Gilberto Freyre e José Lins do Rego

Cauby Dantas · Capítulo 12 de 18

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Gilberto Freyre e José Lins do Rego

Confissões

FOTO 6 – José Lins do Rego, dama desconhecida e Gilberto Freyre

FONTE: Acervo da Fundação Gilberto Freyre. Recife – PE

 

Confissões

Assim, em 25 de junho de 1924, José Lins do Rego escreve para o amigo comunicando-lhe o início de uma nova e, ao que tudo indica, sólida relação sentimental. No pequeno trecho que se segue, a referência às origens aristocráticas da jovem em questão parece sinalizar um dado sociológico importante no momento de escolher uma companheira capaz de levar para dentro do lar e da nova família, a serem formados por um possível casamento, as mesmas origens patriarcais e senhoriais do futuro marido:

Acabei com este meu ridículo casamento do Recife. Aqui na

Parahyba encontrei uma criatura interessante. E, sobretudo,

da melhor família da terra. Família rural dos começos da

Parahyba. É uma filha do Senador Massa, homem bom

para sogro.

Quase dois meses depois, em 13 de agosto de 1924, Gilberto Freyre escreve ao amigo:

Várias vezes surprehendi em você, desde os nossos primeiros

contatos, reações muito vivas a prazeres estheticos: raros

tenho encontrado duma plasticidade a esses prazeres iguais a

sua. E você vae revelando o senso das belezzas espirituaes,

pela via esthetica. Sinto em você influências minhas, não por

macaqueação mas por plastização, conservando você certo

sabor selvagem de temperamento. Admirando-o e amando-o

admiro e amo um tanto a mim mesmo, pelo que encontro em

você de mim. Eu não o esquecerei, meu caro, pois o contato

com a sua desorientada juventude veio em dias muito ruins

para mim: de muito amargor. Alguns artigos meus, tenho

escrito pensando em você e em raros como você e inteiramente

esquecido desse grosso publico que entretanto precisa de quem

o salve da absoluta estupidez.

Passados alguns dias, José Lins do Rego volta ao tema e escreve ao amigo para comunicar-lhe a data do seu casamento, a se realizar em 21 de setembro de 1924. Desprendido, cheio de gratidão confessa, ainda, as emoções provocadas pela leitura da última carta recebida:

Quase não respondo a sua carta. Vivi d’ella uma porção de

dias. Era o que comia e lia espiritualmente. (...) Você, meu

querido Gilberto, tem feito de mim gente. Por você, eu tive a

grande vitória sobre eu próprio.

Apenas penetramos as primeiras cartas e já podemos sentir, pelos exemplos, o tom de cumplicidade que as circunda e informa, o afeto em cada linha, as influências mútuas, as afinidades eletivas que vêm à tona. Pelo tom, parece que estamos a surpreender toda uma atmosfera existencial vivenciada por dois jovens candidatos ao honroso título de escritor e que, no entanto, sentem-se inseguros quanto às próprias possibilidades de êxito. É essa a impressão sugerida pela leitura de uma carta onde o missivista, fazendo referência a artigo que escrevera sobre um certo “José de Almeida”, também amigo, também paraibano e igualmente candidato a escritor, afirma:

O meu artigo sobre o José de Almeida saiu. Não sei da

opinião dos homens da terra. Quero a sua. José de Almeida

gostou. Tenho eu um grande descrédito pelo que escrevo.

Acredite que estou sendo sincero. Sempre que me leio acho

que podia fazer melhor. O pior é que este melhor nunca

consigo (JLR, 15/07/1924).

Na carta de 13 de agosto, já citada, encontramos a opinião de Gilberto sobre o referido artigo. Mais do que uma resposta, parece querer transmitir confiança ao amigo, valorizando-lhe as qualidades e o potencial de homem de letras:

Li (e foi um grande gozo a leitura!) o seu artigo sobre o

livro do José de Almeida. Da bem a idéa de sua situação: da

transição que V. vae atravessando, sem prejuízo das forças

do seu temperamento. (...) E você vae revelando possuir esse

diffícil sentido do pitoresco e mais que elle: o da belleza.

O artigo de José Lins do Rego, escrito naquele julho de 1924, interpela um livro – A bagaceira – que, publicado quatro anos depois, será consagrado pela crítica como iniciador do moderno romance nordestino. No momento da troca de cartas, no entanto, José Américo de Almeida e a sua obra representam apenas uma construção em andamento e pouco mais que um título bonito de romance: “Estou ansioso pela Bagaceira. Que título feliz! Um título assim dá sabor a um livro” (GF, 14/06/1924).

São muitas as impressões sobre livros e autores, nacionais ou estrangeiros. Nada surpreendente, tendo-se em mente os interesses literários dos correspondentes. Neste sentido, são de grande relevo aqueles momentos em que abordam os seus próprios trabalhos, ou projetos, quase sempre apresentados como intenção, como possível realização em tempo futuro, ainda que próximo.

