Guerra e Paz

Liev Tolstói · Capítulo 10 de 18 · parte 4/8

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Guerra e Paz

Segunda Parte

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.

Enquanto Rostov e Iline galopavam pela estrada, a princesa Maria, apesar das objecções de Alpatitch, da ama e das criadas, mandara atrelar os carros para a partida. Os cocheiros, no entanto, ao verem ao longe os cavaleiros, que julgaram franceses, fugiram e as mulheres puseram-se a gritar pela casa.

«Paizinho! Nosso paizinho! Foi Deus quem te mandou!», exclamavam vozes suplicantes no momento em que Rostov penetrava no vestíbulo da casa.

A princesa Maria, desamparada e sem forças, estava no salão quando Rostov entrou. Não percebia quem ele era, porque estava ali e o que estava a passar-se. Compreendeu tratar-se de um russo, e pela maneira de andar e assim que ele pronunciou as primeiras palavras deu-se conta de que estava diante de um homem polido. Fitou nele os olhos fundos e luminosos e pôs-se a falar-lhe numa voz entrecortada e trémula de emoção. Rostov sentiu imediatamente o que havia de romanesco naquele encontro. «Esta rapariga, sem defesa, esmagada pela desgraça, abandonada, à mercê de camponeses grosseiros revoltados! Que estranho capricho do destino me havia de trazer aqui!», dizia Rostov com os seus botões e, enquanto ouvia a narração que ela lhe fazia, observava-a, «E que suavidade, que nobreza de traços, que expressão de rosto!»

Quando ela lhe disse que tudo aquilo acontecera no dia seguinte ao do funeral do pai, a voz tremia-lhe. Voltou a cabeça para o lado, e, em seguida, receosa de que Rostov pensasse que ela o queria comover, fitou nele uns olhares tímidos e interrogativos. Rostov tinha os olhos cheios de lágrimas. Maria deu por isso e agradeceu-lhe poisando nele umas pupilas luminosas que apagaram por completo a fealdade dos seus traços.

— Não tenho palavras, princesa, para lhe expressar como me sinto feliz por haver passado aqui por acaso e poder-me confessar à sua disposição — pronunciou ele, levantando— se. — Pode partir. Garanto-lhe sob palavra que ninguém ousará incomodá-la desde que me dê a honra de a escoltar. — E, inclinando-se diante dela tão respeitosamente como se estivesse em frente de uma princesa de sangue real, encaminhou-se para a porta.

Os modos cerimoniosos de Rostov queriam dizer clar2mente que, embora lhe fosse muito agradável entabular com ela mais amplas relações, não queria aproveitar aquela circunstância triste para prosseguir no seu diálogo.

A princesa Maria compreendeu e apreciou a sua discrição.

— Estou-lhe muito, muito reconhecida — disse-lhe ela em francês — espero que tudo isto não passe de um mal-entendido e que ninguém seja culpado. — E principiou a chorar. — Perdoe-me — acrescentou.

Rostov franziu as sobrancelhas, para esconder a emoção que o tomava, e, inclinando-se mais uma vez profundamente, saiu da sala.

 

[XIV]

— Então? É bonita? Ah, rapazes, a minha, a de encarnado, é um encanto e chama-se Duniacha...

A expressão de Rostov, porém, fez que Iline se calasse imediatamente, Adivinhou que o seu herói e comandante estava numa disposição de espír4to diferente da sua.

Rostov lançou-lhe um olhar irritado e sem lhe responder dirigiu-se em passos rápidos para a povoação.

«Eu lhes ensinarei! Vão ter o que merecem, estes bandidos», dizia de si para consigo.

Alpatitch, alargando o passo quanto podia, custou-lhe a apanhá-lo.

— Que decisão se digna tomar? — perguntou-lhe, quando conseguiu alcançá-lo.

Rostov deteve-se e, cerrando os punhos, caminhou, de súbito, ameaçador para Alpatitch.

— Que decisão? Que decisão? Velho imbecil! — gritou-lhe. — Que andas tu para aí a fazer? Os camponeses revoltam-se e tu não sabes metê-los na ordem, hem! Afinal não passas de um traidor! Conheço-os a todos. Hei-de arrancar-lhes a pele! — E como se receasse esgotar inutilmente a cólera que se apoderava dele deixou Alpatitch no meio da rua e prosseguiu o seu caminho em passos acelerados.

Alpatitch, calando a ofensa imerecida que se lhe acabava de fazer, continuou atrás de Rostov em passo acelerado também e teimou em pô-lo ao corrente do seu ponto de vista. Explicava-lhe que os camponeses estavam naquele momento absolutamente obstinados, que’ naquela altura seria insensato resistir-lhes sem o apoio da força armada, que seria muito melhor começar por pedir reforços.

— Eu lhes darei as forças armadas... Sou eu quem lhes vai fazer frente — repetiu Nicolau, sem pensar no que dizia, sufocado por uma ira irreflectida e animal que só queria expandir-se.

Sem medir o passo que ia dar, caminhou direito à multidão, rápido e decidido. E à medida que ele se aproximava, Alpatitch ia dizendo de si para consigo que talvez o seu acto insensato pudesse dar bons resultados. Eis o que os próprios camponeses pareciam compreender também ao verem av2nçar para eles aquele homem de passo rápido e enérgico e rosto decidido e contraído de raiva.

Mal os hússares tinham entrado na povoação, e assim que Rostov se dirigira a casa da princesa, uma certa desorientação e um certo desacordo se verificaram entre o povo. Alguns camponeses principiaram a dizer que os militares eram russos e que naturalmente iam zangar-se quando soubessem que eles impediam a partida da princesa. Drone, especialmente, era desta opinião: mas, assim que manifestara o seu Parecer, Karp e muitos outros irritaram-se com ele.

— Quantos anos estiveste tu para aí a comer à custa da comuna? — gritou-lhe Karp. — Para ti, tanto faz. Pegas na bolsa e por aqui me sirvo. Queres lá saber que as nossas casas sejam saqueadas!

— Que se cumpra o que está resolvido: que ninguém saia de sua casa. Desde que ninguém tire nada daqui, não haverá novidade! — gritou outra voz,

— O teu filho é que devia ter sido recrutado e tu, com p(ma dele, mandaste o meu Vanka no seu lugar. Todos ternos de morrer! — exclamou, de súbito, um velhito que se dirigia a Drone.

— Sim, sim, todos temos de morrer.

— Eu não sou delegado da comuna — observou Drone.

— Sim, sim, não és delegado da comuna, mas criaste barriga!...

