Guerra e Paz

Liev Tolstói · Capítulo 10 de 18 · parte 8/8

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Guerra e Paz

Segunda Parte

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.

Empregou todas as suas medidas outrora invariavelmente coroadas de êxito — concentração do fogo das baterias sobre um mesmo ponto, ataque das reservas para romper as linhas, assalto da cavalaria dos homens de ferro —, todas empregara agora e não só não conseguia a vitória, como eram sempre as mesmas as notícias que continuamente vinham até ele: generais mortos ou feridos, necessidade urgente de reforços, impossibilidade de vencer a resistência dos Russos, desorganização das tropas francesas.

Anteriormente, duas ou três disposições que tomasse, duas ou três frases que pronunciasse, logo apareciam, de riso feliz nos lábios e alegria no rosto, marechais e ajudantes-de-campo que anunciavam como troféus grandes massas de prisioneiros, feixes de bandeiras e de «cíquias» inimigas, canhões e comboios de abastecimentos, contentando-se Murat em pedir autorização para enviar a sua cavalaria pilhar os carros. Assim acontecera em Lodi, em Marengo, em Arcole, em Iena, em Austerlitz, em Wagram, etc, Mas agora estavam a passar-se, realmente, coisas estranhas.

Apesar da notícia que correra de que as trincheiras haviam sido tomadas, Napoleão dava-se conta de que não era a mesma coisa, que se não passava agora o que acontecera em todas as batalhas anteriores. E as impressões que sentia, via-o perfeitamente, eram as que estavam sentindo todos os da sua comitiva, homens experimentados na guerra. Havia tristeza em todos os rostos, os olhos evitavam encontrar-se. Só Beausset não podia compreender a gravidade do que se passava. O imperador, por virtude da sua grande experiência, sabia de sobra o que significava uma batalha de oito horas, batalha em que empregara todos os esforços e em que o atacante ainda não levara a melhor. Para ele era quase uma batalha perdida e, no ponto instável em que a luta se encontrava, o mais pequeno incidente podia perdê-los — a ele e ao exército.

Ao rememorar toda aquela estranha campanha da Rússia em que não obtivera qualquer vitória, onde, em dois meses, não tomara nem bandeiras, nem canhões, nem qualquer corpo de exército, ao evocar as expressões que o cercavam, secretamente preocupadas, ouvindo as referências à resistência obstinada do inimigo, sentia-se tomado de uma angústia no género das que se sentem nos pesadelos, e ao espírito acorriam-lhe, de súbito, todas as circunstâncias infelizes que o podiam perder. Os Russos podiam atacar a sua ala esquerda; podiam perfurar-lhe o centro; um projéctil perdido podia matá-lo. Tudo era possível. Em todas as batalhas anteriores apenas pensara nas possibilidades de êxito: agora só esperava e pressentia circunstâncias funestas. Sim, parecia um pesadelo em que um homem, atacado por um malfeitor, por mais esforços que faça para brandir uma arma e atingir o adversário, sente que a mão lhe cai, mole e impotente, como um trapo, enquanto o sentimento horrível de uma morte inevitável se apodera do desventurado indefeso.

A notícia de que os Russos atacavam o flanco esquerdo do exército francês acordou em Napoleão idêntico horror. Ali estava, calado, sentado no seu banco portátil, no sopé do cabeço, com a cabeça entre as mãos. Berthier aproximou-se dele e propôs-lhe uma visita às linhas para ter uma noção exacta da situação.

— Quê? Que está a dizer?! — exclamou o imperador. — Sim, mande que me tragam um cavalo.

Montou e dirigiu-se a Semionovskoie.

Por entre o fumo da pólvora que lentamente se ia dissipando, jaziam, no meio de poças de sangue, cavalos e soldados, ora isolados ora aos montes. Nem Napoleão nem nenhum dos seus generais vira ainda espectáculo tão horroroso, tanto cadáver em tão pequeno espaço. O troar dos canhões que ribombavam havia dez horas ininterruptamente martelava os tímpanos, formando como que um acompanhamento sinistro desse espectáculo, como a música nos quadros vivos.

Ao atingir o alto de Semionovskoie, e através da fumarada, Napoleão viu diante de si fileiras densas de soldados com uniformes cujas cores lhe não eram familiares. Eram os Russos.

Formando filas compactas, concentrados por detrás da povoação e do cabeço que tem o mesmo nome, as suas bocas de fogo despejavam metralha sem desfalecimento, cobrindo de fumo toda a, sua linha. Já não era uma batalha. Era uma chacina, e esta chacina já não podia dar a vitória nem aos Russos nem aos Franceses. O imperador deteve-se e recaiu na meditação a que o arrancara Berthier. Não estava nas suas mãos fazer parar o que via desenrolar-se diante dos seus olhos, embora passasse por iniciador e responsável de semelhante obra, e pela primeira vez, perante o seu fracasso, essa obra lhe parecia inútil e horrível.

Um dos generais que se aproximara de Napoleão permitiu-se propor-lhe que autorizasse a velha Guarda a entrar em acção. Ney e Berthier, que estavam junto do imperador, trocaram um olhar entre si e sorriram desdenhosamente ao ouvirem tão insensata proposta.

Napoleão baixou a cabeça e permaneceu por muito tempo silencioso.

— A oitocentas léguas de França não sacrificarei a minha Guarda — disse ele, e, dando meia volta, regressou a Chevardino.

 

[XXXV]

Kutuzov estava sentado, a cabeça branca inclinada e todo ele prostrado sob o peso do corpo, num banco coberto com um tapete, exactamente no mesmo sítio onde Pedro o vira pela manhã. Não dava qualquer ordem, contentando-se em anuir ao que lhe vinham propor ou simplesmente discordar.

«Sim, sim, faça isso», respondia ele. «Sim, sim, vai ver», dizia ,u este ou àquele dos seus subordinados. Ou então: «Não, é inútil, é melhor esperar.» Ouvia as informações que lhe davam, não dando ordens senão quando os subordinados lhas pediam. Apurava o ouvido, sem parecer interessar-se pelo sentido das palavras que lhe diziam, embora observasse atentamente a expressão e o tom da voz das pessoas que lhe falavam. A sua larga experiência da guerra, a sua prudência de velho, diziam-lhe não ser possível a um só homem dirigir centenas de milhares de outros homens que lutam com a morte. Kutuzov sabia que o que decide do destino das batalhas não eram nem as medidas tomadas pelo general-chefe, nem as posições ocupadas pelos soldados, nem o número dos canhões e dos mortos, mas essa força inapreensível que se chama «o moral das tropas» e que ele procurava descobrir e dirigir na medida do possível.

