Guerra e Paz
Segunda Parte
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
Das «flechas» tomaram mais à esquerda por um caminho que serpenteava através de uma mata de álamos muito espessa, mas de pouca altura. No meio dessa mata apareceu de repente, saltitando, uma lebre parda de patinhas brancas. Assustada com o ruído das patas de tantos cavalos, de tal modo se alarmou que por muito tempo foi correndo e pulando diante dos cavaleiros, que riam a bom rir, e só quando alguns lhe gritaram abandonou o caminho, embrenhando-se no mato. Depois de terem cavalgado umas duas verstas entre folhagem, chegaram a uma floresta onde estavam reunidas as tropas do corpo de Tutchkov, que se destinavam a apoiar o flanco esquerdo.
Neste local, no extremo do flanco esquerdo. Bennigsen ficou a falar por muito tempo e animadamente e a Pedro afigurou-se-lhe que ele tomava nessa altura importantes disposições do ponto de vista militar. Diante das tropas de Tutchkov havia um monte. Esse monte não estava ocupado. Bennigsen lamentou em voz alta este erro, dizendo ser insensato deixar assim, sem qualquer guarnição, um ponto que dominava o terreno, colocando-lhe tropas no sopé. Alguns generais foram da mesma opinião. Um deles, com ardor bem militar, disse que aquilo era como mandar animais para o matadouro. E Bennigsen, de sua iniciativa, deu ordens para que no monte fossem colocadas tropas.
Esta medida, tornada no flanco esquerdo, ainda mais concorreu para que Pedro duvidasse da sua capacidade, para compreender os problemas estratégicos. A respeito deste pormenor — as tropas no sopé da encosta — estava pronto a dar razão às críticas de Bennigsen e dos generais, mas eis o que o levava a compreender ainda menos como pudera cometer um erro tão evidente quão grosseiro aquele que as mandara colocar ali.
Não subia Pedro que aquelas tropas não tinham sido ali colocadas para defesa daquela posição, como pensava Bennigsen, mas precisamente para preparar uma armadilha, naquele lugar oculto, isto é, para que não fossem vistas e pudessem assim cair de surpresa sobre o inimigo num momento determinado. Bennigsen ignorava também este pormenor e, de acordo com os seus pontos de vista particulares, alterava as disposições tomadas sem informar disso o general-chefe.
[XXIV]
Precisamente naquela clara noite de 25 de Agosto estava o príncipe André deitado num telheiro desmantelado da aldeia de Kniazkovo, no extremo limite do local destinado ao seu regimento. Apoiado sobre o cotovelo, pousava os olhos, através das paredes desconjuntadas, numa fila de álamos dos seus trinta anos, cujos ramos inferiores haviam sido cortados e que se perdia na distância, e nos campos lavrados, no meio dos quais havia molhos de aveia dispersos, e nos arbustos onde se perdia o fumo das fogueiras em que os soldados preparavam o rancho.
Embora a vida lhe parecesse naquele momento mesquinha, inútil e penosa, tal qual como sete anos antes, em Austerlitz, na véspera da batalha, o príncipe sentia-se emocionado e nervoso.
Recebera e transmitira ordens para a batalha do dia seguinte. Nada mais tinha que fazer. No entanto agitavam-no os pensamentos mais simples, mais claros, e por consequência mais sinistros. Sabia que a batalha que se preparava seria a mais terrível de quantas assistira até então e a possibilidade de morrer apresentava-se-lhe pela primeira vez na sua vida com toda a simplicidade e todo o horror, despojada de toda a espécie de relações com o que era vivo, alheia a todas as considerações acerca do efeito que poderia causar nos outros, coisa que lhe dizia apenas respeito a ele próprio, e a sua própria alma, numa acuidade de visão extraordinária, quase como uma certeza. E lá do alto a que subiam os seus pensamentos tudo o que outrora o havia atormentado ou preocupado surgia-lhe banhado numa espécie de luz fria e branca, sem sombras, sem perspectiva, sem contornos definidos,
Toda a sua vida lhe aparecera por muito tempo como que projectada por Lima lanterna mágica através de um vidro e a uma luz artificial. E agora via, de súbito, sem qualquer interposição de vidros, à clara luz do dia, esses quadros grosseiramente coloridos. «Sim, sim, aqui estão elas, essas miragens enganosas que tanto me emocionaram, exaltaram e fizeram infeliz; dizia a si próprio, fazendo perpassar pela imaginação toda a fantasmagoria da existência e vendo-a agora a esta branca e fria luz do nítido pensamento da morte. Ei-las, essas figuras grosseiramente iluminadas que então me pareciam tão belas e misteriosas. A glória, o bem público, o amor de uma mulher, a própria pátria, quão grandes que pareciam essas belas coisas, com que profundo sentido elas se me apresentavam! E afinal como tudo isso é mesquinho, pálido, miserável, a clara e fria aurora desta manhã que está nascendo em mim!», Retinham-lhe o pensamento sobretudo as três grandes dores da sua existência: o seu romance de ai-flor, a morte do pai e a invasão francesa, que alcançara já metade da Rússia, «O amor!... Aquela garotinha que se me afigurava rica de forças misteriosas! Sim! E eu amava-a. Entretinha com ela poéticos sonhos de amor, de felicidade mútua. Pobre rapaz!», exclamou, de súbito, em voz alta, com uma amarga ironia, «E depois? Acreditava em não sei que amor ideal que ma conservaria fiei todo o ano que estaria ausente. E ela acabaria por se consumir, como a meiga pomba da fábula, esperando, esperando sempre. Ai de mim! É tudo muito mais simples... Tudo é muito mais simples e muito mais repugnante!
«Meu pai também, ao instalar-se em Lissia Gori, pensava que aquele pedaço do mundo lhe pertencia, que a terra, o ar, os camponeses, tudo era dele. Mas aparece Napoleão, e, sem sequer saber que ele existia, varre-o para a rua como a um grão de poeira e a sua Lissia Gori e toda a sua existência caíram por terra, E a princesa Maria diz que tudo são provações que vêm do alto, Para quê tais provações se ele já não existe e nunca mais voltará a existir? Nunca mais voltará! A pátria, a perda de Moscovo! Mas, quem sabe?, matar-me-ão, e talvez nem sequer um francês, mas um dos nossos, como o soldado que ainda ontem descarregou a espingarda mesmo ao pé da minha cabeça. E os Franceses chegarão depois, e pegar-me-ão pelos pés e pela cabeça e atirarão comigo para dentro de uma vala para que eu não venha a cheirar mal. E depois novas condições de vida surgirão tão naturais para os que vierem como as antigas, e eu já não as conhecerei já não serei deste mundo.»