Dois camponeses apalermados iam dizendo qualquer coisa. Assim que Rostov, acompanhado de Iline Lavruchka e Alpatitch, se aproximou do grupo, Karp, avançou para ele com os dedos no cinturão e um leve sorriso nos lábios. Drone, pelo contrário, tratou de se esconder nas últimas fileiras do povo, agora mais compacto do que nunca.

— Quem é aqui o estaroste? — gritou Rostov caminhando rapidamente.

— O estaroste? Que lhe quer? — perguntou Karp.

Antes que pudesse terminar a frase, o barrete voou-lhe pelo ar e a cabeça oscilou-lhe apanhada em cheio por um violento golpe.

— Desbarretem-se, traidores! — gritou Rostov em voz alta. — Onde está o estaroste? — acrescentou numa voz terrível.

«Está a chamar o estaroste, está a chamar o estaroste... Drone Zakaritch, estão a chamá-lo», exclamaram várias vozes receosas, e imediatamente os barretes desapareceram das cabeças.

Não queremos revoltar-nos, estamos apenas a cumprir as decisões que tomámos — disse Karp. Depois, algumas vozes, lá para trás, começaram a falar todas ao mesmo tempo:

«Foram os velhos quem resolveu... São muitos a mandar — Quem se atreve a falar?... É uma revolta!... Cambada de ladrões! Traidores! — vociferou Rostov sem pensar, numa voz que perdera a ressonância humana, agarrando Karp pela gola. — Amarrem-no, amarrem-no! — gritou, embora para amarrar Karp houvesse ali apenas Lavruchka e Alpatitch-

Lavruchka precipitou-se para ele e agarrou-lhe as mãos por detrás.

— Se quiser, vai chamar-se a nossa gente, lá ao fundo da colina — disse ele.

Alpatitch chamou dois camponeses pelo seu nome para que viessem amarrar Karp. E os dois avançaram docilmente do meio da multidão e desataram os cinturões.

Onde está o estaroste? — gritou Rostov.

Drone, pálido e carrancudo, deu dois passos em frente.

— Tu é que és o estaroste? Amarra-o, Lavruchka! — ordenou Rostov, como se o cumprimento desta ordem não pudesse levantar qualquer obstáculo.

E, realmente, dois outros mujiques puseram-se a amarrar Drone, o qual, como se quisesse auxiliá-los, arrancou o cinturão e passou-lho para as mãos.

— E vocês todos, ouçam-me bem — prosseguiu Rostov, dirigindo-se aos camponeses. — Agora é cada um tratar de ir para sua casa e que ninguém se lembre de abrir o bico.

— Mas então? Que mal fizemos nós? Foi tudo uma asneira. Só fizemos asneiras. Eu bem disse que isto não estava direito — exclamaram algumas vozes, acusando-se mutuamente.

— Eu bem vos tinha prevenido — comentou Alpatitch, recuperando a autoridade perdida. — Não está certo, rapazes!

— Foi uma asneira nossa. Iakov Alpatitch — responderam várias vozes, e a multidão imediatamente se dispersou, espalhando-se pela aldeia.

Os dois camponeses prisioneiros foram conduzidos ao pátio da casa senhorial. Atrás deles foram os dois bêbedos.

— Olhem para a cara deles! — disse um dos bêbedos, dirigindo-se a Karp.

— É maneira de se falar aos amos? Que julgas tu? Imbecil, sim, és um imbecil — disse o outro.

Duas horas mais tarde estacionavam os carros no pátio de Bogutcharovo. Os camponeses atarefavam-se a carregar as bagagens dos amos enquanto Drone, que, a pedido da princesa, fora solto do sótão onde o haviam encerrado, ia dando as suas ordens no meio deles.

— Que isso fique bem arrumado — dizia um homem de grande estatura, de cara cheia e sorridente, ao receber uma caixinha das mãos da criada. — Essa caixa vale dinheiro. Não a ponhas para aí de qualquer maneira. Vê lá se a amarras de maneira que se estrague. Não gosto disso. É preciso que as coisas se façam com consciência, em ordem. Assim, isso mesmo, agora cobre-a com uma serapilheira e põe-lhe em cima um bocado de palha.

— Aqui vão livros, muitos livros — dizia outro, que transportava os livros da biblioteca do príncipe André. — Não me toques! Caramba, que é pesado, rapazes! Isto sim, são livros que valem quanto pesam!

— Caramba, quem escreveu estes livros não teve tempo para se coçar! — dizia, por seu turno, piscando o olho, com ar de entendido, um rapazola gordo e grandalhão que apontava para os dicionários que vinham em cima.

Rostov, que não queria impor-se à princesa, não voltou a casa dela e deixou-se ficar na aldeia até ao momento da partida. Assim que as carruagens se puseram em marcha, montou a cavalo e escoltou-as até à estrada ocupada pelas tropas russas, a umas doze verstas dali. Na estalagem de Iankovo pediu respeitosamente licença para se retirar, permitindo-se, pela primeira vez, beijar-lhe a mão.

— Não diga isso, princesa — protestou ele, corando diante da princesa, que lhe agradecia ter-lhe salvo a vida, como ela dizia. — Qualquer comissário da polícia teria feito o que eu fiz. Se estivéssemos aqui só para guerrear com os camponeses, não teríamos deixado o inimigo chegar onde chegou. — E, para mudar de conversa, acrescentou: — Aliás, sinto-me feliz por ter tido a oportunidade de a conhecer. Adeus, princesa, desejo-lhe muitas felicidades e espero que ainda venhamos a encontrar-nos em circunstâncias mais agradáveis. Se não quer que eu core, por amor de Deus, não me agradeça.

A princesa, se calava as palavras de gratidão, nem por isso deixava de traduzir na sua resplandecente expressão de enternecido reconhecimento quanto estava agradecida a Rostov. Não podia acreditar que nada tivesse a agradecer-lhe. A seus olhos era indiscutível que, se Rostov ali não tivesse aparecido, teria sido vítima ao mesmo tempo dos camponeses revoltados e dos Franceses. Era para ela um facto que, para a salvar, se expusera aos mais evidentes e terríveis perigos. E também se lhe afigurava incontestável que era um homem de alma alevantada e nobre, pois soubera compreender a sua situação e ter pena da sua dor. Os olhos de Rostov, tão bons e tão honestos, tinham-se enchido de lágrimas quando ela, lacrimosa também, lhe falara da morte do pai e esta recordação estava gravada na sua alma.

Quando lhe disse adeus e ficou só, Maria sentiu, de súbito, que os olhos se lhe humedeciam, e foi então que, pela primeira vez, lhe veio ao espírito esta ideia estranha: estaria porventura enamorada?