O rosto de Kutuzov denunciava uma atenção concentrada e serena, contenção que só a custo dominava a fadiga de um corpo enfraquecido e gasto pela idade.

As onze horas vieram dizer-lhe que as flechas ocupadas pelos Franceses tinham sido retomadas, mas que o príncipe Bagration estava ferido. Kutuzov soltou uma exclamação e abanou a cabeça.

— Vai imediatamente procurar o príncipe Piotre Ivanovitch e informa-te por miúdo do que se passa — disse ele a um dos seus ajudantes-de-campo; depois voltou-se para o príncipe de Wurtemberg, que estava por detrás dele:

— Quererá Vossa Alteza assumir o comando do 2º exército?

Pouco depois da partida do príncipe, antes mesmo de ter podido chegar a Semionovskoie, aparecia o seu ajudante-de-campo, que vinha comunicar ao Sereníssimo que o príncipe precisava de reforços.

Kutuzov franziu as sobrancelhas e transmitiu imediatamente ordem a Dokturov para assumir o comando do 2º exército, rogando ao príncipe, ao qual dizia ser-lhe indispensável nas graves circunstâncias de momento, que voltasse para junto de si. Quando lhe disseram que Murat fora feito prisioneiro e lhe transmitiram as felicitações do estado-maior, Kutuzov sorriu.

— Esperem, meus senhores — observou. — Que a batalha esteja ganha e Murat tenha sido feito prisioneiro não acho coisa extraordinária. Mas parece-me melhor não nos alegrarmos antes de tempo.

Entretanto expedia um ajudante-de-campo com esta, notícia para as tropas.

Quando Tcherbinine chegou do flanco esquerdo para comunicar que os Franceses haviam retomado as flechas e Semionovskoie, Kutuzov, adivinhando, pelos gritos que vinham do campo de batalha e pela expressão do emissário, que as coisas não estavam a caminhar bem, levantou-se, como se quisesse desentorpecer as pernas, e, travando do braço do oficial, afastou-se com ele.

— Vai, meu amigo — disse então a Ermolov. — Vai ver se não haverá maneira de fazer mais alguma coisa.

Kutuzov estava em Gorki, no centro das posições do seu exército. O ataque de Napoleão contra o flanco esquerdo dos Russos fora repelido por várias vezes. No centro, os Franceses não tinham ido além de Borodino. No flanco esquerdo a cavalaria de Uvarov obrigava o inimigo a fugir.

As três horas os ataques dos Franceses cessaram. Na expressão dos que chegavam do campo de batalha, bem como na das pessoas da sua comitiva, podia ler o general-chefe uma tensão que atingira o mais alto grau. Estava satisfeito com o êxito da jornada, que ultrapassara o que ele esperava. Mas àquele velho faltavam as forças físicas. Por várias vezes já o tinham visto deixar descair a cabeça no peito e dormitar. Trouxeram-lhe o almoço.

O ajudante-de-campo do imperador, Woltzogen, o mesmo a quem o príncipe André ouvira dizer ser preciso que a guerra se estendesse, e a quem Bagration odiava, apresentou-se a Kutuzov quando ele estava a comer. Vinha em nome de Barclay dar-lhe contas da situação no flanco esquerdo. O prudente Barclay, ao ver a vaga de feridos que afluía e a desorganização da retaguarda, e depois de pesar os prós e os contras, concluíra que a batalha estava perdida e enviara o seu oficial favorito levar a notícia ao general-chefe.

Kutuzov mastigava nesse momento, não sem dificuldade, um pedaço de frango assado; fixou em Woltzogen o seu olho pisco, que se tornara alegre.

Este, em passo negligente, um sorriso assaz desdenhoso nos lábios, aproximou-se, a mão algo frouxa na pala da barretina. Tratava o Sereníssimo com uma afectação descortês, como que a mostrar que ele, militar de altos méritos, deixava para os Russos o considerarem um ídolo aquele velho inútil, pois a verdade é que ele sabia muitíssimo bem com quem estava a lidar.

«Der alte Herr», («do velho senhor» (N, dos T.) assim o tratavam os Alemães entre si, e «macht sich ganz bequern» («O velho senhor instalou-se comodamente.» (N, dos T.), pensou Woltzogen, lançando um olhar de reprovação aos pratos que Kutuzov tinha diante, e principiou o seu relatório sobre a situação do flanco esquerdo nos termos em que Barclay lhe ordenara que a expusesse e tal como ele próprio a vira e observara com os seus próprios olhos.

— Todos os pontos da nossa posição estão nas mãos do inimigo e não temos possibilidades de os rechaçar por falta de tropas. Os nossos soldados debandam e é impossível detê-los — disse ele.

Kutuzov pousou o talher e fixou Woltzogen, surpreendido, como se não compreendesse o que lhe estava a dizer. O oficial, ao notar a emoção «des alten Herr» («do velho senhor» (N, dos T.), disse-lhe, sorrindo:

— Não me julgava no direito de ocultar o que vi a Vossa Excelência. As tropas estão completamente desorganizadas.

— Foi o que o senhor viu? Foi o que o senhor viu?! exclamou Kutuzov, franzindo as sobrancelhas, erguendo-se rapidamente e avançando para Woltzogen. — Como se atreve?!... Como se atreve?!... — exclamou, fazendo gestos ameaçadores com as mãos trémulas, a voz embargada pela cólera. — Como se atreve, meu caro senhor, a falar-me a mim nesses termos? O senhor nada sabe. Vá dizer ao general Barclay, da minha parte, que as suas informações são falsas e que eu, general-chefe, conheço melhor do que ele o desenvolvimento da batalha.