Fitou a mata de álamos, os seus ramos amarelos imóveis, as suas folhas verdes e a sua casca branca que brilhava ao sol. «Já que temos de morrer, bom, então que me matem... amanhã... que eu desapareça... Que tudo isto continue a existir, mas para mim tudo acabe.» Via com toda a nitidez a vida sem que ele já lá estivesse. E aqueles alamos brancos com a sua luz e a sua sombra, e aquelas nuvens desgrenhadas e o fumo dos acampamentos, tudo se transformou, de súbito, para ele, ganhando um aspecto terrível e ameaçador, Foi tomado de um arrepio. Levantou-se, saiu do telheiro e pôs-se a caminhar.
Atrás do telheiro ressoaram umas vozes.
— Quem vem lá? — perguntou o príncipe André.
Timokine, o capitão de nariz rubicundo, ex-comandante da companhia de Dolokov, então, por virtude da falta de oficiais, comandante de batalhão penetrou timidamente no telheiro. Atrás dele vinham um ajudante-de-campo e o tesoureiro do regimento.
André voltou a penetrar no telheiro e ouviu o que eles tinham a dizer-lhe relativamente ao serviço, deu-lhes ainda algumas instruções e preparava-se para os despedir quando ouviu lá fora uma voz sua conhecida, que resmungava.
— Irra! — dizia a voz do homem, que tropeçara em qualquer coisa.
André olhou lá para fora e viu Pedro, que ia caindo ao tropeçar numa viga que estava no chão, encaminhando-se para ele. Em geral era com desagrado que voltava a ver criaturas do seu meio, e Pedro especialmente, pois lhe recordava todos os dolorosos momentos por que passara aquando da sua última estada em Moscovo.
— Ah, és tu?! — exclamou ele. — Que te traz por aqui? Não esperava ver-te.
Ao pronunciar estas palavras, tios seus olhos e em toda a sua fisionomia havia mais do que frieza, havia mesmo hostilidade, e Pedro deu por isso. Este vinha na melhor disposição de espírito, mas, ao ver o ar nada acolhedor do amigo, sentiu-se embaraçado e pouco à vontade.
— Vim... Sim... Sabe... vim porque me interessa — disse Pedro, que já repetira nesse dia muitas vezes que aquilo o interessava. — Quis ver a batalha.
— Ah, sim? E que dizem da guerra os irmãos mações? Não a puderam impedir?
— disse o príncipe André com ironia. — E que há por Moscovo? Como está a minha família? Já chegaram, finalmente? — acrescentou em tom mais grave.
— Sim, já chegaram. Disse-me Júlia Drubetskaia. Quis visitá-los, mas não os encontrei. Tinham partido para a quinta dos arredores.
[XXV]
Os oficiais queriam retirar-se, mas o príncipe André, como para evitar ver-se só com o amigo, pediu-lhes que ficassem para tomar chá. Trouxeram bancos e serviu-se o chá. Os oficiais iam observando, não sem espanto, a enorme e maciça pessoa de Pedro, ouvindo as histórias que ele contava de Moscovo e a descrição que fazia da posição das tropas russas, que acabava de visitar, André não abria a boca e a sua expressão era tão desagradável que Pedro se dirigia de preferência a Timokine, o heróico comandante de batalhão.
— Então compreendeste a disposição das tropas? — perguntou-lhe o príncipe André, interrompendo-o de súbito.
— Compreendi! Ou antes — acrescentou Pedro — , como não sou da profissão, não posso dizer que tenha compreendido completamente, mas apreendi o plano geral.
— Então sabes mais que ninguém — tornou-lhe o príncipe André.
— Ah! — exclamou Pedro, estupefacto, mirando-o através dos vidros das lunetas. — E que pensa da nomeação de Kutuzov?
— Agradou-me muito, é tudo quanto te posso dizer.
— Bom, e que opinião tem de Barclay de Tolly? Diz-se tanta coisa dele em Moscovo, santo Deus! Que pensa dele?
— Pergunta a estes senhores — replicou o príncipe André, apontando para os oficiais.
Pedro, com o sorriso indulgente que toda a gente tinha quando se dirigia a Timokine, interrogou-o com os olhos.
— Foi a luz que brilhou para rios, Excelência, o aparecimento do Sereníssimo — disse Tiryiokine, timidamente, sem deixar de olhar para o seu coronel.
— Porquê? — inquiriu Pedro.
— Sim, posso falar-lhe, por, exemplo, da lenha, da forragem. Quando principiámos a recuar, depois de Sventsiani, que ninguém se lembrasse de apanhar um cavaco de lenha, um braçado de palha ou fosse o que fosse. E certo é que, rios íamos embora, e o inimigo, ficava com tudo, não é verdade, Excelência? — acrescentou dirigindo-se ao seu príncipe. – Mas ai de nós de o fizéssemos!
«Por esse motivo no nosso regimento foram julgados dois oficiais em conselho de guerra. Quando o Sereníssimo chegou, porém, tudo se tornou muito simples. Vimos a luz...»
— Porque é que o general proibia?
Timokine pôs-se a rebolar os olhos, muito confuso, sem saber como responder a esta pergunta. Então Pedro dirigiu-se ao príncipe André.
