Guerra e Paz

Liev Tolstói · Capítulo 10 de 18 · parte 5/8

Páginas do PDF

Guerra e Paz

Segunda Parte

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.

— Que ideia! Vou dar ordens imediatamente.

A princesa parecia desconcertada por ter perdido aquela oportunidade de se zangar com alguém. Deixou-se cair numa cadeira, enquanto entre dentes ia murmurando fosse o que fosse.

— Muito mal a informaram — continuou Pedro. — Na cidade reina o sossego e não há perigo algum. Olhe o que eu estava a ler... — Mostrou-lhe os editais. — Diz aqui o conde que o inimigo não entrará em Moscovo, que o garante com a sua vida.

— Olhe, esse seu conde! — exclamou a princesa, mal-humorada. — Esse seu conde é um hipócrita, um miserável, que está farto de incitar o povo à revolta. Pois não foi ele quem escreveu num dos seus estúpidos editais ser preciso agarrar fosse quem fosse pela gola do casaco e metê-lo na cadeia? Que estupidez! E a quem assim proceder promete-lhe honra e glória. Ora aí tem o, resultado de tudo isto. Várvara Ivanovna contou-me que a iam quase matando na rua por estar a falar francês...

— Ora... Que diabo... Tomam as coisas demasiado a sério. — murmurou Pedro, que prosseguia com a sua paciência.

Embora a tivesse conseguido fazer, Pedro não foi para a guerra, e ficou em Moscovo, de dia para dia mais vazia, e sempre agitada pela mesma inquietação, a mesma incerteza, num terror a que se misturava alegria, sempre na expectativa de terríveis acontecimentos.

No dia seguinte, ao fim da tarde, a princesa abalou e Pedro recebeu a visita do seu administrador, que lhe vinha dizer ser impossível reunir o dinheiro necessário para equipar o regimento sem vender uma das suas propriedades. Aliás, teve o cuidado de lhe fazer compreender que semelhantes fantasias acabariam por arruiná-lo, tão certo como ele ser seu administrador. Ao ouvir isto, Pedro só a muito custo pôde esconder o riso.

— Pois venda — disse-lhe ele. — Que havemos de fazer? Agora não posso voltar atrás com a minha palavra.

Quanto piores a situação geral e os seus negócios pessoais, tanto maior a sua alegria, tanto mais evidente a catástrofe que esperava para breve. Na cidade já por assim dizer ninguém das suas relações restava. Júlia abalara, a princesa Maria também. Dos seus íntimos, apenas os Rostov continuavam em Moscovo, mas Pedro não mais os visitara.

Nesse dia, para se distrair, foi à aldeia de Vorontzovo ver um grande balão imaginado pelo engenheiro Leppich com vista a aniquilar o inimigo. Iam experimentá-lo na intenção de o largar no dia seguinte. O balão ainda não estava pronto, mas Pedro veio a saber que o imperador mostrara desejos de o ver montado. A tal respeito, Sua Majestade endereçara a carta seguinte ao conde Rostoptchine:

Assim que Leppich estiver preparado, arranje-lhe uniu

tripulação de homens de confiança e inteligentes para a barquinha do balão e mande um correio prevenir o general Kutuzov. Já o pus ao corrente do assunto.

Faça o favor de recomendar a Leppich que repare no

local onde descer pela primeira vez, para que se não engane e não caia nas mãos do inimigo, É indispensável que os seus movimentos sejam combinados previamente com o general-chefe.

No regresso de Vorontzovo, ao passar na Praça Bolotnaia, Pedro viu uma grande multidão junto de Lobnoie Miesto. Mandou parar o carro e apeou-se. Tratava-se da flagelação de um cozinheiro francês acusado de espionagem. O castigo terminara e o carrasco desatava do potro um homem corpulento, de suíças ruivas, meias azuis e colete verde, que gemia dolorosamente. Outro delinquente, magro e pálido, esperava a sua vez. Pelo tipo, também este era francês. Assustado e lívido, Pedro abriu caminho por entre a multidão.

— Que foi? Que fizeram eles? — perguntou.

Mas tão absorvida estava no espectáculo a turba de funcionários, burgueses, comerciantes, mulheres de golinhas e peliças, que ninguém lhe respondeu, O rotundo homem levantou-se, franzindo o sobrolho, encolheu os ombros e desejando, sem dúvida, mostrar firmeza vestiu o casaco, sem olhar para a multidão que e rodeava, embora lhe tremessem os lábios e vertesse algumas lágrimas, furioso consigo mesmo, como acontece aos homens de temperamento sanguíneo. «A turba falava alto para afogar talvez um assomo de piedade que ameaçava crescer», pensou Pedro.

«É o cozinheiro de um príncipe...»

— Então, mussiu? Pelo que se vê, o molho russo é um bocado picante para o paladar francês... Pica-te na língua — disse um manga-de-alpaca, todo encarquilhado, que estava ao lado de Pedro, quando viu o francês chorar.

E depois olhou em volta, como à procura de aplauso para o seu gracejo, Algumas pessoas puseram-se a rir, outras continuaram a olhar, apavoradas, o carrasco, que ia despindo o segundo sentenciado.

Pedro resfolgou, franziu as sobrancelhas e, dando de súbito meia volta, regressou à sua carruagem, não sem continuar a resmungar qualquer coisa entre dentes. Durante o resto do trajecto várias vezes estremeceu e soltou exclamações — o que levou o cocheiro a perguntar-lhe:

— Que diz, patrão?

— Aonde vais? – gritou. — Pedi-o, quando viu que o cocheiro se dirigia à

Lubianka.

— Então não foi para casa do general governador que me mandou seguir? — perguntou o cocheiro.

— Imbecil! Animal! — vociferou Pedro, insultando o cocheiro, coisa que raramente lhe acontecia. — Disse-te que me levasses para casa. Depressa! — «Tenho de partir hoje mesmo», disse com os seus botões.

A multidão em volta dos flagelados de. Lobnoie Miesto convencera-o definitivamente a não permanecer por mais tempo em Moscovo, seguindo nesse mesmo dia para o campo de batalha. Julgou mesmo que o dissera já ao cocheiro ou que este devia conhecer as suas intenções mesmo sem nada lhe dizer.

Ao chegar a casa mandou chamar Evstafievitch, o cocheiro, um homem que tudo conhecia, sabia tudo, e era conhecido de toda a gente em Moscovo. Deu-lhe as suas instruções, dizendo-lhe que partia naquela mesma noite para Mojaisk, a fim de se incorporar no exército, ordenando-lhe que mandassem para ali os seus cavalos de sela. Não era coisa que se fizesse num só dia, por isso, a conselho de Evstafievitch, resolveu adiar a partida para o dia seguinte de modo a que ele tivesse tempo de lhe mandar preparar as mudas.

