Gilberto Freyre e José Lins do Rego
Capítulo I
Organizar ruínas de antigas narrativas, as vozes do viver
cotidiano anônimo; dialogar com a série literária e com os
valores culturais de sua e de outras épocas, para daí compor
sua experiência solitária, eis a tarefa do romancista
(AMORIM, 2003, p. 20).
Textos e contextos
O sociólogo Octavio Ianni, em ensaio sobre a história do nascimento e consolidação da sociologia, tratou de colocar em destaque o potencial narrativo desta forma de abordagem. A sociologia seria, desde suas origens, inscritas nos textos dos grandes pensadores do século XIX – Comte, Durkheim, Marx, Weber – uma forma de expressão literária – “épica” – informada pelas narrativas de um grande drama: a gênese e o desenvolvimento do mundo moderno:
É possível constatar que algumas das principais obras da
sociologia possuem também conotação artística, seja dramática
seja épica, ou mesmo mesclando ambas. O modo pelo qual
recriam, compreendem, explicam e fabulam a realidade social,
em seus movimentos e impasses, encontros e desencontros,
sugere algo nesse sentido. Sim, uma parte da sociologia
apanha o Mundo Moderno como espetáculo. E o homem desse
Mundo como personagem singular e coletivo, figura e figuração
(IANNI, 1989, p.27).
Mesmo considerando-se o contexto de formação da sociologia, marcado pelos ideais epistemológicos de objetividade e cientificidade, a proposição de Ianni é pertinente. É, sim, possível, detectar essa dimensão nos temas e formas abordados pelos autores clássicos. A presença da literatura também marca-lhes o estilo. É, por exemplo, bastante conhecido o gosto de Marx por esse tipo de fonte, a que sempre recorria, citando à exaustão autores de que gostava, o que conferia ao seu texto uma beleza e um sabor não raras vezes incompatíveis com a aridez dos temas tratados. O mesmo poderá ser dito em relação a Max Weber.
Desde então – e legitimados por tão sábias vozes e penas – sociólogos de diversos quadrantes e tendências têm utilizado este tipo de documento em seus estudos acerca da interdependência, da cultura e das relações entre os homens. De tal forma que tornou-se algo axiomático falar-se das interseções entre literatura e ciências sociais. Alguns – é bem o caso de Gilberto Freyre – priorizam os aspectos expressivos do seu trabalho, visando uma maior força de
comunicação nos resultados de suas pesquisas. 5 É como se as coisas estivessem no mundo para serem escritas e tudo fosse uma questão de construir textos e intertextualidades.
Refletir sobre a interpenetração literatura-sociedade, o vínculo entre obra e ambiente significa, portanto, tentar relacionar textos e contextos, buscar surpreender a ocorrência dos aspectos sociais nas obras literárias e os níveis desta correlação. A literatura é uma forma de expressão artística que, pela transcendência e transfiguração, favorece a compreensão de realidades e cotidianos sociais, o que não oblitera suas intenções estéticas, expressas pela capacidade inventiva dos autores, na busca do belo e, também, nas emoções e sentimentos e mobilizações eventualmente desencadeados pelas representações literárias.
A arte, e portanto a literatura, é uma transposição do real para o
ilusório por meio de uma estilização formal, que propõe um tipo
arbitrário de ordem para as coisas, os seres, os sentimentos.
Nela se combinam um elemento de vinculação à realidade
natural ou social, e um elemento de manipulação técnica,
indispensável à sua configuração, e implicando uma atitude de
gratuidade (CANDIDO, 2000, p. 47).
Antonio Candido destaca alguns momentos reveladores da confluência entre fatos sociais e as artes, particularmente a literatura: a posição social do artista; a configuração da obra (forma e conteúdo), que deixa transparecer as interferências que repercutem a posição social ocupada pelo autor; o público receptor. Nesta relação tríade – autor – obra – público – inscreve-se a substância sociológica da arte. Candido (2000, p.20) resume:
Sociologicamente, a arte é um sistema simbólico de
comunicação inter-humana, e como tal interessa ao sociólogo.
Ora, todo processo de comunicação pressupõe um
comunicante, no caso o artista; um comunicado, ou seja, a
obra; um comunicando, que é o público a que se dirige; graças
a isso define-se o quarto elemento do processo, isto é, o seu
efeito.
Delineia-se, assim, uma “interpretação dialeticamente íntegra”, onde os fatores externos – estrutura social, valores, ideologias, técnicas de comunicação – incidem sobre a composição dos textos, ao mesmo tempo em que se colocam, também, sob os impactos ou mudanças advindos das diversas maneiras pelas quais as obras são recebidas. A isto poder-se-ia chamar de eficácia social da literatura.
