Gilberto Freyre e José Lins do Rego
O senhor de engenho
Eis uma personagem recorrente na cultura e na política brasileiras sendo detentora, nos quadros de uma sociedade colonizada, rural e escravocrata, de uma posição social a que todos almejam, e a quem os antigos (mas também os novos) escravos eram forçados a emprestar mãos e pés, segundo a famosa formulação do jesuíta Antonil. A figura do poderoso senhor de terras atravessa os limites cronológicos da colonização e chega, ainda que metamorfoseada e sem o antigo fausto, aos nossos dias, ocupando espaços no Congresso Nacional, na mídia (ora como personagem, ora como dono), no cinema e na literatura. Com efeito, é uma das maiores expressões do universo rural brasileiro em toda a sua história.
A estrutura de dominação apresentada em Menino de engenho e Bangüê, caracteriza-se pela presença, em seu interior, de um espaço predominante bem definido, o engenho, espécie de vértice econômico do triângulo rural freyriano. Aí é tecida uma rede de ações e interações entre vários tipos humanos e culturais, postos sob a égide da vontade suprema do herói civilizador, o senhor de engenho, chefe da família e da casa patriarcais, o elemento sociológico da unidade brasileira. Segundo Gilberto Freyre, é esse o ator principal da colonização portuguesa do Brasil, dono da terra e dos homens e das mulheres e de tudo, enfim, que se encontra sobre e sob ela. A aparência de fortaleza das suas casas-grandes militarizadas seria a maior expressão desse poder patriarcal. Portanto, acreditamos que a caracterização desses espaços e desse personagem, ambos fulcrais, seja um bom começo para a compreensão dos romances assinalados.
Já na primeira frase de Menino de engenho, nos deparamos com um acontecimento triste e que parece anunciar toda a atmosfera de melancolia e de tristeza da estória a ser narrada: a morte de Dona Clarisse, filha de senhor de engenho e mãe do menino Carlos de Melo, então com quatro anos, assassinada pelo próprio marido. Quem nos conta o acontecido é o próprio Carlos de Melo, já adulto, que rememora a infância, passada em um dos engenhos do seu avô materno, José Paulino, situado na várzea do Rio Paraíba, para onde é levado, por um tio, três dias após a morte da mãe. Depois de rápidas considerações acerca dos pais e da viagem até o engenho, chegamos ao capítulo 4. Aqui, o menino Carlos de Melo é apresentado ao Engenho Santa Rosa, onde viverá dos quatro aos doze anos. Tudo lhe parece novo, eivado de mistérios, antecipado que foi por uma visão idealizada:
A minha mãe sempre me falava do engenho como de um
recanto do céu. E uma negra, que ela trouxera para criada,
contava tantas histórias de lá, das moagens, dos banhos de
rios, das frutas e dos brinquedos, que me acostumei a imaginar
o engenho como qualquer coisa de um conto de fadas, de um
reino fabuloso (REGO, 1996, p. 6-7).
É assim, visto “com olhos de deslumbrado”, que o engenho faz sua aparição na obra de José Lins do Rego. Colocado sob os cuidados da Tia Maria, lentamente, o pequeno órfão vai sendo apresentado ao seu novo mundo.
Em verdade, esse primeiro romance, composto por quarenta capítulos curtos, é todo ele uma apresentação do mundo do Engenho Santa Rosa, flagrado em sua dimensão cotidiana. O leitor é gradativamente apresentado aos seus habitantes, aos seus costumes, suas festas, sua fauna e sua flora, suas relações de trabalho, e a sua economia, pautadas na plantação de cana para a fabricação de açúcar. Estamos em um universo rural, agrário, com claros resquícios dos tempos da escravidão, presentes não apenas nos restos da antiga senzala – chamada pelos negros de “rua” – mas personificados nos vários descendentes do antigo regime.
