Inocência

Visconde de Taunay · Capítulo 8 de 36

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Inocência

Capitulo IV: A Casa do Mineiro

Está a ceia na mesa. Torne o bom acolhimento desculpavel o mau passadio.

WALTER SCOTT.—Ivanhoe.

Quando assomaram os dous viajantes á entrada do terreiro que rodeava a vivenda de Pereira, correram-lhes ao encontro quatro ou cinco cães altos e magros, que aos pulos saudaram o dono da casa com uma cainçada de alegria.

Puzeram-se algumas gallinhas a girar atarantadas, ao passo que varios gallos, ja empoleirados na cumieira da morada, bradavam novidade e uns porcos e bacorinhos aqui e acolá se erguiam de entre palhas de milho e, estremunhados, olhavam para os recem-chegados com olhos pequenos e cheios do somno.

Do interior da habitação, não tardou a sahir uma preta idosa, mal vestida, trazendo atado á cabeça um panno branco de algodão, cujas pontas pendiam até ao meio das costas.

—Olá, Maria Conga, perguntou Pereira, que ha de novo por cá?

—A benção, meu senhor, pediu a escrava chegando-se com alguma lentidão.

—Deus te faça santa, respondeu o mineiro. Como vai a menina? Nocencia?

—Nhã está com sezão.

—Isto sei eu, rapariga de Christo; mas como passou ella de trasanthontem para cá?

—Todo o dia, vindo a hora, nhã bate o queixo, nhor-sim.

—Está bem... É que o mal ainda não abrandou... Daqui a pouco, veremos. E a janta?... Está prompta? Venho varado de fome. Que diz, sr. Cyrino? indagou, voltando-se para o companheiro.

—Não se me dava tambem de comer alguma cousa. Temos razão para...

—Pois então, interrompeu Pereira, ponha pé no chão e pise forte, que o terreno é nosso. Minha casa, já lh'o disse, é pobre, mas bastante farta e a ninguem fica fechada.

Deu logo o exemplo, e descavalgou do cavallinho zambro, o qual foi por si correndo em direcção a uma dependencia da casa com formas de tosca estrebaria.

Apeou-se igualmente Cyrino, mas, ao penetrar n'uma especie de alpendre de palha que ensombrava a frente toda, mostrou repentina e viva contrariedade no gesto e na physionomia.

—Ora, Sr. Pereira, exclamou elle batendo com o tacão da bota n'um sabugo de milho, só agora é que me lembro que as minhas cargas vão todas tomar caminho do Leal e aqui me deixam sem roupa, nem medicamentos. Que massada! Deviamos ter esperado na boca da sua picada.

Respondeu-lhe o mineiro todo desfeito em expansivo riso:

—Olé, pois o doutor é tão novato assim em viagens? Então pensa que lá não deixei aviso seguro á sua gente? Não se lembra de um ramo verde que puz bem no meio da estrada real?

—É verdade, confirmou Cyrino.

—E então? D'aqui a pouco a sua camaradagem está batendo o nosso rasto. Entremos, que a fome já vai apertando.

Consistia a morada de Pereira n'um casarão vasto e baixo, coberto de sapé, com uma porta larga entre duas janellas muito estreitas e mal abertas. Na parede da frente que, talvez com o peso da coberta, bojava sensivelmente fóra da vertical, grandes rachas longitudinaes mostravam a urgencia de sérias reparações em toda aquella obra feita de terra amassada e grandes páos a pique.

Ao oitão da direita existia encostado um grande paiol construido de troncos de palmeiras, por entre os quaes iam rolando as espigas de milho, com o continuo fossar dos porquinhos, que dalli não arredavam pé.

Corrido na frente de toda a vivenda, via-se um alpendre de palha de bority, sustentado por grossas taquaras, ligeiro appendice acrescentado por occasião de alguma passada festa, em que o numero de convidados ultrapassara os limites de abrigo da hospitaleira habitação.

Internamente era ella dividida em dous lanços: um, todo fechado, com excepção da porta por onde se entrava, e que constituia o commodo destinado aos hospedes: outro, á rectaguarda, pertencia, á familia, ficando portanto completamente vedado ás vistas dos estranhos e sem communicação interna com o compartimento da frente.

Era de barro compacto e socado o chão desta sala, vendo-se n'elle signaes de que ás vezes alli se acendia fogo: pelo que estavam o sapé do forro e o ripamento revestidos de luzidia e tenue camada, de picuman que lhes dava brilho singular como se tudo fôra jacarandá envernizado.

—Isto aqui, disse Pereira penetrando na sala e sentando-se n'uma tripeça de páo, não é meu, é de quem me procura. Poucos vêm cá de certo parar, mas emfim é sempre bom contar com elles... Minha gente mora na dependencia dos fundos.

E apontou para a parede fronteira á porta de entrada, fazendo um gesto para mostrar que a casa se estendia além.

—Sr. Pereira, disse Cyrino recostando-se a uma solida marqueza, não se incommode commigo de maneira alguma... Faça de conta que aqui não ha ninguem.

—Pois então, retorquio o mineiro, deite-se um pouco, emquanto vou lá dentro ver as novidades. A hora é mais de comer, que de cochilar; mas espere deitadinho e a gosto, o que é sempre mais commodo do que ficar de pé ou sentado.

Não desprezou o hospede o convite. Tirou o pala, puxou as botas e, cruzando-as, fez dos canos travesseiros, em que descansou a cabeça.