No dia 24 o tempo melhorou, depois de uma quadra de mau cariz, e nesse mesmo dia, após o jantar. Pedro deixava Moscovo. Já noite, ao mudar de cavalos em Perkuchkovo, soube que nessa mesma tarde se travara uma grande batalha, Dizia-se que até a terra tremera com o canhoneio. Perguntando Pedro quem ganhara a batalha, ninguém lhe soubera responder. Tratava-se da batalha de 24, em Chevardino. De madrugada chegava a Mojaisk.

Todas as casas de Mojaisk estavam ocupadas pelas tropas e na estalagem onde o aguardavam o escudeiro e o cocheiro não havia um único quarto: estava tudo tomado pelos oficiais.

Tanto em Mojaisk como nas vizinhanças, por toda a parte, só havia militares. A cada canto se viam cossacos, soldados de infantaria, de cavalaria, furgões, armões e peças de artilharia. Pedro deu-se pressa em continuar avante e quanto mais se afastava de Moscovo e se submergia naquele mar de tropas mais se sentia invadido por um sentimento misto de inquietação e íntima satisfação, sentimento novo para ele. Era qualquer coisa como o que sentira no Palácio Slobodski aquando da visita do imperador. Tratava-se de tomar uma decisão e de se sacrificar. Agora tinha a satisfação de compreender que tudo quanto em geral constitui a felicidade do homem, as comodidades da existência, a riqueza, a própria vida, não passavam de coisas absurdas, a que renunciava com grande satisfação, quando comparadas com... Com quê, eis o que Pedro não sabia dizer; o certo é que não procurava explicar claramente por quem ou porque sen(,ia aquela satisfação no sacrifício. Não procurava saber porque se queria sacrificar, mas era de facto o próprio sacrifício em si que lhe dava aquela satisfação íntima e inteiramente nova.

 

[XIX]

No dia 24 deu-se a batalha de Chevardino: a 25 não se disparou um único tiro quer de um lado, quer do outro, e a 26 travou-se a batalha de Borodino.

Porque se travaram estas duas batalhas? Como se deram? Porque se deu, particularmente, a batalha de Borodino? Tal batalha não tinha o menor sentido nem para os Franceses nem para os Russos. O seu resultado imediato foi, e tinha de ser, para os Russos mais um passo para a perda de Moscovo, a coisa que eles mais receavam, para os Franceses passo idêntico para a perda total do seu exército, o que eles também temiam acima de tudo. Este resultado era evidente; mesmo então, e apesar disso, Napoleão ofereceu batalha e Kutuzov aceitou-a.

Se os grandes capitães se deixassem guiar por considerações razoáveis, dir-se-ia evidente para Napoleão que, depois de se afastar mais de duas mil verstas das suas bases, travar uma batalha com a possibilidade a todo o ponto verosímil de perder a quarta parte do seu exército era como que caminhar para uma derrota certa. Devia ser igualmente certo para Kutuzov que aceitar o combate, arriscando também, por seu lado, a quarta parte das suas forças, era como que jogar a perda de Moscovo. Para este, então era tão matemático como nas damas aquele que, tendo no fim do jogo menos uma pedra do que o adversário, a joga deixando-a comer e perdendo, portanto, a partida.

Se um dos adversários tem dezasseis pedras e outro catorze, este é apenas uma oitava parte mais fraco do que aquele: porém, quando ambos tiverem perdido, cada um à sua parte, treze pedras, o primeiro será três vezes mais forte do que o segundo.

Antes de Borodino as forças russas, em relação às francesas, encontravam-se aproximadamente na proporção de cinco para seis e, depois da batalha, na de um para dois, o que quer dizer que antes da batalha os Russos eram cem mil contra cento e vinte mil, e depois dela cinquenta contra cem mil. E no entanto o experimentado e inteligente Kutuzov aceitou o combate. E Napoleão, esse génio militar, como então se dizia, aceitou a luta, que lhe custou um quarto do seu exército e ainda mais lhe estendeu as linhas. Ainda que se diga que, tomando Moscovo, pensava dar a campanha por finda, como acontecera depois da tomada de Viena, não faltam provas que demonstrem o contrário, Os próprios historiadores de Napoleão referem que depois de Smolensk ele queria deter-se, ele próprio se dava conta do perigo da extensão das linhas, sabendo que a ocupação de Moscovo não seria o fim da campanha, pois desde Smolensk que verificava o estado em que encontravam as cidades que tomava e que nenhuma resposta obtinha às suas reiteradas tentativas de entabular negociações.

Oferecendo e aceitando a batalha, tanto Kutuzov como Napoleão agiram contrariamente ao livre-arbítrio e de forma insensata. No entanto, os historiadores, consumados os factos, extraíram consequências complicadas e especiosas sobre a visão e o génio dos generais, quando a verdade é que estes, no meio dos instrumentos inconscientes dos acontecimentos dessa época, mostraram ser os mais servis e os mais cegos.

Os antigos deixaram-nos modelos de poemas épicos em que os heróis são o principal interesse da história, por isso não nos podemos resignar a que a história do nosso tempo se lhe não assemelhe.

Para a pergunta — como se deram as batalhas de Borodino e a de Chevardino, que a precedeu? — existe também uma explicação precisa que toda a gente conhece, embora completamente falsa. Todos os historiadores, com efeito, descrevem essa dupla batalha da seguinte maneira:

O exército russo, na sua retirada depois de Smolensk, teria procurado a melhor posição para travar uma batalha geral e tê-la-ia encontrado em Borodino.

Os Russos teriam fortificado previamente essa posição à esquerda da estrada de Moscovo a Smolensk e perpendicularmente, pouco mais ou menos, a esta estrada, entre Borodino e Utitsa, exactamente no local onde a batalha se travou.

Ante esta posição, ter-se-ia estabelecido, para observar o inimigo, um posto avançado na encosta de Chevardino. A 24, Napoleão teria assaltado esse posto avançado e tê-lo-ia tomado: a 26 teria atacado o grosso do exército russo, concentrado no campo de Borodino.

Eis o que os historiadores dizem e tudo isto é absolutamente inexacto, coisa de que se convencerá facilmente quem quer que se decida a estudar com cuidado o acontecimento.