Com a abolição de 1888 e sem muitas alternativas, muitos dos ex-escravos continuaram morando na casa-grande, gravitando em torno de sua cozinha ou prestando pequenos serviços em troca de um prato de comida, como agregados, etc. Há, no capítulo 22, a descrição de uma antiga senzala que revela a forte presença, nesse texto inicial, da visão freyriana, inscrita nos textos da década 1920, acerca do pretenso caráter ameno, de antagonismos equilibrados, da escravidão nos engenhos de açúcar.
Restava ainda a senzala dos tempos do cativeiro. Uns vinte
quartos com o mesmo alpendre na frente. As negras do meu
avô, mesmo depois da abolição, ficaram todas no engenho, não
deixaram a rua, como elas chamavam a senzala. E ali foram
morrendo de velhas. Conheci umas quatro: Maria Gorda,
Generosa, Galdina e Romana. O meu avô continuava a dar-
lhes de comer e vestir. E elas a trabalharem de graça, com a
mesma alegria da escravidão (REGO, 1996, p.38).
Mais adiante, abordaremos essa remanescência. Além dos ex-escravos, aparecem os trabalhadores do eito que, de sol a sol, em jornadas que chegam a mais de doze horas por dia, limpando os partidos e plantando e colhendo os produtos agrícolas – a cana, o algodão e, também, o gado – que fazem a riqueza material do engenho. Muitos desses moradores são foreiros enquanto outros, mais antigos, são dispensados dessa obrigação. Temos, ainda, carpinteiros, tanoeiros, mecânicos, artífices de diversos ofícios, e, no topo dessa divisão do trabalho, o feitor e, na casa do engenho, a figura do mestre de açúcar, responsável pelo processo de moagem e fabricação do açúcar, das almanjarras ao ponto exato que confere a qualidade do cristal. O quadro é completado pela aparição, aqui e ali, de vários meninos, os “moleques da bagaceira”, ocupados em tarefas de menor significado como banhar os cavalos, conduzir o gado aos currais, levar e trazer recados, etc.
Acima de todos situa-se o coronel José Paulino, o patriarca e proprietário de nove engenhos. Elemento ativo, de sua vontade e ação, dependem a vida e a morte dos habitantes do Santa Rosa.
São inúmeras as funções desempenhadas pelo senhor de engenho. É ele quem organiza a produção, as relações de trabalho; é ele quem dá proteção aos fugitivos da justiça; quem resolve pendências e conflitos entre os seus moradores; quem os socorre nas tragédias, nas grandes enchentes ou nas grandes secas; quem distribui alimentos; quem pune e castiga; quem compra e vende; quem casa e descasa; quem determina, com sua vontade imperial, quem é merecedor dos votos dos “seus” eleitores, etc. É, enfim, juiz, aplicando a força da justiça privada da casa-grande. Exercita ainda um pragmático tipo de “caridade útil”, também destacada pela fria visão de economista que é a de Antonil (apud BOSI, 1992, p.163), que se traduz em fidelidade e em lucros.
Em longos passeios a cavalo, Zé Paulino é a encarnação viva do centauro de que fala Gilberto Freyre. Vejamos uma passagem da narrativa que ilustra bem esse poder:
O meu avô me levava sempre em suas visitas de corregedor às
terras de seu engenho. Ia ver de perto os seus moradores, dar
uma visita de senhor nos seus campos. O velho José Paulino
gostava de percorrer a sua propriedade, de andá-la canto por
canto, entrar pelas suas matas, olhar as suas nascentes, saber
das precisões de seu povo, dar os seus gritos de chefe, ouvir
queixas e implantar a ordem. Andávamos muito nessas suas
visitas de patriarca (REGO, 1996, p.25).
O velho José Paulino gostava de contar histórias da família, relembrar os antepassados, os tempos da escravidão. Com sua ascendência moral sobre os seus familiares e agregados e por ser visto, também, como detentor de experiências, torna-se, de certo modo, um transmissor dessas experiências, narrando-as, sempre à noite, sempre no alpendre da casa-grande, para uma plateia atenta e obediente. É um velho bom, respeitado e temido mais por sua bondade e não apenas pela riqueza material que possui. “O velho José Paulino governava os seus engenhos com o coração” (REGO, 1996, p.49).