Woltzogen quis replicar, mas Kutuzov interrompeu-o:

— O inimigo foi repelido no flanco esquerdo e vencido no direito. Se o senhor viu mal, não é razão para dizer o que ignora. Faça favor de voltar para junto do general Barclay e transmitir-lhe a minha ordem absoluta de atacar amanhã o inimigo acrescentou num tom severo.

Todos os presentes se conservavam calados e ouvia-se apenas a respiração ofegante do velho general.

— Os Franceses foram repelidos em toda a parte, e disso dou graças a Deus e ao nosso valoroso exército. O inimigo está vencido e amanhã expulsá-lo-emos do sagrado solo da Rússia — prosseguiu Kutuzov, persign4ndo-se, e de súbito as lágrimas inundaram-lhe os olhos.

Woltzogen encolheu os ombros, esboçou uma careta e afastou-se, surpreendido com uber die Eigenommenheit des alten Herr («...essa obstinação do velho senhor.» N, dos T.).

— E aqui tem o meu herói — disse Kutuzov, apontando para um general, um belo e entroncado mancebo de cabelos pretos que acabava de chegar ao cabeço.

Era Raievski, que passara o dia inteiro no ponto principal da batalha.

Raievski informou o Sereníssimo de que as tropas se mantinham firmes nas suas posições e que os Franceses não se atreviam a atacá-las de novo.

Ao ouvir estas palavras. Kutuzov exclamou em francês:

— Então não pensa como os outros que somos obrigados a retirar?

— Ao contrário, Alteza, nos assuntos indecisos é sempre o mais tenaz que sai vitorioso— replicou Raievski. — E na minha opinião...

— Kaissarov! — chamou Kutuzov. — Assenta-te ali e redige a ordem do dia para amanhã. E, tu — acrescentou, dirigindo-se a outro ajudante-de-campo vai percorrer as linhas e comunicar que amanhã atacaremos.

Entretanto, Woltzogen regressava, enviado por Barclay, para dizer que este desejava uma confirmação por escrito da ordem que o marechal acabava de dar.

Kutuzov, sem se dignar olhar para ele, mandou redigir a ordem que o ex-general-chefe exigia com razão para se ilibar de qualquer responsabilidade.

E graças a essa cadeia indefinida e misteriosa que mantinha em todo o exército o mesmo estado de espírito a que se costuma chamar «moral das tropas» e que constitui o nervo vital da guerra, as palavras de Kutuzov e a sua ordem do dia anunciando a batalha para a manhã seguinte imediatamente se transmitiram a todos os pontos do corpo do exército.

Não foram os termos da própria ordem que se transmitiram até aos últimos anéis dessa cadeia. No que cada um contava ao vizinho nada havia mesmo que se parecesse com o que Kutuzov dissera, mas pelo menos era o sentido das suas palavras que se transmitia, pois essas palavras emanavam, não de considerações mais ou menos astuciosas, mas dos sentimentos profundos que animavam a alma do general-chefe, como, aliás, a alma de todos os russos.

Ao inteirar-se de que no dia seguinte atacaria o inimigo, ao ouvir nas esferas superiores do exército a confirmação daquilo em que queria crer, toda aquela gente extenuada e hesitante se sentiu consolada e ganhou confiança.

 

[XXXVI]

O regimento do príncipe André conservou-se entre as reservas inactivas na retaguarda de Semionovskoie, debaixo de um intenso fogo de artilharia, até cerca das duas horas. A essa hora o regimento, que já perdera mais de duzentos homens, avançara, por um campo de aveia espezinhada, para o espaço que mediava entre Semionovskoie e a bateria do cabeço, aquela em que durante a manhã haviam caído milhares de soldados e para onde precisamente às duas horas acabava de ser dirigido o fogo violento e convergente de muitas centenas de peças inimigas.

Sem se mover do mesmo lugar e sem haver disparado um único tiro, o regimento perdeu ali um terço dos seus efectivos. Mesmo em frente, e sobretudo à sua direita, no meio da fumarada que se não dissipava, os canhões metralhavam-no, e dessa misteriosa região envolta em fumo que se estendia ao longo de todo o terreno que lhe fazia face, sem tréguas, acompanhados de assobios rápidos e prolongados, chegavam as granadas, voavam os obuses. Por vezes, como para conceder um breve descanso, durante um quarto de hora, balas e obuses iam cair mais adiante, mas outras vezes não se passava um minuto sem que vários homens caíssem atingidos e continuamente se retiravam cadáveres ou se levavam feridos.

A cada nova descarga os que ainda estavam vivos menos probabilidades tinham de se salvar. O regimento formava em colunas de batalhão, com trezentos passos de intervalo entre cada batalhão. No entanto, todos os homens se encontravam no mesmo estado de espírito. Todos estavam igualmente silenciosos e taciturnos. Poucas palavras se trocavam entre eles, e essas mesmas eram interrompidas de cada vez que caía um projéctil e ressoava o grito: «Padiola!» A maior parte do tempo os homens, por ordem dos comandantes, estavam sentados no chão. Este, tirando a barretina, entretinha-se, com toda a minúcia, a fazer e a desfazer a corrediça; aquele limpava a baioneta com argila seca que se lhe esfarelava nas mãos: havia os que desmanchavam o correame e voltavam a afivelar os seus equipamentos; e ainda os que desenrolavam as grevas e voltavam a enrolar. Alguns construíam abrigos com caniços ou entrançavam esteiras com palha dos campos, Todos pareciam absortos nestas ocupações. Quando os seus camaradas caíam mortos ou feridos e eles viam passar as padiolas, quando os Russos recuavam, ou através da fumarada se desenhavam as massas compactas dos soldados inimigos, ninguém entre eles prestava a mais pequena atenção a qualquer dessas coisas. Em compensação, desde que a artilharia, ou a cavalaria russas se punham em marcha, de todos os lados rompiam gritos de encorajamento. Mas a verdade é que eram os incidentes absolutamente acessórios e que nada tinham com a batalha que mais chamavam a atenção geral. Dir-se-ia que aquela gente, moralmente esgotada, encontrava repouso nas ocupações habituais da vida quotidiana. Uma bateria de artilharia passou diante do regimento. Um cavalo de varas enredou os arreios num dos armões. «ó tu! Não vês? Olha o cavalo!... Vai cair... Parece impossível... Então não vês?...» E por toda a parte no regimento se soltaram idênticas exclamações, De outra vez todas as atenções se fixaram num cãozito amarelado, de rabo arqueado, que, aparecendo ali por acaso, se pôs a correr, cheio de medo, por entre as fileiras dos homens. Só Deus sabe donde viria! De súbito, ao rebentar um obus ali perto, soltou um ganido e com o rabo entre as pernas desapareceu por um dos lados. Gritos e risos se ouviram por toda a parte, Mas essa, espécie de distracções durava apenas alguns minutos e havia já mais de oito horas que estavam inactivos e sem nada comer sob o contínuo horror da morte. Os seus rostos pálidos e taciturnos cada vez empalideciam e se carregavam mais.

O príncipe André, como todos os homens do seu regimento, pálido e de sobrancelhas franzidas, ia e vinha, no prado que confinava com o campo de aveia, de um rego a outro, a cabeça baixa e as mãos atrás das costas. Nada tinha a fazer nem nenhuma ordem a dar. Tudo se fazia por si mesmo. Os mortos eram arrastados para detrás das linhas, os feridos levados, as fileiras voltavam a refazer-se. Se os soldados se afastavam, não tardavam a voltar apressadamente. De princípio julgara de seu dever excitar a coragem dos soldados e dar-lhes o exemplo passando por entre as fileiras, mas em breve reconheceu que nada tinha a ensinar-lhes. Todas as forças da sua alma, como as forças da alma de cada um dos seus soldados, não tendiam inconscientemente a outra coisa senão a não pensar no horror da situação em que estavam. E lá ia passeando no prado, arrastando os pés, pisando a erva, examinando a poeira que lhe cobria as botas. Ora dava grandes passadas, tentando pôr os pés nos trilhos deixados pelos ceifeiros, ora contava os seus passos, calculando o número de vezes que teria de ir de um rego ao outro para perfazer uma versta. Outras vezes ainda arrancava, ao passar, as artemisas que cresciam nos regos, esfregava-as entre as mãos e respirava o seu aroma forte e amargo. Nada restava do labor dos seus pensamentos da véspera. Em nada pensava. Com seus ouvidos cansados ouvia sempre os mesmos sons, procurando distinguir no ar o silvo dos projécteis, do estampido das descargas, e examinava os rostos, que bem conhecia, dos soldados do primeiro batalhão, e esperava. «Lá vai mais um... Ainda para nós», dizia de si para consigo ao perceber o assobio, que se aproximava, de um projéctil que emergia da zona de fumo. «Lá vem outro! Agora! Já está.» Calou-se e olhou as fileiras dos soldados. «Não, aquele passou longe. Mas agora é a nossa vez.» E de novo se pôs a passear, procurando alargar o passo de molde a alcançar o rego em dezasseis passadas. De súbito um silvo e depois uma pancada; ali, a cinco passos, um projéctil faz voar a terra seca de todos o, lados e enterra-se no chão, Um arrepio involuntário percorre-lhe as costas. De novo lança um olhar aos seus soldados. Há muitos atingidos, naturalmente: no segundo batalhão ouve-se tumulto.

— Senhor ajudante-de-campo — grita ele — irão permita que se formem ajuntamentos.

Este executa a ordem e aproxima-se do príncipe André. De outro lado chega a cavalo o comandante do batalhão.

— Cuidado! — grita um soldado, espavorido, e silvando, num rápido voo, uma granada caiu a dois passos do príncipe André, próximo do cavalo do comandante do batalhão. O cavalo empina-se relinchando, com risco de jogar por terra o cavaleiro, e recua. O terror do animal apodera-se dos homens.

— Deitem-se! — grita a voz do ajudante-de-campo que se atirara ao chão.

O príncipe continuava de pé, irresoluto. O obus, fumegando, girava no solo como um pião entre ele e o ajudante-de-campo no limite da seara de aveia e do prado, junto de uma pernada de artemisa.

«Será a morte?», pensou, olhando, com um olhar absoluta— mente novo e como que invejoso, a erva, a pernada de artemisa, o fio de fumo que se desprendia da bola negra em movimento.

«Não posso, não quero morrer, gosto da vida, gosto desta erva, desta terra, do ar que respiro...» Dizia isto de si para consigo e ao mesmo tempo pensava nos que estavam a olhar para ele.

— Não tem vergonha, senhor oficial? — disse para o ajudante-de-campo. — Que...

Não pôde concluir. Nesse mesmo instante ressoou a explosão, houve um retinir, como de vidros quebrados, uma baforada de fumo e o príncipe André, projectado de lado, ergueu um braço ao ar e foi cair de cara contra o chão.

Alguns oficiais acorreram. Do flanco direito escorria-lhe pela erva um grande rego de sangue.

Os milicianos, logo chamados, detiveram-se com a sua padiola na retaguarda dos oficiais. André estava estendido sobre o ventre, o rosto na erva, e estremecia com grandes soluços.

— Vamos, que estão aí a fazer, aproximem-se!

Os camponeses chegaram, pegaram-lhe pelos ombros e pelas pernas, mas ele gemia dolorosamente e, depois de se entreolharem, voltaram a pô-1o no chão.

— Peguem-lhe, ponham-no na padiola, pouco importa! — gritou uma voz.

— Oh. Deus!, oh, Deus! Será possível?... No ventre. É a morte! Oh!, meu Deus! — exclamaram vários oficiais. — Roçou-me por uma orelha — disse o ajudante-de-campo. Os camponeses, depois de terem posto a padiola aos ombros, meteram a toda a pressa pelo atalho que conduzia à ambulância.

— A passo! — Eh, camponeses! — gritou-lhes um oficial detendo pelo ombro um dos milicianos, que caminhavam em passo irregular e agitavam a maca,

— Tem cuidado, hem, Kvedor! Eh, Kvedor! — exclamou o que ia à frente.

— Assim está bem! — respondeu, jovial, o que ia atrás, acertando o passo.

— É Sua Excelência? É o príncipe? — disse Timokine em voz trémula, correndo para a padiola.