No decurso da jornada para Moscovo, embora a situação não fosse das mais alegres, Duniacha, que ia ao lado da princesa, na mesma carruagem, mais de uma vez pôde observar que ela espreitava pela portinhola com um vago e triste sorriso.

«E se realmente eu estivesse enamorada dele?», dizia de si para consigo.

Apesar da vergonha que sentia por confessar a si própria que amava um homem pela primeira vez, homem esse que naturalmente não tinha por ela qualquer sentimento especial, consolava-a a ideia de que nunca alguém conheceria o seu segredo e que não era crime gostar, sem o confessar a ninguém, e até ao último dos seus dias, daquele que seria o seu primeiro e último amor.

De vez em quando lembrava-se do olhar dele, das suas atenções, das suas palavras cheias de simpatia, e então a felicidade não se lhe afigurava impossível. E era então que Duniacha lhe notava o ar feliz quando olhava pela portinhola.

«Tinha de vir a Bogutcharovo e logo naquele momento!», dizia para consigo a princesa Maria. «E tinha sido preciso que a irmã desfizesse o casamento com o príncipe André!» E em tudo isto não podia deixar de ver o dedo da Providência. Quanto a Rostov, a impressão que lhe produzira a princesa

Maria era de suavidade e agrado. Sempre que falava dela sentia-se mais alegre, e sempre que os seus camaradas, a cujos ouvidos chegara qualquer coisa a respeito da aventura do camarada em Bogutcharovo, se punham a brincar com ele, dizendo que Rostov fora à procura de palha e achara uma das mais ricas herdeiras da Rússia, zangava-se a bom zangar. E o facto é que se irritava porque a ideia de um casamento com a doce e simpática princesa, possuidora aliás de uma grande fortuna, lhe ocorrera várias vezes sem que ele desse por isso. Pessoalmente, não podia desejar uma esposa melhor. «Aquele casamento, que faria a felicidade da condessa e restabeleceria a situação do próprio pai, talvez não desagradasse à própria princesa», pensava Nicolau,

E que faria de Sónia? E a palavra dada? Eis por que Rostov se, irritava quando brincavam com ele por causa da princesa Bolkonski.

 

[XV]

Tendo aceitado o comando dos exércitos russos, Kutuzov lembrou-se do príncipe André e expediu-lhe ordem para se apresentar no quartel-general

André chegou a Tsarevo-Zaimitch no dia e à hora em que Kutuzov passava a sua primeira revista às tropas. Deteve-se na aldeia, junto da casa do pope, onde estava a carruagem do general-chefe, e sentou-se num banco ao pé do portão para aguardar ali o «Sereníssimo», como toda a gente o tratava agora.

Nos campos por detrás da aldeia ressoavam ora os acordes de uma banda militar ora as formidáveis aclamações em honra do novo generalíssimo. A meia dúzia de passos do príncipe André, duas ordenanças, um impedido e um mordomo aproveitavam a ausência do amo e o bom tempo para tomarem o fresco. Um tenente-coronel de hússares, homenzinho trigueiro, de grandes bigodes e patilhas, aproximou-se do portão e, dirigindo-se a André, perguntou-lhe se era efectivamente ali que vivia o Sereníssimo e se regressaria em breve.

O príncipe André respondeu-lhe que não pertencia ao estado-maior e que além disso também acabava de chegar. O tenente-coronel de hússares dirigiu-se então a uma das ordenanças de grande uniforme e este disse-lhe, com o desdém peculiar das ordenanças dos generais-chefes pelos oficiais:

— Quem? O Sereníssimo? Sim, talvez, talvez não tarde a chegar. Que lhe quer?

O tenente-coronel pôs-se a rir do tom da ordenança retorcendo o bigode; apeou-se do cavalo, entregou-o ao impedido e aproximou-se de Bolkonski, inclinando-se ligeiramente. Bolkonski arranjou-lhe lugar no banco. O outro sentou-se a seu lado.

— Também está à espera do generalíssimo? — perguntou o tenente-coronel. — Tenho ouvido dizer que é pessoa para receber toda a gente. Graças a Deus! Se ainda fosse um desses papa-chouriços, que grande trapalhada! Razão tinha Ermolov quando pediu que o promovessem a alemão. Talvez agora os Russos também tenham o direito de falar! Só o diabo é que sabe o que se tem feito até hoje. Sempre a recuar, sempre a recuar. Esteve na frente?

— Tive o prazer — respondeu o príncipe André — não só de participar da retirada, mas também de perder o que tinha de mais querido, meu pai, que morreu de desgosto, sem alar rios meus bens e na casa paterna. Sou de Smolensk.

— Ah! É o príncipe Bolkonski? Muito prazer em conhecê-lo, Eu sou o tenente-coronel Denissov, mais conhecido por Vaska — disse Denissov, apertando-lhe a mão e fitando-o com afectuoso interesse. — Sim, eu soube... — acrescentou com simpatia. E, após alguns momentos de silêncio, continuou: — É uma verdadeira guerra de citas. Tudo isto está certo menos para aqueles que têm de dar o corpo ao manifesto. Com que então, é o príncipe Bolkonski?... — Abanou a cabeça. — Muito prazer, príncipe, muito prazer em conhecê-lo — repetiu, com um sorriso triste, apertando-lhe de novo a mão.

O príncipe André conhecia Denissov através do que Natacha lhe dissera a respeito do seu primeiro namorado. Esta lembrança era para ele ao mesmo tempo agradável e penosa e fazia-o evocar recordaç5es dolorosas nos últimos tempos muito longe das suas preocupações, embora sempre a miná-lo no fundo do seu coração.

De então para cá experimentara já tantos abalos morais, e tão graves — o abandono de Smolensk, a sua visita a Lissia Gori, a notícia recente da morte do pai —, que as recordações antigas o tinham abandonado havia muito ou pelo menos não agiam sobre ele com o mesmo poder. Para Denissov, o nome de Bolkonski evocava toda uma série de imagens de um passado longínquo e poético, esse dia em que, depois da ceia e da romança cantada por Natacha, lhe fizera, a essa garota de quinze anos, nem sabia como, uma verdadeira declaração de amor. Sorriu, lembrando-se do seu romance de então, e logo em seguida voltou ao assunto das suas constantes e apaixonadas preocupações. Tratava-se do plano de campanha que imaginara durante a retirada estando de serviço nos postos avançados. Apresentara-o a Barclay de Tolly e pensava agora submetê-lo à apreciação de Kutuzov. Este plano baseava-se no facto de as linhas de operação dos Franceses serem muito extensas. Segundo ele, o que era preciso, em vez de os atacarem de frente e lhe cortarem o passo, ou até mantendo-se a mesma táctica, era atacarem-lhes as linhas de comunicação. Principiou a expor este plano ao príncipe André.

— Eles não se podem aguentar com uma linha assim. É impossível e eu sou capaz de lha cortar: dêem-me quinhentos homens e acabo com ela, palavra de honra! O único sistema eficaz é a guerra de guerrilhas.

Denissov levantou-se e em gestos exuberantes principiou a expor os seus planos. Enquanto ele falava, aclamações mais indistintas e mais prolongadas, que se misturavam com a música e os cantos, chegavam dos lados onde decorria a parada militar. A povoação estava cheia do tropear dos cavalos e dos gritos dos soldados,

— Aí vem ele — gritou um cossaco, à porta do pátio — aí vem ele!

Bolkonski e Denissov aproximaram-se do portão onde se perfilava uma esquadra de soldados, a guarda de honra, e viram Kutuzov cavalgando um cavalito balo. Atrás dele vinha uma escolta de generais assaz considerável. Barclay cavalgava a seu lado; uma chusma de oficiais a cavalo ia e vinha, no flanco da coluna e na retaguarda, gritando: «Hurra!»

Os ajudantes-de-campo galoparam para entrar no pátio adiante do general-chefe. Kutuzov esporeava impacientemente o seu cavalo, que, vergando sob tão pesado fardo, caminhava a passo. A cada momento o Sereníssimo inclinava a cabeça e levava a mão ao gorro branco, de cavaleiro da guarda, sem pala e agaloado de encarnado. Ao chegar junto da guarda de honra, formada por heróicos granadeiros, a maior parte condecorados e que lhe apresentavam armas, fitou-os por momentos em silêncio com o seu olhar penetrante de superior e voltou-se para a chusma de generais e oficiais de outras patentes que o rodeavam. No seu rosto surgiu de súbito uma expressão irónica: encolheu os ombros com um gesto de surpresa.

— E recuamos, recuamos com rapazes tão valentes como estes! — exclamou ele. — Bom, até à vista, general — acrescentou, e, dando de esporas ao cavalo, meteu pelo portão, passando diante de André e Denissov.

«Hurra! Hurra! Hurra! », gritavam atrás dele.

Desde a última vez que o príncipe André o vira, Kutuzov ainda engordara mais, e parecia encolhido, esbarrondando-se em gordura. Mas o seu olho torto, a cicatriz e a expressão de cansaço da sua fisionomia e de toda a sua pessoa não tinham mudado. Vestia o redingote do uniforme, pingalim a tiracolo, suspenso de uma correia fina, e trazia na cabeça o gorro branco dos cavaleiros da guarda. Pesadamente escarranchado e balouçando-se em cima do selim do seu valente cavalinho, assobiava entre dentes quando penetrou no pátio. Na sua cara via-se a satisfação de estar finalmente em paz e de poder descansar depois de uma estopada. Tirou o pé esquerdo do estribo, e, torcendo o corpo e franzindo as sobrancelhas com o esforço que fazia, lá conseguiu passar a perna por cima da sela. Depois apoiou-se no joelho e, tossindo, deixou-se cair nos braços dos cossacos e dos ajudantes-de-campo que o amparavam.

Endireitou-se, passeou em volta o olho pisco, olhou para o príncipe André sem o conhecer e no seu andar pesadão encaminhou-se para o alpendre.

Fu... fu... fu... !, continuava a assobiar, enquanto relanceava de novo os olhos para o príncipe André. E alguns segundos foram precisos, como é vulgar entre os velhos, para reconhecer aquela cara.

— Ah!, viva, príncipe! Viva, meu amigo! Vamos. — disse penosamente, lançando um olhar à sua roda, e subiu, pesado, os degraus do alpendre, que rangiam sob os seus pés.

Desabotoou-se e sentou-se num banco que estava no patamar.

— Teu pai como está?

— Recebi ontem a notícia do seu falecimento — disse laconicamente o príncipe André.

Kutuzov fitou-o de olhos muito abertos e assustados. Depois tirou o gorro e persignou-se.

— Que Deus o tenha em Sua santa glória! Que a vontade de Deus seja feita em todos nós! — Suspirou fundo e calou-se. — Apreciava-o e estimava-o muito e sinto sinceramente a tua dor.

Abraçou o príncipe André, apertando-o contra o peito e assim o conservou por muito tempo. Quando dele se desprendeu, André viu que lhe tremiam os beiços grossos e que tinha os olhos cheios de lágrimas. Suspirou e para se levantar apoiou-se no banco com as duas mãos.

— Vamos, anda daí a minha casa para conversarmos — disse ele.

Nesse mesmo instante, porém, Denissov, tão destemido diante dos superiores como perante o inimigo, apesar de os ajudantes-de-campo terem tentado detê-lo no alpendre, gritando-lhe qualquer coisa em voz baixa e furiosa, galgara ousadamente os degraus, fazendo retinir as esporas. Kutuzov, com as mãos ainda apoiadas no banco, olhou para ele com ar pouco satisfeito. Denissov declinou o seu nome e declarou ter de comunicar a Sua Excelência uma coisa da maior importância para bem da pátria.

O general percorreu-o com o seu olhar fatigado e num gesto cheio de enfado, cruzando as mãos sobre o ventre, repetiu:

— Para bem da pátria? Bem, de que se trata? Fala. Denissov corou como uma donzela, o que não deixava de ser estranho naquela velha cara de bêbedo, com seus grandes bigodes, e principiou a expor um plano de rotura das linhas de comunicação do inimigo entre Smolensk e Viazma. Vivera naquela região e conhecia o sítio muito bem. O plano parecia, indiscutivelmente, de primeira ordem, quanto mais não fosse por causa da convicção com que ele o expunha. Kutuzov, de olhos postos no chão, erguia-os de quando em quando para mirar o pátio da isbá vizinha, como se esperasse ver sair dali alguém indesejável. Com efeito, enquanto Denissov falava, apareceu um general com uma pasta debaixo do braço.

— Então? — disse Kutuzov, interrompendo a exposição de Denissov. — Esta preparado?

— Sim, Excelência — volveu o general.

Kutuzov abanou a cabeça. Parecia dizer: «Como é possível um só homem fazer tudo isto?» E continuou a ouvir Denissov.

— Dou-lhe a minha palavra de honra de oficial russo — prosseguia este — de que cortarei as comunicações de Napoleão.

— Kiril Andreievitch Denissov, o intendente— geral, é teu parente? — perguntou Kutuzov, interrompendo -o.

— É meu tio, Excelência.