— Para não arruinarmos o território que abandonámos ao inimigo — replicou este, com uma entoação de amarga ironia. — É justo: não pode consentir-se que as tropas saqueiem o país e os soldados se habituem a roubar. Já em Smolensk, o pensar que os Franceses podiam vir por ai abaixo e que dispunham de forças superiores às nossas, vira as coisas com equidade. O que ele não pode compreender, no entanto — gritou, subitamente, fazendo vibrar a sua voz fina — o que ele não pode compreender e que nós nos batemos pela primeira vez em defesa da terra russa, que as nossas tropas lutam com uma coragem que eu lhes não conhecia, que durante dois dias seguidos detivemos os Franceses e que a nossa resistência nos duplicara, as forças. E apesar disso deu ordem de retirada e foram baldados todos os nossos esforços e todas as nossas perdas. Naturalmente não queria trair-nos, procurava arranjar as coisas da melhor maneira, calculara tudo Mas exactamente por isso é que nada vale. Nada vale hoje precisamente por tudo ter previsto, prudente e cauteloso como bom alemão que é. Como hei-de explicar-te?... Supõe que teu pai tinha um criado alemão, um criado excelente, que adivinhava todos os seus pensamentos melhor do que tu próprio. E, como é natural, deixarias que ele continuasse a servi-lo. Mas supõe que teu pai adoecia gravemente, então tratarias de o pôr de lado e serias tu, com as tuas mãos desajeitadas e inexperientes, que cuidarias dele e muito melhor do que, um estranho, por mais hábil que fosse. Ora foi assim que procederam para com Barclay. Enquanto a Rússia esteve de perfeita saúde, qualquer estrangeiro podia servi-la, e este era um excelente ministro, mas desde que a sua vida corre perigo, é de um homem do seu sangue que ela precisa. Lá no teu meio, no teu clube, acharam que ele era um traidor. Caluniando-o dessa maneira é que depois se envergonharão dos juízos temerários que sobre ele ousaram, acabando por fazer dele um herói ou um génio, coisa ainda mais injusta. É um alemão honrado e meticuloso...
— No entanto, dizem que é um cabo-de-guerra muito hábil — contraveio Pedro.
— Não sei o que isso quer dizer — continuou o príncipe André, sorrindo.
— Um hábil cabo-de-guerra é aquele que prevê todas as eventualidades... que adivinha as intenções do adversário.
— É impossível! — replicou André, como se não pudesse haver dúvidas a tal respeito.
Pedro fitou-o, estupefacto.
— Há quem diga, no entanto — voltou ele — que a guerra é como que uma partida de xadrez.
— Talvez — replicou o príncipe André —, mas com esta pequenina diferença: que no xadrez, antes de mexeres uma pedra, te é dado pensares o tempo que quiseres, o tempo não urge: e com esta diferença ainda: que o cavaleiro é sempre mais forte que o peão, que dois peões são sempre mais fortes do que um, enquanto na guerra um batalhão às vezes é mais forte que uma divisão e outras mais fraco que uma companhia. Ninguém é, competente para conhecer a força relativa das tropas. Acredita no que te digo: se o resultado dependesse das medidas tomadas pelos estados— maiores, eu teria ficado no estado-maior e aí daria as minhas ordens, mas é aqui, neste regimento, que eu e estes senhores temos a honra de servir; é de nós, realmente, em minha opinião, que depende o dia de amanhã e não deles... O êxito nunca dependeu, nunca dependerá, nem da posição, nem do armamento, nem mesmo do número de tropas, sobretudo nunca dependeu da posição.
— Então de que depende?
— Do sentimento íntimo que existe em mim, naquele — apontou para Timokine —, no sentimento íntimo de cada soldado.
O príncipe André olhava fixamente para Timokine, que, por sua vez, fitava o seu comandante com olhos assustados e estupefactos. Em vez de calado e sorumbático, como habitualmente, o príncipe André parecia agora extremamente agitado. Percebia-se que não podia deixar de exprimir os pensamentos que lhe acudiam em tropel.
— Ganha a batalha quem decide firmemente ganhá-la. Porque perdemos nós a batalha de Austerlitz? As nossas baixas eram quase iguais às dos Franceses, mas tínhamos dito a nós próprios cedo de mais que seríamos vencidos e na verdade fomos. E se o dissemos é porque não tínhamos porque rios bater ali: só queríamos abandonar o campo de batalha quanto mais depressa melhor. «A batalha está perdida, tratemos de fugir!» E demos ás de vila-diogo. Se assim não tivéssemos falado muito antes do fim da jornada, só Deus sabe o que teria acontecido. Amanhã não diremos a mesma coisa. Dizes tu que a nossa posição, a do flanco esquerdo. é fraca, que o nosso flanco esquerdo é extenso de mais. Tolices, tudo tolices, isso nada quer dizer. Que nos espera amanhã? Haverá milhões de possibilidades diversas, infinitamente variadas, que num momento dado farão que os deles ou os nossos homens desatem a fugir, que este ou aquele seja morto. Mas a verdade é que tudo quanto neste momento se faça não passa, de uma brincadeira, Na realidade, esses com quem til visitaste a posição, em vez de ajudarem a marcha geral das operações, estão a entravá-la. Só uma coisa os preocupa: os seus pequeninos interesses pessoais.
— Num momento destes?! — indignou-se Pedro.
— Sim, num momento destes — continuou o príncipe André. — Este momento, para eles, é apenas o momento em que lhes é possível minar a situação de um adversário e conseguir mais uma cruz ou mais uma palma. Quanto a mim, eis como a situação se apresenta amanhã. Cem mil russos vão defrontar cem mil franceses. É um facto que estes duzentos mil homens se vão bater e que sairão vencedores aqueles que se mostrem mais encarniçados mi luta e que menos se compadeçam de si próprios. E dir-te-ei mais: aconteça o que acontecer, sejam quais forem as maquinações dos chefes, seremos nós quem ganhará a batalha de amanhã. Amanhã, apesar de tudo, ganharemos a batalha.
— Excelência, essa é a pura verdade — pronunciou Timokine.— Será a altura de poupar vidas? Pode crer, os soldados do meu batalhão não quiseram beber vodka. «Não é dia para isso», disseram eles.
Todos ficaram calados. Depois os oficiais levantaram-se. O príncipe André acompanhou-os para dar as últimas ordens ao ajudante-de-campo. Assim que eles saíram, Pedro aproximou-se do príncipe André disposto a cavaquear com ele, quando, na estrada, a pequena distância do telheiro, se ouviu o trote de três cavalos, e o príncipe André, relanceando os olhos nessa direcção, reconheceu Woltzogen e Clauzewitz, acompanhados de um cossaco. Tão perto passaram deles que puderam ouvir o que diziam: falavam alemão:
— É preciso que a guerra se espalhe. Não posso exprimir-lhe a elevada apreciação deste juízo — dizia um deles.
— Oh, sim! — replicou o outro. — Como o objectivo consiste em debilitar o inimigo, não se podem tomar em consideração as perdas de homens.
— Evidentemente — afirmou o primeiro.