Os Russos não escolheram a melhor posição; pelo contrário, no decurso da sua retirada menosprezaram muitas outras melhores do que a de Borodino. Não se detiveram em qualquer delas porque Kutuzov não queria aceitar uma posição que não fosse escolhida por ele, e depois porque a patriótica necessidade de dar batalha ainda irão se concretizara com suficiente força e ainda porque Miloradovitch ali não estava com a sua milícia, além de outras razões impossíveis de enumerar. O facto é que as outras posições eram mais fortes, e que a de Borodino, onde se travou a batalha, não só não era a melhor como nem sequer era uma posição, visto não passar de um lugar como qualquer outro marcado ao acaso com um alfinete no mapa do império moscovita,

Os Russos não só não fortificaram a posição de Borodino à esquerda e perpendicularmente à estrada, quer dizer, no local onde a batalha se travou, como antes de 25 de Agosto nunca tinham pensado que se pudesse vir a dar um recontro naquele local. E a prova está, em primeiro lugar, que não só a 25 não havia ali qualquer fortificação, mas até mesmo as que se iniciaram a 25 não estavam concluídas a 26, e, em segundo lugar, na própria situação do reduto de Chevardino. Este reduto, na vanguarda da posição onde os exércitos se defrontaram, era inteiramente destituído de sentido, Porque foi esse reduto mais fortificado que todos os outros pontos? E porque é que, para defendê-lo, se resistiu no dia 24 até alta noite, envidando tantos esforços e perdendo seis mil homens? Para observar o inimigo, uma patrulha de cossacos chegava perfeitamente. Em terceiro lugar, a prova de que a posição onde se travou a batalha não estava prevista e que o reduto de Chevardino não era o seu posto avançado é que Barclay de Tolly e Bagration estiveram convencidos até 25 de que o reduto de Chevardino constituía o flanco esquerdo da posição, e que o próprio Kutuzov, no seu relatório, redigido quando ainda frescas as impressões da batalha, lhe chama o flanco esquerdo da posição. Muito mais tarde, ao descrever-se a batalha de Borodino, naturalmente para justificar os erros do general-chefe, infalível custasse o que custasse, emitiu-se a afirmação inexacta e estranha de que o reduto de Chevardino era um posto avançado, quando na verdade não passava de uma posição fortificada qualquer do flanco esquerdo, e afirmando-se também que os Russos tinham aceitado a batalha numa posição fortificada e escolhida previamente, quando a verdade é que essa batalha se travou num local de todo imprevisto e por assim dizei —, em fortificações.

Eis como em verdade se passaram as coisas: escolheu-se um ponto no Kolotcha, que corta a estrada real não em ângulo recto, mas em ângulo agudo, de tal sorte que o flanco esquerdo estava em Chevardino, o direito nas imediações da aldeia de Novoie e o centro em Borodino, na confluência dos rios Kolotcha e Voina. Esta posição, protegida pelo no Kolotcha, era, evidentemente, a de um exército que se propunha deter o inimigo em marcha ao longo da estrada de Smolensk a Moscovo: eis qualquer coisa de evidente para quem quer que examine o campo de batalha esquecendo-se de como os factos se passaram.

Napoleão, ao dirigir-se, no dia 24, para Valuieva, não viu, segundo dizem os historiadores, a posição ocupada pelos Russos entre Utitsa e Borodino (não podia vê-la porque ela não existia). Tão-pouco viu a guarda avançada do exército, e só ao perseguir a retaguarda tropeçou no flanco esquerdo dos Russos, isto é, no reduto de Chevardino, e que, inesperadamente para os Russos, fez passar as suas tropas para a outra margem de Kolotcha. E então os Russos, que não tinham podido travar uma batalha geral, fizeram obliquar a ala esquerda da posição que pensavam ocupar para se estabelecerem numa posição nem prevista nem fortificada. Ao atravessar para a margem esquerda do no Kolotcha, portanto para a esquerda da estrada, Napoleão transportara a futura batalha do flanco direito para o esquerdo dos Russos, para a planície entre Utitsa. Semionovskoie e Borodino, planície não mais vantajosa como posição que qualquer outra, e ali se travou a batalha de 26. A traços largos, o plano da batalha, tal como a descreveram e tal como ela realmente se travou, seria o indicado na página seguinte.

Se Napoleão não tivesse atravessado o no Kolotcha no dia 24 à noite e não houvesse dado ordens para não atacar o reduto nessa mesma noite, adiando o ataque para o dia seguinte, seríamos obrigados a reconhecer que o reduto era o flanco esquerdo da posição russa e a batalha ter-se-ia travado como os Russos esperavam. Neste caso os Russos teriam defendido mais encarniçadamente ainda o reduto de Chevardino, seu flanco esquerdo, atacando Napoleão no centro e à direita, e no dia 24 travar-se-ia a batalha geral na posição fortificada e prevista. Mas como o ataque ao flanco esquerdo russo se verificou à noite, em consequência da retirada da retaguarda russa, isto é, imediatamente após a batalha de Gridnievo, e como os generais russos não puderam ou não quiseram desencadear no dia 24 à noite a batalha geral, a primeira e parte principal da batalha de Borodino estava perdida desde aquele mesmo dia, implicando, forçosamente, a derrota do dia 26.

Depois da perda do reduto de Chevardino, na manhã de 25, os Russos viram-se privados do ponto de apoio no flanco esquerdo, sendo forçados a restabelecer a ala esquerda e a fortificá-la à pressa, fosse como fosse.

Mas o facto de as tropas russas no dia 28 de Agosto se encontrarem em entrincheiramentos insuficientes nada era comparado com o facto de os generais russos não terem atribuído a devida importância à perda da posição do flanco esquerdo, ou seja, a mudança da orientação da batalha da esquerda para a direita, deixando que as suas linhas continuassem a estender-se da aldeia de Novoie a Utitsa, e viram-se obrigados à transferência de tropas da direita para a esquerda durante o combate. E foi assim que os Russos, em plena batalha, só puderam opor à totalidade das tropas francesas a sua ala esquerda, isto é, forças duas vezes mais fracas. Quanto aos ataques de Poniatowski a Utitsa e de Uvarov ao flanco direito dos Franceses, eis incidentes inteiramente alheios à marcha geral das operações.

E foi assim que a batalha de Borodino se travou em circunstâncias completamente diferentes daquelas por que foi descrita na intenção de ocultar os erros dos generais, e isso apenas serviu para diminuir a glória do exército e do povo russos.