— Oh, fomos amigos — continuou ele, alegremente. — Bom, bom, meu rapaz, fica aqui no estado-maior. Voltaremos a falar disso amanhã.

Com um aceno de cabeça amistoso, voltou-se e estendeu as mãos para os papéis que lhe trouxera Konovnitsine.

— Vossa Excelência não quer entrar? — disse o general de serviço em tom pouco satisfeito. — Há aqui planos para examinar e alguns documentos para assinar.

Nesse momento surgiu um ajudante-de-campo que vinha anunciar estar tudo em ordem na casa. Mas Kutuzov não queria entrar sem se ver livre de tudo aquilo. Franziu as sobrancelhas.

— Não, diz que tragam uma mesinha e despacharei aqui mesmo o que há a fazer. E, tu, não te vás embora — acrescentou, dirigindo-se ao príncipe André.

André deixou-se ficar no alpendre, ouvindo o que dizia o general de serviço.

Enquanto Kutuzov despachava, André apercebeu o ciciar de uma voz feminina e o roçagar de um vestido de seda. Atrás da porta, vestida de cor-de-rosa, com uma fita lilás na cabeça, estava uma linda mulher, bem fornida de carnes, de belas cores, com um tabuleiro na mão, esperando ansiosamente que o general-chefe entrasse em casa. Um ajudante-de-campo explicou em voz baixa que era a dona da casa, a mulher do pope, que se dispunha a oferecer o pão e o sal a Sua Excelência. O marido já recebera o Sereníssimo na igreja, de cruz alçada, e ela ia acolhê-lo em sua casa... «Não é qualquer peste», comentou o ajudante, sorrindo. Kutuzov, ao ouvir isto, voltou a cabeça.

Escutava o relatório do general que se referia especialmente à crítica da posição de Tsarevo-Zaimitch, e ouvia-o exactamente como escutara Denissov e como sete anos antes seguira a discussão no conselho de guerra de Austerlitz. Era evidente que ouvia pelo facto de ter ouvidos e porque, apesar do algodão que lhe rolhava um deles, não podia deixar de ouvir. Mas também era certo que nada que aquele general lhe dissesse seria capaz de o surpreender ou sequer interessar, a ele, que de antemão sabia tudo quanto lhe pudessem dizer e que escutava apenas porque assim tinha de ser, pela mesma razão que se tem de ouvir até ao fim um ofício divino. O que Denissov expusera era prático e sensato e o que o general de serviço dissera ainda era mais prático E, mais sensato. Mas a verdade é que Kutuzov menosprezava tanto o saber como a inteligência e estava certo de que havia de ser uma coisa muito diferente — uma coisa independente por completo do saber e da inteligência — que resolveria, a questão. O príncipe André observava cuidadosamente o jogo fisionómico do general-chefe e a única expressão que lhe podia ler no rosto era a, de enfado, enfado esse que desapareceu quando ouviu o roçagar do vestido e se refreou para salvar as conveniências, Era evidente que Kutuzov desdenhava da inteligência, do saber, e até dos sentimentos patrióticos de Denissov, e se mostrava semelhante desdém não era por causa da inteligência dele, do seu saber, do seu patriotismo, de que não fazia o mais pequeno estendal. Era, sim, por causa da sua idade e da sua experiência da vida. A única medida que espontaneamente tomou dizia respeito aos actos de bandoleirismo praticados pelas tropas russas. No fim do relatório, o general apresentou ao Sereníssimo para assinar um documento relativo a uma queixa dirigida às autoridades militares por um proprietário a quem haviam ceifado verde um campo de aveia.

Kutuzov deu um estalido com a língua e abanou a cabeça.

— Fogo com eles... Estufa com eles... Digo-te de uma vez para sempre, meu caro, tudo isso para o fogo! Que ceifem o trigo, que queimem a lenha quantas vezes quiserem. Nem o proíbo nem o consinto; o que não posso é passar o tempo a fazer inquéritos a tal respeito. É inevitável. Quando se parte lenha. é certo e sabido que as lascas vão pelo ar, — E relanceando de novo os olhos ao papel: — Oh, esta meticulosidade alemã! — exclamou, abanando a cabeça.

 

[XVI]

— Bom, agora já está tudo! — disse Kutuzov, enquanto assinava o último papel. Ergueu-se com esforço e, endireitando o grosso pescoço branco, dirigiu-se para a porta de cara satisfeita.

A mulher do pope, ruborizada pela emoção, apanhou, apressadamente, o prato que não conseguira apresentar a tempo apesar dos seus longos preparativos. Com uma profunda reverência ofereceu-o a Kutuzov.

O general piscou o olho, sorriu e, acariciando-lhe o queixo, disse:

— Que linda que ela é! Obrigado, minha flor!

Tirando da algibeira das calças algumas moedas de ouro pô-las em cima da bandeja. «Bom, bom, isto não vai mal!», dizia ao dirigir-se para o quarto que lhe fora destinado. A mulher do pope, com um sorriso que lhe abria covinhas na cara rosada, seguia atrás dele. Um ajudante-de-campo veio depois ao alpendre procurar o príncipe André, convidando-o para almoçar. Meia hora mais tarde foi novamente chamado para junto do general-chefe. Kutuzov estava recostado numa poltrona com o uniforme desabotoado. Tinha na mão um livro francês, que pousou, quando viu entrar o príncipe André, depois de o ter marcado com a faca de papel. Era Les Chevaliers du Cygne, de Madame de Genlis, como o príncipe pôde verificar relanceando a vista para a capa.

— Senta-te ali e conversemos — disse Kutuzov. — É triste, muito triste. Mas quero que saibas, meu amigo, que sou para ti como um pai, um verdadeiro pai...

O príncipe André contou-lhe tudo quanto sabia sobre os últimos momentos do pai e o que vira em Lissia Gori quando por lá passara.

— A que situação nos levaram... a que situação nos levaram! — exclamou, de súbito, Kutuzov, numa voz comovida, ao ver, com toda a nitidez, pelo relato do príncipe André, o estado em que a Rússia se encontrava.

— Mas paciência, paciência! — acrescentou, numa inflexão irritada, e, para não prosseguir numa conversa que o perturbava, disse: — Mandei chamar-te para que ficasses ao pé de mim.

— Estou-lhe muito grato, Excelência — respondeu André — mas receio já para nada servir nos serviços do estado-maior...

Kutuzov notou o sorriso com que ele sublinhara estas palavras e interrogou-o com os olhos.

-... E além disso — acrescentou — estou muito habituado ao meu regimento, estimo os meus oficiais e os meus soldados, que, segundo creio, também gostam de mim. Custar-me-ia muito separar-me deles! Se recuso a honra de ficar junto de Vossa Excelência, pode acreditar...

Uma expressão subtil, bondosa e ao mesmo tempo ligeiramente irónica iluminou o rosto balofo de Kutuzov. Interrompeu-o.

— Lamento, podias ser-me útil; mas tens razão, tens razão. Não é aqui que precisamos de homens. Conselheiros não faltam, mas homens a valer são raros. Os regimentos não seriam o que são se todos estes conselheiros que para aí há lá estivessem a prestar serviço como tu. Lembro-me de ti em Austerlitz... Lembro-me, lembro-me, ainda te estou a ver com a bandeira na mão. — Esta evocação fez perpassar pelo rosto de André um fugitivo rubor.

Kutuzov puxou-lhe por um braço e apresentou-lhe a cara, e André viu de novo que os olhos do velho estavam cheios de lágrimas, Embora soubesse que Kutuzov era homem que chorava com facilidade, e que o acolhia assim carinhosamente, com tanta simpatia, por causa da perda que ele sofrera, o príncipe André sentiu-se lisonjeado e feliz com o facto de o general-chefe lembrar Austerlitz.

— Continua no caminho que traçaste. Esse, sim, é o caminho da honra. — Ficou por momentos calado. — Fizeste-me muita falta em Bucareste; não tinha em quem confiar. — E, mudando de assunto, pôs-se a falar da guerra na Turquia e da paz concluída. — Sim, fizeram-me muitas críticas — continuou —, tanto pela guerra como pela paz que assinei. Sim. Mas tudo acabou bem. Quem espera sempre alcança. E lá não havia menos conselheiros do que aqui... — acrescentou, retomando um assunto que, pelo visto, o preocupava. — Ah! Os conselheiros, os conselheiros! Se lhes temos dado ouvidos a todos lá na Turquia, não teríamos assinado a paz e não teríamos posto termo à guerra. Acabar com as coisas, está certo, mas fazer tudo a correr dá muitas vezes resultado contrário. Se Kamenski não tem morrido, estaria perdido. Precisava de trinta mil homens para tomar as fortalezas. Tomar uma fortaleza não é difícil; difícil é ganhar tinia campanha. E para isso não é preciso tomar de assalto e, atacar, mas ter «paciência e tempo diante de nós». Kamenski deu ordens aos seus soldados para tomarem Rustchnk, mas eu, apenas com paciência e tempo, tomei mais fortalezas do que Kamenski e fiz com que os Turcos comessem carne de cavalo. — Abanou a cabeça. — E podes acreditar no que te digo: os Franceses também — prosseguiu com vivacidade, batendo na arca do peito —, os Franceses também a hão-de comer. — E as lágrimas brilharam-lhe de novo nos olhos.

— Entretanto temos de aceitar o combate? — interrompeu o príncipe André.

— Talvez, se todos quiserem. Então nada haverá a fazer... Mas acredita no que te digo, meu caro: nada há que valha estes dois soldados: a paciência, e o tempo! Eles farão tudo. Mas os conselheiros não vêem por esse prisma, eis o mal. Uns querem, outros não. E então que se há-de fazer? — Calou-se, como se esperasse resposta à sua pergunta. — Bom, que farias tu? — perguntou ele, de olhos brilhantes, com uma expressão profunda e penetrante. — Pois bem, vou dizer-te o que é preciso fazer — prosseguiu, vendo que André não respondia.— Vou dizer-te o que é preciso fazer e o que eu faço. Na dúvida, meu caro, abstém-te — acrescentou, destacando as palavras.— Bem, adeus, meu amigo: lembra-te de que compartilho, de todo o coração, da tua dor e para ti nem sou Sereníssimo, nem príncipe, nem general-chefe, mas muito simplesmente teu pai. Se precisares de alguma coisa, dirige-te a mim. Adeus, meu caro.

Apertou-o mais uma vez nos braços e beijou-o. E, ainda o príncipe André não transpusera o limiar da porta, já ele, soltando um suspiro apaziguador, se engolfava de novo na leitura do romance Les Chevaliers du Cygne.

Embora o príncipe André não soubesse explicar como nem porquê, o certo é que voltou para o seu regimento, depois desta conversa, absolutamente descansado quanto à marcha geral da guerra e confiante na pessoa que orientava superiormente as operações. Quanto mais via a ausência de personalidade naquele velho, cuja única arma era, por assim dizer, a experiência, resíduo das paixões, e que, em lugar da inteligência que sabe associar os factos e tirar deles conclusões, apenas tinha a capacidade de contemplar tranquilamente a marcha dos acontecimentos. Tanto mais se persuadia de que, tudo havia de acontecer pelo melhor. «Nada trará de seu, não inventará nem empreendera coisa alguma», dizia de si para consigo. «mas ouvirá e lembrar-se-á de tudo, tudo colocará no seu lugar, não impedirá nada de útil, não consentirá nada de prejudicial. Compreende que há qualquer coisa de mais forte e de mais poderoso que a sua vontade pessoal: a marcha inevitável dos acontecimentos. Sabe vê-los, tem o dom de lhes apreender o valor, e sabe, para os não tolher, abster-se de intervir e anular a sua própria vontade, dirigida deliberadamente para outro objectivo. E sobretudo», concluía André, «inspira confiança, porque o sentimos verdadeiramente russo, apesar de Madame Genlis e dos adágios franceses, pois a verdade é que a voz lhe tremia quando murmurou: A que situação nos levaram!’, e, que soluçava quando garantia que os havia de fazer comer carne de cavalo.»

Fora este sentimento, mais ou menos vagamente experimentado por todos, que levara à aprovação unânime., num movimento de entusiasmo nacional, e ao arrepio das intenções dos cortesãos, da escolha de Kutuzov para general-chefe dos exércitos russos.

 

[XVII]

Depois da partida do imperador a vida de Moscovo retornara o seu ritmo habitual, e tão habitual, realmente, que era difícil de conceber o entusiasmo patriótico e a exaltação dos últimos dias, e se não chegava quase a compreender como era possível a Rússia estar em perigo e os membros do Clube Inglês poderem ser também filhos da pátria prontos para todos os sacrifícios por ela. A única coisa que fazia lembrar o estado de espírito dos dias em que o imperador estivera em Moscovo era a execução do pedido de homens e de dinheiro, o qual, revestindo aspecto legal e oficializado, se tornara desde logo inevitável.