— Sim, que a guerra se espalhe (Em alemão no texto original. (N, dos T)’ — repetiu o príncipe André, numa expressão de cólera depois de eles passarem— Que eu tenha deixado um pai, um filho, uma irmã, em Lissia Gori, isso para eles não importa. Era o que eu te dizia, não serão estes senhores alemães quem ganhará amanhã a batalha: não farão outra coisa senão complicá-la em tudo que estiver nas suas mãos; naquelas cabeças não há senão raciocínios que não valem um ovo furado e àqueles corações falta-lhes a única coisa precisa para amanhã, aquilo que tem Timokine. Entregaram-lhe a «ele» toda a Europa e agora vêm dar-nos lições... Ricos mestres! concluiu numa voz áspera.
— Está então convencido de que se ganhará a batalha de amanhã? — inquiriu Pedro.
— Sim, estou — replicou o príncipe André, distraidamente. — Uma decisão tomaria, se tivesse poderes para tal: não fazer prisioneiros. Prisioneiros? Eis o que é cavalheiresco! Os Franceses saquearam-me a casa e tentaram destruir Moscovo. Ultrajaram-me e outra coisa não fazem senão ultrajar-me. São meus inimigos, e para mim todos são criminosos. E é assim que pensam Timokine e o resto do exército. É preciso castigá-los. Desde que são meus inimigos não podem ser meus amigos, apesar de tudo o que disseram em Tilsitt.
— Sim, realmente — replicou Pedro, olhando para o amigo com olhos brilhantes.— Estou completamente de acordo consigo.
Naquele momento o problema que preocupava Pedro desde a encosta de Mojaisk afigurou-se-lhe claro e fácil de resolver, Agora compreendia inteiramente o sentido e a importância da guerra que se travava e da batalha que ia dar-se. Tudo o que vira durante aquele da, aquela expressão grave dos rostos que observara ao passar pelos homens, se iluminou para ele de um novo esplendor. Compreendeu esse calor oculto, latente, como se diz em física, o calor do patriotismo que emanava de toda essa gente e isso explicava-lhe porque todos, serena e por assim dizer despreocupadamente, se preparavam para morrer.
— Não fazer prisioneiros — prosseguiu o príncipe André — seria transformar a guerra e torná-la menos cruel. Em vez disso, não fizemos outra coisa senão brincar às guerras. E esse foi o erro: mostrámo-nos magnânimos, etc. Esta magnanimidade, este sentimentalismo, fazem-me lembrar a senhora que desmaia quando vê matar uma vitela. É tão boazinha que não pode ver correr sangue, embora seja capaz de comer com apetite essa mesma vitela servida com um molho saboroso. Falam-nos nos direitos da guerra, de cavalheirismo, de parlamentários, de humanidade para com os desgraçados e de outras coisas no mesmo género. Tudo isso são tolices. Eu bem vi em 1805 todas essas lindas coisas, esse cavalheirismo, esse respeito pelos parlamentários.. Enganaram-nos, e nós, pela nossa parte, fizemos o mesmo. Saqueiam casas que lhes não pertencem, espalham dinheiro falso, e, coisa pior ainda, matam-nos filhos, pais, e depois vêm-nos falar das leis da guerra e da generosidade para com o inimigo. Não fazer prisioneiros, mas matá-los a todos e morrermos também! Aquele que chegou, como eu, a esta convicção, depois de ter passado pelos mesmos sofrimentos...
O príncipe André ia dizer ser-lhe indiferente que Moscovo viesse a ser ou não tomada, como o fora Smolensk, mas calou-se de chofre: um espasmo imprevisto lhe apertava a garganta. Deu alguns passos calado, mas nos seus olhos havia um brilho febril e os seus lábios tremiam quando retomou a palavra:
— ...Se não existisse esta falsa magnanimidade na guerra, não caminharíamos para a morte senão quando a morte fosse certa, como acontece hoje. Não haveria guerras com o pretexto de que Pavel Ivanitch ofendeu Mikail Ivanitch. Mas em compensação quando houvesse uma guerra como a de hoje então seria uma guerra a valer. E não haveria também grandes massas de tropas em acção, como agora. Todos esses westfalianos e todos esses hessianos que Napoleão traz consigo não o teriam seguido até à Rússia, e nós, pela nossa parte, não nos teríamos ido bater ia Áustria e na Prússia, sem mesmo saber por que razão. A guerra não é um divertimento, mas a coisa mais repugnante deste mundo. É preciso compreendê-la e não nos servirmos dela como uma brincadeira. É preciso aceitar seriamente, com austeridade, esta terrível necessidade. E daqui não há que sair, é preciso acabar Com a mentira: a guerra, sim, a guerra é a guerra e não um divertimento. De outro modo a guerra será um entretenimento próprio de ociosos e de espíritos superficiais. A classe militar é das mais dignas, Mas que é a guerra? Que é preciso para se ter êxito nas operações militares? Quais são os costumes da sociedade militar? A finalidade da guerra é o homicídio; as suas armas são a espionagem, a traição, a ruína dos habitantes, o saque e o roubo organizados para manutenção do exército, a fraude e a mentira mascaradas como astúcias de guerra. Quais os costumes da classe militar? A supressão da liberdade sob o pretexto da disciplina, a ociosidade, a grosseria, a crueldade, a devassidão, a embriaguez, E, apesar de tudo, é uma classe superior, respeitada por todos. Todos os reis, à excepção do imperador da China, envergam o uniforme militar e as mais altas recompensas reservam-se para aquele que mais gente matou. Reúnem-se os soldados, como vai acontecer amanhã, para se chacinarem uns aos outros. Matar-se-ão e ficarão mutilados dezenas de milhares de homens e depois haverá cerimónias religiosas de acção de graças por se terem morto tantos homens, sem que, no entanto, se deixe de exagerar o número dos que se mataram, proclamando-se a vitória, dizendo que quanto maior o número de mortos mais retumbante esta será. Como é possível que Deus os ouça e os escute lá de cima? — clamou o príncipe André na sua voz colérica. – Oh, querido amigo, durante os últimos tempos muito penoso me tem sido viver! Vejo que principiei a compreender coisas de mais. Não é bom conhecer o homem os frutos da árvore do bem e do mal... Mas não será por muito tempo — acrescentou. — Parece que estás com sono e para mim também são horas de dormir. Bom, volta para Gorki — disse, de súbito.
— Oh! Não! — replicou Pedro, fitando André com os olhos ao mesmo tempo assustados e enternecidos.
— Vai-te, vai-te! É preciso dormir bem antes da batalha.