O crítico estabelece, portanto, os elementos constitutivos da relação. Este parece ser o momento inicial de uma reflexão que o levará à formulação de um conceito de literatura que, no escoamento dos anos, tornar-se-ia clássico:
A literatura é pois um sistema vivo de obras, agindo umas sobre
as outras e sobre os leitores; e só vive na medida em que estes
a vivem, decifrando-a, aceitando-a, deformando-a . A obra não
é produto fixo, unívoco ante qualquer público; nem este é
passivo, homogêneo, registrando uniformemente o seu efeito.
São dois termos que atuam um sobre o outro, e aos quais se
junta o autor, termo inicial desse processo de circulação
literária, para configurar a realidade da literatura atuando no
tempo (CANDIDO, 2000, p. 68).
No concernente aos propósitos da nossa leitura, tem-se aí uma elaboração conceitual que, pela organicidade conferida à literatura – “sistema vivo de obras, agindo uma sobre as outras” – parece válida à construção intertextual pretendida. Permite fazer interagir alguns textos de José Lins, acima delineados, com as matrizes temáticas do regionalismo de Gilberto Freyre que informam assuntos tais como decadência, tradição, região cultural, nostalgia, etc.
O conhecimento sociológico é construído sob exigências epistemológicas que passam pela relação sujeito-objeto, métodos, “objetividade” diante dos fatos sociais, elaboração de conceitos e teorias. São entraves à construção de textos com pretensões científicas e que, eventualmente, podem comprometer a capacidade inventiva e o exercício da imaginação sociológica. Um romancista – ainda que esteja sugestionado pelo elemento externo – não se coloca como tarefa a reconstituição ou reprodução a mais fiel possível da realidade. Em sua escrita podem ser contemplados desejos, aspirações, deformações da verdade efetiva, sem que isso altere o sentido de verossimilhança; pode, enfim, expressar ideias, utopias e fins. A reprodução documental do mundo pode até ser colocada como objetivo – aspiração, por sinal, bastante legítima – mas não como algo ontológico do texto literário. Essa liberdade de transcendência e polissemia é destacada por vários autores. Mais uma vez, Candido (2000, p.13) afirma:
Esta liberdade, mesmo dentro da orientação documentária, é o
quinhão da fantasia que às vezes precisa modificar a ordem do
mundo justamente para torná-la mais expressiva; de tal maneira
que o sentimento da verdade se constitui no leitor graças a esta
traição metódica. Tal paradoxo está no cerne do trabalho
literário e garante a sua eficácia como representação do
mundo.
Bourdieu, em reflexão acerca da autonomia do “campo literário”, vê esta liberdade como seu elemento distintivo. A literatura se insinua e se credencia ante os leitores por sua capacidade de despertar nestes um “efeito de crença”:
A tradução sensível dissimula a estrutura, na forma mesma na
qual a apresenta e graças à qual é bem-sucedida em produzir
um efeito de crença (antes que de real). E é isso sem dúvida
que faz com que a obra literária possa por vezes dizer mais,
mesmo sobre o mundo social, que muitos escritos com
pretensão científica. [...] O ‘efeito de real’ é essa forma muito
particular de crença que a ficção literária produz através de uma
referência denegada ao real designado que permite saber
recusando saber o que ele é realmente. A leitura sociológica
rompe o encanto (BOURDIEU, 1996, p.48).
Abolindo determinações, sujeições e limites característicos da existência social, a escrita parece querer “sobrevoar em pensamento o mundo social e seus conflitos” (BOURDIEU, 1996, p.43). Escrever seria como buscar um mundo novo:
Não há melhor atestado de tudo que separa a escrita literária
da escrita científica do que essa capacidade, que ela possui
exclusivamente, de concentrar e de condensar na singularidade
concreta de uma figura sensível e de uma aventura individual,
funcionando ao mesmo tempo como metáfora e como
metonímia, toda a complexidade de uma estrutura e de uma
história que a análise científica precisa desdobrar e estender
laboriosamente (BOURDIEU, 1996, p.39).
Mas nem tudo é arbítrio. Entre o real e a sua transfiguração literária há limites, tensões. Escritor e texto colocam-se, com efeito, sob uma rede de interações onde se misturam situação de classe e a posição social ocupada, escolas e prestígio ou ausência deste, mídia, crítica literária, amizade ou inimizade com o editor do suplemento dominical, partidos, ideologias, compromissos. Como, então, diferenciar as coisas, realidade e imaginação, o feijão e o sonho?