O príncipe André abriu os olhos e do alto da padiola onde a cabeça lhe descaíra lançou um olhar àquele que lhe falava, voltando a cerrar as pálpebras,

Os milicianos levaram o príncipe André para a mata onde estavam os carros e a ambulância. Esta era formada por três tendas de campanha separadas, e de lonas abertas, na orla de uma inata de álamos. Os carros e os cavalos estavam debaixo das árvores. Os animais comiam a sua aveia nos respectivos sacos e os pardais cirandavam em volta deles na esperança de apanhar os grãos espalhados. Corvos, atraídos pelo sangue, grasnavam, impacientes, por entre os álamos. Em volta das tendas, numa área de umas duas dessiatinas, viam-se deitados, sentados ou de pé soldados ensanguentados, envergando os mais diversos uniformes. Na vizinhança dos feridos estacionava uma multidão de maqueiros de expressões tristes e atentas, que os oficiais encarregados de manter a ordem procuravam debalde afastar dali. Sem lhes dar ouvidos, estes soldados ali continuavam, encostados às suas padiolas, olhando fixamente tudo que se passava à sua volta, como que a procurarem compreender o terrível significado de semelhante espectáculo. Ouviam-se nas tendas ora gritos lancinantes e selvagens ora gemidos dolorosos. De tempos a tempos saíam de lá correndo enfermeiros que iam buscar água e designavam os feridos que deviam ser transportados. Estes, que esperavam a sua vez à entrada das tendas, gemiam, choravam, gritavam, proferiam injúrias, pediam que lhes dessem vodka, sentia-se-lhes o estertor. Alguns deliravam. Deixando para trás os feridos que ainda não tinham sido pensados, levaram o príncipe André, na sua qualidade de comandante de regimento, até à entrada de uma das tendas e aí se detiveram os seus maqueiros, aguardando ordens. André abriu os olhos e esteve assim muito tempo sem ser capaz de compreender o que se passava, O prado, as artemisas, o campo de aveia, a bola negra, girando e o seu arrebatamento de amor pela vida, tudo isto lhe veio ao espírito. A dois passos da sua padiola um sargento alto e moreno, a cabeça atada, encostado ao tronco de uma árvore, falava em voz alta, chamando a atenção de toda a gente, Fora ferido na cabeça e numa perna. A sua volta agrupava-se uma chusma de feridos e de maqueiros que escutava, avidamente o que ele dizia.

«Quando corremos com eles dali, deixaram lá tudo, e até o rei deles fizemos prisioneiro», gritava o sargento, com os seus olhos negros resplandecentes e miradas de orgulho à sua roda. «Se ao menos naquele momento as reservas têm chegado, podem crer, rapazes, não tinha escapado um, tão certo como eu estar aqui.. »

O príncipe André, como todos os que rodeavam o narrador, olhava para ele com os olhos brilhantes, e um sentimento de alívio o percorria. «Mas que me importa agora», dizia de si para consigo, «que tenho eu a ver com o que acontecerá ali e com o que aconteceu aqui? E porque será que me custa tanto deixar esta vida? Há de facto nela qualquer coisa que eu não compreendia e que continuo sem compreender.»

 

[XXXVII]

Um dos médicos saiu da tenda de campanha. Tinha um avental ensanguentado, e nos seus pequenos dedos, também cheios de sangue, entre o polegar e o anelar, equilibrava um charuto que procurava não sujar, Ergueu a cabeça e olhou para os dois lados por cima dos feridos. O que ele queria, evidentemente, era respirar um pouco de ar puro. Depois de olhar à direita e à esquerda, suspirou e baixou a cabeça.

«Sim, é já», respondeu ao enfermeiro que lhe apontava o príncipe André, e ordenou que o levassem para a tenda. «Pelos vistos até no outro mundo a vida é melhor para estes senhores», disse um dos feridos.

Transportaram o príncipe André para dentro da tenda e colocaram-no sobre uma, mesa que acabava de ficar livre e que um enfermeiro limpava. André não pôde distinguir coisa por coisa o que havia dentro da tenda. Os gemidos lancinantes que se ouviam por todos os lados, as dilacerantes dores que sentia na anca, no abdómen e nas costas tomavam-no por completo. O espectáculo que tinha diante dos olhos confundia-se numa única impressão geral de corpos humanos nus e ensanguentados que pareciam encher por completo toda aquela tenda de tecto baixo, exactamente como, semanas atrás, num cálido dia de Agosto, os corpos que vira dentro do tanque lodoso na estrada de Smolensk. Sim, era a mesma carne, precisamente essa carne para canhão, cujo espectáculo então, como se previsse o que estava a ver agora, o enchera de horror.

Na tenda havia três mesas. Duas delas já estavam ocup4 das: puseram o príncipe André na terceira. Deixaram-no só por instantes e pôde então, mesmo sem querer, ver o que se passava nas outras. Na que lhe ficava mais próxima estava sentado um tártaro, cossaco, sem dúvida, a avaliar pelo capote a seu lado. Quatro soldados o agarravam. Um médico de óculos retalhava-lhe as costas trigueiras e musculosas.

«Ai, ai, ai!», berrava o tártaro, como um cevado no matadouro, e de súbito, retesando a cara bronzeada, de malares salientes e nariz chato, rangendo os dentes brancos, principiou a estrebuchar, a soltar gritos prolongados e pungentes.

Na outra mesa, à volta da qual havia muitas pessoas, estava deitado de costas um homem forte e de grande estatura, com a cabeça caída para trás. Os seus cabelos encaracolados, a cor do cabelo e a forma da cabeça não pareceram desconhecidos ao príncipe André. Vários enfermeiros mantinham-no imobilizado, segurando-o fortemente. Uma das suas pernas, branca e gorda, era constantemente agitada por estremecimentos convulsivos. O homem soltava soluços entrecortados e sufocava. Dois médicos, silenciosos, um deles muito pálido e trémulo, ocupavam-se da outra perna, muito vermelha. O médico dos óculos, depois de dar por finda a sua tarefa junto do tártaro, a quem cobriram com um capote, aproximou-se do príncipe André enxugando as mãos.

«Dispam-no! Que estão aí a fazer?», gritou, furioso, para os enfermeiros.