Aproximou-se rapidamente de Pedro, abraçou-o e beijou-o.
— Adeus! Vai-te embora! — exclamou. — Tornar-nos-emos a ver?...
Deu meia volta rapidamente e recolheu-se ao telheiro.
Estava escuro e Pedro não pôde ver se no rosto do príncipe André transparecia raiva ou ternura.
Pedro permaneceu um momento em silêncio sem saber se devia seguir o amigo ou retirar-se. «Não, não precisa de mim!», decidiu. «Também eu sei que é a última vez que nos vemos.» Soltou um fundo suspiro e regressou a Gorki.
O príncipe André, ao voltar ao telheiro, estendeu-se sobre uma manta, mas não pôde dormir.
Fechou os olhos. Imagens sobre imagens lhe perpassaram pela mente. O pensamento deteve-se-lhe por muito tempo e comovidamente numa delas. Uma noite, em Petersburgo. Natacha, muito animada e de rosto afogueado, contava-lhe como se perdera, no Verão anterior, andando a apanhar cogumelos, numa grande mata. E ia descrevendo-lhe, entrecortadamente, a floresta espessa, o que sentira, a conversa que tivera com um apicultor que encontrara ali; de vez em quando suspendia a narrativa para exclamar: «Não, não sei, não sei contar: não, não me pode compreender.» E ele tranquilizava— a, dizia-lhe compreendê-la muitíssimo bem; efectivamente sabia muitíssimo bem o que ela queria dizer. Natacha, porém, estava desolada por não ser capaz de exprimir como desejava a emoção poética que nesse dia lhe inundara a alma. «O velho era tão maravilhoso, estava tão escuro na floresta... e eram tão bondosos os seus... Não, não sei como dizer-lhe!», exclamava de novo, muito ruborizada e numa grande excitação. E André sorria agora com o mesmo venturoso sorriso com que então a olhara nos olhos. «Ah, compreendia-a perfeitamente. Sim, compreendia-a, e era isso mesmo que eu amava nela, essa alma que trasbordava, essa sinceridade, essa candura, essa alma que parecia não lhe caber no corpo... Sim, era essa alma que eu tão intensamente amava, que tão feliz me fazia... » E, de súbito, de novo se lembrou como terminara aquele idílio. «Aquele homem nada disto o embaraçava. Nada via, nada compreendia de todas estas coisas. Para ele era apenas uma garota bonita, um botãozinho, que nem sequer considerava digna de associar ao seu destino, Enquanto eu... no entanto, lá continua alegre e bem disposto.»
Como se se sentisse queimado por um ferro em brasa, André ergueu-se de um salto e principiou a andar de um lado para o outro diante do telheiro.
[XXVI]
No dia 25 de Agosto, véspera da batalha de Borodino, haviam chegado ao acampamento de Napoleão em Valuieva o prefeito do palácio imperial, Monsieurs de Beausset, e o coronel Fabvier, o primeiro vindo de Paris e o segundo de Madrid.
Depois de envergar o seu uniforme palaciano, Monsieur de Beausset principiou por pedir que lhe trouxessem o embrulho que devia entregar ao imperador. Depois penetrou no primeiro compartimento da tenda imperial, e enquanto ia conversando com os ajudantes-de-campo ai presentes pôs-se a abrir a caixa que lhe trouxeram.
Fabvier, sem penetrar na tenda, detivera-se à entrada a cavaquear com os generais seus conhecidos.
O imperador Napoleão ainda, não saíra do seu quarto de, dormir, onde acabava de se arranjar. Resfolegando e espirrando, ia, voltando ora as espadaúdas costas ora a peitaça cabeluda para a escova coro que o friccionava o criado de quarto. Entretanto, outro criado, com o dedo no gargalo de um frasco, espargia de água-de-colónia o corpo bem tisnado do amo e lia-se no rosto que só ele estava em condições de saber em que sítio o devia pulverizar e quanto. Os cabelos curtos de Napoleão, molhados, empastavam-se-lhe na testa. Mas o rosto, embora balofo e amarelento, respirava bem-estar físico. «Vá, com firmeza, continue...», dizia ele., encolhendo-se e espirrando enquanto a escova o friccionava. Um ajudante-de-campo que penetrara na tenda para lhe comunicar o número de prisioneiros feitos no recontro da véspera, cumprida a sua missão, aguardava a ordem de se retirar — Napoleão, franzindo as sobrancelhas, olhava-o de soslaio.
— Não há prisioneiros — repetia ele — Deixam-se matar. Tanto pior para o exército russo. Vá, com firmeza, continue —, prosseguia ele, encolhendo o peito e apresentando ao criado os robustos ombros.
— Bem, mande entrar Monsieur de Beausset, assim como Fabvier — disse ao ajudante-de-campo, com um aceno de cabeça
— Sim, Sire. — E o ajudante-de-campo desapareceu.
Os dois criados vestiram num rufo o seu amo, o qual, envergando o uniforme azul da Guarda, se dirigiu para a antecâmara em passos rápidos e firmes.
Monsieur de Beausset, entretanto, dera-se pressa em instalar sobre duas cadeiras, mesmo em frente do focal por onde o imperador devia passar, o presente que trouxera da parte da imperatriz. Napoleão, porém, vestira-se tão depressa e surgira tão inopinadamente que não tivera tempo de preparar a surpresa como queria.
O imperador percebeu imediatamente que tramavam qualquer coisa e que a surpresa ainda não estava pronta. Não quis privar Monsieur de Beausset do prazer que antegozava. Fingiu não dar pela sua presença e fez sinal a Fabvier para que se aproximasse. Napoleão ouviu, de sobrecenho carregado e sem nada dizer, os elogios do coronel à bravura e à dedicação das suas tropas que se haviam batido em Salamanca, na outra extremidade da Europa, e cujo único desejo era serem dignas do seu imperador, só receando uma coisa: não o satisfazer. O resultado da batalha não fora feliz. Napoleão, enquanto Fabvier falava, dirigiu-lhe algumas observações irónicas das quais se depreendia que, estando ele ausente, não era outro o resultado que esperava.
— Tenho de compensar isto em Moscovo. — comentou. — Até já — disse, e chamou De Beausset, que entretanto conseguira preparar a sua surpresa, instalando-a em cima de rima cadeira e cobrindo-a com um pano.