A matéria do artista mostra assim não ser informe: é
historicamente formada, e registra de algum modo o processo
social a que deve a sua existência. Ao formá-la, por sua vez, o
escritor sobrepõe uma forma a outra forma, e é da felicidade
desta operação, desta relação com a matéria pré-formada – em
que imprevisível dormita a História – que vão depender
profundidade, força, complexidade dos resultados (SCHWARZ,
2000, p.31).
No caso particular de um autor como José Lins do Rego, cujos romances já foram considerados como sendo “muito mais do que um documento sociológico” (REGO, 1994, p. XVII), as fronteiras entre memória e ficção são tênues. Trabalha-se aqui, portanto, com o incerto. É este um limite, um preço a pagar pelo uso da literatura como fonte.
Outro estudioso das correlações entre literatura e sociedade, José Edílson de Amorim, ao abordar a evolução da forma romanesca em geral e, em particular, a trajetória e consolidação do romance romântico brasileiro, no século XIX, aponta os liames entre texto e contexto como elemento estruturante da literatura sendo, no caso do romance, sua vocação:
Na sua linha de evolução, o romance foi sempre marcado por
uma vocação peculiar: seu vínculo com a realidade social. Esse
percurso, no entanto, não se deu sem percalços. Assim,
podemos constatar entre romance e sociedade uma história de
pactos e conflitos a que bem se poderia denominar de as
relações perigosas (AMORIM, 2003, p.20).
São estas “relações perigosas” que este autor busca compreender, situando-as na dinâmica social do século XIX brasileiro – marcado pela crise da dominação senhorial, pelo liberalismo de fachada das nossas elites, a persistência da escravidão e movimento abolicionista, crescimento de cidades – e como, nesta configuração, começa a ser estabelecido um pacto entre jornais, romances e leitores. E de como tudo isso vai ser representado na obra de Joaquim Manuel de Macedo, Manuel Antônio de Almeida e José de Alencar. Trata-se, em verdade, de um bonito exemplo de como se estudar a história de uma sociedade a partir de alguns dos seus principais romancistas.
Seja com o “efeito de crença”, de Bourdieu, ou com o “verossímil das relações sociais”, de Edílson de Amorim, são os momentos reveladores da ação concreta dos fatos sociais sobre a literatura que vêm a lume. Daí a recorrência, nestes e em outros estudiosos, de termos como liberdade, vínculos, tensão, confluência, função.
As considerações precedentes colocam em relevo as potencialidades do uso da literatura como documento. Há, no entanto, uma tradição nominalista, retórica, que nega as possibilidades deste diálogo e, por extensão, a sua validade epistemológica. Foucault, por exemplo, chega a afirmar: “Não há uma única passagem de uma obra que possa ser considerada extraída da realidade cotidiana” (MACHADO, 2001, p.144). O pressuposto aqui é a ideia da impossibilidade mesmo de se recriar a realidade, seja pela via literária ou por qualquer outra.
Roland Barthes, importante autor francês, identifica na linguagem o ser da literatura, a sua ontologia. A linguagem constitui o homem. Portanto, o escritor não antecede o texto: nasce com ele. Ganham relevo aqui as noções de texto – entendido como um emaranhado de citações, pois nada é original – e de leitor, o receptor das “escrituras múltiplas” que informam os textos: “O leitor é o espaço mesmo onde se inscrevem, sem que nenhuma se perca, todas as citações de que é feita uma escritura; a unidade do texto não está em sua origem, mas no seu destino” (BARTHES, 2004, p.64).
Por falar em citações, há um trecho do livro aqui abordado que nos parece expressar lapidarmente todo o ceticismo deste autor em relação ao potencial mimético da literatura:
Para a literatura [...] a linguagem já não pode ser o instrumento
cômodo ou o cenário luxuoso de uma “realidade” social,
passional ou poética que preexistiria a ela e que,
subsidiariamente, teria a incumbência de exprimir, mediante a
sua própria submissão a algumas regras de estilo; a linguagem
é o ser da literatura, seu próprio mundo: toda a literatura está
contida no ato de escrever, e não mais no de “pensar”, de
“pintar”, de “contar”, de “sentir” (BARTHES, 2004, p. 5).
Com efeito, o autor em questão é difícil e vertiginoso é o seu texto. Aqui, a perplexidade e incompreensão exigem que se faça uma leitura de ritmo lento.