Há momentos de desânimo, de incertezas, onde se pode sentir o desespero dos dois quando postos diante da página em branco, à espera da palavra que não vem, que não quer fazer-se escrita ou, ainda, com a pesquisa que não anda, com o texto que não avança.

Por mais que eu reaja o homem vazio subsiste em mim. É

doloroso confessar estas coisas. O que me falta é força para

começar: com o seu contacto eu me havia iniciado. Mas tanto

tenho eu capacidade para seduzir-me pelo que vem de você,

como não tenho capacidade para um isolamento, para uma

prova de fecunda solidão (JLR, 09/12/1924).

O desânimo talvez se devesse à vida monótona que leva, junto com a esposa, no interior de Minas Gerais, como promotor público, sem a menor vocação ou paciência para a vida de advogado. Distante dos amigos e das conversas sobre literatura e política, é um homem desenraizado que as cartas revelam. Esse desenraizamento aparece de forma explícita em carta de 1 de dezembro de 1925:

Custa-me muito caro a vida de reclusão que levo. (...) tudo

áspero, uma forçada adaptação a uma vida pela qual sinto

nojo, que é a vida de advogado. A cidade onde estou é

profundamente estúpida e rica.

Ainda nessa carta, José Lins do Rego demonstra estar atento à produção intelectual do amigo: Tenho grande interesse no “Livro do Nordeste”. Nove dias depois, a resposta de Gilberto Freyre revela a saudade e o vazio deixados pela ida do amigo para os “confins de Minas”. É a sua vez de agradecer:

Meu caro amigo: depois do seu longo silêncio – a sua carta de

1 de dezembro foi uma grande alegria. Já quase me habituara

a sua amizade como uma amizade do passado – a semelhança

de outras boas amizades que tenho tido na vida e já não tenho.

Gilberto Freyre sente-se confuso em relação a convite recebido para assumir a chefia de redação do Diário de Pernambuco:

Mas meu caro, eu estou muito só e sem companheiro para

conversar e comigo gozar todo o ridículo e o pitoresco e a

ingenuidade desta vida aqui.

Em outra carta, de março de 1927, com José Lins do Rego já morando em Maceió, o desabafo de um homem triste e desanimado:

Eu hoje já não me correspondo com quase ninguém, tenho

deixado que a distância va empalidecendo muita amizade feita

por este mundo afora, onde tenho deixado alguma coisa de

mim – pois sou, com todo o esforço em contrário, um

mutilado. Se pareço inteiro é a custa de recomposições de

borracha (G.F.).

Apesar de “mutilado”, não se esquece de pedir ao amigo para realizar pesquisas que, como veremos em outras cartas, aproveitará em seus ensaios:

(...) adeus, meu caro Lins, e escreva: em horas vagas veja si

faz por ahi umas pesquizazinhas de história social: mas só si

isto lhe for agradável e não perturbe a produção dos seus

muito interessantes ensaios que peço me mandar sempre

(G.F.).

Há momentos em que, ao desânimo, soma-se o desprezo pela própria produção:

Parece que vai ser publicada em bôa forma, com certo

esmero, a tradução dos meus trabalhos no Livro do

Nordeste. Trabalhos de que já gostei – hoje os acho muito

sem sal e até safadinhos (G.F., 13/01/1927, grifo nosso).

Sempre que vou ler um artigo velho tenho a impressão de

coisa comida de bicho, com coisas boas, deliciosamente boas,

mas muita coisa estragada. (...) Vejo que não sei porque

extranho interesse em mim mesmo, muito escrevi. Talvez por

mera e boba vaidade (G.F., 27/06/1927).

No longo capítulo dos livros, os trechos dedicados à produção “doméstica” são responsáveis por alguns dos momentos mais impactantes da troca de cartas. Permitem sentir, por exemplo, as angústias da criação; conferem, ainda, um ângulo diferente à compreensão do conceito de sistema literário, materializado sob a forma de confissões, no exato instante em que autores e textos acontecem e dialogam. A frase que abrirá Casa-grande & senzala, clara alusão aos efeitos das mudanças políticas que obrigaram o seu autor ao exílio , em outubro de 1930, aparece aqui em sua dimensão existencial, humana. A “aventura do exílio”, pois é disso que se trata, Gilberto Freyre quer dividi-la com José Lins do Rego. Escrevendo de um quarto de hotel, em Lisboa, pede ao amigo comum, Olívio Montenegro, a quem confiara a entrega da carta, que não a mostre a ninguém que não seja, claro, o destinatário. O conteúdo é melancólico, marcado pela saudade:

Meu querido Lins: ninguém mais vivo nas minhas saudades

do que você em quem estou sempre a pensar. Espero que tudo

já lhe esteja correndo bem – o melhor possível. Creio aliás que

a você as cousas não chegaram com a violência do Recife”

(G.F., 17/12/1930).