Quem se colloca em posição horizontal, depois de vencidas umas estiradas leguas, adormece com certeza. Depressa veio, pois, o somno cerrar as palpebras do recem-chegado a entumecer-lhe o peito com socegada respiração.

Dormiu talvez hora e meia, e mais houvera dormido, se não fosse acordado pelo tropel de animaes que paravam, e por grita de gente a pôr cargas em terra. Assomou Pereira á porta com ar jovial.

—Então que lhe disse eu?

—De facto; estou agora socegado.

—E o Sr. tomou uma boa data[31] de somno.

—Quem sabe[32] uma hora?

—Boa duvida, se não mais. Fiquei todo esse tempo ao lado de Nocencia, que de frio batia o queixo, como se estivesse agora em Ouro-Preto, quando cahe geada na rua.

—Então não vae melhor?

—Qual!... Depois que o Sr. tiver comido, ha-de ir vel-a. Está, pobresinha, tão desfeita que parece doente de uns tres mezes atraz.

—Felizmente, observou Cyrino com alguma enfatuação, aqui estou eu para pôl-a de pé em pouco tempo.

—Deus o ouça, disse Pereira com verdadeira uncção.

—Patricios! Ó gente! gritou elle em seguida para os dois camaradas chegados de pouco, vão mecês sentar naquelle rancho, alli. Perto ha boa agua, e lenha é o que não falta: basta estender o braço. Olhem dêm ração de fartar aos animaes. Aproveitem o milho, emquanto ha: é a sustancia desses bichos. Aqui, vendo-o baratinho. Um atilho[33] por um cobre[34] e não são espigas chochas, nem de grão soboró[35]. Eh! lá! Maria Conga, vamos com isso!... janta a mesa!...

Foram o chamado e as indicações de Pereira cumpridas sem demora.

Appareceu a velha escrava, que estendeu em larga e mal aplainada mesa uma toalha de algodão, grosseira mas muito alva, sobre a qual derramou duas boas cuias de farinha de milho: depois, emborcou um prato fundo de louça azul, e ao lado collocou uma colher e um garfo de metal.

—Sente-se, doutor, disse Pereira para Cyrino, agora não manduco com mecê, porque já petisquei lá dentro. Desculpe se não achar a comida do seu agrado.

Vinha nesse momento entrando Maria Conga com dois pratos bem cheios e fumegantes, um de feijão cavallo, outro de arroz.

—E as hervas? peguntou Pereira. Não ha?

—Nhôr-sim. Eu trago já, respondeu a preta que com effeito voltou d'ahi a pouco.

Tornou o mineiro a desculpar-se da insufficiencia e mau preparo da comida.

—Não lhe dou hoje lombo de porco; mas o promettido não cae em esquecimento, isto lhe posso assegurar.

—Estou muito contente com o que ha, protestou com sinceridade Cyrino.

E, de facto, pelo modo porque começou a comer, repetindo animadas vezes dos pratos, deu evidentes mostras de que falava inteira verdade.

—Maria, disse Pereira para a escrava que se fora collocar a alguma distancia da mesa com os braços cruzados, traz agora mel[36] e café com doce[37].

—Ah! exclamou Cyrino com patente satisfacção estirando os braços, fiquei que nem um ovo. O feijão estava de patente. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo, que me deu este bom agasalho.

—Amen! respondeu Pereira.

—Agora, amigo meu, disse o moço depois de pequena pausa, estou ás suas ordens; podemos ver a sua doentinha e aproveitar a parada da febre para mim[38] atalhal-a de prompto. Em taes casos, não gosto de adiamentos.

Cobriu-se o rosto do mineiro de ligeira sombra: franziram-se lhe os sobrolhos, e vaga inquietação lhe pairou na fronte.

—Mais tarde, disse elle com precipitação.

—Nada, meu senhor, retrucou Cyrino, quanto mais cedo, melhor. É o que lhe digo.

—Mas, que pressa tem mecê? perguntou Pereira com certa desconfiança.

—Eu? respondeu o outro sem perceber a intenção, nenhuma. É mesmo para bem da moça.

Acenderam-se os olhos de Pereira de repentino brilho.

—E como sabe que minha filha é moça? exclamou com vivacidade.

—Pois não foi o senhor mesmo quem mo disse na prosa do caminho?

—Ah! ... é verdade. Ella ainda não é moça... Quatorze, quinze annos, quando muito... Quinze annos e meio... Uma creança, coitadinha!...

—Emfim, replicou o outro, seja como fôr. Quando o Sr. quizer, venha procurar-me. Emquanto espero, remexerei nas minhas malas e tirarei alguns remedios para tel-os mais á mão.

—Muito que bem, aprovou Pereira, bote os seus trens[39] naquelle canto e fique descansado: ninguem bulirá nelles... Quanto a minha filha ... eu ja venho ... dou um pulo lá dentro, e ... depois conversaremos.


[31]Quantidade, porção.

[32]Talvez.

[33]Um atilho compôe-se de 4 espigas amarradas.

[34]Dois vintens.

[35]Soboró é o grão falhado.

[36]Melado.

[37]Rapadura de assucar.

[38]É este erro commum no interior de todo o Brazil e sobretudo na provincia de S. Paulo, onde pessoas até illustradas nelle incorrem com frequencia.

[39]Trem na provincia de Matto-Grosso é uma das palavras mais empregadas e com as mais singulares accepções. Neste caso significa objectos, cargas etc.