Na visão idealizada desse personagem – autêntico patriarca – mesmo quando ele é ríspido com os seus moradores, quando lhes grita palavras duras, parece não ofendê-los, pois todos sabem reconhecer a sua bondade: “O meu avô chamava-os de ladrões, de velhacos e nem mostravam cara de aborrecidos. Parecia que aquelas palavras feias na boca do velho José Paulino não quisessem dizer coisa nenhuma” (REGO, 1996, p.41). Como toda idealização, a essa não faltam também tonalidades seráficas. É assim que, no capítulo 33, este velho latifundiário aparece como sendo um “santo que plantava cana” (REGO, 1996, p.62).
José Paulino aparece, neste romance inicial, no ápice da condição de patriarca, no auge do seu poder. Que parece sólido e eterno como os alicerces profundos da casa-grande, o grande vértice arquitetônico do triângulo rural traçado por Gilberto Freyre.
Mas, apenas parece. Os tempos mudam, a morte e a usina estão à espreita. Alguns anos depois – dez – é um José Paulino envelhecido e decrépito que assiste à decadência dos seus domínios, agravada pela inapetência de um neto que apenas sonha em contar a história gloriosa do avô, a quem admira e ama, e que por isso sofre, sabendo-se e sentindo-se incapaz de repetir-lhe os feitos.
Mas antes da decadência, falemos ainda de outros temas interessantes desse primeiro romance, sob o prisma do poder do senhor de engenho.
Como vimos no capítulo 2 deste estudo, no livro Nordeste, Gilberto Freyre estende aos animais as hierarquias inerentes à sociedade dos homens, juntando no mesmo eito e sob o mesmo sol senhores e cavalos, escravos e bois, natureza e cultura. Essa naturalização das desigualdades informa a visão do menino Carlos de Melo. Em verdade, nele é antecipada. Branco e neto de senhor de engenho, nada lhe parece mais natural do que as desigualdades cotidianas que observa entre os homens e os animais do engenho.
O costume de ver todo dia esta gente na sua degradação me
habituava com a sua desgraça. Nunca, menino, tive pena deles.
Achava muito natural que vivessem dormindo em chiqueiros,
comendo um nada, trabalhando como burros de carga. A minha
compreensão da vida fazia-me ver nisto uma obra de Deus.
Eles nasceram assim porque Deus quisera, e porque Deus
quisera nós éramos brancos e mandávamos neles.
Mandávamos também nos bois, nos burros, nos matos (REGO,
1996, p.60).
O quadro se completa com a fina percepção de que os limites e hierarquias que se colocam no caminho dos homens e mulheres da antiga senzala ou do eito, em suas constantes tentativas de aproximação da casa-grande (mesmo que seja pela entrada dos fundos, pela cozinha), também são válidos em relação aos pobres cachorros que, por desavisados ou por insolentes, tentam empreender a mesma aproximação.
Alguns desses cachorros, mais que os seus donos, conhecem o seu lugar:
Cachorrinhos com barriga partindo, de magros, acompanhavam
seus donos para a servidão. Rondavam pelos cajueiros,
perseguindo os preás. Porém não pisavam no terreiro da casa-
grande. Os cachorros gordos do engenho não davam trégua
aos seus infelizes irmãos da pobreza (REGO, 1996, p.59).