FOTO 2 - autografada “Para o querido Gilberto de Lins”
FONTE - Acervo da Fundação Gilberto Freyre. Recife –PE
Voltemos, então, àquela afirmação inserta no trecho acima transcrito e que é feita sob medida para o desconcerto dos olhos e mente do leitor – é bem o caso – eternamente envolto pela sensação de insegurança característica das primeiras leituras: “Toda a literatura está contida no ato de escrever, e não mais no ato de ‘pensar’[...]”. Do alto de nossa perplexidade ficamos a imaginar como será possível tal separação entre palavras e coisas: como escrever sem pensar ou sentir ou querer dizer alguma coisa? Barthes está a sugerir – é o que nos parece – um cisma, a ruptura profunda entre o
viver e o contar.6 Julgamos que tal ruptura, em sendo possível, simplesmente tornaria inviável qualquer aventura em torno da literatura, conquanto faltar-lhe-iam matérias, temas, conteúdos. Ou seja: morreria de inanição. Barthes nega, ainda, a possibilidade – seria inútil – de se buscar fontes, origens, filiações e influências de uma obra.
Poderíamos arriscar uma pergunta: a que necessidades corresponde o texto literário? Aqui, como antes, as respostas possíveis são múltiplas. Umberto Eco nos diz que a literatura, “este bem imaterial”, nos ajuda a constituir nossos patrimônios coletivos, dentre eles a língua que falamos, a nossa identidade e a nossa comunidade. Além disso, respeitadas as intenções de cada texto, funcionaria como um convite à liberdade: “As obras literárias nos convidam à liberdade da interpretação, pois propõem um discurso com muitos planos de leituras e nos colocam diante das ambiguidades e da linguagem e da vida” (ECO, 2003, p.12).
A literatura pode, ainda, ser uma aliada do sociólogo (e também do historiador) por sua capacidade de fazer “reviver” formas pretéritas de sociabilidade. Não se trata de buscar o tempo que talvez nem tenhamos perdido. Mas de nos auxiliar a olhar e identificar, em nossos cotidianos, as marcas, os hábitos, as mentalidades, os modos de vida que, ainda que não percebamos, nos chegam de outros tempos, imemoriais, e estendem suas sombras sobre nossas existências como se fora um fantasma sociológico. Não há como mensurar, na justa forma, o quanto somos marcados por essas reminiscências. A capacidade mnemônica da literatura revela-se, aqui, de grande força não apenas cognitiva, mas, também, afetiva. Quem já leu autores como José Lins do Rego ou Marcel Proust certamente terá experimentado essa sensação de encontro do passado no presente.
É só no romance assim como nas formas épicas mais próximas
dele que intervém a recordação criadora capaz de apreender o
próprio objeto e de o transformar. O que faz dessa memória
uma realidade autenticamente épica, é a sua aceitação do
processo vital, na própria vida. O sujeito pode aqui superar a
disjunção entre a interioridade e o mundo exterior no caso de
considerar a unidade orgânica da sua vida inteira como a
realização progressiva do seu presente vivo a partir de um
passado cujo fluxo é condensado pela recordação (LUKÁCS,
p.149).
Sevcenko (2003, p.29) faz belas reflexões em torno da substância social da literatura e de seu potencial enquanto documento. Nem reflexo, nem autonomia, é uma atividade, a literária, que se abre para um campo de possibilidades, para o vir-a-ser.
Se a literatura moderna é uma fronteira extrema do discurso e o
proscênio dos desajustados, mais do que o testemunho da
sociedade, ela deve trazer em si a revelação dos seus focos
mais candentes de tensão e a mágoa dos aflitos. Deve traduzir
no seu âmago mais um anseio de mudança do que os
mecanismos da permanência. Sendo um produto do desejo,
seu compromisso é maior com a fantasia do que com a
realidade. Preocupa-se com aquilo que poderia ou deveria ser a
ordem das coisas, mais do que com o seu estado real.
É hora de encerrarmos o ponto, por sinal, já bastante alongado. Diríamos que há entre os adeptos da mímesis absoluta e aqueles que a negam, um desencontro e uma excludência que parecem infinitos. É o que esperamos ter ficado evidente.
