Gilberto Freyre e José Lins do Rego
O “Equilíbrio de Antagonismos”
resulta o desnudamento da vida íntima da família patriarcal, a
despeito do tom valorativo, em geral positivo, emprestado à
ação do senhoriato colonizador, ação que se prolonga, no eixo
do tempo, da colônia até o século XX, na figura de seus
sucessores, representantes das oligarquias (MOTA, 1990,
p.58).
Aqui chega-se ao cerne do olhar senhorial, inscrito numa elaboração axiológica que “olha” o Brasil e suas origens a partir da varanda da casa-grande. Ao retratar a nobreza e a grandeza dos patriarcas e de suas residências, o antropólogo quer recuperar – e ao mesmo tempo nos fazer lembrar – o passado glorioso da região que ora debate-se em uma crise que parece sem fim.
São temas e enfoques que expresssam a posição social do autor, intelectual moderno, mas comprometido com a velha ordem. Neste sentido, é interessante lembrar que, quando eclode a Revolução de 30, Gilberto Freyre está no epicentro das disputas políticas de seu Estado, Pernambuco. Na condição de secretário particular do governador Estácio Coimbra, deposto pelo movimento revolucionário, o nosso autor vai provar as agruras destinadas aos vencidos. Seu grande livro de 1933 é aberto com uma rememoração daquele momento: “Em outubro de 1930 ocorreu-me a aventura do exílio”.
O “Equilíbrio de Antagonismos”
“Equilíbrio de antagonismos”: eis a ideia emblemática, expressão eivada de significados metodológicos, políticos e intelectuais. Emblemática e recorrente. Talvez a ideia mais constante a circundar toda a obra freyriana. Em Casa-grande & senzala, para ficarmos apenas com o seu texto mais famoso, nitidamente pontua toda a reflexão, clivando, com sua presença, todos os padrões de sociabilidade ali interpelados, da religião à língua portuguesa, passando pela culinária, pelas relações entre pais e filhos, senhores e escravos, pela correção dos excessos e desmandos da casa-grande em suas relações com a senzala, etc. É uma obsessão de Gilberto Freyre, um desejo assumido: “A força, ou antes, a potencialidade da cultura brasileira parece-nos residir toda na riqueza dos antagonismos equilibrados” (FREYRE, 1997, p.335). As críticas e elogios, os afetos e desafetos, discípulos e detratores que o nosso autor conhece ao longo de sua trajetória são, em grande medida, frutos das diferentes recepções que a noção de “equilíbrio de antagonismos” conhecerá desde sua formulação original, em 1933. A sua presença no processo de construção e explicação da cultura brasileira tem aí um dos principais aportes: “Considerada de modo geral, a formação brasileira tem sido, na verdade, como já salientamos às primeiras páginas deste ensaio, um processo de equilíbrio de antagonismos. Antagonismos de economia e de cultura” (FREYRE, 1997, p.53).
Basta lembrar, de passagem, a disputa pela hegemonia das interpretações do Brasil travada entre o “mestre de Apipucos” e a chamada Escola Paulista de Sociologia/ USP – de orientação marxista, organizada em torno do sociólogo Florestan Fernandes. Fundamental, aliás, para a consolidação da moderna ciência social brasileira, este debate entre “grandes intelectuais” – no sentido sugerido por Gramsci, de “criadores” de concepções de mundo – busca mensurar (e avaliar) qual teria sido a contribuição de cada um dos competidores para a interpretação e compreensão da sociedade brasileira.
Quem teria formulado a única e verdadeira interpretação da
formação social do Brasil? Quem foi capaz de nos dizer o que
somos? Quem melhor apreendeu nosso significado
estruturador? Nosso “ethos”? Disputa-se, logo se percebe, o
trono de intérprete do Brasil. Sem esta interpretação,
dificilmente podemos entender nosso passado e construir o
futuro. As relações entre Gilberto e a USP se estabeleceram e
podem ser entendidas como disputa teórica sobre esta questão
fundamental – quem somos nós? (FALCÃO; ARAÚJO, 2001, p.
131).