Essa batalha não se travou numa posição escolhida e fortificada com forças apenas um pouco mais fracas do lado russo; foi aceite, em consequência da perda de Chevardino, numa planície aberta e quase sem fortificações, com forças duplamente mais fracas que as dos Franceses. Isto é, em condições tais teria sido impossível a essas tropas não já baterem-se durante dez horas seguidas e num combate indeciso, mas até mesmo aguentarem-se três horas que fosse sem serem vítimas de um desastre completo e sem virem a ser completamente desbaratadas.

[XX]

Na manhã do dia 25, Pedro saiu de Mojaisk. Para descer o empinado e tortuoso caminho que levava da cidade à catedral, situada um pouco à direita, e onde se celebrava um serviço religioso acompanhado do toque de sinos, apeou-se da sua carruagem e fez o percurso a, pé. Atrás dele vinha um regimento de cavalaria precedido dos seus cantores, um comboio de viaturas com feridos do recontro da véspera caminhava em sentido contrário. Os camponeses que o conduziam, entre gritos e chicotadas, corriam ladeando as carroças. Por cima das pedras espalhadas no caminho à guisa de pavimento, as viaturas, cada uma delas com três ou quatro feridos, rins sentados outros estendidos, lá iam cambaleando ladeira acima. Lá dentro, os feridos, pernas e, braços entrapados, pálidos, de lábios apertados e sobrancelhas franzidas, fincavam-se nos taipais, atirados uns contra os outros. Quase todos ficavam a olhar, numa curiosidade entre infantil e ingénua, o chapéu branco e o fraque verde de Pedro.

O cocheiro de Bezukov vociferava, colérico, contra os postilhões do comboio, exigindo-lhes que formassem fila de um só lado da estrada. Cantando, o regimento de cavalaria que descia a encosta, ao cruzar com a carruagem de Pedi-o, interceptou-lhe o caminho. Pedro parou, comprimindo-se contra o talude que marginava o caminho talhado na encosta. Tão abrupto era o local que o sol ainda não atingira a estrada profunda.

Fazia frio e estava húmido. Lá no alto, por cima da sua cabeça, brilhava uma bela manhã de Agosto e um jucundo carrilhão ressoava pelo espaço além. Uma das viaturas cheia de feridos parou à beira da, estrada, mesmo ao lado de Pedro. O postilhão de laptis, acorreu, ofegante, atirou uma pedra para debaixo das rodas traseiras e pôs-se a ajustar os arneses do cavalicoque.

Um dos feridos, soldado idoso, com um braço ao peito que seguia a pé, atrás do carro, agarrou-se a ele com a mão sã e voltou-se para Pedro.

— Que há, paisano? Vão deixar-nos para aqui a criar bolor ou vamos para Moscovo? — disse ele.

Pedro tão absorto estava nos seus pensamentos que não compreendeu a pergunta. Ora olhava para o regimento de cavalaria agora junto do comboio ora para a viatura que se detivera ao pé dele e onde jaziam três feridos, dois sentados e um prostrado, e afigurava-se-lhe que aqueles desgraçados lhe davam a solução do problema que o preocupava.

Um dos que estavam sentados devia ter sido atingido na cara, Tinha o crânio completamente envolto em trapos e uma das faces inchada a tal ponto que parecia a cabeça de um recém-nascido. O nariz e a boca estavam disformes. Relanceou o olhar para a igreja e persignou-se. O outro, um recruta jovem, louro e de pele branca, que dir-se-ia não ter já gota de sangue na cara afilada, olhava para Pedro com um sorriso bondoso desenhado nos lábios. O terceiro estava deitado de bruços e não se lhe podia ver a cara. Os cantores a cavalo passavam nesse momento diante da viatura parada.

«Oh! Liquidada... cabeça de ouriço-cacheiro... para o estrangeiro é o caminho...» Destacavam bem nitidamente as palavras de uma canção de soldados.

Como a responder-lhes, mas num tom de uma jovialidade muito diferente, repicavam lá no alto as notas metálicas do carrilhão. E alegres também, mas ainda de outra alegria, os raios ardentes do Sol inundavam os píncaros dos montes que coroavam o outro lado da estrada.

Entretanto, do lado em que estava Pedro, junto da viatura com os feridos e o cavalicoque extenuado, continuava escuro, húmido e triste.

O soldado da cara inchada olhou furioso para os cantores.

— Olhem para eles, para estes presumidos — exclamou mal-humorado.

— Hoje em dia já lhes não bastam os soldados, recrutaram também os camponeses! Guerra com eles! — murmurou com um sorriso triste o soldado estacionado junto da viatura, dirigindo-se a Pedro. — Nesta altura tudo lhes serve. Toda a gente lhes serve! Moscovo... Não se fala doutra coisa. E cada qual que se governe! É o que eles querem.

Apesar da pouca nitidez destas palavras, Pedro compreendeu o que elas queriam dizer e acenou com a cabeça, aprovador.

A estrada ficou desimpedida. Pedro voltou a descer a encosta e subiu para a carruagem disposto a continuar o seu caminho ia olhando de quando em quando ora para um ora pura outro lado da estrada. à procura de alguma cara conhecida, mas apenas se lhe deparavam militares desconhecidos, de diversas armas, que todos, por igual, pasmavam diante do seu chapéu branco e do seu fraque verde.

Umas quatro verstas andadas viu, finalmente, alguém conhecido, a quem tratou de interpelar com grande satisfação. Era, um médico, militar de alta patente, que vinha na sua britctka, em sentido contrário ao da carruagem de Pedro. Acompanhava-o um médico jovem. Ao reconhecer o viajante, fez sinal ao cossaco que lhe servia de cocheiro para que se detivesse.

— Conde! Excelência! Que faz o senhor aqui? — inquiriu o médico.

— Queria ver isto...

— Sim, sim, tem muito que ver...

Pedro apeou-se do seu carro e pôs-se a contar-lhe como resolvera assistir à batalha.

O médico aconselhou-o a que se dirigisse directamente ao Sereníssimo.

— Só Deus sabe onde o senhor estaria bem durante a batalha sem ser reconhecido — disse ele, trocando um olhar com o seu jovem companheiro. — No entanto, o Sereníssimo conhece-o e estou certo de que o aconselhará de bom grado. Sim, é o que tem a fazer, meu caro.

O médico tinha um ar fatigado e parecia ter pressa.

— Então, acha? E também lhe queria perguntar onde fica a nossa posição — retorquiu Pedro.

