as viagens da década anterior, representassem um necessário preparo intelectual ou exercícios preliminares para a construção romanesca e ensaística que farão a partir dos anos 1930 e que ensejará um exemplo particularmente luminoso do encontro entre sociologia e literatura no Brasil. É quando podemos sentir a organicidade de um conjunto de obras que se espelham, refletindo-se mutuamente, agindo uma sobre a outra.
Este conjunto de obras gerou uma rica fortuna crítica. Muitas vezes repetitiva, apresenta percepções diversas que, como sempre acontece, passeiam ao sabor das conjunturas políticas e do livre flutuar das inteligências. Só assim poderemos entender o porquê de, no mesmo crítico, ser possível encontrar – em momentos distintos – avaliações tão dispares, quando não contraditórias, acerca de cada um dos nossos autores. Como exemplo, podemos voltar a Carlos Guilherme Mota. Em seu livro de 1977, mencionado no primeiro capítulo, diz, da sociologia cultural de Gilberto Freyre, entre outras coisas, que ela é, além de ultrapassada, “perniciosa” (p.129). Em reavaliações mais recentes, este mesmo crítico coloca a outrora “perniciosa” sociologia cultural de Gilberto Freyre como a mais importante e interessante do século XX brasileiro, tendo, no entanto, o cuidado de fazê-la acompanhar-se, nesta condição privilegiada, da sociologia de Florestan Fernandes.
Apologética ou restritiva é, no entanto, um instrumento fundamental para a compreensão do universo e concepções abordados por ambos. A nossa abordagem dessa fortuna crítica terá que ser, necessariamente, sumária.
A maioria da crítica reconhece no regionalismo de Gilberto Freyre uma poderosa matriz temática com amplas repercussões políticas e culturais. Em seu trabalho, de 1984, Neroaldo Pontes de Azevedo, baseado em pesquisa documental de largo fôlego, resgata o ambiente intelectual em que é formulada essa proposta. Em texto bem escrito e ágil, que proporciona uma leitura prazerosa, este pesquisador aborda a recessão na vida econômica de Pernambuco, na década de 20, como pano de fundo dos conflitos intelectuais entre modernistas e regionalistas no estado. Percebe aí, nesse quadro de crise econômica e disputas entre grupos oligárquicos, a presença, marcante no campo das ideias, de “um espírito predisposto para a valorização das realidades locais” (AZEVEDO, 1996, p.38), que, aliás, não era novo, pois é possível detectar-lhe a presença persistente ao longo da cultura literária desenvolvida no Brasil:
A chamada para o regional está presente como elemento
constante no processo mesmo de evolução da literatura
brasileira. A postura regionalista, sob esse prisma, deve ser
vista como uma ideologia que acompanha a literatura brasileira,
tendo os seus riscos, limites e valores (AZEVEDO, 1996, p.99).
Em relação ao regionalismo de Gilberto Freyre, Neroaldo Pontes destaca a visão conservadora, latente na predominância do rural sobre o urbano, no tom nostálgico e na perspectiva estática em relação às mudanças mais profundas. É bom registrar, nesse ponto, que os termos com os quais encerra sua crítica são recorrentes na maioria dos trabalhos que abordam o assunto e que, juntamente com as noções de decadência e memória, parecem informar um campo semântico recorrente – “canônico” – e definidor desse ideário.
Em outro trabalho importante, de 1987, Neroaldo Pontes compõe, com a mesma maestria verificada na pesquisa anterior, um quadro geral da trajetória de José Lins do Rego na cultura literária brasileira. A sua abordagem se processa em três planos que mostram, inicialmente, os aspectos biográficos, a vida de José Lins do Rego, bem como “as fontes de pensamento que virão a alimentar a sua ficção” (AZEVEDO, 1991, p.209); num segundo momento, aborda a sua produção ficcional, a partir do relacionamento desta produção com aquelas fontes e em que medida delas se aproximou ou se afastou; por último, analisa, no conjunto da obra, a pertinência e os limites e precariedades das classificações em torno do que seria ou não seria “regionalismo” no conjunto da obra do romancista paraibano.