A aproximação do inimigo não levara os Moscovitas a acre— ditar que a situação se, tivesse tornado mais séria; examinavam-na, pelo contrário, com mais leviandade, como costuma acontecer quando uma catástrofe se aproxima. Na hora do perigo duas vozes, igualmente fortes, se ouvem na alma do homem: uma aconselha sempre, prudentemente, que cada um de nós se dê conta exacta do perigo que o ameaça e trate de procurar maneira de o evitar; a outra, ainda com maior prudência, diz-nos ser muito penoso e dolorosíssimo pensar no perigo, visto não estar nas possibilidades do homem prever e furtar-se à marcha dos acontecimentos, e o melhor é não nos preocuparmos com as coisas tristes antes do facto consumado e só pensarmos nas coisas agradáveis. O homem isolado obedece, regra geral, à primeira destas vozes; em sociedade, pelo contrário, submete-se à segunda. Era o que de facto estava a acontecer com os habitantes de Moscovo. Nunca as pessoas ali se haviam divertido tanto como naquele ano.

Os cartazes de Rostoptchine representavam uma taberna, um taberneiro e um burguês moscovita, Karpuchka Tchiriguine, que «tendo sido recrutado, depois de beber um copo a mais, ouviu dizer que Bonaparte queria ir a Moscovo, se zangara e proferira palavras grosseiras contra todos os franceses e, saindo da taberna, se pusera a falar ao povo reunido debaixo da tabuleta do taberneiro». Estes cartazes eram lidos e comentados e o mesmo acontecia às últimas rimas de Wassili Lvovitch Puchkine.

No clube, numa das salas, reuniam-se os sócios para comentar estes cartazes, e muitos riam-se da maneira como Karpuchka troçava dos Franceses, dizendo que «inchariam por terem comido couves, que rebentariam com as papas que tinham devorado, que haviam de estourar com uma indigestão de chtchi, que eram todos anões, que bastava uma camponesa com uma forquilha para dar cabo de três franceses». Havia outros que não estavam de acordo com estas graçolas, qualificando-as de vulgares e de estúpidas. Contava-se que Rostoptchine expulsara os Franceses de Moscovo, e mesmo todos os estrangeiros de maneira geral, pois entre eles havia espiões e agentes de Napoleão. Mas se se falava nisso era sobretudo para poderem citar-se os ditos do governador. Expediam-se os estrangeiros em barcaças para Nijni Novgorod, e Rostoptchine dizia-lhes: «Tenham juízo, entrem no barco, e não façam dele a barca de Caronte.» Dizia-se já terem saído de Moscovo todos os serviços administrativos e acrescentava— se, repetindo um gracejo de Chinchine, que os Moscovitas deviam estar por este facto muito reconhecidos a Napoleão. Contava-se também que o regimento municiado por Mamonov lhe custaria oitocentos mil rublos, que Bezukov ainda gastara mais do que isso com os seus soldados e que — lindo acto da sua parte — ele próprio envergaria o uniforme, caracolando à frente dos seus homens, nada tendo de pagar os que viessem admirá-lo nessa atitude marcial.

— A ninguém perdoa — dizia Júlia Drubetskaia, enquanto enrolava um montinho de ligaduras entre os dedos delgados cheio de anéis.

Júlia pensava sair de Moscovo no dia seguinte e organizara uma festa de despedida.

— Bezukov é ridículo, mas é tão bom, tão gentil! Que prazer pode ter em ser tão cáustico?

— Multa! — exclamou um jovem de uniforme de miliciano, a quem Júlia chamava «meu cavaleiro» e que ia acompanhá-la a Nijni Novgorod.

No salão de Júlia, como em muitos outros de Moscovo, combinara-se não se falar senão russo, pagando multa quem pronunciasse palavras francesas, multa essa que reverteria para a comissão de socorros.

— Outra multa pelo galicismo — interveio um literato que estava presente, «que prazer... pode ter» não é russo.

— Ninguém poupa — prosseguiu Júlia, dirigindo-se ao miliciano, sem prestar atenção ao que dizia o homem de letras. — Por cáustico peço desculpa e estou pronta a pagar. Quanto ao galicismo acrescentou para o crítico —, recuso-me a considerar-me responsável. Não tenho nem tempo nem dinheiro, como o príncipe Galitzine, para arranjar um professor e aprender russo. Ai está ele, precisamente. Quando... Não, não, não me apanhará desta vez — disse ela para o miliciano. — Quando se fala do Sol, vêem-se-lhe os raios. — Sorria amavelmente para Pedro com aquela facilidade de mentir tão característica das senhoras da sociedade. — Acabávamos de falar de si. Dizíamos que o seu regimento devia ser com certeza muito melhor do que o de Mamonov.

— Oh! Não me fale do meu regimento! — replicou Pedro, beijando-lhe a mão e sentando-se a seu lado.— Se soubesse os aborrecimentos que tenho com ele!

— Naturalmente vai comandá-lo, não é verdade? — inquiriu Júlia trocando um sorriso malicioso e trocista com o miliciano. Este último, na presença de Pedro, deixara de ser cáustico e pareceu contrariado ao ver o sorriso de Júlia. Apesar do seu ar distraído e de pobre diabo, Pedro, graças à sua personalidade, paralisava, na sua presença, qualquer tentativa de troça.

— Não, não — disse Pedro, rindo e mirando o rotundo corpo. — Que belo alvo seria eu para os Franceses, e tenho cá as minhas dúvidas quanto a ser capaz de montar a cavalo!

Entre as pessoas de quem se falou aconteceu aludir-se também à família Rostov.

— Tenho ouvido dizer que as coisas não vão bem lá por casa — disse Júlia. — Aquele conde é uma pessoa inútil. Os Razumovski queriam comprar-lhe a casa e a quinta de Moscovo, mas não vejo jeito. Pedem muito dinheiro.

— Consta-me que a venda se fará por estes dias — observou alguém —, se bem que me parece rematada loucura comprar agora qualquer coisa em Moscovo.

— Porquê? — interrogou Júlia. — Acha que Moscovo corre perigo?

— Então porque se vai embora?

— Eu? Que pergunta tão estranha. Vou-me embora porque... porque toda a gente se retira da cidade. E além disso também não tenho jeito nem para Joana d’Arc nem para amazona.

— Sim, sim, esta claro. Deixe-me ver mais trapos.

— Se ao menos soubessem administrar o que é seu, poderiam pagar as dívidas — prosseguiu o miliciano, voltando a falar dos Rostov.

— Sim, é um bom velho, mas um pobre sire. Mas que estarão eles aqui a fazer há tanto tempo? Há muito que deveriam ter regressado à aldeia. Não está já restabelecida a Nathalie? — perguntou Júlia, dirigindo-se a Pedro com um sorriso malicioso.