— A nossa posição? — replicou o médico. — Isso não é da, minha competência. Depois de passar Tatarinovo verá, andam aí a remover muita terra. Suba ao cabeço. Daí poderá ver qualquer coisa.

— Então pode ver-se dali?... Se o senhor...

O médico interrompeu-o e apontou para a britchka.

— Acompanhá-lo-ia com gosto, mas, Deus meu!, estou até aqui — disse, com a mão na garganta. — Vou, numa carreira, ao encontro do comandante do corpo. E o senhor sabe como estas coisas são entre nós, conde... Amanhã travar-se-á a batalha. Em cem mil combatentes temos de contar muito por baixo com vinte mil feridos. E não temos macas, nem camas de campanha, nem enfermeiros, nem médicos que cheguem para seis mil. Contamos com dez mil viaturas, mas ainda é preciso mais alguma coisa. Arranja-te como puderes!

E Pedro, então, pensou que de entre aqueles milhares de homens na plenitude da vida, de perfeita saúde, jovens e velhos, que ao passar se punham a observar-lhe o chapéu com galhofeira surpresa, pelo menos vinte mil estavam votados ao sofrimento e à morte e muito bem podia acontecer que a esse número pertencessem exactamente aqueles que acabava de ver.

«Talvez morram amanhã mesmo; como podem eles pensar noutra coisa que não seja a morte?» E de súbito, mercê de uma associação misteriosa de ideias, viu diante de si a encosta de Moiaisk e as viaturas carregadas de feridos e ouviu o som dos sinos e entreviu os raios oblíquos do Sol e tornou a ouvir as canções dos cavaleiros.

«O regimento de cavalaria caminha para o combate e os soldados cruzam o comboio dos feridos e nem por um segundo lhes vem à cabeça o que os espera e ao passarem ao lado deles piscam o olho a este e àquele. E, embora vinte mil vão ao encontro da morte, o meu chapéu diverte-os! Que estranho!», dizia Pedro de, si para consigo enquanto seguia direito a Tatarinovo.

Junto de uma casa senhorial, à esquerda da estrada, aglomeravam-se carruagens, galeras e uma chusma de impedidos e sentinelas. Era ali que estava instalado o Sereníssimo. Mas à hora em que Pedro chegava, tanto ele como quase todo o seu estado-maior encontravam-se ausentes. Assistiam todos ao serviço religioso. Pedro prosseguiu na direcção da Gorki.

Ao chegar ao alto da encosta, e quando atravessava a ruazinha da aldeia, viu pela primeira vez camponeses milicianos, de cruz na barretina e camisa branca, que falavam alto e riam, cobertos de suor, em grande animação, cavando à direita da estrada, num cabeço coberto de relva.

Uns abriam trincheiras à picareta, outros acarretavam terra em carrinhos de mão por cima de pranchas assentes no solo e outros ainda nada faziam.

Dois oficiais postados no cabeço dirigiam os trabalhos. Ao veios camponeses, muito contentes na sua nova profissão de soldados, Pedro lembrou-se dos feridos de Mojaisk e compreendeu então o que queriam dizer as palavras do militar. «Toda a gente lhes serve!» E a vista daqueles homens barbados, trabalhando no campo de batalha, com as suas botifarras estranhas, as nucas reluzentes de suor, os colarinhos desabotoados, com as ossudas clavículas à mostra, produziu em Pedro uma impressão mais forte que tudo o que observara e ouvira até então sobre a solenidade v a importância do momento.

 

[XXI]

Pedro apeou-se da carruagem, e, passando diante dos milicianos entregues à sua tarefa, trepou ao cabeço, donde, na opinião do médico, podia ver-se o campo de batalha.

Eram onze horas da manhã. O Sol, um pouco à esquerda e na retaguarda de Pedro, através do ar puro e sereno. Iluminava vivamente o imenso panorama acidentado que diante dele se estendia como um grande anfiteatro.

A esquerda, e cortando esse anfiteatro, serpenteava, subindo, grande estrada de Smolensk que atravessava a aldeia, com a sua branca igreja, situada junto do cerro, a quinhentos passos dele, Era Borodino. A estrada, depois da aldeia, transpunha uma ponte e, através de uma série de descidas e subidas, encaminhava-se, serpeando, para o povoado de Valuieva, que se via a umas seis verstas de distância, agora nas mãos de Napoleão. Depois de Valuieva a estrada perdia-se no meio de uma floresta que amarelecia no horizonte. Nesta mata de álamos e abetos, à direita da estrada, brilhava, ao sol, a cruz e o campanário distantes do Mosteiro de Kolotcha. Nessa longínqua linha azulada, à direita e à esquerda da floresta, surgiam, aqui e ali, o fumo das fogueiras dos acampamentos e a massa indistinta das tropas russas e francesas. À direita, ao longo dos rios Kolotcha e Moskva, o terreno era entrecortado de barrancos e colinas. Ao longe, nesses barrancos, descobriam-se as aldeias de Bezubovo e de Zakarino. A esquerda a região era menos acidentada e viam-se aí searas de trigo e as ruínas fumegantes da aldeia de Semionovskoie, que fora incendiada.

Tudo o que Pedro dali descobria, quer à direita, quer à esquerda, era tão vago que nem de longe correspondia ao que ele esperava. Não via em parte alguma o campo de batalha com que contava, mas apenas campos lavrados, clareiras, tropas, florestas, fogueiras de acampamentos, aldeias, cerros, rios e, por mais que procurasse com os olhos, não conseguia distinguir as tropas russas das francesas naquela paisagem buliçosa.

«Tenho de perguntar a uma pessoa competente», dizia de si para consigo, e dirigiu-se a um oficial que, cheio de curiosidade, examinava a sua corpulenta figura nada marcial.

— Quer ter a bondade de me dizer — principiou ele — que aldeia é aquela ali em frente?

— Burdino, não é? — replicou o oficial, voltando-se para um dos seus camaradas.

— Borodino — corrigiu o outro.

O oficial, que pelos vistos parecia contentíssimo daquela oportunidade de dar à língua, aproximou-se de Pedro.

— Ali são os nossos? — perguntou Pedro.

— Sim, e lá adiante, mais longe, os Franceses — tornou o oficial. — Lá adiante, lá muito adiante, está a ver?

— Onde? Onde?

— Vêem-se perfeitamente à vista desarmada. Lá adiante.

O oficial apontou para os penachos de fumo que se descobriam à esquerda, para lá do rio, enquanto se lhe pintava no rosto uma expressão preocupada e grave, expressão que Pedro já notara em muitos outros rostos.