Ao longo do texto, podemos acompanhar José Lins do Rego morando em várias cidades e estados: Pilar, Itabaiana, Paraíba (atual João Pessoa), Manhuaçu (Minas Gerais), Maceió, onde escreve seus primeiros romances, e, por último, Rio de Janeiro. Neroaldo reconhece a importância da matriz regional na ficção de José Lins do Rego. Mas condena a recepção – a seu ver equivocada, exagerada – que lê o romancista de Pilar como um mero “produto de Gilberto Freyre”, como sugere um certo artigo publicado na imprensa pernambucana, em 1978, cujo título e autor deixa de indicar. Analisando o conjunto dos romances, Neroaldo percebe um crescente distanciamento em relação àquela matriz, expresso na substituição da memória e do subjetivismo por uma observação mais acurada, por uma visão mais tensa e dramática das relações do mundo onde circulam os personagens. Esse “movimento crescente” que, no limite, significa o abandono da visão idílica freyriana, estaria cristalizado no romance Fogo morto, de 1943:
É preciso assinalar o movimento crescente na obra de José
Lins do Rego. É a vitória do escritor sobre o homem. Da
observação sobre a memória. Do nós sobre o eu. Dos
personagens sobre o autor. À medida que os personagens do
mundo que ele recria vão adquirindo vez, eles passam a
dominar o mundo narrado, fazendo avançar a narrativa, levando
o escritor do memorialismo, filtrado pelo eu, ao grande painel de
uma ordem social marcada por contradições, tendendo
inexoravelmente a desaparecer (AZEVEDO, 1991, p. 223).
Outro trabalho crítico importante é o de Moema Selma D’Andrea, de 1987, intitulado A tradição re (des) coberta: Gilberto Freyre e a literatura regionalista, publicado em 1992. Mesmo reconhecendo o aspecto moderno da linguagem freyriana, a sua oralidade e plasticidade, a autora reafirma, desde o início de sua interpretação, as “matizes ideológicas evidentemente conservadoras” (p.11) desse ideário. Em essência, a sua leitura parece retomar a crítica feita por Carlos Guilherme Mota nos anos setenta. Destaca os aspectos ideológicos desmobilizantes e mitificantes veiculados pela sociologia cultural de Gilberto e que lhes parecem encerrar um discurso missionário de defesa da região caracterizado, além do conservadorismo, pelo ressentimento em relação à primazia cultural do modernismo sulista e pelo viés etnocêntrico, expresso no tom de pernambucanidade que surpreende nesse discurso. Sua marca distintiva seria o estar preso a uma ambiguidade crucial entre a experiência da modernidade e o apego ao passado e às tradições, inclusive pelo reforço de mitos edênicos, como o da “boa terra”, o do Eldorado, que remontam à carta de Pero Vaz de Caminha. Seria, enfim, uma “metáfora do açúcar”, de cunho paternalista, visando apaziguar conflitos e encobrir a existência da diversidade regional.
Em 1998, temos Era uma vez o nordeste (ficção e representação regional), de José Edílson de Amorim que põe em relevo a constante reelaboração da literatura de temática regionalista. Trata-se de uma leitura de dois romances – Sargento Getúlio, de João Ubaldo Ribeiro, e Essa terra, de Antonio Torres – lançados na década de setenta que, segundo Edílson, representariam uma renovação do regionalismo.
Neste ensaio – que, pela plasticidade e beleza da escrita, bem poderia ter sido produzido por um discípulo de Gilberto Freyre – aquele universo semântico crítico é acrescido de alguns adjetivos em nada lisonjeiros para com o ideário do intelectual pernambucano. Fica evidente o desconforto do autor em relação a essa matriz, ao ser ver, idealizada, populista, oligárquica, astuciosa e pretensiosa, em face de uma realidade de carências materiais profundas. Portanto, é uma matriz a ser abordada, quando muito, como fato histórico e cultural, uma espécie de mal necessário, pecado original a ser evitado, que não se deve repetir, que deve ser abandonado, sob pena de perpetuação da visão mítica que apenas encobre uma situação secular caracterizada pela desigualdade e autoritarismo extremos.