Outro dado interessante são os nomes dos engenhos que remetem a significados culturais ligados à religiosidade, às plantas e árvores, rios e animais. Em um levantamento longe de ser considerado exaustivo, anotamos: Santa Rosa; Santa Fé; Corredor; Maravalha; Aurora; Cipó Branco; Jardim; Maçangana; Beleza; Gameleira; Vigário; Outeiro; Santo Antônio: Fazendinha; Anta; Itapuá; Melancia; Pacatuba; Novo; Santana. Gilberto Freyre lista, em Nordeste, vários outros nomes de engenhos antigos, principalmente aqueles que trazem sugestões da água, a sua poetização pela gente dos canaviais, segundo o autor: Poço Sagrado, Águas Belas, Riacho-do-Padre, etc.
Menino de engenho nos apresenta muito acerca do cotidiano do Santa Rosa, sendo rico em indicações de práticas de sociabilidade, que vão daquelas propriamente ligadas ao mundo do trabalho – plantação, moagem da cana – àquelas de significados mais culturais ou simbólicos: festas, visitas, práticas sexuais, aprendizagem das primeiras letras, banho de rio. Os espaços onde ocorrem essas práticas são os mais variados: sala e alpendre da casa-grande; cozinha; nos restos da senzala; no rio; no curral, etc.
Mas em todos os momentos, paira no ar a presença da casa-grande, potência ante a qual até a Igreja se curva. Assim, por exemplo, uma visita da família da casa-grande a um parente distante será sempre vista, por este último, como motivo de orgulho, sinal de consideração por parte da família poderosa; há uma cadeira especial, na escola, para Carlos de Melo, um copo e um tamborete de palhinha só para ele; os meninos do engenho, mesmo na intimidade propiciada pelas brincadeiras de criança, sabem perceber as diferenças que os separam de Carlinhos, expressas na melhor qualidade de suas roupas, nos cuidados com sua saúde, alimentação, etc.
O grande momento festivo revelador do poderio da família é o casamento da Tia Maria. Muito mais que a realização de um sacramento, é festa para durar vários dias, propiciando à família Paulino exercitar e mostrar toda a pujança de sua condição social. Não é todo dia, afinal, que se pode assistir ao casamento de uma filha de senhor de engenho. Então os preparativos são demorados, muitos os convidados. A citação a seguir expressa bem a grandeza da festa:
Na casa-grande do Santa Rosa não havia mais cômodo para
tanta gente. Armavam redes pela casa de farinha e no
sobradinho do engenho. E ainda chegariam convidados no dia
do casamento. O meu avô ficava em palestra com os mais
velhos. Os perus-de-roda e os capões gordos morriam aos
magotes na cozinha. Vinha um caixão de gelo e outro de frutas
estrangeiras, da Paraíba. A música da polícia estaria ali no trem
das dez. Pelo alpendre da casa-grande só se via gente falando.
Os moleques a cavalo, em osso, levando e trazendo recados do
Pilar. O vestido da noiva chegaria de tarde, do Recife (REGO,
1996, p.72).
Carlos de Melo, doente, sente-se, com o casamento de sua tia Maria, solitário. Quem, a partir de então, irá cuidar dele quando chegarem as terríveis “crises de puxado” que lhe sufocam o peito e colocam limites às brincadeiras ao ar livre, aos banhos de rio com os outros meninos do engenho? De certa maneira, é como se estivesse perdendo a segunda mãe. Tudo que sabe lhe veio dos oito anos passados no engenho. É um menino rude ao aprendizado das primeiras letras. A tia Maria tenta, mas logo desiste. A pobre professora Judite, a quem fora atribuída a missão de ensinar-lhe a ler e escrever, até que tem melhor sorte. Consegue ainda, porque é mulher bonita, despertar-lhe a concupiscência:
“Foi ali com ela, sentindo o cheiro de seus cabelos pretos e a
boa carícia de suas mãos morenas, que aprendi as letras do
alfabeto. Sonhava com ela de noite, e não gostava dos
domingos porque ia ficar longe de seus beijos e abraços”
(REGO, 1996, p.23).
E isso apesar de ser a bela Judite uma mulher casada que, inclusive e de quando em quando, apanhava do marido.