— Ah!, são os Franceses! E lá adiante? Pedro apontava para um monte, à esquerda, em volta do qual se viam tropas.

— São os nossos.

— Ah!, os nossos! E lá, ali, mais adiante — apontou para outro cabeço mais afastado, com uma grande árvore, junto de um povoado assente numa dobra do terreno: ao lado subia no ai, fumo dos bivaques e viam-se manchas escuras no solo.

— Ali também é «ele» — disse o oficial. Tratava-se do reduto de Chevardino. — Ontem éramos nós quem ali estava e agora é «ele».

— Então onde fica a nossa posição?

— A nossa posição! — exclamou o oficial, com um sorriso satisfeito. — Posso descrever-lha com todos os pormenores, pois fui eu quem levantou quase todas as fortificações. Pois, o nosso centro fica ali, em Borodino, lá adiante. — Apontava para a aldeia da igreja branca, em frente deles. — Ali é o vau do Kolotcha. Vê, lá adiante, onde se descobrem, ainda no horizonte, aquelas medas de palha? Ali fica a ponte. É o nosso centro. O nosso flanco direito fica por aqui. — E apontava uma fractura do terreno, escarpada e profunda, na extrema direita.— Acolá é o no Moskva e ali construímos três redutos fortíssimos. O nosso flanco esquerdo... — Neste ponto o oficial calou-se. — Sabe?, é difícil de explicar... Ontem o nosso flanco esquerdo estava ali, em Chevardino, lá adiante, onde se divisa um carvalho. Mas agora retirámos para a retaguarda a ala esquerda. Afirme-se naquela aldeia e naquela fumarada. É Semionovskoie. E além — acrescentou, apontando para o cabeço de Raievski.— Mas não é natural que a batalha venha a travar-se ali. O inimigo fez deslocar para aqui as suas tropas por manha. É de esperar que trate de nos envolver pela direita, em direcção ao Moskva. Mas, seja como for, o certo é que amanhã muitos dos nossos ficarão ali!

Um velho sargento, que se aproximara enquanto o oficial falava, esperava, em silêncio, que o superior acabasse, mas quando ele chegou a este ponto, naturalmente pouco satisfeito com o que ouvia, interrompeu o oficial para dizer, bruscamente:

— É preciso ir buscar os cestões.

O oficial pareceu perturbado, como se compreendesse que, se podia pensar que no dia seguinte faltariam muitos dos seus camaradas, não lhe era dado falar no caso.

— Bem, manda outra vez a 3ª companhia — replicou o oficial imediatamente. — E o senhor, quem é o senhor? Não é médico?

— Não, estou aqui apenas por curiosidade — retorquiu Pedro. F pôs-se de novo a descer o cabeço, tornando a passar diante dos milicianos.

— Oh, malditos! — exclamou o oficial, que o seguia, enquanto tapava o nariz, e apressava o passo.

— Aí estão eles! Trazem-na, lá vêm... Lá estão... Daqui a bocado estão aí... — exclamaram, ao mesmo tempo, várias vozes, e oficiais, soldados e milicianos correram para a estrada.

Uma procissão, que saíra da Igreja de Borodino, subia a encosta. A frente, pela estrada poeirenta, marchava alinhada a infantaria, de barretinas na mão e espingardas de coronha ao alto. Lá para trás ouviam-se cânticos religiosos.

Soldados e milicianos passaram por Pedro, de cabeça descoberta, ao encontro dos que chegavam.

— Trazem a nossa Santa Mãe! A nossa protectora!... A Virgem Iverskaia.

— Não. É a Santíssima Virgem de Smolensk — corrigiu outro.

Tanto os milicianos que estavam na aldeia como os que trabalhavam na bateria, largando as pás, correram ao encontro da procissão. Atrás do batalhão seguia a cleresia de casula; o padre, ia velhinho, de solidéu, acompanhado dos acólitos e dos chantres.

Atrás deles vinha um grupo de soldados e de oficiais que carregavam um grande ícone, de rosto escuro, todo paramentado. Era o ícone que viera de Smolensk e acompanhava agora o exército. Em volta dele, por todos os lados, caminhava, corria, prosternava-se uma chusma de soldados de cabeça descoberta.

No alto da colina o ícone estacou. Os homens que o traziam aos ombros revezaram-se, os acólitos tornaram a acender os incensórios e deu-se começo a uma cerimónia religiosa de acção de graças, Os raios ardentes do Sol dardejavam, mas os cabelos das cabeças descobertas e as fitas que enfeitavam a imagem agitavam-se à brisa fresca. Os cânticos ressoavam debilmente na vasta curva dos céus. Grande multidão de oficiais, soldados, milicianos, todos de cabeça descoberta, rodeava a imagem. Atrás do padre e do acólito, num espaço livre, viam-se os oficiais de alta patente. Um general calvo, com a cruz de S. Jorge ao peito, mesmo atrás do sacerdote, sem se persignar, o que queria dizer que era alemão, esperava, pacientemente, que as orações terminassem, sentindo-se obrigado a assistir a elas, pois reanimavam e patriotismo do povo russo. Outro general, que assumira uma atitude marcial, ia fazendo sucessivos sinais da cruz, enquanto olhava para um lado e para o outro. Pedro, no meio dos camponeses, identificou entre aquelas altas personalidades alguns conhecidos seus, mas não lhes prestou a mínima atenção, todo entregue a observar a grave expressão dos soldados e dos milicianos, de olhos fitos na imagem numa espécie de ávida exaltação. Quando os chantres, fatigados, principiaram a entoar arrastadamente — era a vigésima vez que o faziam — a invocação «Santa Mãe de Deus, salva os Teus escravos da desgraça», e o padre e o diácono repetiram: «Todos a Ti acorremos como a um muro inquebrantável, rogando-Te que Te amerceies de nós», em todos os rostos se via essa mesma expressão, essa mesma compenetração na solenidade do momento, por ele observada já na encosta de Mojaisk e em muitas pessoas com quem se cruzara nessa manhã. As cabeças pendiam cada vez mais para o chão, os cabelos esvoaçavam ao vento, ouviam-se profundos suspiros e os constantes sinais da cruz ecoavam na arca do peito dos fiéis.

De súbito, a multidão que rodeava o ícone afastou-se, arrastando Pedro. Alguém se aproximava, sem dúvida da mais alta categoria — a avaliar pela pressa com que todos abriam alas.

