Gilberto Freyre e José Lins do Rego
O intelectual orgânico da Casa-grande
FOTO 3 - Gastão Crulz, José Lins e Gilberto Freyre. Déc. 1940
FONTE - Acervo da Fundação Gilberto Freyre. Recife – PE
O intelectual orgânico da Casa-grande
Gilberto Freyre é, em nossos dias, a mais eloquente expressão
desta consciência culposa orientada a idealizar a família
patriarcal e as relações interraciais a fim de ocultar suas
lealdades classistas à oligarquia patriarcal (RIBEIRO, 1987, p.
157).
Comecemos, então, por analisar a dimensão política da obra de Gilberto Freyre. Neste sentido, as reflexões aqui propostas têm como objetivo fulcral construir uma articulação entre alguns aspectos conceituais da obra do teórico marxista italiano Antonio Gramsci (1898-1937) e os significados político-ideológicos expressos pelo regionalismo do sociólogo e escritor pernambucano. Em termos diretos, busca-se mensurar e “ler” os impactos obtidos por este autor na cultura brasileira, à luz das noções gramscianas de intelectual orgânico e hegemonia.
Gilberto Freyre é um caso interessante de desencontro entre forma e conteúdo. É moderno, faz emergir na nossa cultura uma plêiade de fontes e temas sequer imaginados. Outro mérito deste autor – que se considerava, acima de qualquer coisa, um escritor – foi o de promover uma junção criativa entre literatura e ciência social. Deu-nos uma demonstração de que o texto com pretensões “científicas” não precisa ser chato ou mal escrito. Escrevia muito bem e este mérito jamais lhe foi negado. A sua escrita é caudalosa, sensual, coloquial. E prazerosa.
No entanto, usou toda esta modernidade (e sensibilidade) para saudar e fazer reviver formas pretéritas de sociabilidade. Talvez neste desencontro – é uma hipótese a ser perscrutada – residam as suas ambiguidades e imprecisões. Sua obra seria, neste sentido, um exemplo do “equilíbrio de antagonismos” que tantas vezes afirmou ser a marca característica da formação social brasileira.
Delimitando-se os conteúdos, trata-se aqui de apresentar o regionalismo freyriano como expressão intelectual, “orgânica”, de uma sociabilidade em crise, a do mundo dos engenhos do Nordeste. Sua militância em torno da organização de um movimento regionalista nordestino – a partir dos anos vinte do século passado – e a posterior publicação de obras que sistematizam teoricamente aquele proselitismo, parecem informar uma brilhante resposta intelectual à crise vivenciada pelas oligarquias nordestinas às quais, diga-se, sempre esteve politicamente atrelado. É sob esta perspectiva, a de quem busca construir uma historicidade para uma região em crise, que o “mestre de Apipucos” pode ser considerado o “intelectual orgânico” da casa-grande.
Acompanhando-se a história das ideias talvez se possa dizer que os autores e os textos por eles produzidos, ainda quando considerados clássicos, expressam e reverberam discursos e visões e conflitos característicos do seu tempo, trazendo inscritas nas suas páginas, na sua alma e no seu corpo, as marcas culturais da época e do espaço que lhes foram dados por palco. Poucos autores são, com efeito, tão marcados por suas circunstâncias quanto Gilberto Freyre. O seu livro Nordeste, de 1937, expressa bem essa vinculação. Muito do encantamento provocado por esta obra deve-se, certamente, à completa adesão e empatia demonstradas por seu autor em torno dos temas que faz emergir.