Gilberto Freyre e José Lins do Rego

Cauby Dantas · Capítulo 15 de 18

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Gilberto Freyre e José Lins do Rego

Memórias da Escravidão

É assim que findam o Santa Rosa e Carlos de Melo, o menino de engenho que virou bacharel e que um dia desejou ser um senhor de engenho.

 

FOTO 8 – Casa-Grande do Engenho Sapucagi, Escada-PE

FONTE: Acervo da Fundação Gilberto Freyre. Recife –PE

 

Memórias da Escravidão

A ordem social que ressuma das páginas de Menino de engenho e Bangüê é informada pela condição agrária, de um ruralismo semifeudal, segundo a compreensão de Gilberto Freyre. Trata-se de um tipo de sociedade que tem na propriedade territorial seu quase único padrão ou unidade de riqueza, dividindo os homens em senhores e servos a partir da forma como se relacionam com esse meio de produção. É sobre essa base territorial que serão erguidos os triângulos rurais compostos pelo engenho, pela casa e pela capela, característicos da “geometria da colonização agrária”. Sob esse ponto de vista, o engenho e o seu senhor representam o vértice de poder político e econômico do triângulo; a terra, a base ao mesmo tempo física e econômica onde aquele poder é exercido.

Quase podemos sentir certo sabor medieval na reconstrução dessa ordem, acentuado pela percepção – cuja face feudal não se dilui ainda quando extintas suas bases materiais – de que não há senhor sem terra, nem terra sem senhor. Eis um cânone que atravessa de cima a baixo o poder da casa-grande e a força do seu dono. Eis um dogma que parece orientar toda a construção da figura de José Paulino, dono de nove engenhos.

Um outro aspecto interessante, denunciador das permanências e longas durações, é assinalado pela presença, nos romances, dos resquícios e da memória do antigo regime de trabalho servil. E não apenas nos restos da antiga senzala, como já aludimos. A escravidão teima em se fazer presente, seja na condição de agregadas vivenciada pelas velhas negras da cozinha do Santa Rosa, seja pela sua recorrência como motivo principal das conversas noturnas do velho José Paulino.

Vejamos alguns momentos reveladores dessa presença. No capítulo 18 de Menino de engenho, vemos o cabra Chico Pereira no tronco, mandado para lá pelo coronel José Paulino, supostamente por haver deflorado uma filha de uma moradora do engenho; descoberto o verdadeiro autor do defloramento – que não fora outro senão o Juca, filho de Zé Paulino – o cabra é retirado do tronco; há ainda o caso do escravo que tinha uma banda-forra e que só era chicoteado na outra banda, pertencente a seu senhor (cap.33, p.61); etc. Em vários momentos da narrativa, são elaboradas reminiscências em torno do passado escravocrata, sempre destacando-lhe a “proteção” e os cuidados oferecidos pelo patriarcalismo aos seus escravos, antes de 1888, data da abolição. Isso para evidenciar a situação dos agora ex-escravos, que pretensamente estariam vivendo em piores condições, com “o engenho, na festa das 12 horas da moagem. O povo miserável da bagaceira compunha um poema na servidão” (REGO, 1996, p.69).

Não custa aqui relembrar que essa ideia já aparece nos textos de Gilberto Freyre da década de vinte – em sua dissertação de mestrado e no ensaio sobre o século de mudanças no Nordeste – conforme já visto. Aparecerá, um ano depois, no prefácio de CGS. O regime escravocrata recebe condenação não em termos morais ou humanitários, mas pela sua ineficiência econômica e pelas despesas que gerava aos senhores com a manutenção dos negros escravizados. Passemos a palavra para José Paulino:

Para esta gente pobre a abolição não serviu de nada. Vivem

hoje comendo farinha seca e trabalhando a dia. O que ganham

nem dá para o bacalhau. Os meus negros enchiam a barriga

com angu de milho e ceará, e não andavam nus como hoje,

com os troços aparecendo. Só vim a ganhar dinheiro em açúcar

com a abolição. Tudo o que fazia dantes era para comprar e

vestir negros (REGO, 1996, p.61).

Interessante esse exercício de memória feito por José Paulino no alpendre de seu palácio rural: lamenta o destino dos ex-escravos ao mesmo tempo em que se vangloria pelos lucros auferidos no pós-1888.

E aqui a ficção se junta à memória de José Lins do Rego, com registro documental, inclusive. Em carta endereçada a Gilberto Freyre, provavelmente escrita em 1926, surpreendemos a mesma percepção quanto aos efeitos econômicos da abolição, desta feita por intermédio da lembrança da fala do velho José Lins Cavalcanti de Albuquerque, conhecido por Bubu, avô do romancista:

O seu artigo de domingo esteve muito curioso. A propósito de

escravos serem melhores cuidado de alimentação que os

nossos trabalhadores de eito eu dou-lhe um documento vivo:

o meu avô sempre dizia que não conseguira coisa nenhuma na

escravidão, porque todo o dinheiro que pegava era para dar Com efeito, as interações entre a natureza e a cultura se processam, nessa sociedade, em nome dos interesses mercantis dos produtores e comerciantes situados nos engenhos daqui e nos entrepostos comerciais da Europa, resultando em um processo de degradação ambiental que levará à morte dos rios, à destruição da mata e ao empobrecimento da terra. Principalmente depois da absorção dos engenhos pelas usinas, com suas “caldas fedorentas”, conforme souberam realçar os nossos dois autores. Registremos aqui, em relação à ficção, o apego de Zé Paulino às matas do Santa Rosa, nisso se diferenciando dos outros potentados da terra: