Guerra e Paz
Segunda Parte
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
A noite fechara-se por completo. O céu coberto de estrelas e de tempos a tempos via-se surgir a Lua através de uma cortina de fumo. Ao descerem para o Dniepre, os carros de Alpatitch e da mulher do estalajadeiro, que avançavam, a passo, entre duas filas de soldados e viaturas, foram obrigados a parar. Não longe da encruzilhada onde fizeram alto, uma casa e uma tenda ardiam ainda. O incêndio principiava a extinguir-se. Tão depressa as chamas esmoreciam, perdendo-se numa fumarada negra, como se punham a crepitar de súbito, iluminando, com uma nitidez fantástica, as figuras dos fugitivos acumulados na estrada. Por diante das chamas perpassavam silhuetas negras e no meio do crepitar ininterrupto do fogo ouviam-se vozes e gritos. Alpatitch apeou-se e, vendo que o caminho não estaria desimpedido tão depressa, dirigiu-se à encruzilhada para contemplar o fogo.
Os soldados andavam de um lado para o outro diante do braseiro. Viu que dois deles, acompanhados de um homem com um capote pelos ombros, arrastavam pela rua, em direcção a um Pátio vizinho, pranchas a arder. Outros traziam braçados de feno.
Alpatitch aproximou-se de um grande ajuntamento estacionado diante de um vasto estabelecimento que ardia a bom arder. As paredes estavam envoltas em chamas, a retaguarda ruía. O telhado de folhas de madeira estava prestes a cair, as pranchas ardiam. A gente aguardava, sem dúvida, que o telhado viesse abaixo. Alpatitch esperou também.
— Alpatitch! — gritou de repente uma voz conhecida.
— Excelência, paizinho! — exclamou ele, ao reconhecer imediatamente a voz do seu jovem amo.
O príncipe André, envolto numa capa e montado num murzelo, estava no meio da multidão, de olhos fitos nele.
— Que estás aqui a fazer? — perguntou.
— Exce... excelência... — balbuciou Alpatitch, rompendo a chorar. — Exce... excelência... É possível que estejamos perdidos? Paizinho...
— Que estás aqui a fazer? — repetiu André.
Naquele momento reavivaram-se as chamas e Alpatitch pode ver o rosto pálido e esgotado do seu jovem amo, Contou ao que viera e como não podia dali sair.
— É verdade. Excelência, que estamos perdidos? — repetiu ele.
O príncipe André, sem lhe responder, puxou de uma carteirinha de algibeira, arrancou-lhe uma página e em cima do joelho pôs-se a escrever a lápis estas palavras, dirigidas à irmã:
«Smolensk rendeu-se. Lissia Gori será ocupada pelo inimigo dentro de oito dias. Partam imediatamente para Moscovo. Avisa-me em seguida da data da vossa partida, enviando-me um portador a Usviage.»
Depois de ter entregue o papel a Alpatitch, deu-lhe oralmente instruções sobre os preparativos da partida do príncipe, da princesa e do filho, com o seu preceptor, e sobre a resposta que lhe devia ser remetida imediatamente. Mal acabara de falar, um dos chefes do estado-maior, a cavalo, e seguido de uma comitiva, precipitou-se para ele.
— É o senhor o coronel? — Fritou, com um sotaque alemão não de todo desconhecido do príncipe André. — Estão a deitar fogo às casas na sua presença e o senhor nada faz para o impedir? Que quer isto dizer? O senhor é o responsável...
Era Berg, então subchefe do estado-maior do flanco esquerdo da infantaria do 1º exército, «posição muito agradável e de destaque», como costumava dizer.
O príncipe André fitou-o, e sem lhe responder continuou para Alpatitch:
— Diz-lhe que espero resposta até ao dia 10, e se nesse dia não receber comunicação de que toda a gente abalou, ver-me-ei obrigado a deixar tudo para ir pessoalmente a Lissia Gori.
— Príncipe, falo-lhe assim — disse Berg, reconhecendo-o — Porque sou obrigado a cumprir as ordens que recebo e desempenho-as sempre escrupulosamente... Desculpe-me, se faz favor...
Alguma coisa crepitou no meio das chamas, que pareciam esmorecer, e turbilhões de fumo negro romperam do telhado.
Outro estrondo ainda maior se ouviu e o telhado desmoronou-se.
«Hurra!», ululou a multidão ao ouvir o estampido, O telhado do estabelecimento ruíra, espalhando em torno um forte cheiro a pão queimado. As chamas reavivaram-se de novo, iluminando os rostos fatigados da multidão extenuada que rodeava o braseiro.
O homem do capote gritou, erguendo os braços ao ar: — Muito bem! Bom trabalho! Assim mesmo, rapazes!...
— É o proprietário! — exclamaram algumas vozes de entre a multidão.
— Bom! Está entendido! — prosseguiu o príncipe André — Repete-lhes tudo tal qual eu te disse. — E sem dar atenção a Berg, que permanecia silencioso junto dele, esporeou o cavalo e desapareceu por uma azinhaga.
[V]
Depois da queda de Smolensk, as tropas russas continuaram sua retirada, perseguidas pelo inimigo. No dia 10 de Agosto o regimento comandado pelo príncipe André passou, seguindo pela estrada principal, junto do caminho que conduzia a Lissia Gori.
O calor e a seca duravam havia mais de três semanas. Todos os dias grossas nuvens perpassavam pelo céu, escondendo o Sol de vez em quando. Mas para o fim da tarde o firmamento clareava e o Sol desaparecia no horizonte no meio de uma neblina avermelhada. Só o rocio da noite refrescava a terra. O trigo que não fora ceifado secava e o grão caía. Os pântanos tinham secado. O gado morria de fome, sem encontrar pastos nos prados restados pelo sol, Só de noite, e nas florestas, enquanto durava a humidade nocturna, fazia fresco. Mas na estrada real, por onde seguiam as tropas, até de noite, até mesmo no meio das florestas, o calor era insuportável. Não se dava pelo rocio da noite na poeira dos caminhos, de mais de um quarto de archina de altura. Mal luzia a manhã, logo recomeçava a marcha, Os comboios, a artilharia, rolavam sem ruído, enterrados até aos eixos, e a infantaria metia os pés, até à barriga da perna, na poeira mole, sufocante, que nem de noite arrefecia. Parte daquela poeira trituravam-na os pés dos soldados e as rodas das viaturas e a outra subia no ar, formando uma nuvem por cima das tropas e metendo-se pelos olhos dentro, por dentro dos cabelos, pelo nariz e sobretudo pelos pulmões dos homens e dos animais. À medida que o Sol ia subindo no horizonte mais espessa se tornava a nuvem! de poeira, a qual, à falta de verdadeiras nuvens, permitia aos soldados fitar o Sol o olho nu. Então o disco solar parecia um enorme globo carmesim. Não havia vento, e os soldados sufocavam nesta atmosfera imóvel. Era preciso marchar com um lenço diante do nariz e da boca. Ao atravessarem as aldeias precipitavam-se para a abertura dos poços. Disputavam a água a murro c às vezes até bebiam lama.
O príncipe comandava um regimento e, a administração e o bem-estar dos seus homens, a necessidade, de receber e transmitir ordens, tomavam-lhe o tempo todo. O incêndio e o abandono de Smolensk representavam uma época importante da sua vida. Um sentimento de ódio contra o inimigo fizera-o esquecer o seu desgosto. Entregava-se inteiramente ao cumprimento das suas funções. Preocupava-se com os soldados e os oficiais. Todos lhe chamavam o «nosso príncipe»: orgulhavam-se dele e estimavam-no muito Mas só era bom e afectuoso com os homens do seu regimento, como Timokine e outros, gente nova para ele, gente de um meio desconhecido, que nada podia saber do seu próprio passado. Nas suas relações com os seus antigos conhecimentos, com a gente do estado-maior, tornava-se imediatamente intratável: era desagradável, irónico e altivo. Tudo quanto lhe lembrava o passado lhe repugnava, e em relação às pessoas do seu antigo meio limitava-se a usar da mais estrita justiça e a cumprir meramente os seus deveres.
Em verdade, a seus olhos tudo se lhe representava sombrio e triste, principalmente depois de 6 de Agosto, dia da rendição de Smolensk, cidade que na sua opinião podia ter sido defendida e se devia ter defendido, e depois que seu pai, doente, tivera de fugir para Moscovo, abandonando à pilhagem Lissia Gori, propriedade a que tanto queria e que ele próprio construíra e povoara. Mas, apesar de tudo, o príncipe André, graças ao seu regimento, tinha o espírito preocupado com outras coisas, bem diferentes de todas essas tristezas, A 10 de Agosto a coluna de que o seu regi— mento fazia parte chegou a alturas de Lissia Gori. Dois dias antes recebera a comunicação de que o pai, o filho e a irmã haviam partido para Moscovo. Embora, realmente, nada tivesse que fazer ali, resolveu, movido por essa tendência especial do seu carácter que o levava a apreciar dolorosas alegrias, visitar aqueles lugares.
Mandou selar o cavalo e dirigiu-se à aldeia de seus pais, onde ele próprio nascera e onde decorrera a sua infância. Ao passar junto do tanque em que habitualmente dezenas de mulheres lavavam a roupa chalreando, notou que não havia vivalma e que uma tábua arrancada da borda, quase submersa, flutuava no meio da água. Aproximou-se da casa do guarda. Junto do portão de pedra da entrada ninguém havia e a porta da casa estava aberta, As áleas do parque estavam cobertas de relva e os bezerros e os cavalos deambulavam pelo jardim à inglesa. Na estufa os vidros estavam partidos e algumas plantas caídas por terra e outras secas... Chamou Tarass, o jardineiro, mas ninguém lhe respondeu. Rodeando a estufa pelo terraço, notou ao passar que a balaustrada de madeira entalhada estava partida e que os ramos das ameixieiras, sem frutos, jaziam quebrados no chão. Um velho camponês, que o príncipe de há muito conhecia, estava, junto do portão, sentado num banco verde entrançando laptis.
Era surdo e não dera pela chegada do amo. Estava acomodado no banco em que o velho príncipe gostava de sentar-se, e junto dele, suspensas dos ramos de uma magnólia partida e seca, viam-se as meadas de cânhamo.
O príncipe André dirigiu-se a casa, Tinham cortado várias tílias do antigo parque, uma égua malhada com o seu potro cirandava, por debaixo das janelas, mesmo pelo meio dos alegretes das roseiras. As portadas das janelas estavam fechadas. Havia apenas uma aberta, em baixo. Ao ver o príncipe André, o filho de um criado entrou correndo em casa. Alpatitch, que mandara família para a cidade, ficara em Lissia Gori, E ali estava a ler Vida dos Santos. Ao saber da, chegada do príncipe André, de lunetas no nariz e abotoando o casaco, tratou logo de vir ao encontro do amo, e sem dizer palavra rompeu a chorar enquanto se abaixava para lhe beijar o joelho.
Depois voltou a cara, arreliado com a fraqueza que mostrara, e pôs-se a contar ao príncipe o que se passara. Tudo o que era precioso e, de valor fora transportado para Bogutcharovo. O trigo, cerca de cem tchetverts, fora levado também para lugar seguro. Quanto ao feno e ao trigo, a colheita da Primavera, excepcional, segundo ele dizia, haviam sido ceifados verdes e levados pelas tropas. Os camponeses estavam arruinados, e parte deles fora também para Bogutcharovo, embora a maioria houvesse ficado.
Sem o ouvir até final, o príncipe André perguntou-lhe:
— Quando se foram meu pai e minha irmã?
Queria dizer: quando saíram para Moscovo. Alpatitch, julgando que ele se referia à partida para Bogutcharovo, respondeu terem partido no dia 7, e de novo voltou a falar dos assuntos do domínio, pedindo instruções.
— Acha que se deve dar às tropas, contra recibo, a aveia que ficou? Ainda há umas seiscentas tchetverts... — inquiriu.
«Que devo eu responder— lhe?», pensava o príncipe André, enquanto filava o crânio do velho, calvo como a palma da mão, brilhando ao sol, e lhe ia lendo na expressão que ele próprio compreendia quão inoportunas eram essas perguntas, que ele as não fazia senão para afogar mágoas.
— Pois sim, entrega-a — replicou.
— Naturalmente reparou na desordem do jardim — prosseguiu Alpatitch. — Não foi possível evitá-la. Três regimentos passaram aqui a noite, principalmente dragões. Tomei nota do posto e do nome do comandante, para apresentar queixa.
— E que vais tu fazer agora? Continuarás aqui se o inimigo ocupar a quinta? — perguntou o príncipe André.
Alpatitch virou a cara para o príncipe, fitou-o e, de súbito, num gesto solene, ergueu os braços ao céu.
— Ele é meu protector, que seja feita a Sua vontade! — exclamou.
Um grupo de camponeses e de criados, todos de cabeça descoberta, avançava através do campo, direito ao lugar onde estava o príncipe André.
— Bom, adeus! — disse este, inclinando-se para Alpatitch — Vai-te embora também. Leva contigo o que puderes e diz aos camponeses que se refugiem ou na propriedade de Riazan ou nas dos arredores de Moscovo.
Alpatitch agarrou uma das pernas do amo, soluçando. O príncipe André desprendeu-se suavemente e, esporeando o cavalo, despediu a galope por uma das alamedas.
No terraço da estufa, tão indiferente como uma mosca pousada no rosto de um morto que nos é querido, continuava sentado o ancião, ocupado a pregar num cepo os seus laptis, e duas pequenitas com as saias arregaçadas, cheias de ameixas colhidas nas árvores da estufa, correram dando de caras com o cavaleiro. Ao ver o patrão novo, a mais idosa, muito assustada, pegou na companheira pela mão e ambas se foram esconder atrás de um álamo, sem terem tempo de apanhar as ameixas verdes que deixaram cair no chão.
O príncipe André deu-se pressa em voltar a cabeça para o lado, para que elas não vissem que ele as observara. Fez-lhe pena aquela linda garota, com o seu ar assustado. Não queria olhar, mas não conseguia. Um sentimento novo, doce e apaziguador o invadiu ao ver aquelas crianças. Compreendeu que outros interesses havia na vida completamente alheios aos seus e tão naturais como os que o preocupavam. Aquelas crianças não tinham evidentemente senão um desejo: levar consigo, para comê-las, aquelas ameixas verdes e não se deixarem apanhar, e o certo é que André, lá no fundo, lhes estava desejando que fossem bem sucedidas na sua proeza. E não resistiu a olhar para elas uma vez mais. Julgando passado todo o perigo saíram do seu esconderijo e, tagarelando nas suas vozitas agudas, de saias arregaçadas, puseram-se a correr alegremente pela relva, de pés descalços tostados pelo sol.
O príncipe André sentira-se um pouco mais fresco ao abandonar a atmosfera poeirenta da estrada real por onde avançavam as tropas. Mas não longe de Lissia Gori teve novamente de meter por ela e foi apanhar o seu regimento junto da comporta de um dique. Eram duas horas da tarde. O Sol, como uma bola vermelha no meio da poeira, escaldava, e as costas ficavam assadas através do pano preto do uniforme. O pó continuava na mesma e mantinha-se imóvel por cima dos soldados, que não cessavam de falar. Não havia vento. Ao passar junto da albufeira, André sentiu nas narinas um cheiro a lodo, e do tanque subiu um pouco de frescura. Teve vontade de se atirar à água, por mais suja que estivesse. Voltou-se para o lado da albufeira donde vinham gritos e risadas. Aquela pequenina extensão de água turva, cheia de juncos, parecia ter crescido mais dois palmos e inundava já a comporta, tantos eram os corpos brancos e nus que nela chafurdavam, de mãos, rostos e pescoços encarnados cor de tijolo. Toda essa carne humana chafurdava entre as gargalhadas e gritos naquele pântano lamacento, como carpas dentro de uma selha. Uma vaga tristeza se derramava daqueles alegres folguedos. Um soldado louro, das relações pessoais do príncipe André, da 3ª companhia, com uma correia na barriga da perna, persignou-se e recuou alguns passos para dar uma corrida e mergulhar na água; outro, um sargento, trigueiro e cabelos sempre revoltos, metido no tanque até à cintura, agitava o busto musculoso, resfolegando alegremente, enquanto salpicava a cabeça com os braços queimados até ao pulso. Só se ouvia chapinhar e gritar.
Nas margens da albufeira, na comporta, no tanque, por toda a parte, só se via carne branca, sã e musculosa. O oficial Timokine, com o seu nariz vermelhusco, enxugava-se com uma toalha em cima da comporta, e, embora um pouco envergonhado ao ver o príncipe André, exclamou:
— Isto faz bem, Excelência, devia fazer o mesmo!
— Está muito suja a água — replicou o príncipe André, fazendo uma careta.
— Vamos já arranjar-lhe sítio. — E Timokine, meio vestido, correu a afastar os banhistas.
— O príncipe queria...
— Quem?, o nosso?... — exclamaram várias vozes, e todos se ajeitaram de tal modo que o príncipe André se viu em apuros para convencê-los a que se deixassem ficar como anteriormente. Preferia proceder as suas abluções debaixo de um te1heiro.
«Carne, corpos, carne para canhão», pensava ele, despindo-se também, e tremendo menos de frio que à lembrança dessa massa de corpos que chafurdava no tanque cheio de lama: sentia ao mesmo tempo desgosto e pavor, embora não soubesse explicar o porquê desses sentimentos.
No dia 7 de Agosto, o príncipe Bragation, do seu acampamento de Mikailovka, na estrada de Smolensk, escrevia a carta seguinte. Endereçada a Araktcheiev, sabia que seria lida pelo imperador, e por isso ponderou cada palavra, pelo menos na medida em que era capaz de o fazer
Sr. Conde Alexis
Suponho que o ministro já o terá informado que
Smolensk foi abandonada ao inimigo. É doloroso e triste, e o exército inteiro está desesperado por ver que a mais importante das nossas praças foi perdida sem qualquer utilidade. Pela minha parte, pedi-lhe, pessoalmente e com o maior empenho, que o não fizesse, e até chequei a escrever-lhe nesse sentido, mas não se demoveu. Juro-lhe pela minha honra que Napoleão se encontrava num atoleiro e que teria perdido metade do seu exército sem tomar Smolensk. As nossas tropas têm-se batido e batem-se como nunca. Pela minha parte, resisti com quinze mil homens durante mais de trinta e cinco horas e venci-os, mas ele nem sequer catorze horas quis resistir. É uma vergonha e uma nódoa, para o nosso exército, e na minha opinião esse homem não tem
direito a vida. Se lhe diz que as nossas perdas são muito grandes, não é verdade. Talvez uns quatro mil homens, não mais, e talvez menos até. Mas ainda que fossem dez mil, que havíamos nós de fazer? É a guerra. As perdas do inimigo, porém, essas são enormes.
Que lhe custava demorar-se mais dois dias? Ao menos o
inimigo ter-se-ia retirado por si, pois a verdade é que já não tinha água para os homens nem para os cavalos. Dera-me a sua palavra de honra de que não recitaria, e eis que me envia uma mensagem dizendo que se ia embora naquela mesma noite. Não se pode fazer a guerra deste modo, e por este andar não tarda, que o inimigo siga ate Moscovo.
Corre por aqui que pensa na paz. Deus nos livre! Depois
de todos estes sacrifícios e de uma retirada tão insensata, pedir a paz? Seria fizer com que o Rússia ficasse toda contra si, e todos nós teríamos vergonha de vestir uma farda. Já que as coisas chegaram a este ponto é preciso que lutemos enquanto a Rússia puder e enquanto houver homens.
É mister que o comando esteja na mão de um, e não nas
de dois. O seu ministro talvez seja excelente no exercício das funções da sua pasta, mas como general não é apenas mau, é mesmo péssimo. E a ele confiaram o destino da nossa pátria... Sinceramente, estou doido de indignação. Perdoe-me a ousadia das minhas palavras. É evidente que não gosta do seu imperador e que não deseja outra coisa senão a nossa perdição aquele que aconselha que se peça a paz e quer que o ministro seja o único a comandar. Por isso lhe digo a verdade: organize a milícia. De outra forma, o ministro acabará, de maneira magistral, por levar consigo o seu hóspede ale Moscovo. O senhor Vatltzofen, general ajudante-de-campo do imperador, não é visto com bons olhos pelo exército. Há quem diga que e mais fiel a Napoleão que ao nosso monarca e no entanto é o maior conselheiro do
ministro. Quanto a mim, obedeço-lhe como um cabo, embora mais antigo do que ele. É triste, mas é por lealdade para com o meu benfeitor e soberano que me submeto. No entanto, não posso deixar de lamentar que o nosso imperador confie o seu magnífico exército a semelhante pessoa. Imagine que na nossa retirada perdemos mais de quinze mil homens por esgotamento e hospitalizados, coisa que não teria acontecido se tivéssemos caminhado em frente. Diga-lhes aí, por amor de Deus, que a nossa Rússia, a nossa mãe, acabará por acusar-nos de termos medo e de entregarmos a nossa boa e heróica pátria a esses canalhas: talvez seja a maneira de despertar a vergonha, e o ódio em cada cidadão. Que significa esta cobardia? De que ternos medo? Não é minha a culpa se o ministro é indeciso, medroso, absurdo, lento, e se há nele todos os defeitos possíveis. O exército inteiro não faz senão chorar e cobre-o de impropérios.
[VI]
Entre as numerosas subdivisões que podem estabelecer-se nos fenómenos da vida há algumas em que predomina o fundo sobre a forma e outras em que é a forma que prevalece. É a esta última subdivisão, e em oposição à vida no campo, tia província, nas capitais do distrito e até mesmo em Moscovo, que pertence a vida de Petersburgo, principalmente a vida do salão. Esta última é imutável.
Em 1805, os Russos tinham-se reconciliado e zangado com Napoleão, tinham feito e desfeito constituições, mas os salões de Ana Pavlovna e de Helena eram exactamente o que haviam sido sete anos antes um e cinco o outro. No salão de Ana Pavlovna continuava a falar-se com o mesmo espanto dos êxitos de Bonaparte e a ver-se nos seus triunfos, bem como nas convivências dos monarcas da Europa, uma pérfida conspiração adrede preparada para enfadar e perturbar a corte russa, que Ana Pavlovna representava. No de Helena, a que Rumiantsov, inclusivamente, dava a honra da sua presença, considerando a condessa Bezukov como uma mulher de excepcional inteligência, em 1812, exactamente como em 1808, continuava a falar-se entusiasticamente da grande nação e do grande homem, deplorando o corte de relações com a França, mal-entendido que não podia deixai de terminar com um tratado de paz.
Nos últimos tempos, depois do regresso do imperador, verificava-se uma agitação desusada nestes mundos opostos, e houve, inclusivamente, algumas demonstrações hostis de parte a parte, embora a tendência geral de cada permanecesse a mesma, o salão de Ana Pavlovna, quanto a franceses, apenas recebia os legitimistas mais empedernidos, e os seus sentimentos patrióticos patenteavam-se no facto de incluir no índex o teatro francês cuja manutenção, segundo se dizia, era tão dispendiosa como a de um corpo de exército. Seguiam-se ali febrilmente os acontecimentos militares e faziam-se circular os boatos mais lisonjeiros para o exército russo. No salão de Helena, também o de Rumiantsov e dos franceses, desmentiam-se os rumores acerca das crueldades do inimigo e da guerra e discorria-se sobre as tentativas levadas a cabo por Napoleão para obter a paz. Eram censurados aí os que davam conselhos precipitados no sentido de transferir a corte para Kazan bem como os estabelecimentos de ensino de meninas dependentes da administração da imperatriz-mãe. Em geral, no salão de Helena a guerra apresentava-se como uma série de demonstrações estéreis que não tardariam a acabar com a paz, e a opinião que reinava ai era a de Bilibine, nessa, altura um dos íntimos de Helena — pois todo o homem inteligente tinha de frequentar o seu salão. Segundo ele, não era a pólvora que deveria resolver o pleito, mas os que a tinham inventado. Troçava-se com muito espírito, mas sem prudência, do entusiasmo de Moscovo, de que haviam chegado rumores a Petersburgo, bem como da recepção do imperador na velha cidade.
No salão de Ana Pavlovna, pelo contrário, aplaudiam-se entusiasticamente essas manifestações, dignas dos heróis de Plutarco. O príncipe Vassili, que continuava a desempenhar as mesmas funções importantes, servia de traço de união entre os dois grupos. Frequentava, alternadamente, a minha boa amiga Ana Pavlovna e o salão diplomático de minha filha; como estava sempre a passar de um lado para o outro, sucedia às vezes enganar-se e dizer no salão de Helena o que devia dizer no de Ana Pavlovna e reciprocamente.
Pouco depois do regresso do imperador, o príncipe Vassili, ao falar da situação em casa de Ana Pavlovna, criticara severamente Barclay de Tolly, mostrando-se indeciso quanto ao nome que devia chamar-se para ocupar o lugar de general-chefe. Um dos frequentadores do salão, de quem se dizia ser um homem cheio de valor, e que contara ter visto nesse mesmo dia o chefe, da milícia de Petersburgo, Kutuzov, presidir à recepção dos voluntários na câmara das finanças, permitiu-se dizer, o mais prudentemente possível, que o homem que satisfaria a todas as exigências podia ser precisamente Kutuzov.
Ana Pavlovna pôs-se a sorrir melancolicamente e observou que Kutuzov só servira para causar desgostos ao imperador.
— Já disse e repeti na assembleia da nobreza — interrompeu o príncipe Vassili — mas ninguém me ouviu. Afirmei que essa escolha para chefe da milícia não agradaria ao imperador. Não fizeram caso. Não se perde o hábito de censurar! — prosseguiu ele. — E tudo isto porque o que queremos é macaquear os estúpidos entusiasmos de Moscovo. — Falando deste modo, cometia um deslize esquecendo-se que era no salão de Helena que devia ridicularizar esses entusiasmos, e no de Ana Pavlovna, pelo contrário, aplaudi-los. E ei-lo que corrige o seu desastramento. Será realmente recomendável que o conde Kutuzov, o mais velho dos generais russos, ocupe um lugar desses, valerá a pena? Será possível nomear para o cargo de general-chefe um homem que não pode montar a cavalo, que adormece no conselho e cujos costumes não são recomendáveis? Sim, senhor, arranjou uma rica fama em Bucareste! E não falo das suas qualidades de general, mas será possível que se nomeie um homem caduco e cego, sim cego, tal qual? Devia ser bonito um general cego! Não vê coisa alguma. É bom para jogar à cabra-cega... Completamente cego!
Ninguém fez objecção a estas palavras.
A 25 de Julho isto era exacto, mas a 29 Kutuzov recebeu o título de príncipe, Tal distinção, que podia querer dizer haver desejos de correr com ele, não invalidara o severo juízo do príncipe Vassili, embora obrigasse este a ser mais prudente. A 8 de Agosto reuniu-se uma comissão, de que faziam parte o marechal-de-campo Saltikov, Araktcheiev. Viazmitinov, Lopukine e Kotchubei, para tomar resoluções sobre a marcha da guerra. Chegou-se aí à conclusão de que os reveses eram provocados pela dualidade de comando e, embora os membros da comissão estivessem inteirados de que o imperador não estava satisfeito com Kutuzov, depois de uma curta deliberação, foi o nome dele que propuseram para o lugar de general-chefe. E assim, nesse mesmo dia, Kutuzov foi nomeado generalíssimo de todas as regiões ocupadas pelas tropas. A 9 de Agosto, o príncipe Vassili encontrou-se de novo no salão de Ana Pavlovna com o homem cheio de valor. Este, que queria obter o lugar de curador de um instituto de meninas, fazia a corte à dona da casa. O príncipe Vassili entrou no salão numa atitude de autêntico triunfador, como alguém que acaba de ver realizados os seus mais ardentes desejos.
— Então, já sabem a grande notícia? O príncipe Koutouzoff foi nomeado marechal! Acabaram todos os dissentimentos. Estou muito contente, muito feliz! — exclamou. — Temos enfim, um homem — acrescentou, eircunvagando um olhar ao mesmo tempo competente e severo. O homem cheio de valor, apesar do empenho que tinha em conseguir o almejado lugar, não pôde deixar de chamar a atenção de Vassili para o facto de ele não ter sido sempre da mesma opinião. Claro que isso não era uma atitude muito diplomática da sua parte quer para com o príncipe Vassili e no salão de Ana Pavlovna, quer para com a própria dona da casa, que se mostrara regozijadíssima ao saber a notícia. Mas não pudera dominar-se.
— Mas diz-se que ele é cego, príncipe? — observou ele, lembrando ao príncipe Vassili as palavras que ele próprio pronunciara.
— Ora, ora, vê o suficiente — retorquiu este na sua voz de baixo, escamoteando as palavras e tossicando, costume seu quando em embaraços.
— Ora, ora, vê o suficiente — repetiu. — E o que me dá maior prazer é o facto de o imperador lhe ter concedido plenos poderes sobre todo o exército e sobre todo o território, podei, nunca antes dado a qualquer outro general, É um segundo autocrata — concluiu com um sorriso de triunfo.
— Deus o queira! Deus o queira! — exclamou Pavlovna.
O homem cheio de valor, noviço da sociedade da corte, julgou lisonjear Ana Pavlovna tentando justificar a sua antiga opinião, e observou:
— Dizem que o imperador só de má vontade o investiu deste poder. Dizem que corou como uma donzela a quem lessem a história Joconde, ao dizerem-lhe: o soberano e a pátria conferem-lhe esta honra.
— Talvez o dissesse um pouco contrafeito — comentou Ana Pavlovna.
— Oh, não, não! — exclamou Vassili, acaloradamente. Agora não podia trocar Kutuzov por mais ninguém. Em sua opinião, não só ele era perfeito, mas toda a gente o adorava. — Isso não pode ser, porque o imperador sempre apreciou muito o seu mérito.
— Deus queira — interveio Ana Pavlovna — que o príncipe Kutuzov tome, efectivamente, conta do Poder e não consinta que alguém lhe levante obstáculos.
O príncipe Vassili percebeu imediatamente a alusão. Disse em voz baixa:
— Sei de fonte limpa que Kutuzov impôs como condição sine qua non que o grão-duque herdeiro não continue no exército. Sabem o que disse ao imperador?
E o príncipe Vassili repetiu as palavras que este teria dito ao soberano: «Não posso castigá-lo se se portar mal nem recompensá-lo se se portar bem.»
— Oh, o príncipe Kutuzov é um homem de grande inteligência, conheço-o de longa data.
— Dizem mesmo — interveio o homem cheio de valor, continuando a dar provas de falta de tacto de cortesão — que Sua Excelência Sereníssima impôs como condição indispensável que o imperador não compareça no exército.
Mal pronunciou estas palavras, Vassili e Ana Pavlovna voltaram a cabeça simultaneamente e trocaram entre si um olhar triste, soltando um profundo suspiro, impressionados com tamanha ingenuidade.
[VII]
Enquanto isto se passava em Petersburgo, os Franceses deixavam para trás Smolensk e aproximavam-se mais e mais de Moscovo. Thiers, o historiador de Napoleão, como todos os outros autores que se ocuparam da sua personalidade, para justificarem c seu herói, sustentam que ele foi atraído, a pesar seu, até junto dos muros de Moscovo. Thiers tem razão na medida em que têm razão todos quantos procuram explicar os acontecimentos históricos pela vontade de um só homem. Tem razão como a têm os historiadores russos que afirmam que Napoleão foi impelido para a frente graças à habilidade dos generais russos. Nisto, além da lei da retrospectividade, que leva a crer que o passado não é mais que a preparação do facto consumado, existe uma certa conexão dos acontecimentos que complica tudo. Um bom jogador de xadrez que perde uma partida fica convencido de ter perdido por virtude de um erro em que incorreu, e vai procurá-lo no principio do jogo esquecendo-se de que no decurso da partida incorreu em outros erros semelhantes e que nenhuma das suas jogadas foi perfeita, Deu conta do seu erro apenas porque o adversário dele tirou partido.
Quão mais complicado não é o jogo da guerra, que tem lugar em determinadas condições de tempo, em que não é uma vontade única que conduz as máquinas inanimadas, mas onde tudo depende do entrechocar de uma infinidade de vontades individuais e particulares!
Depois de Smolensk, Napoleão procurou dar batalha para lá de Dorogobuje, perto de Viazma, em seguida em Tsarevo-Zaimichtche, mas, em virtude de um grande número de circunstâncias, os Russos não puderam aceitar combate senão em Borodino, a cento e doze verstas de Moscovo. Depois de Viazma, Napoleão deu instruções para avançar directamente sobre a antiga capital.
Moscovo, a capital asiática deste grande império; a cidade santa do povo de Alexandre; Moscovo, com as suas inúmeras igrejas em forma de pagode chinês. Moscovo não deixava em paz a imaginação de Napoleão. Durante a etapa de Viazma a Tsarevo-Zaimichtche, Bonaparte montava o seu cavalo branco inglês, acompanhado da Guarda, de sentinelas, de pajens e de ajudantes-de-campo. O chefe do estado-maior, Berthier, ficara para trás para interrogar um russo feito prisioneiro pela cavalaria. Acompanhado do intérprete Lelorgne d’Ideville, galopando, veio juntar-se ao imperador e, com alegre semblante, fez estacar o cavalo.
— Então? — perguntou Napoleão.
— Um cossaco de Platov. Disse que o corpo de exército de Platov vai reunir-se ao grosso do exército, que Kutuzov foi nomeado general-chefe. Inteligente e falador.
Napoleão sorriu, mandou dar um cavalo ao cossaco e deu ordem para que lho trouxessem. Desejava falar-lhe pessoalmente. Alguns dos ajudantes-de-campo puseram-se a galopar e, uma hora depois, Lavruchka, o servo que Denissov cedera outrora a Rostov, fardado de ordenança, com o seu ar astuto e jovial, um tanto borracho, surgiu diante de Napoleão montado sobre uma sela da cavalaria francesa. Este mandou-o seguir a seu lado e pôs-se a interrogá-lo.
— És cossaco?
— Cossaco, Sua Senhoria.
«O cossaco, ignorando em presença de quem se encontrava, pois a simplicidade de Napoleão nada podia revelar a uma imaginação oriental a figura de um soberano, discorreu com extrema familiaridade sobre os assuntos da guerra actual», diz Thiers no relatar este episódio. Efectivamente, Lavruchka, que na véspera se havia emborrachado e deixara o amo sem jantar, fora vergastado e tivera de ir à aldeia procurar galinhas. Ali entretivera-se no saque e fora feito prisioneiro pelos Franceses. Lavruchka era um desses soldados atrevidos e desavergonhados que tudo foram na vida, que se julgam na obrigação de praticar todas as baixezas e todas as velhacarias imagináveis, sempre prontos a prestar serviços a seus amos, cujos pensamentos adivinham, especialmente quando se trata de vaidade e mesquinhez.
Ao ver-se na presença de Napoleão, a quem não tardou a reconhecer, Lavruchka não se embaraçou, tratando desde logo de tirar o melhor partido que pudesse dos seus novos amos. Sabia perfeitamente que era Napoleão, e Napoleão não o intimidava mais que Rostov ou o sargento encarregado de o flagelar. Como nada tinha, nada lhe podiam tirar.
Referiu histórias que se contavam entre as ordenanças, e muitas delas eram exactas. Mas quando Napoleão lhe perguntou se os Russos tinham esperança de vencer Bonaparte, franziu o sobrecenho e pôs-se a pensar.
Percebeu que a pergunta escondia uma armadilha, pois as criaturas da espécie de Lavruchka estão habituadas a ver astúcia em tudo, e tomando um ar manhoso calou-se.
— É como quem diz — acabou por responder —; se houvesse uma batalha nestes dias mais chegados, os Franceses levariam a melhor. Sim, não há dúvida. Mas se nestes quatro dias mais próximos não houver batalha, então já não digo nada, que essa batalha não a ganhariam de pé para a mão.
Sorrindo, Lelorgne d’Ideville, traduziu deste modo para Napoleão as palavras de Lavruchka:— «Se a batalha se travar dentro de três dias, os Franceses ganhá-la-ão, mas, se ficar para mais tarde, só Deus sabe o que virá a acontecer.» Napoleão, embora muito bem disposto, em vez de sorrir quando lhe traduziram o oráculo, pediu que lho repetissem.
Lavruchka reparou no facto, e, para entreter Napoleão, prosseguiu, fingindo sempre que não sabia a quem estava falando:
— Sim, nós cá sabemos que há um francês, a quem chamam Bonaparte, que esta farto de levar a melhor por todo o lado, as com a gente o caso é, outro... – E, sem saber como nem porquê, as palavras saíam-lhe da boca cheias de presunção patriótica.
O intérprete traduziu a resposta, suprimindo a ultima Napoleão sorriu. «O moço cossaco fez sorrir o seu poderoso interlocutor», refere Thiers. Depois de cavalgar algum tempo calado. Napoleão chamou Berthier e disse-lhe que queria ver qual o efeito que produziria sobre aquele rapaz do Don o dizerem-lhe que o homem com quem estivera conversando era o próprio imperador, o imperador que tinha gravado nas Pirâmides o seu nome vitorioso e imortal.
E fez-se o que o imperador desejava.