De Beausset fez uma reverência à francesa, como o sabiam os antigos servidores dos Bourbons, e aproximou-se com um sobrescrito na mão.
Napoleão colheu-o com jovialidade e puxou-lhe a ponta da orelha.
— Não perdeu tempo. Muito folgo. Então, que diz Paris? — acrescentou, ao mesmo tempo que no rosto, grave lhe transparecia uma expressão cheia de ternura.
— Sire, Paris inteiro lastima a sua ausência — replicou De Beausset cheio de a-propósito,
Posto Napoleão soubesse que aquelas ou quejandas palavras eram da praxe na boca de Monsieur de Beausset, e apesar de nos seus momentos de lucidez perceber que tudo aquilo era falso, a frase soou-lhe bem. E de novo se dignou puxar-lhe a orelha.
— Lastimo tê-lo obrigado a fazer uma tão longa jornada — disse ele.
— Sire, nunca esperei encontrá-lo senão às portas de Moscovo — replicou De Beausset.
Napoleão sorriu-se e, soerguendo a cabeça, lançou um olhar indiferente a sua direita. Um ajudante-de-campo aproximou-se rápido, e apresentou-lhe uma tabaqueira de ouro.
Napoleão pegou na caixa.
— Sim, teve sorte — disse ele, aproximando do nariz a tabaqueira aberta —, dentro de três dias, o senhor, que tanto gosta de viajar, vai ter ocasião de ver Moscovo. Naturalmente não contava visitar a capital asiática. Vai fazer uma linda viagem.
De Beausset inclinou-se reconhecido pela delicada atenção do seu soberano, que lhe atribuía inclusivamente gostos de que ele nem sequer suspeitava.
— E isto que é? — interrogou Napoleão, ao reparar que toda sua comitiva tinha os olhos num objecto coberto com um pano.
De Beausset, com ligeireza de cortesão, recuou dois passos, sem voltar as costas, e retirou o pano ao mesmo tempo que dizia:
— Um presente para Vossa Majestade da parte da imperatriz. — Era um retrato, de cores vivas, pintado por Gérard, do filho de Napoleão e de Maria Luísa, a quem toda a gente, sem que se soubesse porquê, chamava rei de Roma.
A linda criança, cujo olhar lembrava o do Menino Jesus da Madona Sistina, jogava a emboca-bola. A bola era o globo terrestre e a forquilha que tinha na outra mão representava um ceptro.
Embora a intenção do pintor figurando o rei de Roma a perfurar o globo terrestre com uma forquilha não fosse muito clara, a alegoria agradara e parecera claríssima tanto aos olhos dos que tinham visto o quadro em Paris como aos do próprio Napoleão.
— O Rei de Roma! — exclamou ele, com um gesto gracioso. — Admirável!
Com essa facilidade tão dos italianos de mudarem de expressão a seu talante, aproximou-se do retrato com um ar ao mesmo tempo cismador e enternecido. Sentia que o que dissesse e o que fizesse naquele momento pertenciam à história. Em contraste com sua magnificência graças à qual seu filho podia jogar a emboca-bola com o próprio mundo, afigurava-se-lhe que o que de melhor tinha a fazer era mostrar uma expressão da mais singela ternura paternal. Os olhos velaram-se-lhe de lágrimas, aproximou-se, procurou com os olhos uma cadeira, que logo se apressaram a chegar-lhe, e sentou-se diante do retrato. A um ligeiro gesto seu, toda a gente saiu em bicos de pés, deixando o grande homem sozinho com os seus pensamentos.
Depois de permanecer algum tempo naquela muda contemplação, enquanto, sem saber porquê, percorria a rugosidade das tintas com a palma de uma das mãos, levantou-se e chamou De Beausset e o oficial de serviço. Deu ordem para que o retrato fosse colocado diante da tenda. Assim a velha Guarda não seria privada da grande ventura de ver o rei de Roma, filho e herdeiro do seu adorado imperador.
Como já o esperava, enquanto almoçava com Monsieur de Beausset, a quem concedera essa honra, ressoaram diante da tenda os gritos entusiastas dos oficiais e dos homens da Guarda, que se haviam aproximado.
— Viva o Imperador! Viva o Rei de Roma! Viva o Imperador!
Findo que foi o almoço. Napoleão, na presença de De Beausset, ditou a ordem do dia ao exército.
— Curta e enérgica! — disse ele quando acabou de ler a proclamação, escrita de um só jacto, sem uma rasura.
A proclamação dizia:
Soldados! Eis aqui a batalha que tanto desejáveis! A
vitória depende de vós e é-nos indispensável; com ela teremos abundância, bons aquartelamentos de Inverno e um rápido regresso à pátria! Comportai-vos como vos comportastes em Austerlitz, em Friedland, em Vitebsk e em Smolensk e a posteridade recordara, orgulhosa, as vossas façanhas deste dia. Que se possa dizer de cada um de vós: este esteve na grande batalha de Moscovo.
— De Moscovo! — repetiu Napoleão, e, tendo convidado Monsieur de Beausset, grande amador de viagens, a acompanhá-lo no seu passeio, saiu da tenda e dirigiu-se para os cavalos, já selados.
— É muita bondade de Vossa Majestade — respondeu De Beausset ao convite de Napoleão, conquanto muito desejasse ir dormir e não soubesse montar a cavalo.
Napoleão acenou com a cabeça ao visitante e este não teve outro remédio senão acompanhá-lo. Quando o imperador saiu da tenda, recrudesceram as aclamações dos soldados da Guarda diante do retrato. Napoleão franziu o sobrolho.
— Tirem-no daí — disse ele, apontando para o retrato com um gesto majestoso e cheio de graciosidade. — Ainda é muito cedo para que essa criança veja um campo de batalha.
Cerrando os olhos e inclinando a cabeça. De Beausset soltou um profundo suspiro, como querendo significar que avaliava muito bem as palavras que o imperador acabava de pronunciar.
[XXVII]
Os historiadores de Napoleão contam que o imperador passou toda a manhã desse dia 25 de Agosto a cavalo, examinando o terreno, discutindo os planos que os marechais lhe apresentavam e transmitindo pessoalmente as suas ordens aos generais.
A linha primitiva dos Russos ao longo do no Kolotcha fora perfurada e uma parte dessa linha, a saber, o flanco esquerdo, depois da tomada do reduto de Chevardino, no dia 24, tivera de recuar. Essa parte não estava fortificada nem defendida por um curso de água e diante dela havia apenas uma planície descoberta e lisa. Era evidente, tanto para os observadores militares como para os leigos, que por ali os Franceses atacariam. Para isso não pareciam precisas quer tantas combinações, quer tantas preocupações e diligências da parte do imperador e dos seus marechais, bem como parecia dispensável essa alta capacidade muito especial a que se dá o nome de génio e que tanto gosto se exibir a Napoleão. Porém, os historiadores que mais tarde descreveram este acontecimento, as pessoas da sua comitiva e ele próprio pensavam de outra maneira.
Napoleão percorria o campo examinando atentamente a topografia, do local, abanava a cabeça ora para aprovar ora para rejeitar as sugestões que lhe faziam, sem nada dizer aos generais sobre a marcha secreta dos pensamentos que o levavam às suas decisões, e não lhes dava a conhecer senão as suas conclusões definitivas, já como ordens. A Davout, a quem chamava príncipe de Eckmühl, que propusera se contornasse o flanco esquerdo do inimigo, respondera simplesmente Napoleão que tal não devia fazer-se, e sem explicar porquê. Mas tendo o general Compans, encarregado de, atacar as flechas, emitido a opinião de que se fizesse marchar a sua divisão através da floresta, o imperador aprovou-o, embora o pretenso duque de Elchingen, isto é, Ney, se tivesse permitido observar que os movimentos através da floresta podiam ser perigosos e provocar a desordem nas fileiras.
Depois de examinar o terreno diante do reduto de Chevardino, o imperador quedou-se por momentos pensativo e silencioso, indicando, em seguida, os locais onde deviam ser instaladas no dia seguinte as duas baterias destinadas a atacar a,’ fortificações russas e onde, a seu lado, deveria ser instalada a artilharia de campanha.
Depois de ter dado esta e outras ordens, regressou à sua tenda, e o dispositivo das tropas foi redigido por escrito e, ditado por ele. Os seus historiadores falam com grande entusiasmo e demais com grande respeito desse dispositivo.
ORDEM DE BATALHA
Dada no acampamento imperial, na retaguarda
de Mojaisk,
a 6 de Setembro de 1812
Ao amanhecer, as duas novas baterias, instaladas
durante a noite no plaino do príncipe de Eckmühl, romperão fogo contra as duas baterias inimigas dispostas na sua frente.
Na mesma altura, o general Pernety, comandante de
artilharia do 1º corpo, com as trinta bocas de jogo da divisão Compans e todos os obuses das divisões Dessaix e Friant, que avançarão, romperá fogo e inundará de granadas a bateria inimiga, a qual, deste modo, terá contra si vinte e quatro peças da Guarda, trinta da divisão Compans e oito das divisões Friant e Dessaix, Total, sessenta e duas bocas de fogo.
O general Foucher, comandando a artilharia do 3.` corpo,
colocar-se-á, com todas as baterias de obuses dos 3º e 8º corpos, num total de dezasseis, em volta da bateria que bombardeia o reduto da esquerda, o que perfará um conjunto de quarenta bocas de fogo contra esta bateria.
O general Sorbier esta preparado para à primeira voz se
dirigir com todas as baterias de obuses da Guarda contra uma ou outra das fortificações.
Durante este canhoneio, o príncipe Poniatowski dirigir-
se-á, através da floresta, em direcção à aldeia e contornará
a posição inimiga. O general Compans embrenhar-se-á na floresta para tomar o primeiro reduto.
Uma vez a batalha começada desta sorte, as ordens
serão dadas consoante os movimentos do inimigo.
O canhoneio da esquerda iniciar-se-á assim que se ouvir
o canhoneio da direita. Os atiradores da divisão Morand e das divisões do vice-rei, assim que virem principiado o ataque da direita, abrirão fogo muito intenso. O vice-rei ocupará a aldeia, transpondo as três pontes, e seguirá ao mesmo nível das divisões de Morand e de Friant, que, sob o seu comando, se dirigirão para o reduto e penetrarão na linha com as demais tropas.
Tudo isto será feito com ordem e método e conservando
sempre uma boa reserva de homens.
Este dispositivo, pouco claro e assaz confuso, se assim nos é permitido referirmo-nos, sem blasfémia, ao génio de Napoleão, encerrava quatro pontos, quatro disposições. Nenhum deles se podia cumprir nem nenhum foi cumprido.
A ordem dizia, em primeiro lugar, que as baterias instaladas no local escolhido pelo imperador, bem como as peças de Pernety e de Foucher, que a elas se deveriam associar, ou seja, na sua totalidade, cento e duas bocas de fogo, romperiam fogo e inundariam de granadas as flechas russas e o reduto. Eis o que era impossível, visto que dos locais designados os projécteis não Podiam alcançar as fortificações russas e estas cento e duas peças disparariam debalde até que um comandante, procedendo contra as ordens dadas, as mandasse avançar.
A sua segunda resolução determinava que Poniatowski se dirigisse à aldeia, através da floresta, para contornar a ala esquerda dos Russos. Eis o que não podia executar-se, e o não foi, pois a Poniatowski deparou-se-lhe, na floresta, Tutchkov, que lhe cortou o passo e o impediu de contornar a posição.
A terceira determinação dizia que o general Compans atravessaria a floresta para se apoderar da primeira fortificação. A divisão Compans não pôde apoderar-se desta fortificação e foi repelida, visto que, ao desembocar da floresta, se viu obrigada a alinhar sob um fogo de metralha que Napoleão não previra.
E a quarta, por fim: «O vice-rei ocupará a aldeia de Borodino transpondo as três pontes, e seguirá ao mesmo nível das divisões de Morand e Friant, que, sob o seu comando, se dirigirão para o reduto e penetrarão na linha com as demais tropas.»
Tanto quanto é possível interpretar esta ordem, não quanto sua confusa redacção, mas de acordo com as tentativas feitas pelo vice-rei para a executar, devia ele atravessar Borodino à esquerda do reduto, enquanto as divisões Morand e Friant atacariam a frente ao mesmo tempo.