Iniciada a carta, feitas as felicitações costumeiras, passa a apresentar as condições sob as quais se encontra no seu exílio europeu. É a tristeza individual marcada pelos reveses das lutas coletivas. Por trás do aspecto subjetivo, do tom confessional, íntimo, podemos sentir a força bruta das lutas políticas, dos conflitos humanos quando desdobrados em dor, desterro, separação e exílio:

Aqui estou como um emigrado qualquer – num exílio com

todas as suas características de frio, difficuldade de dinheiro,

incertesas. Em Lisboa não faz o frio dos paízes do Norte –

mas para mim é peior porque é humida, o que é ruim para os

nervos. E meus nervos eu estou admirado de os estar contendo

tanto e às vezes penso que já não posso mais. Tenho soffrido

de insônia e quando durmo é para sonhar um sonho por cima

do outro; sonhos cheios de gente, conhecida e desconhecida,

tudo sem nexo. Mas vou atravessando tudo o melhor que

posso. Si vem de Deus isso, que se faça a sua vontade,

embora às vezes eu me sinta como um personagem collocado

por engano do autor – ou de revisão? – num romance

sentimental a que não pertence (G.F., 17/12/1930).

Apesar das condições desfavoráveis, encontra tempo para pesquisar, “vendo ruas velhas e nas bibliotecas”. É nesse ambiente que amadurece a ideia do livro. José Lins do Rego, à distância, acompanha o sofrimento do amigo. É, por sinal, uma das poucas

pessoas a conhecerem seu segredo e o projeto do tal livro. 12 A carta de 7 de junho de 1932, escrita em Recife, quando já findara o exílio, nos permite conhecer um pouco mais do ambiente físico em que foi redigida a maior parte daquela que seria a obra mais importante de sua vasta e intermitente produção livresca.

Meu querido Lins: Olívio veio hoje me ver aqui nesta velha

casa sua conhecida, do Encanamento, onde estou sozinho, com

um bocado de livros e uns cacos de louça (ilegível) e de

móveis. Daqui quase não saio. Estou mais izolado do que

nunca – sem ler jornaes nem acompanhar as novidades. Só

faço ler e trabalhar no meu livro – o que não é pouco.

Não demora e logo aparece a obsessão pela casa antiga, como a sugerir uma interferência do próprio ambiente físico, e das memórias ali guardadas, das vidas que ali foram vividas, no conteúdo do livro que está a escrever.

Os dias me teem corrido magníficos nessa solidão e nessa

tranqüilidade, mas de noite sinto uma certa tristeza – que

atribuo mais a certas memórias de que está impregnada esta

casa, onde já tanto tenho vivido. Manoel Sant´anna, aquelle

negro de engenho, preto retinto, do tempo de Zé Pedro, diz

que deram para apparecer aqui uns mal assombrados. Era o

encanto que faltava a esta casa.

Este trecho bem poderia constar do livro, sem nenhum prejuízo de sua coerência temática. O amigo José Lins do Rego, a quem se destina a carta, não poderia, claro, estar ausente da empreitada, como colaborador. Aliás, essa colaboração é vivamente cobrada no final da correspondência. No entanto, fica aqui dúvida sobre o real conteúdo dessa colaboração: que “notas” serão essas? Estaria Gilberto Freyre referindo-se ao ensaio que José Lins do Rego escrevera a seu respeito?

Você vindo ao Recife pode passar uns dias comigo aqui.

Minhas notas? Não seja safado: mande as notas. Você não

prometeu? Si queria fazer safadeza por que prometeu?

Depois da publicação de Casa-grande & senzala, o romancista José Lins do Rego, que estreara um ano antes, 1932, com Menino de engenho, apressa-se em contar ao amigo o que achou do livro, chegando, inclusive, a sugerir-lhe um acréscimo:

Logo no dia em que vocês saíram recebi o seu livro. E com ele

me curei das saudades suas. (...) Não sei falar de seu livro

porque até hoje não li coisa melhor, nem parecida. Esta é que é

a verdade. Lastimo que no Brasil não exista ambiente para

elle. Havia uma história sobre índio que me contavam eu

criança que talvez lhe servisse para o segundo capítulo

(J.L.R, 1933).

E passa a contar a história de um índio que desejou furar o céu com uma lança.

Em 29 de novembro de 1938, Gilberto Freyre demonstra estar preocupado com a prolixidade da produção literária do amigo, que, àquela altura já publicara sete romances e parecia dar sinais de esgotamento, latentes na repetição de temas e personagens.

Já lhe devo ter dado minha impressão de Pedra bonita que

acho bom, mas não dos seus romances mais fortes – acima de

Moleque Ricardo, por certo, mas não no nível de Bangüê –

para falar no mais romance dos outros. Si eu fosse V. não me

deixaria levar por essa história de fecundidade e me

concentraria para a produção mais demorada de um romance

onde não houvesse repetição.

Mas o seu amigo, sempre tão receptivo, desta vez não segue o conselho e avisa:

Eu nada tenho feito. Mas preciso não seguir o seu conselho e

fazer um novo romance. É preciso aproveitar o resto de

mocidade (J.L.R.).

Assim, em 1943, é com orgulho que José Lins do Rego comunica a conclusão de um livro. Parece ter a clara percepção de haver produzido uma obra-prima e não apenas mais um romance. Chegamos aqui, no meu entender, a um dos pontos altos desse diálogo através de cartas. Temos a sensação de que, pela negação, José Lins do Rego parece ter afirmado a sugestão do “mestre de Apipucos”, acima transcrita, realizando-a plenamente. O novo livro, com efeito, vem assinalar certa ruptura com o viés narrativo até então adotado nos textos sobre o mundo dos engenhos. O olhar do narrador, no novo romance, tornara-se menos telúrico ou idealizador; ficara mais denso, dramático, expurgado dos excessos edulcorados do primeiro livro. Eis, enfim, a obra da maturidade, saída da escrita de um homem que, há não muito tempo, confessara ser um homem vazio, incapacitado de realizar qualquer coisa que fosse minimamente séria:

Ontem acabei o meu novo romance. Nada lhe posso dizer. Fiz

de herói do livro um (trecho ilegível) de engenho, o Capitão

Vitorino Carneiro da Cunha, vulgo Papa Rabo. Não sei se

consegui vencer as dificuldades mas procurei dar ao meu

velho Papa Rabo, um relevo de Quixote dos canaviais. É um

tipo que diz tudo o que sente e que de nada tem medo. Tudo se

passa no Engenho de Seu Lula, aquele (trecho ilegível) de

que falo em “Bangüê” e “Menino de Engenho”. O livro se

chama “Fogo morto”. A sugestão do engenho parado me deu

o título.

Livros, livros. Sempre presentes, comentados, inclusive os alheios, ainda em elaboração: O Sérgio está escrevendo um livro sobre o Brasil que parece ser bem interessante (JLR, 1936). Gilberto Freyre afirma querer publicar o tal livro, que não é outro senão Raízes do Brasil, como primeiro volume de uma coleção, chamada Documentos Brasileiros, sob sua direção, por ser um estudo intenso, sério e profundo sobre um assunto.

Em vários momentos é possível encontrar temas e assuntos claramente sugeridos pelas origens sociais e familiares de ambos. Assim, a figura do avô ou do velho tio desaparecido ou, ainda, a perspectiva de tornar-se, por herança, um senhor de engenho, antecipam a matéria dos romances e ensaios de interpretação sociológica que ainda escreverão. As cartas, portanto, também revelam os estímulos reais da criação literária, aqueles momentos e situações que pedem o registro e a escrita.

Vejamos alguns exemplos. Em carta escrita no dia 29 de maio de 1924, podemos ler uma interessante reminiscência onde quem recorda e escreve parece conduzido pela vontade de contar o que viveu ou, mais precisamente, deixou de viver, apresentando um personagem real que, mesmo ausente – talvez por isso mesmo – carrega um incrível potencial como tema literário.

Bôa figura de senhor de engenho deve ter sido aquelle seu

avô. Eu não sei qual é o gosto de ter um avô: o materno já era

morto quando eu nasci e o paterno morreu quando eu era

muito pequeno. O último morreu senhor de engenho. Só tenho

recordações da minha avó materna. Tinha 8 ou 9 anos

quando ella morreu e chorei muito. Gostava muito della

(GF).

Inevitável aqui a lembrança do romance Bangüê, escrito dez anos depois onde, também através de uma carta, vemos aparecer o personagem Mário Santos sugerindo ao narrador, Carlos de Melo, o aproveitamento literário da figura do senhor de engenho: “O assunto é o mais sugestivo” (REGO, 1993, p.23); não esquecer, também, a motivação inicial da dissertação de mestrado de 1922, discutida no capítulo anterior. A presença dos avós, ou de outros parentes mais velhos, principalmente do patriarca dos engenhos, é valorizada em muitos outros momentos:

Cuidado com a tendência para glorificar a mocidade e

escrever a palavra com m grande. (...) Um mundo sem avós,

como uma casa ou uma família onde não há avós, é um mundo

incompleto (GF, 02/08/1931).

Em outro instante significativo dessa valorização da idade provecta, encontra-se um lamento pela perda de um parente querido, um tio que morreu velho, onde claramente se anunciam a atmosfera de decadência e o clima nostálgico que marcarão os romances do escritor que ,em 1925, se apresentava como uma promessa:

Tenho passado dias bem tristes com a morte do meu tio

Henrique. Com ele morre o melhor de minha família, o único

que podia continuar o meu avô. Deixa-me uma grande

saudade. Você quando o viu já estava ele acabado (J.L.R,

24/06/1925).

Antes de escrever sobre engenhos, José Lins do Rego viveu a expectativa de tornar-se um respeitável proprietário: O inventário do meu avô que será no dia 28 decidirá sobre todos os meus negócios (08/1924), ou, em 30 de setembro de 1924, quando, escrevendo da Villa da Cruz do Espírito Santo, anuncia: Estou preparando-me para tomar conta do Engenho. Para o ano serei finalmente ‘senhor de engenho’. Em janeiro de 1925, podemos surpreendê-lo indignado com o preço de uma propriedade que pretende adquirir no município de “Areias”. Escreve então ao amigo propondo-lhe uma sociedade que venha a viabilizar a aquisição do sítio:

Meu caro Gilberto: anda por aqui o Olívio que me deu

notícias suas. (...) Muito me seria agradável a sua companhia

para o sítio de ‘Areias’. A sua companhia e a sua sociedade.

Depois, revela-se um comprador duro na queda, regateador, daqueles que realçam os defeitos do bem – no caso, terras – para adquiri-lo por um preço mais convidativo:

O pior é que o Horácio de Almeida insiste em não vender o

sítio por menos de cento e cincuenta contos. Além de ser um

alto preço, acima do valor das terras, a praga já invadiu os

cafezais. Entretanto, até cento e vinte contos eu dou.

Esta não é a única proposta de sociedade que encontramos nas cartas. Outras aparecem bem mais expressivas quando vistas sob o ângulo da parceria intelectual. São constantes os convites para que um colabore na pesquisa do outro, para que participe da redação de um ensaio, que opine sobre o livro que está sendo lido, ou escrito, pelo amigo, que compareça com o empréstimo de uma obra rara, que ajude na busca de uma fotografia antiga, etc.

Você costuma ter relações com o Príncipe filho de D. Luís,

por intermédio daquele (ilegível). Pois veja si me obtem do

fruto de D. Luís cópias de manifestos, cartas e (ilegível) que

provem o interesse dele pela questão social no Brasil, seu

interesse e sua visão da questão operária, etc; inclusive

correspondência com Oliveira Lima, Euclides, etc. Isto para

Ordem e Progresso (G.F. 22/09/1947).

Há uma carta, cuja data não nos foi possível identificar, que revela de maneira lapidar essa presença mútua nas pesquisas. Infelizmente, os muitos trechos ilegíveis do documento não permitem um aproveitamento mais substancial do seu conteúdo. Mesmo assim, acreditamos ser interessante transcrevê-la naqueles trechos onde ficam mais evidentes as intenções de comunicar os passos de uma viagem de pesquisa que o emissor vinha de realizar. São fragmentos que não estariam deslocados – pelo contrário – se aparecessem no diário de campo de um etnólogo:

Fui domingo a Porto Calvo. Uma viagem deliciosa (trecho

ilegível) debaixo dos coqueiros e atravessando uma zona

muito habitada até Porto de Pedras. De lá a Porto Calvo a

estrada atravessa uma região de barrancos e de vales de

alagadiços. Porto Calvo fica num alto dominando a

confluência de quatro rios perenes. Existe lá, dos tempos

coloniais, a Igreja que tem a data de 1610. A cadeia é um

prédio muito bonito, de linhas simples e desmentindo os

calabouços que dizem ser todas as prisões do interior. As

salas do presídio são amplas e bem iluminadas. Fui ao

archivo do escrivão José Bonifácio. Do ano de 1850 para

cá esta em relativa ordem. O que é mais antigo está uma

verdadeira lama, tudo misturado em tulhas de papéis ruídos e

apodrecidos. Sobre vendas e (ilegível) de negros há muita

coisa. Mandei pedir para os meus parentes a tal carta.

Procure (ilegível) que elle tem o livro de notas do meu

tataravô, o velho José Lins Cavalcante de Albuquerque

(J.L.R).

No final dessa carta aparece uma referência ao livro Casa-grande & senzala, o que permite que possamos imaginá-la escrita ainda na década de trinta. Provavelmente, José Lins do Rego estivesse atendendo a um pedido que Gilberto Freyre, este pesquisador obsessivo, lhe fizera em carta de 18 de janeiro de 1934, a primeira, aliás, escrita depois da publicação da referida obra: Veja que informações me dá – informações exatas – sobre o Tabuleiro dos Pretos.

Na carta seguinte, de 27 de janeiro, ficamos sabendo que José Lins do Rego, desta vez, foi bastante prestativo no atendimento. Mas Gilberto Freyre quer mais:

Meu querido Lins: recebi suas duas cartas e as informações

sobre o Tabuleiro dos Negros. Antes que me esqueça: qual é

aquelle nome pitoresco que os negros dão aos brancos no

interior de Alagoas? Não se esqueça de me mandar dizer.

Outra coisa: V. tem os annaes do Congresso agrícola de 1878

– do Sul ou do Norte? E veja si obtem a carta.

Agradecido, Gilberto Freyre coloca sua biblioteca à disposição de José Lins do Rego, para que possa auxiliá-lo em suas pesquisas para o livro que pretendia escrever sobre José Gomes, o grande bandido dos canaviais, conhecido pela alcunha de “O Cabeleira”. José Lins do Rego não chegou a concretizar esse projeto, assim como não publicou o estudo – uma biografia – que efetivamente chegou a escrever sobre o amigo. As cartas deixam claro que, neste caso, foi o próprio Gilberto Freyre quem sugeriu a não publicação: pareceu-lhe apologético demais, além de não expressar a verdadeira vocação do amigo, que seria a de romancista.

Uma coisa que tenho para lhe dizer é que por aqui começa a se

saber da sua biographia adiantando-se até que V. está a

publicá-la. Por favor não faça isso, eu lhe peço

(G.F./22/09/1930).

A grande proposta de parceria revelada pelas cartas nos mostra Gilberto Freyre simplesmente convidando o amigo para dividir com ele a tarefa de redação do terceiro volume da série que estava escrevendo sobre a formação da sociedade brasileira, iniciada com o livro de 1933. É uma revelação importante. Gilberto Freyre, doente, escreve Sobrados e mucambos, o segundo volume da série. Em 5 de novembro de 1934, queixa-se ao autor e amigo paraibano:

Eu continuo com algum olho mau em cima de mim. Depois da

doença séria, que me botou de cama e me obrigou a regimem,

me apparece agora um furúnculo no braço, que me dói (...) e

me atraza no livro terrivelmente. Não esqueça que o próximo

livro – o 3º da série – vai ser (ilegível) por nós dois,

ilustrações de Cícero. Será o tal estudo sobre o 1900

brasileiro. Vamos ver, entretanto, si consigo este 2º, que está

sendo perturbado e atingido de todos os modos.

Por uma dessas situações a que nos submetemos durante qualquer pesquisa, aqui a carta torna-se ilegível no exato instante em que o remetente esclarece o seu amigo sobre o tal livro, “terceiro da série” e que não deve ser esquecido. Mas não pode haver dúvidas: é um momento eloquente do diálogo entre o senhor da casa-grande e o menino do engenho, e qualquer leitor atento e com um mínimo de conhecimento prévio sobre a obra dos dois escritores terá percebido o convite feito por Gilberto Freyre a José Lins do Rego para escrever o livro que chamar-se-á Ordem e progresso. Infelizmente, não encontramos na correspondência do autor de Usina, nenhuma referência ao assunto. Ficamos, então, sem saber o porquê da parceria, nesse caso, não ter se concretizado.

Em vários documentos se pode ver a posição assumida quanto a acontecimentos da conjuntura política, como nessa carta de 1924, em que aparece um comentário acerca dos levantes tenentistas ocorridos no Rio Grande do Sul e em São Paulo contra o governo do presidente Arthur Bernardes:

Parece-me um tanto sombria a situação no sul. Leu minha

nota sobre a revolta? Parece que perdemos de todo o senso

de ordem. Diabo de liberalismo e diabo de espírito de

rebelião! A revolução é por certo um direito extremo: porém

nunca um direito de militares. Nunca (GF).

Prenunciavam-se aí, talvez em suas raízes mais tenras, as posições políticas conservadoras que o seu autor ainda assumiria ao longo de sua provecta vida.

Como já mencionamos no primeiro capítulo deste estudo, o escritor Gilberto Freyre e a sua obra terão diferentes recepções em momentos distintos da história política do Brasil do século 20, de acordo com os posicionamentos do cidadão Gilberto Freyre. As cartas, principalmente as escritas durante a década de quarenta, registram de forma recorrente, quase exaustiva, um desses momentos. Durante o Estado Novo (1937-1945), perseguido em Pernambuco como “perigoso comunista”, Gilberto Freyre terá artigos censurados nos jornais locais, sofrerá agressões físicas, terá a casa invadida, livros queimados e passará por sérias dificuldades financeiras, tendo, inclusive, em várias ocasiões, buscado o auxílio financeiro do amigo paraibano. Nesse período, até algumas cartas enviadas para José Lins do Rego chegaram a ser censuradas:

Querido Lins: recebi hoje carta sua. Não é exato que não lhe

tenha escrito: é que os esbirros do amarello comeram a carta.

(...) A atitude dos amarelinhos continua igual. Aníbal com

ordem de não publicar meu nome. Os outros jornais também.

E além dessa ordem, o Jornal do Comércio recebe da própria

polícia artigos de insulto a mim com a ordem de publicar com

urgência (G.F., 25/08/1942).

José Lins do Rego consegue descobrir quem está censurando as cartas do amigo. Em carta bastante agressiva, certamente expressando o momento político violento por que passam – Estamos vivendo a guerra – o tal censor, cujo nome será aqui omitido, embora esteja bastante legível, é chamado pelo autor paraibano de “ boca de latrina”. As perseguições culminam no dia 11 de junho de 1942 com a prisão de Gilberto Freyre, juntamente com o seu pai, professor Alfredo Freyre, em Recife.

E quem intercederá em seu favor junto às altas autoridades da república? Claro: o amigo Zé Lins.

Eis outro grande momento da troca de cartas. Ainda que a que vem a seguir não tenha sido direcionada ao interlocutor habitual, que se encontrava preso, revela toda indignação com o fato e, ao fazê-lo, presta solidariedade, tudo movido pelo mais belo sentimento da amizade, como se estivesse a dizer que nem a prisão e o isolamento de um dos interlocutores seriam capazes de interromper o diálogo:

Interventor Cordeiro de Farias (Porto Alegre)

O nosso amigo Gilberto Freyre foi preso Recife com o seu

pai professor Alfredo Freyre, recolhido cadeia pública.

Apelo para você sentido corrigir monstruosa injustiça.

Motivo prisão seria um artigo publicado Gilberto onde o

grande brasileiro chamava atenção para perigo quinta coluna.

Envio correio ahi o referido artigo.

Abraços, José Lins do Rego.

Eram, aqueles, tempos de ditadura. O governo Getúlio Vargas (1930-1945), nascido de um movimento que deslocara do poder as elites imemoriais das casas-grandes, chamara para si a tarefa de regulamentar as relações entre o capital e o trabalho. Para isso, criou e controlou sindicatos, fechou associações políticas à direita e à esquerda, criou partidos e instaurou a censura oficial através do famoso Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). É este o contexto que circunda alguns momentos flagrados nas cartas, onde se pode sentir a força de figurações sociológicas sobre a vida do indivíduo.

Eis que mudam os tempos e, dentro deles, os indivíduos. Em outros momentos, quando o mundo criado pelo português , aqui e além-mar, encontra-se, mais uma vez, sob o obscurantismo, o “perigoso comunista” da década de quarenta – em verdade, uma ficção – que escrevia livros renovadores e fazia pesquisas sobre as condições de vida dos trabalhadores das usinas de Pernambuco, por isso preso em junho de 1942, irá emprestar todo o seu prestígio intelectual e a relevância da sua obra a uma ditadura fardada que iria aprofundar um processo de modernização capitalista, chamada conservadora e excludente. É assim que a cultura brasileira passa pelo constrangimento de ver um dos seus principais formuladores atuando como conselheiro de um partido político destinado a conferir laivos de vida política democrática a um dos governos mais repressores da nossa história, o governo Médici (1969-1974). Sociedade civil e Estado, nesse período, não falam a mesma língua, não dialogam. Mas aí já cessara, também, desde 1957, o diálogo entre o senhor da casa-grande e o menino de engenho, provocado pela morte deste último.

Mas, chega de silêncio. É hora de reinstaurar o diálogo. Voltemos, então, às cartas, mesmo que elas sejam tristes e falem de dores e perdas.

No capítulo das doenças e das mortes, por sinal, bastante longo, sente-se a presença dos amigos em mais momentos de solidariedade. O diálogo, nesses instantes de dor e de perda, torna-se mais prolixo em suas demonstrações, em suas buscas de compensação; ganha em densidade humana.

Querido Lins: recebi hontem sua carta. Há tempo sem carta

sua, tenho entretanto pensado muito em V. Nosso querido

Ulysses ainda muito mal.

Veja si nosso Silva Mello o salva. Diagnóstico incerto, a

pobre medicina no escuro. (...) Será que Ulysses está mesmo

se acabando assim estupidamente? É um pensamento terrível

(GF, 14/11/1942).

O Ulysses em questão é irmão de Gilberto Freyre. Em sua casa, conforme visto anteriormente foi concluída a redação de Casa-grande & senzala. A resposta a essa carta vem acrescentar um personagem à lista particular dos doentes de cada um dos amigos:

Meu querido Gilberto: estou há dias para lhe escrever mas

sem coragem, sem força. (...) Não pode você imaginar como

me abalou a notícia da doença de Ulysses. (...) Eu é que vou

mal com a doença de Naná que continua bem doente (JLR).

Trata-se, no caso, da mulher de José Lins do Rego, Filomena Massa, conhecida por Naná, que irá aparecer ainda em várias outras cartas do marido: Naná continua na casa de saúde e a vida para mim cada dia que se passa mais desagradável me fica. Em outro momento, sãos os gastos com as frequentes internações de sua mulher que o preocupam: As despezas são enormes para quem tem três filhas moças e mulher em casa de saúde cara.

Os dois autores queixam-se muito das próprias doenças. Podemos vê-los acometidos de males do sistema nervoso, dos rins, infecções urinárias, depressão, etc. É claro que os problemas de saúde interrompem, em diversos momentos, a produção de livros e ensaios.

Um dos instantes mais belos e sofridos do pacto epistolar é marcado pela perda de Dona Francisquinha, mãe de Gilberto Freyre. Este escreve em busca de conformação e de conforto; afinal, o amigo para quem escreve era, de certa forma, também ele, filho da falecida:

Querido Lins: não sei o que lhe escrever. Só que seu melhor

amigo está sofrendo e muito. Mais de quinze dias e não me

vem a resignação que peço inutilmente a Deus pela perda

daquela que tantas vezes brincando nós chamávamos

“velhinha minha mãe”. Parece mentira que a tenhamos

perdido – ela que de todos nós era a mais moça, a mais cheia

de gosto pela vida, a mais animada. (...) É uma dor bruta,

grossa. Não sei de amigo meu de quem ela gostasse mais do

que de V. (G.F., 17/08/1943).