O príncipe André recordou-se da sua longínqua e tenra infância, quando o enfermeiro, de mangas arregaçadas, o desabotoara rapidamente e o despira. O médico debruçou-se sobre o seu ferimento, e depois de o palpar suspirou profundamente. Em seguida fez um sinal a alguém. A dor atroz que sentiu no abdómen fez perder os sentidos ao ferido. Quando voltou a si, haviam-lhe extraído os fragmentos do fémur quebrado, tinham-lhe cortado grandes pedaços de carne e a ferida fora envolta em ligaduras. Espargiam-lhe a cara com água. Assim que abriu os olhos, o médico debruçou-se para ele, beijou-o nos lábios, sem dizer palavra, e afastou-se precipitadamente.

Depois do sofrimento que suportara, André sentiu um bem-estar que desconhecia há muito. Pela imaginação perpassavam-lhe todos os melhores e mais felizes momentos da sua vida, especialmente a sua mais longínqua infância, quando o despiam e o deitavam na sua caminha, e a sua ama, embalando-o, cantava para o adormecer ou, quando, a cabeça pousada na almofada, era feliz por se sentir viver. E todas estas impressões não se lhe afiguravam passadas, mas uma realidade presente. Os médicos continuavam de volta do ferido cujos traços lhe não pareceram desconhecidos. Solevavam-no e esforçavam-se por acalmá-lo.

«Mostrem-ma!... Ai!, ai!, ai!», gemia ele, numa voz entrecortada de soluços, apavorada e como que quebrada pelo sofrimento.

Ao ouvir esses gritos, André sentia vontade de chorar. Seria por ver-se morrer sem glória? Seria por causa das recordações de infância para sempre desaparecida? Ou seria por ver sofrer os outros e ouvir aquele homem soltar diante dele gemidos tão lamentosos? Fosse como fosse, tinha vontade de chorar, de chorar lágrimas de criança, por assim dizer lágrimas suaves de alegria.

Mostraram ao ferido a perna cortada, com sangue coagulado e ainda com a bota calçada.

«Ai! Ai!», gemeu, rompendo a chorar como uma mulher.

O médico que estava diante do ferido e lhe ocultava a cara afastou-se.

«Meu Deus! Que é isto? Que está ele aqui a fazer?», disse para si mesmo o príncipe André.

Naquele desgraçado que chorava, sem forças, e a quem acabavam de amputar uma perna, reconhecera Anatole Kuraguine. Amparavam-no por debaixo dos braços e chegavam-lhe um copo de água, que ele não conseguia atingir com a extremidade dos lábios tumefactos e trémulos. Continuava a soluçar. «Sim, é ele; aquele homem está ligado a mim por laços íntimos e dolorosos», disse de si para consigo o príncipe André, sem ter ainda uma ideia nítida, do que lhe estava a acontecer. «Que laços ligam aquele homem à minha infância, à minha existência?», perguntava sem conseguir obter resposta, E de súbito despertou-o um novo apelo inesperado: uma figura desse mundo da infância, cheia de pureza e de amor. Lembrou-se de Natacha, tal como ela lhe aparecera pela primeira, vez nesse baile e 1810, com o pescoço e os braços delgados, a sua expressão assombrada e feliz, tão pronta a entusiasmar-se, e o seu amor e a sua ternura por ela acordaram-lhe no fundo do coração mais vivos e fortes do que nunca. Compreendia agora o laço que existia entre ele e aquele, homem que através das lágrimas que lhe embaciavam os olhos o fitava com o seu olhar nublado. André lembrou-se de tudo, e uma imensa piedade, um apaixonado amor por aquele homem lhe encheu o coração feliz, Não podendo conter-se por mais tempo, pôs-se a chorar mansas lágrimas de amor pelos outros em geral, por ele próprio, pelos desvarios dos homens e pelos seus próprios desvarios.

«Sim, a piedade, o amor dos nossos irmãos, daqueles que nos amam, o amor dos que nos odeiam, o amor dos nossos inimigos, sim, esse amor que Deus veio pregar sobre a Terra, esse amor de que me falava a princesa Maria e que eu não compreendia, eis o que me faz ter pena da vida, eis a única coisa que me restaria se ainda tivesse vida para viver. Mas agora é tarde, tarde de mais, Eu bem sei.»

 

[XXXVIII]

O aspecto aterrador do campo de batalha, coberto de mortos e moribundos, o peso que sentia na cabeça e a nova de que vinte dos ,seus generais tinham sido mortos ou postos fora de combate, tudo isto e o reconhecimento, a que se via obrigado, da impotência do seu pulso, outrora todo poderoso, produziu um efeito inesperado em Napoleão, que ordinariamente gostava de ver os mortos e os feridos no intuito de pôr à prova a sua força moral, como costumava dizer. Naquele dia o pavoroso aspecto do campo de batalha vencera a sua força moral, coisa em que estribava o seu mérito e a sua grandeza, Retirou-se precipitadamente e regressou ao reduto de Chevardino. Sentado no banco portátil, amarelento, inchado, pesado, os olhos embaciados, o nariz vermelho e a voz rouca, ouvia o tiroteio involuntariamente, de cabeça baixa. Era com febril inquietação que aguardava o fim daquela obra em que participava embora sem a poder dar por finda. Por momentos prevalecia nele, sobre a miragem em que vivera e de que por tanto tempo fora escravo, um puro sentimento de humanidade. Sentia pesar-lhe na alma o sofrimento e as mortes de que tivera a visão ao percorrer o campo de batalha. O peso na cabeça e a opressão que lhe tomava os pulmões faziam-no pensar que também podia sofrer e morrer. Naquele momento não desejava nem Moscovo, nem a vitória, nem a glória. Para que queria a glória? Nada mais desejava naquele momento além do repouso, da serenidade e da liberdade. Quando estivera, porém, no cabeço de Semionovskoie, o comandante da artilharia propusera-lhe instalar ali algumas baterias para reforçar o fogo sobre as tropas russas concentradas diante de Kniazkovo. Napoleão concordara, determinando que lhe comunicassem o resultado obtido.

Um ajudante-de-campo veio anunciar-lhe que duzentas peças de artilharia tinham aberto fogo contra os Russos, mas que estes continuavam a resistir.