O exemplo que nos querem dar de um Nordeste grande não
nos serve; foi o modelo patriarcal, fechado e autoritário do
passado que nos legou este presente, por isto não vale mais
reinventar, lírica e saudosamente como quis Gilberto Freyre, a
sua experiência de fato violenta e desastrosa (AMORIM, 1998,
p.210-211).
A própria “justificativa” do regionalismo como resposta cultural a uma situação de decadência econômica, lhe parece falha, pelo fato de não acreditar em situações duais de atraso em uma região e desenvolvimento em outra: ambas fariam parte do mesmo modelo perverso e marginalizante. No nosso entender, é muito lúcida essa percepção, parecendo-nos, inclusive, sinalizar certa negação das percepções dos movimentos culturais – modernismo e regionalismo – como sendo expressões culturais de espaços separados pelo desnível econômico, posto que se trata , nessa visão, de um único lugar, assinalado pela precariedade das interações.
Em relação a José Lins do Rego, Edílson percebe, tal qual Neroaldo Pontes, o mesmo e crescente movimento de afastamento em relação à visão “idealizada” dos primeiros romances, o que lhe parece representar um claro sinal de maturidade e adensamento: “E o que era a busca de um tempo perdido, a recuperação de um passado mítico, sua reinvenção edênica, agora somente se revela como impossibilidade. De Menino de engenho a Fogo morto a distância é enorme” (AMORIM, 1998, p.249).
Definitivamente, temos aí três reflexões sérias, profundas. Neroaldo Pontes, Moema Selma, Edílson Amorim têm razão na crítica que fazem e quanto aos aspectos que enfatizam no regionalismo de Gilberto Freyre, muitos deles, inclusive, já incorporados às páginas deste estudo. Apenas relutamos em aceitá-los de maneira absoluta.
Com efeito, há em Gilberto Freyre uma abordagem que, se, de um lado, privilegia e destaca o passado, até mitificando-o, de outro parece não abominar por completo o novo. Inscreve-se mesmo num processo de mudanças em que o autor, intelectual engajado, se deixa estar como parte interessada, marcado por sua posição aristocrática, mesmo quando circundada por um discurso populista. Todo o seu regionalismo, na forma e no conteúdo, aborda um processo civilizatório marcado pelo movimento dos padrões culturais e dos costumes que circulam entre a casa-grande e a senzala e, em sua versão urbana, entre o sobrado e o mucambo.
A crítica poderia ser enriquecida, menos intolerante, caso incorporasse as obras dos anos 1930. Ainda que possamos aí encontrar os mesmos temas e percepções dos textos dos anos vinte, como já mencionado, nada impede que possamos, também, perceber mudanças na forma como são tratados. É assim que, por exemplo, o escravo doméstico cede espaço para o escravo do eito em Nordeste, o que leva a uma visão mais densa, menos lírica, em torno da escravidão, da monocultura e do patriarcalismo das casas-grandes. Neste texto, Gilberto Freyre chega a referir-se a esse modelo de sociedade através de adjetivos nada idílicos ou açucarados: seria uma civilização artificial (p.134), degradada (p.162), patológica (p.177), etc. Sirva também de exemplo desse deslizamento a crítica severa que faz aos efeitos destrutivos desse modelo de sociedade em relação ao meio ambiente. Casa-grande & senzala está repleto de passagens que descrevem, não o paraíso racial identificado pelos críticos, mas um inferno de sadismo, com dentes quebrados e senhores mandando matar os próprios filhos, sífilis, etc. Em Sobrados e mucambos, a visão machista, expressa nas sugestões bibliográficas que faz nos textos de propaganda regionalista, dá lugar a sugestões temáticas que conferem novos significados à presença feminina quando transposta para o sobrado urbano, ainda que tolhida pelos limites de uma sociedade ainda patriarcal: permanece na cozinha, junto às mucamas e negras cozinheiras. Mas lê romances e vai ao teatro.