Eis que intervém no debate o historiador paraibano Gervácio Batista Aranha. Em interessante reflexão sobre a mímesis e suas relações com os chamados novos paradigmas da historiografia – micro-história italiana, história cultural americana, história social inglesa, dentre outros – este autor quer encontrar uma, segundo suas próprias palavras, “terceira via”, um “meio termo” que aproxime os dois campos beligerantes. Assim, propõe um repensar da mímesis e do “papel da representação nas ciências humanas”. No lugar da utópica objetividade desejada pelo positivismo – que tinha por corolário a sacralização do documento – ou, no campo oposto, o ceticismo pós-estruturalista – centrado nas ideias de crise da razão e da incognoscibilidade das coisas vividas, a não ser como práticas discursivas – este historiador desenvolve sólidos argumentos na busca do meio termo já referido, e que, conforme acredita, reside na “noção de verdade expressa em termos de verossimilhança”. Com efeito, em torno dos “fatos sociais”, nenhuma interpretação seria definitiva, completa, a única “verdadeira”; o conhecimento, construído, parcelado, colocar-se-ia sempre sob uma “perspectiva de plausibilidade” (ARANHA, 2004, p.7). Na construção do conhecimento temporalmente situado, o uso da ficção é não apenas possível como também, para Gervácio, desejável, até em função de suas capacidades lúdicas e expressivas. Desde que este tipo de fonte não seja tomado como cópia fiel, objetiva e definitiva dos processos sociais e históricos para cuja compreensão pode contribuir. A sua hipótese é, já, uma conclusão, um juízo:
As propostas excludentes, do tipo ou nomos ou physis, são
epistemologicamente limitadas. E são limitadas porque se é um
fato que nenhuma narrativa histórica – hipótese válida para os
demais gêneros narrativos, inclusive o ficcional – é capaz de
reconstituir a experiência temporal em toda sua extensão e
complexidade, também é um fato que nenhuma forma narrativa
é completamente autônoma, sem qualquer vínculo
extralinguístico (ARANHA, 2004, p. 2).
E no caso desta outra forma de conhecimento, a sociologia, qual seria a sua função? Em termos bem genéricos: sendo narradora e personagem do mundo moderno, seu grande assunto, certamente vem contribuindo para a sua compreensão. E quais seriam os efeitos de suas descobertas e invenções? Uma possível resposta aqui reside na noção de “dupla hermenêutica”, de Anthony Giddens, importante narrador contemporâneo dessa história. Preocupado com a questão da validade prática dos conceitos gerados pela sociologia, este autor afirma: “A ciência social preocupa-se com os agentes que geram e inventam conceitos, que teorizam sobre o que fazem, bem como sobre as condições nas quais praticam seus atos” (GIDDENS, 2001, p.111). O autor acredita na “consciência prática”, na capacidade dos agentes humanos de interpretar o sentido das interações que estabelecem. Portanto, entre a teoria e a prática percebe um movimento, que vai chamar de “reflexividade”, onde se manifestariam os impactos práticos (efeitos) das ciências sociais. Por este ângulo, por exemplo, noções como cidadania, soberania, sociedade civil, movimentos sociais – todas elas engendradas pela reflexão das ciências sociais – seriam subjacentes e consubstanciariam as ações concretas dos agentes, ainda que estes nem sempre tenham o domínio, digamos, técnico, sobre elas. Dito de outra forma: os conceitos, instrumentos de compreensão, ao exercerem e receberem influências da e sobre a realidade, teriam, nesta “dupla hermenêutica”, seus significados alterados, ganhando assim uma eficácia prática que em muito viria a ampliar os sentidos que tinham quando teoricamente formulados. Efetivamente, a ideia de reflexividade vem trazer um sopro de vitalidade à sociologia, num momento em que tanto se fala de sua crise e da fragmentação do seu objeto.
Assim, inevitavelmente, os conceitos introduzidos pelas
ciências sociais tornam-se componentes familiares nas teorias
e práticas de atores sociais leigos e não permanecem adstritos
a um discurso profissional. A ciência social não assume uma
posição de neutralidade em relação ao mundo social, como um
instrumento de transformação sociológica; o trabalho crítico não
pode se limitar à crítica de falsas crenças leigas. As implicações
da dupla hermenêutica residem no fato de que os cientistas
sociais não podem deixar de permanecer alertas aos efeitos
transformadores que seus conceitos e teorias possam
porventura produzir sobre aquilo que se propuseram a analisar
(GIDDENS, 2001, p. 113).
Lembremo-nos das formulações de Antonio Candido, aqui citadas, quando este autor nos alerta para os efeitos da literatura e de suas confluências com o meio externo. O que nos propomos é contribuir para uma melhor compreensão destes efeitos e daquela reflexividade a partir dos registros do sociólogo e do romancista aqui interpelados.