Menino danado esse Carlinhos! Nele, a precocidade sexual típica dos meninos de engenho anuncia-se de forma muito premente. Gilberto Freyre já nos falava, desde o ensaio de 1924 – Aspectos de um século de transição no Nordeste do Brasil – dessa precocidade, incentivada pelo clima de excesso sexual de que estava impregnada aquela sociedade falocrática. No Engenho Santa Rosa, os meninos cedo se acostumavam com esse dado, vendo os animais no curral pegado à casa-grande em sua “promiscuidade selvagem”, vivamente descrita no capítulo 15. Alguns meninos transavam com as vacas e cabras do engenho. Eram meninos aqueles que cedo tomavam conhecimento de doenças-do-mundo e de prostitutas e de moradoras sendo defloradas pelos senhores ou por seus filhos. Carlinhos dispõe, ainda, das revistas proibidas do tio Juca, dos “ensinamentos” de Zé Guedes. E até inventa uma paixão pela priminha Maria Clara, menina da cidade grande, em visita ao engenho. O exemplo dos excessos sexuais vinha de cima, dos adultos, senhores polígamos que, nas senzalas, buscavam as negrinhas (mais tarde, as filhas dos seus moradores) com que satisfaziam sua luxúria. Gilberto Freyre nos fala no ambiente de “intoxicação sexual” de que estava impregnada aquela sociedade, favorecido que era pelo que chama de plasticidade do português e pela situação ambígua de uma sociedade que, extremamente desigual e violenta em suas relações de trabalho, sabia “equilibrar” na cama, de forma nada pia ou seráfica ou, ainda sob o império dos sentidos, na cozinha e na mesa, os seus antagonismos: miscigenação é isso aí.
Era inevitável e aconteceu. A negra Zefa Cajá, conhecida prostituta do engenho, será a sua grande mestra desses assuntos de entre-pernas: “Tinha uns 12 anos quando conheci uma mulher, como homem” (REGO, 1996, p.78). Igualmente previsível, o neto do senhor de engenho, menino de grande voracidade sexual e nisso seguindo uma quase que tradição familiar, acaba contraindo uma daquelas doenças-do-mundo. Passados o escândalo e a surpresa iniciais provocados na casa-grande, logo a notícia se espalha e o menino vira alvo da admiração dos machos da família, por tão candente demonstração de precocidade. Carlos percebe e aproveita:
E comecei a envaidecer-me com a minha doença [...] Era uma
glória para mim essa carga de bacilos que o amor deixara pelo
meu corpo imberbe. Mostravam-me às visitas masculinas como
um espécime de virilidade adiantada. Os senhores de engenho
tomavam deboche de mim, dando-me confiança nas suas
conversas. Perguntavam pela Zefa Cajá, chamavam-na de
professora: - Puxou ao avô (REGO, 1996, p.78-79).
Em breve estará indo para o colégio. É um menino perdido, com “um corpo sacudido pelas paixões de homem feito e uma alma mais velha do que o meu corpo”, como se lê no capítulo final do romance. Com doze anos e uma doença venérea, já é hora de alargar seus limites e entender que o mundo não se resume ao Engenho Santa Rosa e ao Coronel José Paulino, por maiores que estes sejam. Carlinhos sente medo do colégio para onde será mandado logo após o casamento da tia Maria. Conforme lhe disseram várias vezes, sempre em tom de ameaça, o colégio é local onde os meninos “perdidos” como ele são “amansados”, a custa de uma pedagogia sádica, pautada no uso frequente de muita palmatória e caroço de milho nos joelhos, transformando os colégios em verdadeiros centros de tortura, como podemos ver em Sobrados e mucambos.
E assim chegamos ao final do livro, com a ida do menino Carlinhos para o Instituto Nossa Senhora do Carmo, em Itabaiana, do temido professor Maciel.
Dez anos depois, Carlos de Melo, bacharel em Direito, retorna ao Santa Rosa. Mas, aí, os tempos serão outros, de crise do mundo dos engenhos.