Lavruchka deu-se conta de que o queriam atrapalhar e meter-lhe medo e foi assim que para agradar a seus novos amos fingiu imediatamente grande espanto e estupefacção, abriu muito os olhos e fez a mesma cara de quando o vergastavam. «Mal o intérprete de Napoleão», escreve Thiers, «abriu a boca o cossaco, tomado de uma espécie de estupor, não proferiu mais palavra e seguiu de olhos fitos naquele herói cujo nome chegara até ele através das estepes do Oriente. Toda a sua loquacidade desaparecera de repente para dar lugar a um ingénuo e silencioso sentimento de admiração. Depois de o recompensar, Napoleão mandou que o pusessem em liberdade, como o pássaro que se deixa voar para os campos que o viram nascer.»
Napoleão prosseguiu o seu caminho, pensando em Moscovo, cidade que lhe exaltava a imaginação. Quanto ao «pássaro que, deixaram voar para os campos que o viram nascer», esse tratou de cavalgar em direcção às linhas avançadas russas, congeminando uma engenhosa história para narrar aos camaradas. Não estava disposto a contar-lhes as coisas tal qual se haviam passado, pois a verdade é que a seus próprios olhos pouca importância, tinham. Reuniu-se aos cossacos, tratou de saber onde parava o seu regimento, o qual fazia parte do destacamento Platov, e à noitinha junto de seu amo, Nicolau Rostov, acantonado em Iankovo, e que nesse momento montava a cavalo para, com Iline fazer um giro pelas aldeias vizinhas. Mandou dar outro cavalo a Lavruchka e levou-o consigo.
[VIII]
A princesa Maria nem estava em Moscovo nem livre, de perigo, como André supunha.
Depois que Alpatitch voltara de Smolensk, o velho príncipe pareceu como que acordar de repente. Deu ordens para que se levantassem as milícias nas suas terras e mandou que se armassem, escrevendo entretanto ao general-chefe. Informava-o de que resolvera ficar em Lissia Gori e que pensava defendê-la até, à última, deixando-lhe a ele a responsabilidade de saber se deveria ou não tomar medidas para proteger um domínio onde ia ser feito prisioneiro um dos mais antigos generais russos, Em seguida participou a todos os seus familiares que não arredaria pé de sua casa.
Entretanto dera ordens para prepararem a partida da princesa e de Dessalles, que acompanhariam o príncipezinho para Bogutcharovo, e dai para Moscovo. A princesa Maria, muito preocupada com a actividade febril e as insónias do pai depois da apatia dos últimos tempos, não quis deixa-lo só e pela primeira vez na sua vida tornou a resolução de lhe não obedecer. Recusando partir, desencadeou no príncipe uma tremenda tempestade de ira. Mais uma vez lhe repetiu todas as acusações injustas com que costumava flagelá-la. Disse-lhe que passava a vida a atormentá-lo, que o indispusera com o filho, que fizera a seu respeito suposições abomináveis, que não pensava noutra coisa senão em envenenar-lhe a existência, e acabou por expulsá-la do seu gabinete, acrescentando que se, de resto, estava disposta a ficar, para ele tanto se lhe dava. Disse-lhe ainda que não queria saber mais dela e prevenia-a de que não ousasse aparecer-lhe mais diante dos olhos. O facto de o pai não decidir o que ela mais temia, mandá-la partir à força, limitando-se a proibi-la de aparecer diante dele, foi para a princesa um grande alívio. Sabia muito bem o que isso queria dizer: no fundo do seu coração, o príncipe gostava que ela ficasse em casa e irão partisse.
No dia seguinte, após a partida de Nikoluchka, o velho príncipe apareceu logo pela manhã de uniforme de gala, disposto a ir ao encontro do general-chefe. A sua carruagem já estava pronto.
A princesa Maria viu-o a sair do gabinete, com todas as condecorações ao peito, e dirigir-se para o pátio, a fim de passar revista aos camponeses e criados a quem dera armas. Da janela, a princesa ouvia-lhe as vociferações que ressoavam através das árvores. De súbito, um grupo de homens, muito assustado, surgiu, correndo, de uma das áleas do parque.
A princesa Maria precipitou-se para a escada e dali, pela rua bordada de flores, direito à alameda. Ao seu encontro deparou-se-lhe um magote de milicianos e criados, no meio dos quais, amparado por debaixo dos braços, arrastando-se, vinha o velhinho com o seu uniforme de gala e as suas condecorações. Maria correu para ele, mas não pôde desde logo dar-se conta da transformação que se operara rios traços do pai em virtude das manchas de luz que na alameda das tílias desciam através da folhagem. A única coisa que pôde ver foi que o seu rosto, até então severo e enérgico, tinha agora uma expressão receosa e humilde. Ao ver a filha, remexeu os lábios impotentes, deixando filtrar através deles sons roucos e indistintos. Era impossível compreender o que ele queria dizer. Levaram-no em braços até ao gabinete e estenderam-no no divã que tantos terrores lhe causara ultimamente.
— O médico, chamado à pressa, nessa mesma noite sangrou-o, dizendo que ele tinha uma paralisia do lado direito.
Como a permanência em Lissia Gori se tornava mais perigosa de dia para dia, logo na manhã seguinte o príncipe foi levado para Bogutcharovo. O médico acompanhou-o.
Quando ali chegaram, já Dessalles e as crianças haviam seguido para Moscovo.
Sem dar sinal de melhoras, o velho príncipe permaneceu três semanas em Bogutcharovo na casa que André ultimamente mandara construir. Sem conhecimento, estendido, desfigurado, mais parecia um cadáver. A todo o momento murmurava palavras desconexas, mexendo as sobrancelhas e os lábios, e era impossível saber se tinha consciência do que se passava à sua volta. Não havia dúvida, porém, de que sofria e queria dizer fosse o que fosse. O quê? Impossível saber se se trataria de qualquer capricho de doente sem tino ou de alguma coisa relativa aos acontecimentos ou a questões de família,
O médico afirmava que aquela inquietação era apenas de ordem física, mas a princesa Maria pensava que ele queria falar, e a confirmar a sua opinião lá estava o facto de o desassossego do enfermo desaparecer quando ela estava presente.
De facto sofria física e moralmente. Não havia a mais pequena esperança de cura e não estava em estado de ser transportado. Que aconteceria se ele morresse no caminho? «Não seria preferível chegar a sua hora, a sua derradeira hora?», dizia muitas vezes, de si para consigo, a princesa Maria. Noite e dia, quase sem dormir, ela lá estava, à cabeceira do pai, e, por mais triste que pareça, o certo é que muitas vezes lhe espiava os mais pequenos movimentos, não na esperança de o ver melhorar, mas desejosa de lhe descobrir sinais de morte próxima.
Por mais estranho que o facto lhe parecesse, a princesa Maria viu-se obrigada a reconhecer consigo mesma que era verdade. O que se lhe afigurou ainda mais terrível foi que enquanto a doença durou e antes ainda desta doença, nos momentos em que, sozinha com ele, dir-se-ia esperar que alguma coisa acontecesse, sentira acordar nela o desejo e as esperanças até ai adormecidos ou esquecidos, A ideia que durante anos nem sequer a aflorara da possibilidade de uma vida livre, liberta do medo paterno, e que poderia vir — a amar e a casar — tomara-lhe agora a imaginação, como se fosse uma tentação do Demónio. Conquanto tudo fizesse para se ver livre dessa ideia, a cada passo se estava a interrogar a si própria sobre a maneira de organizar a sua vida quando ele deixasse de estar presente, Eram tentações do Demónio e disso estava persuadida. Sabia que a única arma que lhe assistia era a oração e procurava rezar. Punha-se em atitude de quem vai orar, pousava os olhos nos ícones, articulava as fórmulas, mas a alma não a acompanhava. Sentia-se levada por um novo mundo de vida activa, difícil e independente, em tudo absolutamente oposto ao meio moral onde estivera fechada até aí e em que o único lenitivo era a oração. Não podia nem rezar nem chorar, e as preocupações do dia-a-dia assoberbavam-na.
Continuar em Bogutcharovo era perigoso. De todos os lados chegavam notícias do avanço dos Franceses e numa aldeia a, quinze verstas dali os soldados inimigos tinham assaltado uma propriedade.
O médico teimava em que se transportasse o doente, e o marechal da nobreza enviou um funcionário à princesa Maria para convencê-la a partir o mais depressa que pudesse. O ispraunik também apareceu para lhe fazer o mesmo pedido, e disse-lhe que os Franceses estavam apenas a umas quarenta verstas, que tinham sido distribuídas proclamações inimigas nas aldeias e que se não partissem antes do dia 15 não podia responsabilizar-se pelo que acontecesse.
A princesa resolveu abalar no dia 15. Os preparativos e as ordens que era preciso dar — toda a gente se dirigia agora à princesa — ocuparam-na todo o dia 14. Como de costume ultimamente, passara a noite de 14 para 15 sem se despir no quarto contíguo ao do pai. Por várias vezes acordou para ouvir a respiração entrecortada e os gemidos do velho príncipe. A cama rangia. Tikon e o médico mudaram-no de posição. Por várias vezes veio escutar à porta e pareceu-lhe que nessa noite gemia mais do que o costume e, que o voltavam mais frequentemente. Não podia dormir, e foram muitas as vezes que veio pôr o ouvido à escuta: teria desejado entrar, mas não se resolvia a isso. Embora já não pudesse falar, Maria via e sentia quão desagradável Hw era a vista daquele rosto angustiado. Notara que ele voltava a cara sempre que encontrava o olhar dela obstinadamente fito nele. Sabia que aparecer-lhe no quarto, de noite, altas horas, o irritava.
No entanto, nunca fora maior o terror e a dor de o perder, Lembrava-se de todos aqueles anos da, sua vida ao lado do pai e em todas as suas palavras, em todos os seus actos descobria o amor que ele lhe tinha. De longe em longe voltavam a aparecer-lhe, no meio das suas recordações, as tentações do espírito maligno, e pensava no que iria fazer depois da morte do príncipe, na sua existência futura, mais livre. Porém, horrorizada, sacudia de si tais pensamentos. Para a madrugada o pai acalmou e Maria pôde adormecer-
Acordou tarde. A lucidez que se costuma ter ao despertar fez-lhe ver claramente qual a sua constante preocupação. Foi escutar à porta e voltou a ouvir a respiração rouca do doente, dizendo de si para consigo, suspirando, que estava na mesma.
«Que tem ele então? Que quero eu então? É verdade que estou à espera que ele morra?», interrogou-se, sentindo que aquele pensamento a amargurava.
Vestiu-se, arranjou-se, disse as suas orações e veio até ao alpendre da escada. Carros ainda por atrelar esperavam enquanto carregavam as bagagens.
A manhã estava suave e cinzenta. Maria continuava no alpendre, alanceada de horror perante a sua cobardia moral e procurando que os seus pensamentos se aquietassem antes de penetrar nos aposentos do pai.
Entretanto o médico desceu as escadas e aproximou-se dela.
— Está um pouco melhor hoje — disse ele. — Andava à sua procura. Entende-se melhor o que ele diz, tem a cabeça mais fresca. Venha, está a perguntar por si...
Ao ouvir estas palavras, o coração principiou a bater-lhe apressadamente e, empalidecendo, teve de encostar-se à porta, para não cair. Vê-lo, falar-lhe, sentir-lhe o olhar quando tinha a alma cheia daqueles pensamentos criminosos e medonhos provocava-lhe uma espécie de angústia misturada de alegria.
— Vamos — disse o médico.
Penetrou no quarto do pai e aproximou-se da cama. O velho estava deitado de costas, o busto soerguido apoiado em almofadas, as pequenas mãos ossudas com a sua rede de veias azuladas assentes sobre o coberta, o olho esquerdo olhando direito na sua frente, as sobrancelhas e os lábios imóveis. Todo ele era delgado, pequeno, insignificante. O rosto parecia ressequido e como que, derretido, os seus traços tinham por assim, dizer encolhido. Maria aproximou-se e beijou-lhe a mão. A mão esquerda do príncipe apertou a dela como se a esperasse há muito. Abanou-a mesmo, enquanto as sobrancelhas e os lábios se lhe contraíam com impaciência.
Maria, olhou para ele assustada, tentando adivinhar o que, ele lhe queria. Mudou de posição de modo a que o olho esquerdo do príncipe lhe pudesse ver a cara: então ele serenou por alguns instantes, o olho fixo nela. Depois os lábios e a língua agitaram-se-lhe, saíram-lhe sons da boca e pôs-se a falar fixando-a com um ar tímido e súplice, como se receasse que eu o não compreendesse.