Aliás, esse caráter ambíguo, plástico, é essencial para se entender Gilberto Freyre. Sua concepção de sociedade seria marcada pela transformação e pela continuidade. Sua escrita instável, suas imprecisões conceituais e o seu caráter inconclusivo, parecem querer conferir ao seu texto o mesmo perfil excessivo, caótico e instável que caracteriza a sociabilidade da casa-grande. É o que percebe Ricardo Benzaquen de Araújo, no bonito estudo que faz sobre a produção freyriana da década de 1930:
O tom de conversa, de bate-papo que ela propicia, parece
facilitar sobremaneira que ele arme um raciocínio francamente
paradoxal, fazendo com que a cada avaliação positiva possa se
suceder uma crítica e vice-versa, em um ziguezague que acaba
por dar um caráter antinômico à sua argumentação (ARAÚJO,
1994, p. 208).
Tudo que fizemos até aqui foi preparar as condições para a interseção, buscando esclarecer o contexto, apresentar os temas e textos e matrizes, as afinidades eletivas: aplainar, enfim, o terreno onde fincar o diálogo que, efetivamente, agora poderá iniciar-se de forma consistente, situado que foi, preparado que está.
Indaguemos, pois, as cartas; perscrutemos os romances; façamos falar, agora de forma mais intensa, José Lins do Rego, o grande interlocutor até aqui meio oculto, meio sumido diante da necessidade que sentimos de apresentar a formulação original de Gilberto Freyre.
7 A vaidade de Gilberto Freyre é lendária, constituindo-se um dos principais traços de sua persona intelectual. A esse respeito, escreveu o historiador Francisco Iglesias: “Se é muito admirado e reverenciado, o certo é ser ele seu mais ardoroso admirador – coisa, aliás, não rara entre artistas e intelectuais, velhos e jovens, só que nele com mais desenvoltura. Por tudo, pela obra e pela personalidade interessante, o ‘mestre de Apipucos’ é figura única na cena brasileira” (IGLESIAS, 2000, p. 193).
8 Esses efeitos degradantes da grande seca de 1877 aparecem em importante romance sobre o conflito de Canudos (1896/1897), escrito em 1981: “Que ao longo de 1877 deixasse de chover, os rios secassem e aparecessem nas caatingas incontáveis caravanas de retirantes que, levando em carretas ou nos ombros seus miseráveis pertences, vagueavam em busca de água e de sustento, não foi talvez o mais terrível desse ano terrível, mas provavelmente foram os assaltantes e as cobras que irromperam nos sertões do Nordeste. Sempre houve gente que entrava nas fazendas para roubar gado, que trocava tiros com os capangas dos latifundiários e saqueava aldeias afastadas, uma gente que as volantes da polícia periodicamente vinham perseguir. Com a fome, porém, as quadrilhas de assaltantes se multiplicaram como os pães e os peixes bíblicos. Caíam, vorazes e homicidas, sobre aldeias e vilas já dizimadas pela catástrofe da seca para se apoderarem do que restava para comer, de utensílios e vestimentas e para matar a tiros os moradores que se atreviam a enfrentá-los ” (LLOSA, 1999, p. 29-30).
9 Como exemplo dessa triste permanência, podemos citar texto de conhecido sociólogo brasileiro, publicado em grande órgão da imprensa, acerca das denúncias de corrupção envolvendo altos funcionários e parlamentares da base aliada do primeiro governo de Luís Inácio Lula da Silva (2003-2006). Falando das raízes históricas de fenômenos como corrupção e nepotismo, o autor do artigo conclui lúcido: “Estamos muito longe da sociedade moderna, contratual, republicana e igualitária. Esta é uma sociedade que teve escravidão, em que a dominação decorria do poder pessoal, as instituições eram e de certo modo continuam a ser desdobramentos desse poder” (MARTINS, 2005, p. 3).
10 A citação e a referência ao comentário de Edson Nery encontram-se na 7ª edição do Manifesto que utilizamos para esta apresentação, respectivamente nas páginas 105 e 222.