E aqui nos colocamos ante um eixo temático que exige uma pequena digressão em torno do conteúdo da categoria “crise. É evidente que, sendo uma crise do setor agrícola, ou seja, justamente do setor preponderante da economia e da política brasileiras até então, é justo que busquemos a compreensão de suas causas ou efeitos. E estas causas parecem remontar aos ajustamentos internacionais de uma economia capitalista que, desde a primeira revolução industrial, tinha seu eixo econômico baseado na produção industrial voltada para os centros urbanos. No caso brasileiro, acrescentem-se, do ponto de vista da tradicional agricultura de exportação, os efeitos desagregadores que sobre ela terão acontecimentos como a abolição da escravatura em 1888, a queda dos preços dos produtos exportáveis (café, açúcar e algodão) e a transição do trabalho escravo para o trabalho assalariado.
São esses os elementos de uma crise que, no limite, colocará em movimento as aspirações dos produtores (cafeicultores, pecuaristas, produtores de grãos, etc.) em busca da institucionalização dos seus interesses junto ao Estado republicano, o que, de forma paradoxal por ocorrer em momento de crise, reforça o cânone da vocação eminentemente agrícola do país. São assim óbvios os significados ideológicos (e práticos) desse discurso, quando traduzido em políticas públicas voltadas para o setor e ao confundir os interesses das chamadas “classes produtoras” com os de toda a sociedade.
Transposta para o romance de José Lins do Rego, a crise vai engendrar o aparecimento de tipos que serão deslocados pela nova ordem, como o pobre seleiro José Amaro – que provavelmente nunca terá ouvido falar de reprodução ampliada do capital – literalmente colocado à margem, à beira de uma estrada que não tem volta.
Muito bem. Voltemos a José Paulino e Carlos de Melo. Segundo a frase de abertura do romance Bangüê, de 1934, o neto se afastara “uns dez anos do Santa Rosa”. E agora volta, depois de haver concluído os estudos, com a intenção de assumir o comando dos negócios do avô, na condição de herdeiro. O engenho não lhe desperta mais o mesmo alumbramento de quando o viu pela primeira vez, aos quatro anos de idade. Pelo contrário, parece-lhe pequeno: “O mundo cresceu tanto para mim que o Santa Rosa se reduzira a um quase nada” (REGO, 1993, p.5). É a partir dessa percepção reduzida do engenho que o narrador vai lentamente erigindo a consciência da inexorável decadência daquilo que um dia lhe parecera ser, além de eterno, a versão terrestre do paraíso.
Nesta construção desnuda-se, igualmente inexorável, a decadência física de José Paulino e da ordem social cujo mando simboliza. Carlos de Melo se angustia:
Via a sua caminhada para a morte, sentindo que todo o Santa
Rosa desaparecia com ele. Uma vez até pensara em escrever
uma biografia, a história simples e heroica de sua vida. Mas o
que valeria para ele uma história, o seu nome no papel de
imprensa? Oitenta e seis anos, a vida inteira acordando às
madrugadas, dormindo com safras na cabeça, com preços de
açúcar, com futuros de filhos, com cheias de rios, com lagartas
comendo roçados (REGO, 1993, p.7-8).
A decadência física do patriarca – “o seu grito de mando não ia tão longe” – é a decadência de uma época, é a metáfora da perda. A casa-grande deixara de ser o centro, a escola, o banco, o cemitério, a Igreja: “A casa-grande, cada vez mais, perdia as vozes de antigamente, silenciosa a todas as horas do dia” (REGO, 1993, p.172). Ali perto, cresce a sombra absorvente da Usina São Félix; e dentro de alguns anos, não mais existirá o Santa Rosa. No seu lugar, depois de muitas idas e vindas e fracassos do neto herdeiro e incompetente, forçado a vender o engenho onde o avô passara toda a sua vida, teremos a usina Bom Jesus, que desaparecerá também, sob o peso de dívidas impagáveis e mergulhada, literalmente, nas águas do Rio Paraíba.