— O nosso fogo ceifa-os, fileira a fileira, e apesar disso permanecem firmes — disse o ajudante-de-campo.

— Ainda querem mais! — exclamou Napoleão com voz rouca.

— Sire? – perguntou o oficial, que não ouvira bem.

— Querem mais — repetiu ele, com a mesma rouquidão na voz e franzindo as sobrancelhas. — Dêem-lhes o que estão a pedir.

E sem que disso tivesse a iniciativa, o que ele realmente não queria realizava-se, não dando ordens senão por pensar que esperavam que ele as desse. De novo se deixou mergulhar nesse mundo fictício, povoado de visões de grandeza, e de novo, como um cavalo que, movendo uma nora, julga realizar uma tarefa útil para si, cumpria, docilmente, o cruel, doloroso, inumano e penoso Papel para que estava predestinado.

E não foi só naquela hora e naquele dia que o espírito e a consciência se lhe obscureceram, àquele homem sobre quem pesava mais do que sobre qualquer outro ser humano a responsabilidade do que se estava a passar. Nunca, até ao último dos seus dias, pôde compreender o que era o bem, o que era a beleza, o que era a verdade, nem jamais compreendeu a significação dos seus próprios actos por de mais opostos à verdade e ao bem para que ele pudesse compreender-lhes o significado. Nunca pôde renegar os seus próprios actos, tão louvados por meio mundo, e assim se viu forçado a renegar a verdade e o bem e tudo o que era verdadeiramente humano,

Não foi só naquele dia que ele, percorrendo o campo de batalha juncado de soldados mortos ou mutilados — por obra e graça da sua vontade, assim pensava —, pôde calcular quantos eram os mortos russos por cada morto francês, e, enganando-se a si próprio, achara razões para rejubilar, pois, segundo ele, por cada um dos seus tinham caído cinco do inimigo. Não foi só naquele dia que ele disse, como escreveu numa carta para Paris: «O campo de batalha estava soberbo», por haver mais de cinquenta mil cadáveres. Também na ilha de Santa Helena, no silêncio da solidão, onde, segundo declarara, pensava consagrar os seus ócios a relatar as obras que levara a cabo, escreveria:

A guerra da Rússia devia ter sido a guerra mais popular

dos tempos modernos: era a guerra do bom senso e dos verdadeiros interesses, a guerra do repouso e da segurança geral; era puramente pacífica e conservadora.

Era pela grande causa, pelo fim dos acasos e pelo

princípio da segurança. Um horizonte novo, novos trabalhos iam, desenrolar-se, cheios do bem-estar e da prosperidade de todos. Estava fundado o sistema europeu; restava apenas organizá-lo.

Satisfeitos que fossem estes grandes objectivos e

tranquilo que me visse em toda a parte, teria tido também o meu Congresso e a minha Santa Aliança. Ideias que me roubaram. Nessa reunião de grandes soberanos teríamos tratado dos nossos interesses em família e contaríamos então, de amo a servidor, com todos os povos.

Deste modo teria chegado a ser a Europa

verdadeiramente um único povo e toda a gente por onde quer que viajasse encontrar-se-ia sempre na pátria comum. Teria obtido o livre trânsito em todos os rios navegáveis, a comunidade dos mares, e que os grandes exércitos permanentes fossem reduzidos daí para o futuro à escolta dos soberanos.

De regresso a França, no seio da pátria, grande, forte,

magnífica, tranquila, gloriosa, teria proclamado os seus limites imutáveis; teria declarado todas as guerras futuras puramente defensivas e qualquer engrandecimento novo antinacional. Teria associado meu filho ao império, a minha ditadura acabaria, e teria começado um reinado constitucional...

Paris teria sido a capital do mundo e os Franceses a

inveja das nações!...

Os meus ócios e os dias da minha velhice teriam sido

consagrados, na companhia da imperatriz e enquanto durasse o aprendizado real de meu filho, a visitar, vagarosamente, e como um verdadeiro casal de aldeões, com os nossos próprios cavalos, todos os recantos do Império, ouvindo as queixas, fazendo justiça, semeando por toda a parte monumentos e boas obras. (Em francês no texto original. (N, dos T.)

Destinado pela Providência para desempenhar o papel lamentável e servil de carrasco das nações, queria convencer-se de que o seu objectivo era o bem dos povos e que podia orientar o destino de milhões de seres fazendo a sua felicidade.

Dos 400 mil homens que atravessaram o Vístula — escreveria mais adiante a propósito da campanha da Rússia — metade eram austríacos, prussianos, saxões, polacos, bávaros, wurtem, burgueses, espanhóis, italianos, napolitanos. Um terço do exército imperial propriamente dito era formado por holandeses, belgas, naturais das margens do Rena, piemonteses, suíços, genebrinos, toscanos, romanos, componentes da 32ª divisão militar, habitantes de Brémen, Hamburgo, etc.; nele apenas 140 mil homens falavam francês. A expedição da Rússia custou menos de 50 mil homens à França actual; o exército russo, na retirada de Vilna para Moscovo e nas diversas batalhas que se travaram perdeu quatro vezes mais homens que o exército francês; no incêndio de Moscovo perderam a vida 100 mil russos, mortos de frio e de fome nas florestas; e por último, na sua marcha de Moscovo até ao Óder, o exército russo foi também castigado pelas intempéries da estação; quando chegou a Vilna, apenas contava 50 mil homens e em Kalisch tinha menos de 18 mil!.

Napoleão pensava, pois, que esta guerra contra a Rússia era obra sua, e o horror do que acontecera não lhe causava a mais pequena emoção. Assumia toda a responsabilidade dos acontecimentos e a sua mente ofuscada achava justificação no facto de entre as centenas de milhares de homens sacrificados haver menos franceses do que bávaros ou habitantes do Hesse.

 

[XXXIX]

E eis como algumas dezenas de milhares de homens dos mais diversos uniformes jaziam mortos, à mistura, naqueles campos e pradarias, propriedade de um tal Sr. Davydov e dos mujiques da coroa, campos e pradarias onde, durante centenas de anos, os habitantes de Borodino, Gorki, Chevardino e Semionovskoie, todas as estações, invariavelmente, procediam às suas colheitas e levavam os seus rebanhos a pastar. Nas ambulâncias, na área de uma dessiatina, erva e terra estavam empapadas de sangue. Multidões de soldados de diversas armas, feridos ou válidos, o pânico escrito na cara, iam refluindo, uns sobre Mojaisk, outros sobre Valuieva. Massas de homens esgotados de fadiga e mortos de fome, conduzidos pelos seus chefes, continuavam a marchar. E por último outros havia que se mantinham no seu lugar disparando sempre.