Era Kutuzov, que acabava de inspeccionar a posição. De regresso a Tatarinovo, quisera assistir àquela cerimónia religiosa. Pedro reconheceu-o imediatamente graças à sua figura particular, muito diferente de todas as outras.

De comprido redingote, que lhe envolvia a enorme corpulência, as costas arqueadas, a cabeça branca descoberta, o olho vazado na face de carnes flácidas, o passo balanceado e trôpego, chegou e deteve-se precisamente atrás do padre. Persignou-se maquinalmente, baixou-se quase até tocar no solo com a mão e, depois de soltar um profundo suspiro, deixou pender sobre o peito a cabeça branca. Bennigsen e a sua comitiva seguiam-no. Apesar da presença do general-chefe, que desde logo chamara a atenção de todos os oficiais superiores, os soldados e os milicianos, sem olharem para ele, continuavam a rezar.

Quando a cerimónia religiosa acabou, Kutuzov aproximou-se do ícone, deixou-se cair pesadamente sobre os joelhos, prosternou-se quase até ao chão e de novo tentou pôr-se de pé. Levou tempo a consegui-lo, mercê da sua corpulência e da fraqueza em que estava. Os esforços que fazia para se erguer comunicavam-lhe à cabeça branca movimentos sacudidos. Conseguiu levantar-se finalmente, e depois de beijar o ícone, estendendo os lábios num bochecho infantil e ingénuo, de novo se inclinou tocando a terra com a mão. Todos os generais fizeram o mesmo, imitando-o, depois foram os oficiais e em seguida, acotovelando-se e atropelando-se uns aos outros, no meio de exclamações e expressões comovidas, chegou a vez dos soldados e dos milicianos.

 

[XXII]

Surgido pela multidão, que o atirava de um lado para o outro. Pedro ia olhando à sua roda.

Conde Pedro Kirillitch, que está aqui a fazer? — exclamou uma voz.

Pedro voltou-se. Bóris Drubetskoi, sacudindo os joelhos que sujara no chão, naturalmente ao prosternar-se diante do ícone. Aproximou-se dele, sorrindo. A elegância da sua farda não excluía o ar marcial do militar em campanha. Vestia uma longa túnica tinha um pingalim a tiracolo, tal qual como Kutuzov, Entretanto o general-chefe regressara à aldeia e sentara-se à sombra da casa mais próxima, num banco que um cossaco trouxera a pressa e outro cossaco cobrira com um tapete. Rodeava-o uma brilhante e imensa comitiva.

O ícone fora levado para mais longe aos ombros da multidão. Pedro detivera-se a uns trinta passos de Kutuzov a conversar com Bóris.

O conde Bezkikov expunha-lhe o seu desejo de assistir à batalha e examinar a posição.

— É o que o senhor vai fazer — disse-lhe ele. — Eu faço-lhe as honras do campo. Verá, tudo melhor dali: acolá está também o conde Bennigsen. Estou adstrito ao seu quartel. Preveni-lo-ei, E se quiser percorrer a posição, irei consigo. Vamos agora precisamente ao flanco esquerdo, Não tardamos, e, queira aceitar o meti tecto para passar a noite, jogaremos uma partida. Conhece não é verdade, Dimitri Sergueievitch? Está aqui instalado — acrescentou, apontando para a terceira casa de Gorki.

— O que eu gostava de ver era o flanco direito. Dizem que é, muito forte — observou Pedro. — Gostava de percorrer toda a posição a partir do Moskva.

— Está bem, isso pode ser depois, o principal é o flanco esquerdo...

— Sim, sim. E onde fica o regimento do príncipe Bolkonski, poderia indicar-me a sua posição?

— O de André Nikolaievitch? Vamos passar diante dele, levá-lo-ei lá.

— Que me diz do flanco esquerdo? — perguntou Pedro.

— Para lhe falar verdade, entre nós, o nosso flanco esquerdo está numa triste situação — disse Bóris, baixando a voz, confidencialmente. — O conde Bennigsen esperava uma coisa completamente diferente. Propôs que se fortificasse aquele cabeço, lá adiante. Era outra coisa. Mas — acrescentou, encolhendo os ombros — o Sereníssimo não quis, ou fizeram-no mudar de ideias. Porque...

E Bóris não concluiu a frase. Nesse mesmo instante aproximava-se Kaissarov, o ajudante-de-campo de Kutuzov.

— Eh, Paissi Sergueievitch! — exclamou ele, dirigindo-se ao recém-chegado com a maior desenvoltura.— Estou tratando de explicar ao conde a nossa posição. É assombroso como o Sereníssimo pode, prever com tamanha exactidão as intenções dos Franceses.

— Refere-se ao flanco esquerdo? — disse Kaissarov.

— Sim, sim, precisamente. O nosso flanco esquerdo está agora fortíssimo.

Embora Kutuzov tivesse afastado do seu estado-maior todos os inúteis, Bóris conseguira manter-se no quartel-general, tornando-se adido ao conde Bennigsen. Este, como todos os generais com que ele servira, considerava Drubetskoi homem de grande valor

No alto comando do exército haviam-se formado dois partidos bem definidos: o de Kutuzov e o de Bennigsen, chefe do estado-maior. Bóris pertencia a este último partido e, embora mostrasse diante de Kutuzov um respeito servil pela sua pessoa, não perdia a oportunidade de fazei, compreender que o velho não passam de um medíocre e que era Bennigsen quem tinha o supremo comando de tudo. Chegava agora o momento decisivo da batalha que devia ou aniquilar Kutuzov, que transmitiria a autoridade a Bennigsen, ou então, no caso de Kutuzov ganhar a bata-lha, dar a entender que fora Bennigsen quem tudo fizera. Em qualquer caso, no dia seguinte distribuir-se-iam importantes distinções e haveria numerosas promoções. E não era outra a razão por que Bóris nesse dia estava tão agitado.

Depois de Kaissarov, outros conhecidos de Pedro vieram ao seu encontro, e de tal modo o assediaram que muito dificilmente podia responder a todas as perguntas que lhe faziam sobre Moscovo ou então dar ouvidos a todas as histórias que lhe contavam. Em todos os rostos havia emoção e desassossego, Mas a Pedro afigurava-se-lhe que esta, emoção era geralmente provocada por motivos de interesse puramente pessoal e não pode deixar de se lembrar, a propósito disto, da exaltação que vira noutros rostos, a qual não provinha do roais pequeno interesse pessoal, mas do interesse geral relacionado com uma questão de vida ou de morte. Kutuzov acabou por descobrir a rotunda pessoa de Pedro e o grupo que o cercava.

— Chamem-no — ordenou.

Um ajudante-de-campo transmitiu o desejo do Sereníssimo. Pedro dirigiu-se para o banco do general. Um miliciano, soldado raso, adiantou-se-lhe, porém. Era Dolokov.

— Como é que este indivíduo se encontra aqui? — perguntou Pedro.

— Tipos como este têm sempre maneira de meter o nariz em toda a parte! — responderam-lhe. — Foi degradado. Tem de se fazer valer. Parece que apresentou diversos projectos e que de noite se introduziu rias linhas inimigas... Digam o que disserem, é um valente!...

Pedro, descobrindo-se, saudou Kutuzov respeitosamente.

— Pensei — ia dizendo, entretanto. Dolokov — que, se expusesse este projecto a Sua Excelência, me poderia mandar embora ou então que esta história já era sabida... De maneira que não me consideraria diminuído se...

— Bem! Bem!

— E se tiver razão, prestarei assim um serviço à minha pátria, pela qual estou pronto a dar a vida.

— Bem, muito bem!

— E se Sua Excelência precisar de um homem sem medo de dar o corpo ao manifesto, peço-lhe que se lembre de mim... Talvez possa vir a ser útil a Sua Excelência.

— Bem... Muito bem... — repetia Kutuzov mirando Pedro, como em confidência, com o seu olho risonho.

Nesse momento, Bóris, habilíssimo cortesão, aproximou-se para estar nas proximidades de Bezukov, na vizinhança imediata do grande chefe, como se fosse a coisa mais natural deste mundo, e, em voz baixa e como se prosseguisse uma conversa interrompida, disse a Pedro:

— Os milicianos vestiram camisas brancas, muito limpas, para se prepararem para a morte. Que heroísmo, conde!

Bóris pronunciara estas palavras para ser ouvido, evidentemente, pelo Sereníssimo. Sabia que Kutuzov prestava ouvidos a todos estes pormenores, e na verdade voltou-se para ele:

— Que estás tu a dizer da milícia? — perguntou. — Excelência, para se prepararem para o dia de amanhã, para morte, vestiram camisas brancas.

— Oh!... Que povo admirável, que povo incomparável! — exclamou o general-chefe, fechando os olhos e abanando a cabeça. Que povo incomparável! — repetiu, suspirando.

— Com que então quer sentir o cheiro da pólvora? — acrescentou, dirigindo-se a Pedro. — Sim, realmente, é um cheiro agradável. Tenho a honra de ser um adorador da senhora sua mulher. Como está ela? O meu acampamento está à sua disposição.

E, como amiúde acontece com os velhos, Kutuzov olhou em torno de si, preocupado, como se já não se recordasse do que queria dizer ou fazer.

Lembrando-se, naturalmente, do que procurava, fez um sinal a André Sergueievitch Kaissarov, irmão do seu ajudante-de-campo.

— Como são então esses versos de Marin, como são eles? Sim, os que ele escreveu sobre Guerakov: «Serás mestre no teu regimento...» Recita lá um bocado. E Kutuzov preparava-se para uma boa risada.

Kaissarov fez-lhe a vontade... Kutuzov, divertidíssimo, acenava com a cabeça a compasso.

Quando Pedro se afastou do general-chefe. Dolokov veio ao seu encontro e travou-lhe do braço.

— Tenho muito prazer em encontrá-lo aqui, conde — disse-lhe em voz alta, com o ar decidido e solene que lhe era natural e sem se preocupar com a presença de estranhos. — Na véspera do dia em que só Deus sabe qual de rios ficará com vicia, tenho muito gosto em aproveitar esta oportunidade para lhe dizer que lamento o mal-entendido havido entre nós e que espero que não tenha razão de queixa contra mim. Peço-lhe que me perdoe.

Pedro, sorrindo, olhava para ele sem saber que responder-lhe. Dolokov, com os olhos cheios de lágrimas, abraçou e beijou Pedro. Bóris disse qualquer coisa ao seu general e o conde Bennigsen propôs a Pedro que o acompanhasse na inspecção às linhas.

— Será interessante para si — disse-lhe ele.

— Sim, muito — respondeu Pedro.

Meia hora depois, Kutuzov voltava para Tatarinovo e Bennigsen e a sua comitiva, de que Pedro fazia parte, dirigiram-se para o campo de batalha.

 

[XXIII]

De Gorki, Bennigsen e a sua escolta desceram a estrada real até à ponte que o oficial apontara a Pedro do alto do cabeço como sendo o centro da posição, e junto da qual medas de feno recém-cortado embalsamavam o ar— Atravessada a ponte, penetraram na aldeia de Borodino, voltaram à esquerda e, passando diante de tiro grande aglomerado de tropas e peças de artilharia, chegaram à vista de um cabeço onde milicianos revolviam a terra. Era o reduto, ainda por baptizar, mas que depois viria a chamar-se o «reduto Raievski» ou a «bateria do cabeço».

Pedro não prestou a isto qualquer atenção especial, ignorava que aquele local se tornaria o ponto mais memorável de todo o campo de batalha. Em seguida atravessaram a ravina defronte de Semionovskoie, donde os soldados levavam os restos do madeiramento das isbás e dos secadores de sementes. Final— mente, subindo e descendo encostas e atravessando campos de centeio arrasados, como se sobre eles tivesse caído granizo, meteram pelo novo caminho, recentemente aberto pela artilharia ao longo dos trilhos de um campo lavrado, e chegaram às «flechas» que se andavam ainda a abrir.

Bennigsen deteve-se ali e pôs-se a olhar em frente para o reduto de Chevardino, que ainda na véspera pertencia aos Russos, e onde se viam alguns cavaleiros. Os oficiais diziam que devia ser Napoleão ou Murat. Toda a gente olhava avidamente o grupo de cavaleiros. Pedro fez o mesmo, tentando perceber qual deles poderia ser Napoleão. Pouco depois, o grupo descia do cabeço, desaparecendo.

Bennigsen, dirigindo-se a um general que se aproximava, pôs-se a explicar-lhe a posição das tropas russas. Pedro ouvia-o, num esforço de inteligência, tentando compreender o essencial da futura batalha, mas, a pesar seu, verificou que o não podia acompanhar. Decididamente, não estava em condições de perceber, Bennigsen, quando acabou de falar, notou a expressão de Pedro.

— Suponho que isto o não interessa — disse-lhe ele, bruscamente.

— Pelo contrário! É muito interessante! — repetiu Pedro, que não era completamente sincero.

Continuar: parte 6 de 8