Esta ordem, assim como todos os outros pontos do dispositivo, não foi executada nem o podia ser. Depois de ter ultrapassado Borodino, o vice-rei foi repelido para o no Kolotcha e não pôde avançar mais: quanto às divisões de Morand e Friant, essas não tomaram o reduto, sendo esmagadas, e o reduto apenas foi tomado pela cavalaria no fim da batalha, circunstância que Napoleão naturalmente não previra. Assim, nenhuma das disposições preconizadas foi executada e não o podia ser. Lê-se ainda nesse documento que, uma vez iniciada a batalha de acordo com o dispositivo assente, ordens ulteriores seriam dadas, consoante os movimentos do inimigo. Era, portanto, de presumir que durante a batalha Napoleão desse todas as ordens necessárias. Ora tal não aconteceu, o que aliás seria impossível, visto que, como depois veio a saber-se, o imperador, durante o combate, se manteve tão afastado que não podia ter conhecimento do desenrolar da batalha e que nenhuma das suas ordens poderia ter sido executada.
[XXVIII]
Muitos historiadores garantem que a batalha de Borodino não foi ganha pelos Franceses devido a Napoleão, nesse dia, estar constipado, e que, se não fosse isso, as suas ordens anteriores à batalha e durante ela teriam sido ainda mais geniais, a Rússia teria sido derrotada e a face do mundo teria sido outra. Para os historiadores que admitem ser a Rússia obra da vontade de um único homem, de Pedro, o Grande, que a França se metamorfoseou de república em império e que os exércitos franceses penetraram naquele país graças à vontade de um só homem, de Napoleão, aceitar que a Rússia se manteve poderosa apenas porque o imperador estava muito constipado no dia 26 eis o que é raciocinar com toda a lógica.
Se tivesse dependido da vontade de Napoleão travar ou não a batalha de Borodino, se dele dependesse tomar esta ou aquela disposição, é evidente que uma constipação, capaz, necessariamente, de influenciar as manifestações da sua vontade, podia ter sido a causa da salvação da Rússia e o criado de quarto que no dia 24 se esqueceu de dar umas botas impermeáveis ao imperador seria a esta hora, certamente, o nosso salvador. Nesta ordem de ideias, a conclusão é indiscutível, tão indiscutível como o gracejo de Voltaire ao atribuir a matança de S. Bartolomeu a uma indisposição de estômago de Carlos IX. Mas, para os homens que se recusam a admitir que os acontecimentos importantes possam ser a consequência da manifestação da vontade de um só homem, o argumento anterior, além de pura e simplesmente absurdo, é contrário a toda a verdadeira lógica humana. Quando se inquire da causa dos acontecimentos históricos, outra resposta pode dar-se, qual seja a que o caminho das coisas deste mundo está determinado antecipadamente, dependendo do concurso do livre arbítrio de todos os actores dos acontecimentos, não sendo senão externa e aparente a influência que sobre eles possam exercer os Napoleões.
Por estranho que pareça à primeira vista a asserção segundo a qual a ordem dada por Carlos IX para a matança de S. Bartolomeu só aparentemente dependeu da sua vontade, e que a batalha de Borodino, em que oitenta mil homens perderam a vida, não haja sido ordenada por Napoleão, embora tenha sido ele quem deu essa ordem e quem orientou os lances da batalha, pois apenas julgou fazê-lo, por mais ilógico que se suponha, a dignidade humana que nos diz que cada um de nós não é mais nem menos homem do que qualquer Napoleão leva-nos a admitir essa solução como uma hipótese, e as investigações históricas plenamente confirmam tal ponto de vista.
Na batalha de Borodino, Napoleão não disparou um único tiro (1 não matou quem quer que fosse. Foram os seus soldados quem tudo fez. Por consequência, não foi ele quem matou.
Os soldados do exército francês acorreram a matar o seu semelhante não para executarem ordens, mas de livre vontade, Todo o exército — franceses, italianos, alemães, polacos – esfomeado, esfarrapado, morto de fadiga, ao ver-se diante desse outro exército que lhe cortava o passo para Moscovo, teve a impressão de que «o que não tem remédio, remediado está», Se naquele momento Napoleão tivesse proibido os seus soldados de se baterem com os Russos, tê-lo-iam matado a ele, e teriam ido bater-se fosse como fosse, visto isso ser inevitável.
Quando ouviram ler a ordem do dia de Napoleão, na qual lhes prometia, para os recompensar dos ferimentos e da morte, o orgulho, para a posteridade, de terem estado na batalha de Moscovo, gritaram. «Viva o Imperador!» exactamente como tinham gritado: «Viva o Imperador!» ao verem a criança que trespassava o globo terrestre com um taco de emboca-bola, e tal qual como o fariam de cada vez que lhes dissessem uma tolice do mesmo género. Outra coisa, não podiam fazer senão gritar: «Viva o Imperador!» e marchar para a batalha. Eis a única maneira, de virem a encontrar em Moscovo, depois da vitória, pão para a boca e descanso para o corpo, E eis como não foi por causa das ordens do seu amo que eles mataram o seu semelhante.
E também não foi Napoleão quem dirigiu a luta, visto nada se ter cumprido do dispositivo que ele traçara, e que ele próprio nada soube da marcha da batalha. Assim, pois, o facto de estes soldados terem chacinado o seu semelhante não veio a produzir-se por vontade de Napoleão, mas deu-se, sem sua intervenção, graças à vontade dessas centenas de milhares de homens que, intervieram no acontecimento. Bonaparte teve apenas a ilusão de, que tudo era obra de sua vontade. Por isso mesmo, o ter estado ,constipado ou não conta mais para a história que a constipação de qualquer dos seus mais modestos soldados.
A constipação de Napoleão no dia 26 de Agosto ainda se torna menos importante desde o momento em que são injustificadas as demonstrações dos historiadores ao dizerem ter sido por causa desta indisposição que as suas resoluções durante a batalha foram menos eficazes do que das outras vezes.
O dispositivo atrás citado não era pior do que os anteriores, era mesmo melhor que todos os que tinham servido para ganhar outras batalhas. As supostas ordens dadas por Napoleão durante o combate não eram piores que as precedentes, mas exactamente iguais. No entanto esse dispositivo e essas ordens pareceram piores porque a batalha de Borodino foi a primeira que Napoleão não ganhou. Os mais belos e mais profundos planos parecem sempre maus e os sábios estrategos criticam-nos com um ar proficiente sempre que acontece não terem levado à vitória; pelo contrário, parecem excelentes as mais contestáveis disposições, e os autores mais sérios não se cansam de lhes louvar os méritos, enchendo sobre eles volumes e volumes, desde que levaram à vitória.