No capítulo 4 da segunda parte de Bangüê, temos a narração do episódio central dessa dissolução do paraíso: a morte e o enterro de José Paulino:
De longe esperava que cavassem os sete palmos. Não queria
ver o fim. Mas tinha que ver. Todos os parentes ficaram com ele
no último encontro. O padre fazia o sinal-da-cruz. A chuva fina
não cessara de vez. Ouvi batuque de pás de pedreiro e a queda
do caixão no fundo da terra. Tinham plantado meu avô (REGO,
1993, p. 102).
Aqui uma pergunta: nesse desencontro entre o bacharel e a terra, entre o neto e o avô, o filho e o pai, não terá se originado muito daquela revolta de herdeiros abastados contra os seus próprios pais e a favor dos negros, de que fala Gilberto Freyre, chamando-os de “desertores” e dando como exemplo Joaquim Nabuco? Talvez sim. São atitudes rebeldes – “deserções” – em grande parte germinadas sob o impacto dos conhecimentos adquiridos pelos filhos abastados da casa-grande que saíram para estudar na capital ou na Europa, daí voltando com novas ideias, com valores e padrões urbanos, muitas vezes em desacerto com os valores ditos arcaicos de um mundo rural. É essa uma das mudanças principais do Brasil do século XIX, analisadas em livros como Nordeste e Sobrados e mucambos, onde podemos assistir à ocupação de cargos públicos de importância por homens da cidade, jovens bacharéis recém-formados e ainda imberbes, para o espanto dos antigos ocupantes desses cargos, velhos patriarcas, agora com “olhos já cansados de tanto ver, mas não se deixando iludir pelas aparências, os ouvidos já ficando moucos de tanto ouvir, mas não se deixando nunca emprenhar pelas palavras de intriga ou de enredo” (FREYRE, 1996, p.86).
Mas não é esse o caso de Carlos de Melo.
Mesmo depois de morto, o velho patriarca continuará a fazer-se presente, pela força do seu exemplo e de sua memória, na vida do engenho e nas memórias do seu neto. Na nossa leitura, essa permanência póstuma é um dos grandes momentos da representação da decadência dos engenhos. Entregue à própria sorte, o pobre Carlos de Melo se deixa assombrar por fantasmas ora reais, ora apenas fruto de sua falta de iniciativa e de sua vontade eternamente em crise. E vêm a desilusão amorosa e o desespero, provocados pelo retorno de Maria Alice aos braços do marido; e vem a ascensão do negro Zé Marreira, esse antigo cabra da bagaceira, roubando-lhe terras e moradores; e vem o medo das tocaias; e vêm as dívidas; e vem o desejo de escrever um livro sobre o avô, conforme sugestão de Mário Santos, e que ele sabe que jamais escreverá. Nesse quadro de desintegração, até uma velha foto na parede, o assusta:
Saí para a sala de visitas e lá estava o retrato do meu avô
pendendo da parede. A cara boa do meu avô, os olhos mansos,
todo o velho Zé Paulino ficava vivo na moldura. E se fosse vivo
e forte, o Santa Rosa não seria entregue a ninguém. Seria dele.
Não devia, e lavradores não se atreveriam a fazer-lhe sombra.
Eu não podia com o seu cacete. O seu sangue não estava no
meu. Eu era de outra raça, era neto de outro (REGO, 1993,
p.161).
Não poderia ser outro o desfecho. Os seus dias de senhor de engenho estavam contados, como reconhece no capítulo 18 da terceira parte de Bangüê. Atolado em dívidas e vendo o engenho saqueado por antigos moradores, só resta ao bacharel Carlos de Melo a alternativa da venda do Santa Rosa ao Tio Juca, o que representa ao menos o consolo de manter o engenho nas mãos da família, com direito a um “enterro de luxo” (p.177), de trezentos contos de réis.