Nem só por coisas tristes são inscritas as cartas. Há espaço para a alegria, para a comunicação de êxitos editoriais, convites para festas, viagens, felicitações de natal, o crescimento dos filhos, mudanças de casa, etc. Assim como nos momentos de tristeza, nos de alegria os amigos sentem-se próximos e desejam compartilhá-los; sentem orgulho e prazer com o sucesso do outro. É o que demonstra, por exemplo, a carta escrita por Gilberto Freyre no dia 25 de julho de 1934, em Belo Horizonte, em que comenta o sucesso do amigo:

Tenho visto muita coisa de interesse para os meus estudos de

história social do Brasil. (...) Mas todos estão cheios de

admiração por V. Nas rodas mundanas (ilegível) de uma

admiração quasi mystica pelo grande romancista que o norte

afinal deu (como era do seu dever) ao Brasil.

Ou José Lins do Rego, ao voltar de viagem à Argentina, onde pudera sentir, também por lá, o sucesso editorial do amigo:

Querido Gilberto: um grande abraço. Aqui cheguei de

Buenos Aires e ainda não tomei pé nas coisas. (...) Em toda

a parte por onde estive na Argentina fui encontrando o seu

nome.

As cartas trazem impressões dos amigos sobre as festas populares das quais participam:

Amanhã, carnaval. É sempre a coisa mais gostosa da vida

neste Brazil. Muitos requintados acham o carnaval uma

vergonha. Eu não concordo com isso não. O carnaval mostra

que o povo brasileiro é uma gente boa (G.F., 26/02/1927).

Podemos acompanhar aspectos da vida familiar, do casamento, das preocupações cotidianas dos pais em relação à saúde e crescimento e educação dos filhos:

Sonia Maria já é uma companheirinha boa. Dorme bem a

noite e de dia o trabalho que dá compensa-o com a alegria de

que já enche toda a casa (GF, 05/12/1942).

As minhas meninas estão melhorando de saúde. Estão mais

fortes. A sua amiga, a espanholita, muito engraçada. É pena

que o padrinho Olívio não se lembre dela para um presente.

(J.L.R., 1934).

A última carta, de 14 de dezembro de 1956, escrita num pequeno pedaço de papel, parabeniza José Lins do Rego por haver tomado posse na Academia Brasileira de Letras: Ao querido José Lins do Rego, os 5 Freyres de Apipucos, todos seus amigos e admiradores, enviam um grande, enorme abraço.

Nove meses depois, morria o escritor paraibano. O pacto epistolar estava encerrado.

Ficavam, no entanto, as obras que, muitas vezes tiveram ali, nas cartas, o seu registro de nascimento, o seu primeiro testemunho, às vezes sereno, às vezes tenso, às vezes pessimista. As cartas que viram nascer alguns dos romances e ensaios mais importantes da literatura e da sociologia contemporâneas do Brasil constituem para os pósteros, é o que esperamos haver ficado claro nas páginas precedentes, um momento privilegiado para a compreensão de como se foi constituindo, ao longo dos anos, a vida e a obra de dois grandes nomes dessa literatura e dessa sociologia. Sempre dialogando e buscando ouvir o outro. Sempre receptivos ao outro. Sempre ligados pela imensa amizade – bela, generosa, como poucas de que se tem notícia nesse meio onde, muitas vezes, imperam as vaidades e as disputas mais mesquinhas – que os uniu durante toda a vida.

Ficavam registradas também parte de suas memórias e do solo onde fincaram as raízes e a substância dos seus livros. Livros que são a outra parte desse diálogo, expressão das afinidades eletivas entre os autores, desta feita inscritas em páginas de romances.

É o que veremos no próximo capítulo.

 

FOTO 7 - José Lins do Rego, Otavio Tarquinio de Souza, Paulo

Prado, José Américo de Almeida e Gilberto Freyre. 1938

FONTE: Acervo da Fundação Gilberto Freyre. Recife – PE.

IMAGEM 1 - 11 de junho de 1942. Gilberto Freyre é preso no Recife.

José Lins escreve ao Interventor Cordeiro de Farias para protestar

contra a prisão do “grande brasileiro”

11 A ideia de “pacto epistolar” nos é sugerida por Ângela de Castro Gomes, e consiste, resumidamente, em “receber, ler, responder e guardar cartas” (GOMES, 2004, p.19).

12 Sobre a condição de emigrado em Lisboa, 1931, e o segredo, veja-se este depoimento: “Por mais de um ano, após a vitória dos políticos – uns autênticos homens de bem, outros velhacos fantasiados de catões – que em outubro de 1930 empolgaram o poder no Brasil, estabelecendo um novo tipo de governo, fui obrigado a conservar-me aventurosamente no estrangeiro. [...] Veio-me então a idéia de escrever um trabalho que abrisse novas perspectivas à compreensão e à interpretação do Homem através de uma análise do passado e do ethos da gente brasileira [...] mas conservando o meu plano em segredo quase absoluto. Tanto que, no Brasil, apenas o comunicara a Teodoro Sampaio – com quem me correspondera sobre o assunto, depois de ter conhecido pessoalmente tão ilustre mestre – a Manuel Bandeira, poeta, a José Lins do Rego (grifo meu) e a José Maria Carneiro de Albuquerque” (FREYRE, 1968, p.126-127).