— Estão à espera do filho mais novo — replicou este. — Foi incorporado no regimento dos cossacos de Obolenski e mandado para Bielaia Tserkov, É lá que estão a formar o regimento. Mas os pais conseguiram transferi-lo para o meu e aguardam a sua chegada de um dia para o outro. Há muito que o conde se queria ir embora, mas a condessa por coisa nenhuma quis partir antes de tornar a ver o filho.

— Encontrei-os antes de ontem em casa dos Arkarov. Nathalie está mais bonita e outra vez alegre, cantou uma romança. Muito depressa esquecem certas pessoas...

— Que se passa? — perguntou Pedro com certa irritação. Júlia sorriu.

— Bem sabe, conde, que cavalheiros como o senhor já não se encontram senão nos romances de Madame Souza.

— Que cavalheiros? Que vem a ser isso? — teimou Pedro, corando.

— Então, meu querido conde, não se faça de novas, não se fala de outra coisa em Moscovo. Admiro-o muito, palavra de honra!

— Multa! Multa! — exclamou o miliciano.

— Credo. Não pode uma pessoa abrir a boca. Que maçada!

— De que é que se trata? — perguntou Pedro, levantando-se.

— Então, conde. Como se não soubesse!

— Não sei absolutamente nada — volveu Pedro.

— O que sei é que o conde é amigo de Natacha; por isso... Eu, por mim, sempre me dei melhor com Vera. Aquela querida Vera.

— Não, senhora — prosseguiu Pedro com a mesma voz irritada. — Não é verdade que eu me tenha transformado em pajem de Mademoiselle Rostov e há perto de um mês que não vou a sua casa. Não posso atingir o alcance da sua crueldade...

— Qui s’excuse s’accuse (Provérbio francês que pode corresponder, em tradução livre, a: «Quem muito se justifica, alguma culpa tem.» (N, dos T.) — pronunciou Júlia, sorrindo, enquanto sacudia a ligadura que tinha na mão, e, para ser ela a dizer a última palavra sobre o assunto, mudou repentinamente de conversa. — Querem saber o que me constou hoje? Que a pobre Maria Bolkonskaia chegou ontem. Já sabiam que lhe tinha morrido o pai?

— Será possível? E onde estará ela? Gostava muito de a ver! — exclamou Pedro.

— Passei ontem a noite com ela. Deve partir hoje ou amanhã com o sobrinho para a quinta nos arredores de Moscovo.

— E ela, como está? — inquiriu Pedro.

— Está bem, um pouco triste. E quer saber a quem deve ela a vida? É um verdadeiro romance. Ao Nicolau Rostov. Cercaram-lhe a quinta, quiseram matá-la, havia já gente ferida. E ele foi em seu auxílio e salvou-lhe a vida...

— Mais um romance — comentou o miliciano. — Estou a ver que esta debandada geral foi inventada para casar as solteironas. Primeiro a Catiche, agora, a princesa Bolkonskaia.

— Aqui para nós, tenho a impressão de que ela está um pouco derretida com o jovem.

— Multa! Multa! Multa!

— Como hei-de eu dizer isto em russo?

Capítulo XVIII

Ao chegar a casa, Pedro encontrou dois editais de Rostoptchine afixados naquele mesmo dia.

No primeiro dizia-se não ser verdade ele ter dado ordens proibindo que se saísse da cidade, e que, pelo contrário, com grande satisfação veria afastarem-se as senhoras e as esposas dos comerciantes. «Se houver menos medo, dar-se-á menos à língua», acrescentava. «Mas que esse malfeitor não entrará em Moscovo com a minha vida o garanto-» Estas palavras levaram Pedro a acreditar pela primeira vez que os Franceses entrariam na cidade. O segundo edital dizia que o quartel-general russo estava em Viazma, que o conde Wittgenstein derrotara os Franceses e que, como havia muitos habitantes desejosos de se armar, punha um carregamento de armas à disposição de todos no arsenal — sabres, pistolas, espingardas —, que podiam ser adquiridas por pouco dinheiro. O tom dos editais já nada tinha de divertido como os que até ai haviam servido de pretexto para os gracejos de Tchiriguine. Pedro ficou pensativo. Era evidente que aquela grande nuvem tormentosa que ele tanto desejava, embora com involuntário horror, essa feia nuvem se aproximava. «Deverei alistar-me no serviço militar e partir para a guerra ou esperar?», perguntava Pedro aos seus botões pela centésima vez. Pegou num baralho de cartas que estava em cima de uma mesa e pôs-se a fazer paciências.

«Se conseguir fazer esta paciência», dizia de si para consigo enquanto ia embaralhando as cartas de olhos fitos no tecto, «se conseguir fazer esta paciência, quer dizer... Que quer dizer?...»

Não teve tempo de concluir. Nesse mesmo instante a voz da princesa mais velha ressoou à porta, perguntando se podia entrar. «Quer dizer que devo partir para a guerra», concluiu Pedro.

— Entre, entre! – gritou.

Apenas a mais velha das princesas, a do longo busto e cara inexpressiva, continuava a viver sob o tecto de Bezukov. As duas mais novas tinham casado.

— Perdoe-me, meu primo, vir incomodá-lo — disse ela, num tom repreensivo e cheio de emoção — Temos de decidir, finalmente, qualquer coisa. Que quer isto dizer? Está toda a gente a sair de Moscovo e o povo revoltado. Que ficamos nós aqui a fazer?

— Ao contrário, tudo parece caminhar muito bem, minha prima — tornou Pedro, no tom faceto que habitualmente tomava ao falar-lhe, única maneira de esconder o embaraço que lhe causava o papel de benfeitor que representava aos olhos dela.

— Que diz? A caminhar bem? Onde foi descobrir isso? Ainda hoje me contou a Várvara Ivanovna que as nossas tropas se têm portado muito bem. Sim, devemos sentir-nos orgulhosos! Mas o pior é que o povo começa a revoltar-se, não quer obedecer. Até a minha criada tem sido grosseira para comigo. Pouco falta para que nos batam. Não se pode já passar pelas ruas. E o pior de tudo que os Franceses estão aí a chegar, hoje ou amanhã. Porque esperamos nós? A única coisa que lhe peço, meu primo, é que dê as suas ordens para me levarem a Petersburgo. Sei muitíssimo bem que não sou pessoa para acatar o domínio de Bonaparte.

— Que está a dizer, minha Prima? Quem lhe meteu tal coisa na cabeça? Ao contrário...

— Não me submeterei ao seu Napoleão. Os outros que façam o que quiserem... E se o senhor não atender ao que lhe peço...

Continuar: parte 5 de 8