Gilberto Freyre e José Lins do Rego

Cauby Dantas · Capítulo 5 de 18

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Gilberto Freyre e José Lins do Rego

Hegemonia e intelectuais

O conceito de hegemonia recobre a totalidade das relações sociais. Pode-se afirmar que essa categoria, central para Antonio Gramsci, permite-lhe ampliar as noções marxistas de política e de Estado:

O conceito de hegemonia, finalmente, representa talvez a

contribuição mais importante de Gramsci à teoria marxista.

Hegemonia é o conjunto das funções de domínio e direção

exercido por uma classe social dominante, no decurso de um

período, sobre outra classe social e até sobre o conjunto das

classes da sociedade. A hegemonia é composta de duas

funções: função de domínio e função de direção intelectual e

moral, ou função própria de hegemonia (MOCHCOVITCH,

1992, p. 20-21).

Elemento estruturante da realidade social – centro e alvo da disputa política – a hegemonia “investe o terreno das relações sociais ampliando e definindo os sujeitos destas relações” (NASCIMENTO, 1983, p.40). Esta percepção da multiplicidade dos espaços sociais atravessados pela hegemonia, sua “universalidade”, se faz sentir, concretamente, nas interações entre grupos sociais, no interior de instituições como escola, Estado, igreja, etc. Está presente nas relações interinstitucionais, nas relações entre regiões – aqui Gramsci pensa especificamente nas desigualdades entre as regiões norte e sul da Itália, a chamada “questão meridional” – e também nas relações e disputas entre os Estados-nações.

Conceitos como hegemonia, sociedade civil, bloco histórico, correlação de forças, guerra de posição e guerra de movimento conferem à política uma posição central na reflexão de Gramsci. Aqui os conflitos não são exclusividade da luta de classes. São identificadas, também, disputas hegemônicas de natureza artística, econômica, regional, militar, cultural, etc. Ou seja: a teoria ampliada do Estado – sociedade política + sociedade civil – permite ao pensador italiano promover um deslocamento epistemológico fundamental para a renovação da cultura marxista no século vinte. O autor dos Cadernos do Cárcere, teórico da superestrutura, conhece um momento histórico onde parece efetivamente ocorrer uma “socialização da política”, expressa no aparecimento de novos atores e processos ligados à sociedade de massa tais como: grandes partidos políticos, sindicatos, imprensa, editoras, universidades, o sufrágio universal, revolução bolchevique, ascensão do fascismo, etc. Sendo, como foi, um intelectual militante, é evidente que suas reflexões haveriam de ser marcadas por essa efervescência. Certamente esse contexto, em que novas “correlações de forças” estavam sendo demarcadas e cujos desdobramentos farão milhões de vítimas, dentre elas, o próprio pensador italiano, vai ser fundamental para a valorização do momento superestrutural por ele empreendida.

Outro momento fulcral da análise gramsciana diz respeito às suas considerações acerca do papel dos intelectuais na sociedade moderna. Aqui, dois aspectos parecem ganhar relevo. Como no caso anterior – em relação ao conceito de hegemonia – também se verifica uma ampliação de conteúdos e espaços. Gramsci, com efeito, ultrapassando os limites de uma, digamos, visão iluminista, vai redimensionar o significado da função intelectual: “Em qualquer trabalho físico, mesmo no mais mecânico e degradado, existe um mínimo de qualificação técnica, isto é, um mínimo de atividade intelectual criadora” ( 1982, p.7).

Como desdobramento lógico desta percepção do sentido da atividade intelectual tem-se que: “Todos os homens são intelectuais, poder-se-ia dizer então: mas nem todos os homens desempenham na sociedade a função de intelectuais” (GRAMSCI, 1982, p.7).

Concomitante a esta ampliação da categoria dos intelectuais, o autor sardo empreende uma reflexão – eis o segundo aspecto acima referendado – acerca das vinculações sociais do grupo. Este exercício permite identificar a organicidade do grupo intelectual e o seu papel. Dito de outra forma, trata-se de uma formação, a do intelectual, que se faz de forma vinculada às concepções e interesses de grupos sociais específicos e que disputam a hegemonia com outros grupos e classes. Esta vinculação orgânica delimita e informa a atividade intelectual: