Guerra e Paz
Segunda Parte
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
Maria olhou-o concentrando nele toda a sua atenção. Diante do esforço quase cómico que ele fazia para mexer a língua, viu-se, obrigada a baixar os olhos e a custo reprimiu os soluços que lhe subiam à garganta. O príncipe falava, repetindo muitas vezes as mesmas palavras. A princesa Maria não conseguia perceber, mas fazia tudo para adivinhar e repetia interrogativamente as palavras que supunha entender.
O doente repetiu ainda mais algumas vezes as mesmas silabas Não era possível encontrar-lhes qualquer sentido. O médico julgou perceber que ele perguntava à princesa se ela tinha medo, mas, ao dizê-lo em voz alta, o velho príncipe respondeu com um aceno negativo de cabeça e expeliu quaisquer sons.
«A alma, a alma, dói-lhe a alma», percebeu de súbito, a princesa.
O príncipe gemeu um «sim» indistinto, pegou-lhe na mão e pousou-a sobre vários pontos do peito, como se procurasse o melhor sitio para ela.
— Penso sempre em ti... penso sempre articulou ele com muito maior nitidez, agora que estava certo de ter sido compreendido.
A princesa Maria inclinou a cabeça contra a rirão do pai para reprimir os soluços e as lágrimas.
Ele passou-lhe a mão pelos cabelos.
— Chamei por ti toda a noite... — murmurou.
— Se eu soubesse... — replicou ela entre lágrimas. — Tinha medo de entrar.
Apertou-lhe a mão.
— Não dormiste?
— Não, não pude — disse ela, com um aceno negativo de cabeça.
Submetendo-se mais uma vez sem querer à influência do pai, pusera-se, tal qual ele, a falar por acenos e parecia, também como ele, de língua entaramelada,
— Alma minha... minha amiga. — Maria não pôde inteirar-se de qual das duas carinhosas palavras o pai se servira, mas como quer que fosse no seu olhar lia-se que empregara uma palavra afectuosa nunca outrora em seus lábios quando falava à filha. — Porque não vieste tu?
«E eu a desejar, a desejar-lhe a morte!», dizia de si para consigo a princesa Maria.
O príncipe ficou algum tempo calado.
— Obrigado... minha filha, minha amiga... por tudo, por tudo... perdoa-me... obrigado... perdoa-me... obrigado! — As lágrimas saltaram-lhe dos olhos. — Chama o Andriucha — disse ele, de súbito, e, ao fazer este pedido, a sua expressão era de timidez e incredulidade como se fosse uma criança.
Dir-se-ia compreender que tal desejo era desprovido de bom senso; isso, pelo menos, o que a princesa Maria julgou perceber.
— Recebi carta dele — respondeu ela.
— E onde está ele?
— Na tropa, meu pai, em Smolensk.
Esteve muito tempo calado, de olhos fechados, e depois, como se respondesse a perguntas que a si próprio dirigira, e ao mesmo tempo para mostrar que recuperara a memória e o entendimento, fez com a cabeça um aceno afirmativo, reabrindo os olhos.
— Sim — murmurou em voz muito baixa e distintamente — a Rússia está perdida! Perderam a Rússia!
De novo rompeu em soluços e as lágrimas escorreram-lhe pela cara abaixo. Maria não pode mais, e ela própria se debulhou em pranto.
O velho príncipe fechou de novo os olhos e pouco a pouco ,quietou-se. Com um gesto de mão, apontou para as órbitas e Tikon, percebendo o que ele queria, enxugou-lhe os olhos.
Então voltou a abrir as pálpebras e pronunciou algumas palavras que de momento ninguém percebeu e que só mais tarde Tikon apreendeu, traduzindo-as. Maria julgou ver nelas uma alusão à ordem de ideias que o preocupava minutos antes. Supôs que ele falava da Rússia, ou então do príncipe André, ou ainda dela própria, do neto ou também da morte próxima. Por isso não podia adivinhar o que ele dizia.
— Vai pôr o teu vestido branco, gosto dele — dissera o príncipe.
Ao ouvir estas palavras, as lágrimas ainda mais se lhe soltaram, e o médico, pegando-lhe por um braço, levou-a até à varanda, pedindo-lhe que serenasse e que tratasse quanto antes dos preparativos de partida. Depois de ela sair, o príncipe falou ainda do filho, da guerra, do imperador, franziu as sobrancelhas com uma expressão irritada, elevou cada vez mais a sua voz rouca e, foi então que um segundo e último ataque o fulminou.
A princesa Maria deteve-se na varanda. O dia tinha clareado: fazia sol e estava quente. Não dava por nada, e não podia pensar noutra coisa que não fosse no amor apaixonado pelo pai, sentimento, pensava ela, que julgava ter ignorado até então. Correu para o jardim e, soluçando sempre, desceu até ao tanque, ao longo da alameda de tílias novas plantadas por André.
«E eu... e eu... que lhe desejei a morte! Sim, desejei que tudo acabasse quanto mais depressa melhor... Tinha necessidade de descansar finalmente... E que vai ser de mim? Para que hei-de querer eu descanso quando ele desaparecer?» Maria murmurava estas palavras numa voz entrecortada, dando grandes passadas e comprimindo com a mão o peito, abalado por convulsivos soluços.
Depois de ter dado uma volta em roda do jardim, tomou a direcção da casa, e nesse momento viu Mademoiselle Bourienne, que ficara em Bogutcharovo, recusando-se partir, que se dirigia ao seu encontro na companhia de um desconhecido. Era o marechal da nobreza do distrito, que pessoalmente vinha persuadir a princesa da urgência de uma rápida partida. Maria ouvia-o sem o entender. Conduziu-o a casa, convidou-o a almoçar e pediu-lhe que se sentasse a seu lado. Em seguida, desculpando-se, levantou-se e dirigiu-se ao quarto do velho príncipe. O médico, que vinha ao seu encontro com uma expressão alterada, proibiu-a de entrar,
— Não entre, princesa, não entre, peço-lhe.
Maria voltou para o jardim, e no fundo da ladeira que descia para o tanque, num recanto onde ninguém a via, sentou-se na relva. Não podia dizer quanto tempo ali esteve. Passos femininos que corriam pela alameda obrigaram-na a despertar. Levantou-se e viu a criada de quarto, Duniacha, que a procurava, parar, de repente, como que assustada ao ver a ama.
— Por favor, princesa... o príncipe... — disse ela, numa voz entrecortada.
Vou já, vou imediatamente articulou a princesa, que sem lhe dar tempo de acabar o que ela queria dizer e sem olhar para Duniacha, correu para casa.
— Princesa, cumpriu-se a vontade de Deus, é bom estar preparada para tudo — disse o marechal, que a esperava à entrada. — Deixe-me, não é possível — exclamou ela com angústia.
O médico tentou detê-la, A princesa repeliu-o e correu para a porta. — «Porque não me deixa esta gente com estas caras assustadas? De ninguém preciso. Que estão todos aqui a fazer?» Abriu a porta e a viva claridade do dia que inundava o quarto ate então na obscuridade fê-la estremecer de pavor. No quarto viam-se várias mulheres, entre as quais a sua ama. Afastaram-se da cama para a deixar passar. O príncipe continuava deitado, mas o ar severo e calado que se espalhava no rosto imobilizou-a no limiar da porta
«Não, não está morto, não é possível!», dizia de si para consigo à medida que se aproximava, e, vencendo o horror que tomava, pousou os lábios na face do pai. Ao sentir a frieza da pele recuou instintivamente. De súbito toda a ternura que ele acabava de lhe inspirar foi substituída pelo sentimento de horror que lhe despertava o espectáculo que tinha diante dos olhos: «Já não existe! Já não existe! Já não está no lugar em que estava, já não é senão uma coisa desconhecida e horrível, um mistério terrível que me gela o sangue nas veias e me obriga a fugir!» E, escondendo a cara nas mãos a princesa Maria caiu desmaiada nos braços do médico.
Na presença de Tikon e do médico, as mulheres deram-se ao cuidado de lavar o corpo do príncipe, amarraram-lhe o queixo com um lenço, para que a boca lhe não descaísse, e para que as, pernas se lhe não afastassem amarraram-nas também. Depois vestiram-lhe o uniforme, com todas as condecorações, e estenderam sobre a mesa o pequeno cadáver descarnado. Só Deus sabe como tudo se fez, mas foi como se as coisas se fizessem por si próprias. Para a noite acenderam velas em volta do caixão e cobriu-se o ataúde com um pano mortuário. Espalharam no sobrado bagas de zimbro, puseram debaixo da cabeça do morto uma oração impressa e a um canto o chantre principiou a recitar os salmos.
Tal como os cavalos se empinam e relincham diante do cadáver de outro cavalo, assim veio juntar-se no salão em volta do ataúde do príncipe uma multidão de gente da casa e de fora: o marechal da nobreza, o estaroste, as mulheres da aldeia, todos inclinavam até ao chão, beijando a mão fria e hirta do velho príncipe.
[IX]
Bogutcharovo, antes de o príncipe André ali se haver instalado, fora sempre uma propriedade abandonada pelo amo, e os camponeses dessa aldeia eram muito diferentes dos de Lissia Gori. Deles se distinguiam pela linguagem, pelo trajo e pelos costumes. Parece que eram camponeses da estepe. O velho príncipe elogiava-lhes o amor ao trabalho quando vinham a Lissia Gori ajudar nas colheitas ou abrir tanques ou canais, mas não gostava deles, selvagens que eram.
A última permanência do príncipe André em Bogutcharovo, apesar das inovações que introduzira ali — hospitais, escolas e a redução de impostos — não lhes suavizara os costumes, antes, pelo contrário, acentuara neles o traço característico, essa selvajaria de que falava o velho príncipe. Entre os camponeses circulavam sempre boatos estranhos ora que iam ser recrutados em massa para o corpo de cossacos, ora que iam obrigá-los a aceitar uma nova religião, ou ainda falavam em certas cartas do czar, do juramento prestado a Paulo Petrovitch em 1797, de quem se dizia que já então dera a liberdade aos servos, liberdade que os senhores lhes tinham retirado de novo, ou então de Pedro Feodorovitch, que devia vir a reinar dentro de sete anos e sob cujo reinado toda a gente seria livre e tudo seria tão simples que acabariam as leis. O que se contava da guerra de Bonaparte c da invasão misturava-se na imaginação desta gente a confusas ideias sobre o Anticristo, o fim do mundo e a liberdade absoluta.
Nos arredores de Bogritcharovo havia grandes povoações, propriedade da coroa ou de particulares, cujos camponeses viviam sob o regime de foreiros. Poucos eram os senhores que aí residiam: muito poucos eram também os criados ou servos que soubessem ler: daí que entre os habitantes desses lugarejos assumissem uma força e uma intensidade apreciáveis as misteriosas correntes da vida popular, cujas fontes costumam ser desconhecidas dos contemporâneos. Um fenómeno deste género se verificara uns vinte anos atrás, quando se formara uma corrente de emigração para certos rios de águas quentes. Centenas de famílias, entre as quais as de Bogutcharovo, venderam, de um dia para o outro, o eu gado e abalaram para sudoeste. Como aves migradoras que partem para além dos mares, com mulheres e crianças puseram-se a caminho para regiões onde nenhum deles jamais tinha estado. Agruparam-se em caravanas, depois de se haverem remido individualmente uns, outros mesmo sem salvo-conduto, e a pé ou de carro meteram-se a caminho. Muitos deles foram apanhados e castigados, sendo deportados para a Sibéria, outros morreram pelo caminho de fome e de frio e outros ainda voltaram espontaneamente, e o movimento extinguiu-se por si, tal qual como principiara, sem causa aparente. Uma corrente subterrânea, porém, não deixara de continuar a disseminar-se por entre esta gente e ia ganhar novo alento e manifestar-se estranha e inopinadamente e de maneira igualmente simples e natural. Quem vivesse então, nesse ano da graça de 1812, em contacto com o povo podia verificar que ele se encontrava profundamente trabalhado por essas forças ocultas prontas a vir à superfície.
Alpatitch, que chegara a Bogutcharovo pouco tempo antes da morte do velho príncipe, notara certa agitação entre os camponeses, observando que, ao contrário do que acontecia na região de Lissia Gori, onde num raio de sessenta verstas todos os habitantes abalavam, abandonando as suas aldeias aos cossacos saqueadores, nesta zona da estepe, em Bogutcharovo, estabeleciam relações com os Franceses, segundo se dizia, acolhendo certos papéis que circulavam entre eles e permanecendo nas suas casas. Através de criados que lhe eram dedicados soube que o camponês Karp, ultimamente de volta de uma jornada no carro da administração, homem de grande influência na comuna, viera dizer que os cossacos saqueavam as aldeias abandonadas pelos seus habitantes enquanto os Franceses as respeitavam. Além disto, soube também que outro mujique trouxera, na véspera, da aldeia de Vislukovo, ocupada pelo inimigo, uma proclamação do general francês onde se dizia que se não faria mal algum aos habitantes e que se eles se conservassem nas suas casas lhes seriam pagas a pronto todas as requisições que se fizessem. Como prova desta afirmação exibia um assinado de cem rublos, que ignorava ser falso, com que lhe tinham pago a palha das suas terras.
Por último, e isto era o mais importante, Alpatitch veio a saber que no mesmo dia em que dera ordem ao estaroste para atrelar os carros destinados ao transporte das bagagens da princesa houvera uma reunião da assembleia da comuna onde se resolvera não saírem dali e esperar. E o pior era que não havia tempo a perder. No dia da morte do príncipe, 15 de Agosto, o marechal da nobreza insistira com a princesa Maria para que abalasse imediatamente, em virtude de a situação se apresentar perigosa, Dissera mesmo que depois do dia 12 não podia responsabilizar-se fosse pelo que fosse. E partira pela noite do dia em que o príncipe falecera, prometendo voltar no dia seguinte para assistir ao funeral. Fora-lhe, porém, impossível regressar ao ter conhecimento de que os Franceses operavam um movimento imprevisto e não tivera tempo senão de mandar partir a família e o que tinha de mais precioso.
Havia trinta anos que o estaroste Drone, a quem o velho príncipe chamava Dronuchka, administrava Bogutcharovo. Drone era um desses mujiques sólidos, quer física quer moralmente, que à medida que envelhecem principiam a deixar crescer as barbas, embora cheguem aos sessenta ou setenta anos com o melhor aspecto, todos os dentes, sem um cabelo branco, tão direitos e robustos como aos trinta anos. Drone pouco depois da emigração para as águas quentes, em que tomara parte como os demais, fora nomeado estaroste burmistre de Bogutcharovo, funções que desempenhava irrepreensivelmente havia mais de vinte e três anos. Os camponeses temiam-no mais a ele que ao próprio amo. Os amos, tanto o velho príncipe como o príncipe novo e o intendente, respeitavam-no e chamavam-lhe ministro, por graça. Durante todo o tempo em que desempenhara as suas funções nunca estivera nem bêbedo nem doente, nunca dera mostras do mais pequeno cansaço, ainda mesmo quando passava as noites em claro ou tinha que fazer qualquer trabalho extraordinário, e, sem saber ler nem escrever, nunca tivera qualquer engano quer nas contas em dinheiro, quer nos puds de farinha que vendia às carradas, quer na quantidade de feixes de trigo de cada desiatina dos campos de Bogutcharovo.
Foi este homem que Alpatitch, ao chegar do devastado domínio de Lissia Gori, mandara chamar no dia do funeral do príncipe, encarregando-o de preparar doze cavalos para as carruagens da princesa e dezoito carroças para as bagagens que era preciso transportar. «Embora os camponeses pagassem foro, o cumprimento desta ordem não podia encontrar dificuldades», pensava Alpatitch, «pois Bogutcharovo contava duzentos e trinta fogos e todos os habitantes eram remediados.» A verdade, porém, é que o estaroste Drone, ao ouvir a ordem que lhe davam, baixou os olhos sem dizer palavra. Alpatitch disse-lhe o nome dos camponeses seus conhecidos que podiam encarregar-se dos transportes.
Drone replicou que os cavalos desses camponeses estavam a fazer serviço. Alpatitch lembrou-lhe outros camponeses. E também esses não podiam, no dizer de Drone, pois não tinham cavalos: uns andavam em serviço da administração, outros estavam exaustos e a falta de pastos causara a morte de muitos outros. Dizia-se mesmo que não seria fácil arranjar cavalos, tanto para as carruagens como para as carroças.
Alpatitch olhou-o fixamente, franzindo as sobrancelhas. Se Drone era um estaroste modelar, Alpatitch, pelo seu lado, havia mais de vinte anos que administrava as propriedades do príncipe, no que sempre se mostrara intendente exemplar. Era apuradíssimo nele o faro necessário para compreender as necessidades e os instintos das pessoas com quem tinha de lidar, e por isso mesmo era um intendente verdadeiramente excepcional. Bastou-lhe um relance de olhos a Drone para imediatamente compreender que as respostas que este lhe dava não correspondiam ao que ele pensava, antes reflectiam as disposições da comuna de Bogtitcharovo, a cuja influência o estaroste se não eximia. Por outro lado, não ignorava que Drone, camponês ricaço e detestado pela assembleia da comuna, devia estar hesitante entre dois campos, o dos senhores e o dos seus iguais. Lera esta mesma hesitação no olhar do estaroste, e por isso se aproximou dele com uma expressão de descontentamento.
— Escuta, Dronuchka — disse-lhe —, não me venhas com histórias da carochinha. Sua Excelência o príncipe André Nikolaitch deu-me pessoalmente ordens para evacuar toda a gente e para não deixar que ninguém caísse em poder do inimigo. Há, de resto, uma ordem do czar no mesmo sentido. Aquele que ficar é considerado traidor. Estás a perceber?
— Estou — replicou Drone, sem erguer os olhos.
Alpatich não se contentou com a resposta.
— Ah! Drone, está-me a cheirar a esturro! — exclamou ele, abanando a cabeça.
— Faça o que entender! — murmurou Drone tristemente.
— Drone! Basta! — voltou Alpatitch, retirando a mão da carcela do colete e apontando para o chão aos pés de Drone, com um gesto teatral. — Não sei se te diga que não estou só a ver claramente o que se passa contigo, mas até o que se está passando três archinas abaixo de ti.
Drone perturbou-se, lançou um olhar furtivo a Alpatitch e voltou a baixar os olhos.
— Deixa-te de tolices e vai dizer-lhes que se preparem para partir para Moscovo e que amanhã pela manhã tratem de trazer as carroças para a bagagem da princesa, e quanto a ti aconselho-te a que não ponhas os pés na assembleia. Estás a perceber?
Drone deixou-se cair de súbito aos pés de Alpatitch.
— Iakov Alpatitch, dispensa-me das minhas funções! Torna lá as chaves, dispensa-me das minhas funções, por amor de Deus!
— Basta! — exclamou Alpatitch severamente. — Estou a ver o que se passa a três archinas abaixo de ti — repetiu. O intendente sabia que a sua grande habilidade para tratar das abelhas, o conhecer em que momento se deve semear a aveia e o facto de haver sabido agradar ao príncipe por mais de vinte anos de há muito lhe tinham granjeado a reputação de bruxo, e o poder de ver três archinas abaixo de um homem era dom de feiticeiro, dizia-se.
Drone voltou a levantar-se e quis falar, mas Alpatitch cortou-lhe a palavra:
— Que passou pela cabeça desta gente sempre quero saber? Vamos... Em que estão vocês a pensar?...
— Que posso eu fazer com eles? — exclamou Drone. — Rebentou assim sem mais nem menos, de repente. Eu bem lhes disse
— É isso mesmo que eu pensava, estão bêbedos, hem? — inquiriu o intendente, rápido.
— Estão todos com a cabeça perdida, Iakov Alpatitch: já entraram na segunda pipa.
— Bom, então ouve. Vou tratar de avisar Ipravnik, e tu vais dizer-lhes que se deixem de histórias e que arranjem as carroças.
— Às suas ordens — volveu Drone.
Iakov Alpatitch não insistiu mais. Havia muito que governava aquela gente e sabia que a melhor maneira de a submeter era nunca lhes dar oportunidade a que pensassem que ele julgava que lhe não pudessem obedecer. Depois de ter conseguido de Drone aquele dócil «Às suas ordens», isso lhe bastou, embora duvidasse de que as carroças viessem a ser-lhes fornecidas sem o auxílio da força pública e estivesse mesmo persuadido do contrário.
Com efeito, pela, noite nada de carroças. Houvera uma nova assembleia diante da taberna, onde se tomara a resolução de enxotarem os cavalos para as matas e de nada fornecerem do que se lhes pedia, Sem nada dizer à princesa, Alpatitch mandou descarregar as suas próprias bagagens das carroças que tinham chegado de Lissia Gori, mandou atrelar os seus cavalos às carruagens da princesa e tratou de se dirigir às autoridades.
[X]
Depois do funeral do pai, a princesa Maria fechou-se no quarto e a ninguém quis receber, Uma criada aproximou-se da porta para lhe dizer que Alpatitch viera receber ordens sobre a partida — passara— se isto antes da conversa com Drone.
A princesa ergueu-se do divã onde se estendera e através da porta fechada respondeu que não sairia dali e que a deixassem em paz.
As janelas do quarto da princesa Maria davam para o poente. Estava estendida no divã, a cara virada para a parede e tacteava com os dedos os botões da almofada de couro; o horizonte que tinha diante dos olhos delimitava-lho esta almofada, e os seus pensamentos confusos concentravam-se num único objecto, a morte irrevogável e a sua própria baixeza moral até então dela própria ignorada, mas evidente agora durante a doença do pai. Queria rezar, mas não tinha coragem; no estado de espírito em que se via não ousava virar-se para Deus. Por muito tempo assim permaneceu naquela posição.
O Sol punha-se do outro lado da casa e os seus oblíquos raios vespertinos filtravam-se pelas janelas abertas iluminando parte do aposento e parte da almofada de marroquim em que ela fixava os olhos. O curso dos seus pensamentos foi, de súbito, interrompido. Soergueu o busto maquinalmente, compôs os cabelos, levantou-se e aproximou-se da janela, aspirando, a seu pesar, a fresca brisa daquele belo entardecer.
«Sim, agora podes admirar em paz a beleza do crepúsculo! Ele já cá não está e ninguém daqui para o futuro to poderá impedir», disse de si para consigo, deixando-se cair numa cadeira e pousando a cabeça no parapeito da janela.
Uma voz terna e doce chamou lá debaixo do jardim e alguém a beijou na fronte. Voltou-se. Era Mademoiselle Bourienne, vestida de luto e coberta de crepes. Aproximara-se suavemente, e, depois de a ter beijado, principiara a soluçar. A princesa Maria voltou-se para ela. Os atritos que tinham tido, os ciúmes que ela lhe despertara, tudo lhe veio à memória; lembrou-se também de que ultimamente também ele, o pai, mudara por completo na sua atitude para com a francesa, que a não quisera tornar a ver e concluiu que, naturalmente, as suspeitas que nutrira no fundo do seu coração eram injustas. «Terei porventura o direito, eu, que desejei a morte de meu pai, de julgar o meu semelhante?», murmurou para si mesma.
A princesa Maria fez passar diante dos olhos a situação de Mademoiselle Bourienne, a quem, nos últimos tempos, mantivera a distância, embora ela vivesse numa casa estranha e estivesse na sua dependência. E teve comiseração dela. Fitou-a com doçura e estendeu-lhe a mão. Mademoiselle Bourienne rompeu em soluços, beijou-lhe as mãos e falou-lhe do pesar por que estava passando e que sentia muito. Disse-lhe que a única consolação na sua dor era o facto de a ama lhe ter permitido que a partilhasse com ela. Todos os mal-entendidos do passado deviam desaparecer diante daquele imenso desgosto; no que lhe dizia respeito a ela, sentia pura a consciência, e ele, lá de cima, estava a ver quanto o estimara e quanto lhe estava reconhecida. A princesa ouvia-a sem compreender o que ela dizia; olhava para ela de vez em quando, deixando-se embalar pelo encanto das suas palavras.
— A sua situação é duplamente terrível, minha querida princesa — prosseguiu Mademoiselle Bourienne depois de alguns minutos de silêncio. — Compreendo que não tenha podido nem possa pensar em si mesma, mas a estima que tenho por si obriga-me a fazê-lo... Falou consigo o Alpatitch? Falou-lhe na nossa partida?
A princesa Maria não respondeu. Não percebia de que partida estava a francesa a falar: «Poderei eu pensar nalguma coisa ou tentar seja o que for num momento destes? Acaso me importa seja o que for?» E continuava calada, sem responder.
— Sabe, querida Maria — disse-lhe Mademoiselle Bourienne —, sabe que corremos perigo, que estamos cercadas pelos Franceses; é mesmo perigoso agora metermo-nos a caminho. Se partirmos, é quase certo que seremos capturados e só Deus sabe...
Maria olhava para Mademoiselle Bourienne sem compreender o que ela dizia.
— Ah, se soubessem como agora tudo me é completamente indiferente! — exclamou ela. — Não sairia daqui por nada deste mundo... Alpatitch disse-me qualquer coisa sobre essa partida... Fale com ele, por mim nada quero nem posso fazer...
— Falei com ele. Tem esperança de que possamos partir amanhã, mas na minha opinião acho que actualmente ainda seria mais prudente ficar aqui — disse Mademoiselle Bourienne. — Tem de concordar, querida Maria, que seria horrível sermos apanhadas na estrada pelos soldados ou pelos camponeses revoltados.
Mademoiselle Bourienne sacou da sua bolsinha uma proclamação do general francês Rameau, impressa num papel que não era o papel russo vulgar, em que se aconselhavam os habitantes a, não abandonarem as suas casas e em que se dizia que as autoridades francesas lhes concederiam a protecção que lhes era devida. Estendeu-o à princesa.
— Parece-me que o melhor que temos a fazer é dirigirmo-nos a este general — disse Mademoiselle Bourienne —, e estou convencida de que ele nos dispensará todas as atenções.
A princesa Maria leu o papel e o rosto contraiu-se-lhe convulsivamente.
— Quem lhe deu isto? — interrogou ela,
— Naturalmente souberam que eu era francesa, pelo meu nome — disse, corando. Mademoiselle Bourienne.
Maria, com o papel na mão, levantou-se da janela e, muito pálida, saiu, dirigindo-se ao antigo gabinete do príncipe André..
— Duinacha, chama Alpatitch, Dronuchka, seja quem for! — disse ela — E diz a Amélia Karlovna que quero estar só — acrescentou, ao ouvir a voz de Mademoiselle Bourienne. — Temos de partir o mais depressa possível, o mais depressa possível! — sentia-se aterrada com a ideia de vir a cair rias mãos dos Franceses.
«Ali! Se o príncipe André soubesse que ela caíra nas mãos deles, e que ela, a filha do príncipe Nicolau Andreievitch Boikonski, implorara a protecção do general Rameau, o qual usara para com ela da sua benevolência!» Este pensamento enchia-a de terror, fazia-a estremecer, corar, dava-lhe acessos de cólera dela própria desconhecida e revoltava-lhe o orgulho. Via com toda a clareza o que aquela situação representaria de penoso e sobretudo de humilhante. «Esses franceses vão-se instalar aqui, nesta casa; o Sr. General Rameau vai ocupar o gabinete do príncipe André: distrair-se-á a folhear e a ler as suas cartas e os seus papéis. Mademoiselle Bourienne far-lhe-á as honras de Bogutcharovo. A mim dar-me-ão, por caridade, um quartinho; os soldados profanarão o túmulo de meu pai para lhe roubarem as cruzes e condecorações: contar-me-ão as suas vitórias contra os Russos, fingirão simpatia pela minha dor..». Assim pensava a princesa Maria, não pessoalmente, mas sentindo-se, por assim dizer, obrigada, nestas circunstâncias, a adoptar os sentimentos que teriam animado seu pai ou seu irmão. A ela, pessoalmente, tanto se lhe dava ficar aqui ou ali e eram-lhe indiferentes as consequências que daí resultassem: mas para si mesma ia dizendo ser a representante do finado e do irmão ausente. Sem querer, pensava e reagia como eles. Sentia-se obrigada a dizer e a fazer o que eles teriam dito ou feito. Desde que entrara no gabinete de André que passara a encarar a situação como se estivesse possuída dos pensamentos dele.
As exigências da vida quotidiana que ela julgara desaparecidas após a morte do pai apresentavam-se-lhe de repente com uma força nova e ainda desconhecida e absorviam-na por completo.
Muito agitada, o rosto afogueado pela emoção, andava de um lado para o outro, ora chamando à sua presença Alpatitch, ora Mikail Ivanovitch, ora Tikon, ora Drone. Nem Duniacha, a ama, nem qualquer das criadas lhe puderam dizer fosse o que fosse a respeito da veracidade das asserções de Mademoiselle Bourienne. Alpatitch estava ausente: [ora avistar-se com as autoridades, O arquitecto Mikail Ivanovitch apareceu à princesa meio adormecido e nada lhe pode dizer. Foi com o mesmo sorriso de aquiescência que durante mais de quinze anos utilizara para responder ao velho príncipe, sem nunca manifestar uma opinião pessoal, que respondeu à princesa sem que esta pudesse concluir fosse o que fosse das suas palavras. O velho criado do quarto, Tikon, de cara afilada pela fadiga e uma expressão de dor inconsolável, limitou-se a dizer: «As suas ordens» a todas as perguntas que a princesa lhe fez, rompendo em soluços sempre que erguia os olhos para ela.
Finalmente apareceu o estaroste Drone, que, depois de profundas reverências, se deixou ficar encostado à porta.
A princesa Maria atravessou o gabinete e deteve-se diante dele.
— Dronuchka — disse-lhe, vendo nele um amigo fiel, esse Dronuchka que lhe trazia todos os anos, aquando da sua jornada à feira de Viazma, para lhas oferecer, com um sorriso bom, rosquilhas de amêndoas especiais – Dronuehka, agora, depois da nossa desgraça... — Calou-se, porém, sem animo para continuar.
— Tudo depende da vontade de Deus — replicou Drone suspirando.
— Dronuchka, o Alpatitch não está, ninguém tenho com quem me aconselhar. É verdade que se diz que eu já não posso partir?
— Porque não há-de poder partir, Excelência? Pode partir — disse Drone.
— Disseram-me que é perigoso por causa do inimigo. Meu amigo, nada posso fazer, não percebo nada, ninguém tenho a meu lado. Quero ir-me embora sem falta esta noite ou amanhã de manhã muito cedo.
Drone permaneceu calado. Olhava para ela de soslaio.
— Não há cavalos — articulou ele. — Foi o que eu já disse a Iakov Alpatitch.
— Não há cavalos, porquê? — inquiriu a princesa,
— É castigo de Deus — replicou ele — Os cavalos que havia uns foram levados pelas tropas e os outros morreram. Ah! Vai um ano muito mau. E isso ainda é o menos, a gente não ter que dar a comer aos cavalos; mas o pior é que se acaba por morrer de fome, Não há nada de nada, estamos completamente arruinados. A princesa Maria ouvia atentamente.
— Os camponeses estão arruinados? Não têm pão? — perguntou ela.
— Estão a morrer de fome — volveu Drone. — Não só faltam carros...
— E porque não o tinhas tu dito já, Dronuchka? Não podemos ajudá-los? Farei tudo o que estiver na minha mão...
Parecia-lhe estranho pensar que naquele momento, naquela hora em que a dor lhe trespassava a alma, existissem ricos e pobres e que os ricos não procurassem ajudar os pobres. Ouvira falar vagamente do trigo dos senhores que por vezes se distribuía aos camponeses. Sabia igualmente que nem o irmão nem o pai se teriam negado a auxiliar os pobres. Receava apenas não vir a propósito a distribuição que estava disposta a fazer. Sentia-se feliz por ter um pretexto digno de preocupação capaz de lhe fazer esquecer o seu desgosto. Pediu a Dronuchka pormenores sobre as necessidades que havia a mitigar com as reservas do celeiro de Bogutcharovo.
— Deve haver trigo dos senhores, de meu irmão, não é verdade? — perguntou ela.
— O trigo do amo está intacto — replicou Drone com orgulho. — O príncipe não autorizava que se vendesse,
— Distribui-o aos camponeses, distribui todo o trigo que for preciso. Estás autorizado a fazê-lo em nome de meu irmão — acrescentou ela.
Drone não respondeu e despediu um grande suspiro.
— Dá-lhes esse trigo, se há trigo bastante para eles. Distribui-o todo. É em nome de meu irmão que te dou esta ordem e diz-lhes que o que é nosso lhes pertence, que nada pouparemos para os ajudar. Repete-lhes bem isto.
Drone olhava fixamente para a princesa enquanto ela falava.
— Dispensa-me das minhas funções, mãezinha, em nome de Deus. Manda que eu te entregue as minhas chaves — disse ele. — Servi durante vinte e três anos sem nunca fazer nada de mal. Dispensa-me das minhas funções, em nome de Deus.
A princesa Maria não percebia o que ele lhe pedia e a razão por que não queria continuar a desempenhar as suas funções. Replicou-lhe que nunca duvidara da sua dedicação e que estava disposta a fazer tudo quanto pudesse por ele e pelos camponeses.
[XI]
Daí a uma hora, Duniacha veio dizer à ama que Drone voltara e que todos os camponeses, de acordo com as suas ordens, estavam reunidos ao pé do celeiro e lhe queriam falar.
— Mas eu não os mandei chamar — disse a princesa. — Disse apenas ao Dronuchka que lhes distribuísse trigo.
— Por Deus, então, minha mãe, por amor de Deus, dê ordens para que os mandem embora e não vá falar com eles. Tudo isto é um grande engano — volveu Duniacha. — Quando Iakov Alpatitch voltar, ir-nos-emos embora... mas não consinta...
— De que engano estás tu a falar? — perguntou a princesa Maria, surpreendida.
— Bem sei o que digo, siga o meu conselho, por amor de Deus. Pergunte à ama. Não querem ir-se embora, como a senhora ordenou, segundo eles dizem.
— Tu não sabes o que dizes. Nunca dei ordem para que se fossem embora — afirmou a princesa Maria. — Manda cá o Dronuchka.
Drene confirmou as palavras de Duniacha: os camponeses haviam-se reunido por ordem da princesa.
— Mas eu nunca os mandei reunir — teimou ela. — Não lhe devias ter transmitido essa ordem. Apenas te disse para lhes distribuíres trigo.
Drene soltou um suspiro, sem responder.
— Se a senhora manda, eles ir-se-ão embora — tornou ele.
— Não, não, irei falar com eles — atalhou a princesa.
Apesar das suplicas de Duniacha e da ama, a princesa Maria assomou ao alpendre. Dronuchka, Duniacha, a ama e Mikail Ivanovitch seguiram-na.
«Naturalmente julgam que eu lhes ofereço o trigo em troca de eles consentirem em ficar, enquanto eu me vou embora, abandonando-os aos Franceses», dizia ela de si para consigo. Vou prometer-lhes cama e mesa na quinta dos arredores de Moscovo. Estou convencida de que no meu lugar André ainda faria mais do que eu.» Pensando deste jeito, aproximou-se da multidão reunida ao pé do celeiro no crepúsculo que descera do céu.
A turba, que principiava a dar sinais de impaciência, agitou-se quando viu a princesa e todos se descobriram precipitadamente.
A princesa Maria, baixando os olhos e tropeçando nas pregas do vestido, aproximou-se deles. Tantos eram os olhos de moços e velhos pousados nela e tantas as caras diferentes para ela voltadas que lhe não era possível reconhecer fosse quem fosse; diante da necessidade de se dirigir a todos ao mesmo tempo, não sabia como principiar. Porém, a consciência de ser, naquelas circunstâncias, o porta-voz do pai e do irmão deu-lhe a energia necessária e pôs-se a falar corajosamente.
— Estou muito contente porque tenham vindo — pronunciou ela, sem sequer erguer os olhos, enquanto o coração lhe batia descompassadamente no peito. — Dronuchka disse-me que a guerra os arruinou. Estamos todos sujeitos à mesma desgraça, e tudo farei para os auxiliar. Por mim, tenho de me ir embora, porque é perigoso ficar aqui — e o inimigo não está longe... também... Enfim, meus amigos, é tudo vosso, peço-vos que tomem conta de tudo: o trigo todo é vosso. Não quero que haja miséria entre vós. E, se lhes vierem dizer que eu vos dou trigo para que vocês fiquem, creiam que é mentira. Pelo contrário, suplico-lhes que partam com tudo que é vosso para a nossa propriedade perto de Moscovo e prometo-lhes que nada vos faltará ali, tomo essa responsabilidade. Tereis cama e mesa.
A princesa calou-se. Apenas se ouviram, entre a, multidão, alguns suspiros.
— Não sou eu quem torna esta resolução — prosseguiu ela. — Procedo em nome de meu falecido pai, que foi vosso amo, f, de meti irmão, seu filho.
Calou-se mais uma vez. Nenhuma voz rompeu o silêncio.
— A nossa desgraça é a mesma, e dividiremos tudo a meias. Tudo quanto é meu é vosso — prosseguiu ela, fixando desta vez os que estavam mais perto.
Todos os olhos a fitavam com uma expressão idêntica, expressão que ela não podia compreender. Curiosidade? Dedicação? Reconhecimento? Ou apenas medo e desconfiança? Impossível sabê-lo. Mas em todos os rostos a expressão era uma e a mesma.
— Estamos-lhe muito reconhecidos pela sua bondade, mas não convém que a gente tome conta do trigo que é do amo — disse uma voz lá por trás.
— E então porquê? — interrogou a princesa Maria.
Ninguém lhe respondeu e a princesa, ao percorrer com a vista a multidão, deu-se conta de que todos os olhos que encontravam agora os seus imediatamente se baixavam.
— Então porque não querem? — repetiu ela. Ninguém respondeu.
Maria sentiu-se incomodada perante este silêncio: tentou fixar alguns daqueles olhares.
— Porque não respondem? — E ao lobrigar um velho que estava diante dela encostado a um varapau: — Vamos, fala, achas que ainda precisam de mais alguma coisa? Estou pronta para tudo.
Mas ele, como se ficasse de súbito furioso por ver-se pelado daquela maneira, ainda, baixou mais os olhos enquanto murmurava:
— Porque havíamos nós de aceitar? Não precisamos de trigo. «E porque havíamos nós de abandonar tudo? Não estamos dispostos a isso... Não damos o nosso consentimento. Lamentamos mas não consentimos. Vai-te embora sozinha, se queres...», disseram várias vozes.
E novamente todos os rostos retomaram a, mesma expressão, e o que neles se reflectia não era, por certo, nem curiosidade nem reconhecimento, mas antes uma resolução enérgica.
— Naturalmente não me compreenderam bem — disse então a princesa Maria com um sorriso muito triste. — Porque não querem partir? Já lhes disse que lhes darei cama e mesa. Se ficarem aqui, o inimigo arruiná-los-á...
As vozes da multidão, porém, abafaram a da princesa.
«Não damos o nosso consentimento; pois que nos arruinem! Não queremos o teu trigo não damos o nosso consentimento!» Maria tentou ainda reter um olhar qualquer dos que falavam, mas nenhuns olhos estavam fitos nela. Todos a evitavam, E isto fê-la sentir uma impressão estranha e penosa.
«Viste como ela recitou bem a lição? Não faltava mais. Queria levar-nos para trabalhos forçados! Quando as nossas casas estiverem arruinadas, dá-nos trabalho de graça. Que vem a ser isso? E diz que nos dará trigo!», exclamavam no meio da multidão
De cabeça baixa abandonou o grupo e voltou para casa. Depois de ter repetido a Drone que eram precisos os cavalos para o dia seguinte pela manhã, retirou-se para o seu quarto e ali permaneceu sozinha com os seus pensamentos.
[XII]
Naquela noite a princesa Maria ficou por muito tempo sentada junto da janela aberta, ouvindo as vozes dos camponeses que chegavam da aldeia, mas sem pensar neles. Sabia perfeitamente que quanto mais pensasse na maneira de proceder deles menos poderia compreendê-los. Para ela só uma coisa contava: a sua dor, a qual, agora, depois daquela diversão provocada pelas preocupações do presente, se perdia no passado. Já não podia lembrar-se mais, já não podia chorar, já não podia rezar, Com o pôr do Sol o vento calara-se. A noite estava serena e fresca. Depois da meia-noite as vozes foram-se calando pouco a pouco. O galo principiou a cantar; a lua cheia ergueu-se por detrás das tílias; neblinas frescas e esbranquiçadas envolveram a distância e o silêncio caiu sobre a aldeia e a casa.
Passaram diante dela, uma após outra, as imagens do passado tão próximo; a doença e os últimos momentos do pai. E era com alegria triste que ela recordava agora essas cenas, não repelindo com horror senão uma delas, a da morte, sentindo não ser capaz de a evocar naquela serena e misteriosa hora da noite. E esses quadros surgiam-lhe diante dos olhos com uma tal nitidez e com tais pormenores que se lhe afiguravam ora o presente, ora o passado, ora o futuro.
Recordou o momento em que o pai fora acometido de apoplexia, quando o haviam trazido do jardim, amparado por debaixo dos braços, balbuciando palavras incompreensíveis, franzindo as sobrancelhas brancas e olhando para ela com uma expressão tímida e inquieta.
«Já então me queria comunicar o que me disse no dia da morte», dizia ela consigo mesma. «Tinha pensado sempre no que me disse.» E eis que lhe ocorreu, em todos os seus pormenores, aquela noite em Lissia Gori, na véspera do dia em que ele fora acometido pelo último ataque, quando, na previsão da catástrofe, ela ficara ao pé do doente contra sua vontade. Não pudera dormir e em bicos de pés aproximara-se da porta do jardim de inverno onde o pai dormia nessa noite e ouvira-lhe a voz. Entretinha-se a conversar com Tikon num tom fatigado e de quem sofre. Falava da Crimeia, das noites nos países quentes, da imperatriz. Tinha, sem dúvida necessidade de conversar. «E porque me não mandou chamar? Porque me não deixou ocupar o lugar de Tikon?», pensava ela, como já pensara então. «Ah! Agora já não poderá dizer a ninguém o que então lhe ia no coração. Nem para ele nem para mim. Não mais se repetirá aquele minuto em que ele teria dito quanto queria dizer e em que eu ali estaria presente, em vez de Tikon, para o ouvir e o compreender. Porque não entrei eu então? É de crer que ele me tivesse dito nesse momento o que me disse no dia da sua morte. Já então, conversando com Tikon, perguntara duas vezes por mim. Queria falar-me, e eu ali, atrás daquela porta. Era-lhe penoso não estar a ser ouvido senão por Tikon, que o não podia compreender. Lembro-me de que lhe falou de Lisa como se ela ainda estivesse viva, pois se esquecera de que ela morrera, que Tikon lhe disse que Lisa já não era do número dos vivos e que ele se pusera a gritar: ’imbecil’» Estas recordações eram-lhe penosas. Ouviu-o gemer através da porta quando ele se deitou e clamava em voz alta: «’Meu Deus!’ Porque não entrei eu naquele momento? Que me teria ele feito? Que arriscava eu então? E talvez que afinal se tivesse consolado e me tivesse dito essas palavras.» E Maria pronunciou em voz alta essas palavras acariciadoras que ele lhe dissera no dia da sua morte: «Alma minha!», repetiu ela, e rompeu em soluços, que lhe aliviaram o coração. Via agora, ali na sua frente, o rosto dele: não essa cara, que ela tão bem conhecia, sempre distante, mas essa outra expressão tímida e receosa que ela contemplara pela primeira vez de perto, com todas as suas rugas, nos seus mínimos pormenores, quando se debruçou sobre os lábios dele para o ouvir melhor.
«Alma minha!», repetia ela.
«Em que pensava ele quando assim me chamou? Em que estará ele a pensar neste momento?», perguntou ela a si própria, subitamente, e de novo lhe surgiu diante dos olhos a expressão que ele tinha no caixão com a ligadura branca por debaixo do queixo. E o mesmo horror que dela se apossara ao tocar no morto e ao verificar que já não era ele quem ali estava, mas qualquer coisa de misterioso e repelente, esse mesmo horror se apoderou dela naquele instante. Teria desejado pensar noutra coisa, rezar; não o conseguia, porém. Erguia os seus grandes olhos muito abertos para o disco lunar e para a sombra e esperava a cada momento voltar a ver a cara do morto; sentia-se como que paralisada pela grande serenidade que reinava na casa e nas vizinhanças. «Duniacha!», balbuciou ela primeiro. «Duniacha!», clamou, em seguida, numa voz desesperada, e, arrancando-se ao silêncio e à meditação que a tomavam, correu para o quarto das criadas, ao encontro da ama e das mulheres, que vinham já atender ao seu chamamento.
[XIII]
No dia 17 de Agosto, Rostov e Iline, na companhia de Lavruchka, de regresso do breve cativeiro, e de uma ordenança hússar, abalaram, para um curto passeio a cavalo, do acampamento de Iankov, a umas quinze verstas, pouco mais ou menos, de Bogutcharovo, Queriam experimentar um cavalo novo que Iline comprara e investigar se haveria palha nas aldeias próximas. Há três dias que Bogutcharovo estava entre os dois exércitos inimigos, de tal sorte que, de um momento para o outro, podia vir a ser ocupada quer pela retaguarda dos Russos, quer pela vanguarda dos Franceses. Eis a razão por que, Rostov, comandante de esquadrão previdente, queria apoderar-se, antes da chegada do inimigo, dos abastecimentos que porventura ai tivessem ficado.
Os dois amigos iam muito bem dispostos. Cavalgando em direcção a Bogutcharovo, a propriedade do príncipe, onde esperavam encontrar basta criadagem e lindas moças, interrogavam Lavruchka acerca de Napoleão, rindo das suas histórias, quando não se punham a galopar ao desafio para experimentar o cavalo de Iline.
Rostov ignorava por completo que a aldeia para onde se dirigiam era propriedade desse Bolkonski que fora noivo de sua irmã.
Num último desafio largaram a galope pela encosta que descia para Bogutcharovo, e Rostov, distanciando-se do amigo, foi o primeiro a atravessar a rua da povoação.
— Deixaste-me para trás — disse Iline, afogueado pela galopada.
— Sim, chego sempre primeiro, tanto em campo raso como aqui — replicou Rostov, afagando o seu corcel do Dom, branco de espuma.
— E eu, Excelências, com a minha francesa — interveio Lavruchka, que os seguia e era assim que chamava ao rocim em que ia montado — eu, se os não quisesse envergonhar, já há muito que os teria apanhado,
A passo aproximaram-se de um celeiro onde havia um grande ajuntamento de camponeses.
Alguns deles desbarretaram-se, enquanto outros se limitavam a olhar para os recém-chegados. Dois mujiques idosos, de barbas ralas e caras sulcadas de rugas, saíram de uma, taberna e, titubeando e cantarolando uma canção incoerente, aproximaram-se dos oficiais.
— Aqui temos homens! — exclamou Rustov, rindo. — Eh! Tendes palha?
— Qual deles o melhor. — disse Iline.
«Alegre... com... pa... nhia...», cantarolava um dos mujiques com um sorriso feliz.
Um camponês saiu da multidão e, aproximou-se de Rostov.
— Quem sois vós? — perguntou.
— Franceses — respondeu Iline, a rir — E aqui tens Napoleão em carne e osso — acrescentou, apontando para Lavruchka. Então são russos? — voltou o camponês.
— Trazem muitas forças? — perguntou outro camponês, pequenino, que se aproximara.
— Sim, muitas, muitas — retorquiu Rostov. — E que estão vocês a fazer todos aqui? — acrescentou. — É dia santo, porventura?
— Os velhos reuniram-se para tratar coisas lá da comuna — replicou o camponês, afastando-se.
Nesse momento duas mulheres e um homem de gorro branco saíram da casa senhorial e dirigiram-se para os oficiais.
— A vestida de encarnado é para mim! Ai daquele que ma roubar! — exclamou Iline, vendo Duniacha, que caminhava para ele num passo decidido,
— É para nós! — disse Lavruchka, piscando o olho a Iline.
— Que queres tu, minha linda? — perguntou Iline, sorrindo.
— A princesa manda perguntar a que regimento pertencem como se chamam.
— Conde Rostov, comandante de esquadrão e vosso muito humilde servidor.
«Com... pa... nhia!», ia cantando o camponês bêbedo, sorrindo com ar feliz e olhando para Iline, que conversava com a rapariga. Logo atrás de Duniacha apareceu Alpatitch, que de longe se descobrira respeitosamente.
— Atrevo-me a incomodar Vossa Senhoria — disse ele, com a mão na carcela do colete e numa deferência em que se misturava certa displicência, atendendo à juventude do oficial. — Minha ama, a filha do general-chefe príncipe Nicolau Andrejevitch Bolkonski, falecido no dia 15 deste mês, encontra-se numa situação penosa, por causa da ignorância desta gente. — E fez um gesto na direcção dos camponeses. — Roga-lhes que tenham a bondade... Querem fazer o favor de se afastar um pouco? Não é muito agradável na presença destes... — Apontou para os dois camponeses que, a pequena distância, cirandavam em volta dele como varejeiras à roda de um cavalo.
— Oh, Alpatitch... Oh, Talcov Alpatitch... Muito bem! Em nome de Cristo, perdoa-nos. Muito bem! — diziam os camponeses, mostrando-lhe o melhor dos seus sorrisos.
Rostov não pôde deixar de olhar para os dois borrachos e sorriu.
— A não ser que isto divirta Vossa Excelência! — observou Iakov Alpatitch, com um ar grave, tirando a mão da carcela do colete para apontar os dois velhos.
— Não, não, isto nada tem de divertido — atalhou Rostov, afastando-se. — E de que se trata afinal? — perguntou.
— Excelência, estes grosseiros indivíduos não querem deixar sair daqui a minha ama e ameaçam-na de lhe desengatar os cavalos, de modo que tudo está carregado desde manhã e a princesa não pode meter-se a caminho.
— Isso não pode ser! — exclamou Rostov.
— Tenho a honra de lhe dizer a verdade pura — confirmou Alpatitch.
Rostov apeou-se, entregou as rédeas do cavalo à ordenança e seguiu Alpatitch em direcção à casa, enquanto lhe ia pedindo pormenores. Efectivamente, a proposta da véspera aos camponeses para lhes distribuir o trigo e a explicação da princesa com Drone e a assembleia campesina de tal modo desarranjaram as coisas que Drone entregara definitivamente as suas chaves, se juntara aos camponeses e não aparecera quando convocado por Alpatitch. E assim, quando, na manhã seguinte, a princesa dera ordens para a partida, aquela gente reunira-se em grande número ao pé do celeiro e mandara dizer que não deixaria partir a princesa, que havia ordem para não abandonar as casas e que estava disposta a desatrelar os cavalos. Alpatitch viera parlamentar com os camponeses, tentando chamá-los à razão, mas haviam-lhe respondido — foi Karp quem falou, pois Drone não aparecia — não ser possível deixarem partir a princesa, que havia ordem para isso. Se ela consentisse, porém, em ficar, continuariam a servi-la como até ali e lhe obedeceriam em tudo.