O “equilíbrio de antagonismos” e a disputa teórica acima levemente interpelados seriam, na reflexão aqui proposta, ilustrativos das vinculações orgânicas dos grupos intelectuais imersos numa disputa pela hegemonia cultural e política.
A disputa, em muitos momentos, acirrada, foi potencializada por injunções políticas. Autores e obras serão avaliados e lidos em função de suas militâncias e posições político-partidárias, ao sabor das conjunturas. Em relação a Gilberto Freyre, o impacto modernizador das obras dos anos 1930 – principalmente Casa-grande & senzala, Sobrados e mucambos e Nordeste – será redimensionado. É claro que o apoio dado pelo escritor pernambucano aos governos militares no pós-64 terá um peso decisivo nesta reavaliação. Os jovens discípulos paulistas de Florestan Fernandes – oposicionistas da ditadura – vão construir a imagem de um Gilberto reacionário, ideólogo salazarista. Seria, no máximo, um ficcionista e um ensaísta de talento. Mas não um cientista social. Pior: o charme de sua escrita traria o ovo da serpente de uma visão paralisante da nossa história; sua obsessão em equilibrar antagonismos acabara por engendrar a construção de uma “ideologia da cultura brasileira” de conteúdo desmobilizante, que estaria a encobrir e esvaziar as dominações e as contradições da nossa formação histórica (MOTA, 1990, p.67). Será, então, “silenciado” e banido dos cursos de sociologia de nossas universidades por reacionário e conservador. Responderá apontando – às vezes de forma exaustiva – o prestígio internacional de sua obra.
Hoje os demônios foram, em grande medida, exorcizados e Gilberto “redescoberto” em sua grandeza. Nesta espécie de glasnost à brasileira percebe-se o desenvolvimento de um diálogo profícuo entre os dois campos.
Carlos Guilherme Mota, autor de um livro antifreyriano, publicado em 1977 é, nos dias correntes, um dos participantes deste diálogo, chegando a dizer que, mesmo no auge da batalha pelo trono das ideias no Brasil, não havia, na USP, intelectual mais importante e interessante que Gilberto Freyre. (MOTA, 2000, p.3). Nesta reavaliação feita pelo autor de Ideologia da cultura brasileira, Gilberto Freyre e Florestan Fernandes aparecem como sendo “os dois principais sociólogos-historiadores brasileiros do século XX, representantes de duas escolas de pensamento distintas e de dois projetos de nação” (MOTA, 2001, p.169).
Diante da repercussão obtida pelo regionalismo de Gilberto Freyre e, ainda, por sua presença nos romances de José Lins do Rego, impõese que façamos aqui uma exposição dos seus conteúdos e temas mais recorrentes, indo às suas origens, interpelando os textos onde aparecem em construção, onde foram expostos como programa, num contexto em que assumem a dupla face de instrumentos de compreensão e preservação de valores culturais e, simultaneamente, expressão do proselitismo e da militância intelectual e política do seu autor. Por esse caráter de manifesto se pode conhecer aqueles conteúdos. É essa exposição que faremos no próximo capítulo.
5 Em Como e porque sou e não sou sociólogo, de 1968, Gilberto Freyre, exercitando sua imensurável vaidade, afirma: “Digo nome de escritor porque, afinal, é o que principalmente me considero: escritor. Escritor de sistemática formação científica, é certo, e esta de modo específico, a antropológica – a sociológica. Porém escritor a quem, talvez, não faltem características literárias que lhe dêem direito senão ao título, a uma condição que só se atinge através da arte de escrever.” O trecho aqui citado encontra-se à página 115 da edição publicada pela editora da Universidade de Brasília.
6 Viver para contar: eis o título de um livro do escritor colombiano Gabriel García Márquez. Trata-se de um belo exercício de memória onde o viver, o sentir e o contar fundem-se, magistralmente, em um texto que desnuda uma vida dedicada à literatura, ao jornalismo, ao cinema. García Márquez revela as bases reais e os acontecimentos idos e vividos que forneceram o solo, a régua e o compasso para a composição de temas e personagens dos seus romances.