Por cima do campo de batalha, tão formoso e alegre algumas horas antes, quando resplandeciam as baionetas ou se esgarçavam os vapores do sol matinal, estendia-se agora um nevoeiro húmido à mistura com fumo donde se desprendia um cheiro estranho e acre a salitre e a sangue. Enevoara-se o céu e uma chuva fina caía sobre os mortos, sobre os feridos, sobre aqueles homens extenuados, tornados de pânico, que principiavam a duvidar. Parecia gritar-lhes: «Basta, basta, infelizes! Cessai... Tomai tento! Que estais a fazer?»

Os soldados de ambos os exércitos, cansados e esfomeados. Principiavam a perguntar-se a si próprios se valeria a pena continuarem a matar-se uns aos outros, e rios seus rostos lia-se a hesitação e em cada alma surgia esta pergunta:

«Porquê, por quem devo eu matar ou deixar-me matar? Matai, vós, a quem quiserdes; fazei o que quiserdes; por mim, não quero mais!» Ao entardecer esta ideia amadurecera em todas as almas. De um momento para o outro estes homens podiam vir a sentir horror pelo que estavam a fazer e abandonar tudo e fugir fosse para onde fosse.

Sem embargo, ainda que no final da batalha estes sentimentos tivessem surgido na alma de todos os combatentes, ainda que todos se tivessem sentido felizes por acabar, uma força incompreensível e misteriosa obrigava-os a, continuar, e, cobertos de suor, negros de pó, sujos de sangue, reduzidos a um terço, extenuados e sem poderem mais, os artilheiros continuavam a transportar as cargas, a carregar as peças, a apontá-las, a inflamar as mechas, e os projécteis, com a mesma velocidade e a mesma crueldade, voavam quer de um lado, quer do outro, rasgando os corpos humanos, continuando a mesma terrível tarefa que se cumpre não graças a vontade do homem, mas graças à vontade d’Aquele que rege os destinos do mundo inteiro.

Quem quer que tivesse visto as fileiras desorganizadas da retaguarda do exército russo teria pensado que bastava um pequenino esforço dos Franceses para esmagar esse exército. E quem quer que tivesse visto a desorganização dos Franceses teria podido raciocinar da mesma maneira. Mas a verdade é que nem os Franceses nem os Russos faziam esse esforço e o fogo da batalha ia-se apagando pouco a pouco,

Os Russos não faziam esse esforço porque não tinham sido eles quem atacara. De princípio haviam-se limitado a ocupar a estrada de Moscovo, interceptando-a ao inimigo, e nesse posto continuaram até ao fim. Aliás, ainda que o seu objectivo fosse derrotar os Franceses, eram incapazes deste último esforço, uma vez que todo o seu exército estava desorganizado, que todos sofreram com a batalha e que para se manterem nos seus postos tinham perdido metade dos seus efectivos.

Os Franceses, amparados pela recordação de quinze anos de vitórias, certos de que Napoleão era invencível, cientes de que se tinham apoderado de uma parte do campo de batalha, que não haviam perdido senão a quarta parte dos seus homens e que atrás deles ainda, intactos, estavam os vinte mil homens da Guarda, teriam podido facilmente fazer esse esforço. Eram os Franceses, que tinham atacado o exército russo com o objectivo de o desalojar das suas posições, quem devia fazer esse esforço, uma vez que enquanto os Russos continuassem, como no princípio da batalha, a interceptar-lhes a estrada para Moscovo, o seu alvo não fora atingido e inúteis deviam considerar-se todos os seus esforços e todas as suas perdas. A verdade, porém, é que não fizeram esse esforço. Alguns historiadores foram de parecer de que bastaria, Napoleão ter mandado avançar a sua velha Guarda para a batalha ser ganha. Mas quem assim se exprime parece supor que o Outono pode de súbito transformar-se em Primavera, coisa impossível. Se Napoleão não ofereceu a sua Guarda, não foi porque o não quisesse, mas por lhe ser impossível. Tanto os generais, como os oficiais, como os soldados, sabiam que assim era: o estado de desmoralização do exército não o permitia.

Não foi só Napoleão quem sentiu que o seu braço terrível tombava sem força: todos os generais, todos os soldados do exército francês, quer combatentes, quer não combatentes, depois do que tinham visto nas batalhas precedentes, em que o inimigo costumava debandar após uma resistência de um contra dois, haviam sido tomados de um pavor geral na presença de adversário que, após haver perdido metade dos seus efectivos, ali continuava tão ameaçador no fim como no princípio da batalha. A força moral do exército francês atacante estava exausta. A vitória que os Russos obtiveram em Borodino não foi uma dessas vitórias que se proclamam com trapos hasteados em paus, à maneira de troféus, uma dessas vitórias que se medem pela extensão do território conquistado, mas uma vitória moral, uma dessas vitórias que convencem o adversário da superioridade moral que se lhe opõe e da inutilidade dos seus próprios esforços. A invasão francesa. à semelhança de uma fera enraivada mortalmente ferida na sua carreira, pressentia estar perdida, mas assim como o exército russo, duas vezes mais fraco, não podia ceder, a invasão não podia deter-se. Graças à velocidade adquirida, os Franceses ainda iriam até Moscovo, mas seria aí, sem que as forças russas tivessem de fazer novos sacrifícios, que soçobrariam, perdido que fora todo o seu sangue pela ferida mortal que receberam em Borodino, Uma das consequências directas da batalha foi obrigar Napoleão, sem qualquer motivo definido, a fugir de Moscovo, a bater em retirada pela velha estrada de Smolensk, suportando a perda de um exército invasor de quinhentos mil homens e assistindo à destruição da França napoleónica, sobre a qual, pela primeira vez, em Borodino, se abatera o braço de um adversário com força moral superior.