Inocência
Capitulo XII: A Apresentação
Quem, porém, mostrava mais surpresa e admiração, era Sancho Pança. Nunca, em dias de sua vida, vira perfeição egual.
CERVANTES.—D. Quixote, CXXIX.
Ao balsamo, fazem as moscas que nelle morrem, perder a suavidade do perfume. Uma parvoice, ainda que pequena e de pouca dura, dá motivo a não se ter em conta nem sabedoria nem gloria.
ECCLESIASTES.—X.
Depois de atravessarem um quarto bastante escuro, chegaram os visitantes á sala de jantar, vasto aposento ladrilhado, mas sem forro, a um canto do qual estava a filha do mineiro, mais deitada do que sentada numa especie de canapé de tacuara.
Tinha os pés sobre uma bonita pelle de tamanduá-bandeira, onde se acocorara, conforme o habito, o anão a quem Pereira chamara Tico.
Ao ver chegar tanta gente, abriu a formosa menina uns grandes olhos de espanto; quiz toda enleada erguer-se, mas não poude e, corando ligeiramente, teve como que um deliquio de fraqueza.
Approximara-se logo Cyrino com vivacidade.
—A dona, disse elle para Pereira, está tão fraca que mette dó.
Chegou-se o pae juntamente com Meyer e, tomando as mãos da filha, perguntou-lhe com voz meiga e inquieta:
—Sente-se peior, meu bemsinho?
—Nhôr-não, respondeu ella.
—Pois então!... É preciso não entregar o corpo á molleza... Abra os olhos... Olhe... está aqui este homem (e apontou para Meyer) que é allamão e trouxe uma carta do tio de mecê, o Chico, lá da Matta do Rio. Quero mostrar que, para mim, vale tanto como se fosse esse proprio parente tão a nós chegado. Por isso é que venho apresental-o...
Ella nada articulou.
—Vamos, diga... Tenho muito gosto em lhe conhecer ... diga.
Com vagar e acanhamento, repetiu Innocencia estas palavras, ao passo que Meyer lhe estendia a mão direita, larga como uma barbatana de cetaceo, e franca como o seu coração.
—Gosto, muito gosto tenho eu, disse elle com tres ou quatro sonoros arrancos de garganta. Só o que sinto é vel-a doente... Mas o doutor não nos deixará ficar mal; não é Sr. Cyrino?...
E apoiou esta pergunta com um hen? que ecoou por toda a sala.
—A senhora, respondeu o interpellado, precisaria tomar por alguns dias um pouco de bom vinho do Porto, em que se puzesse casca de quina do campo... Mas, onde achar agora vinho? Só na villa de Sant'Anna...
—Vinho? perguntou Meyer.
—Sim.
—Vinho do Porto?
—Melhor ainda.
—Pois tudo se arranja, na minha canastra tenho uma garrafa do mais superfino e com a maior satisfacção a offereço á filha do meu pom amigo o Sr. Pereira.
—Oh! Sr. Meyer, agradeceu este com effusão, não sabe quanto lhe fico...
—Qual! não tem obrigação, não, senhor. Além do mais, sua filha é muito bonita, muito bonita, e parece boa deveras... Ha-de ter umas cores tão lindas, que eu daria tudo para vel-a com saude...
Que moça!... Muito bella!
Estas palavras que o innocente saxonio pronunciara ex abundantia cordis produziram extraordinario abalo nas pessoas que as ouviram.
Tornou-se Pereira pallido, franzindo os sobrolhos e olhando de esguelha para quem tão imprudentemente elogiava assim, cara a cara, a belleza de sua filha; Innocencia enrubeceu que nem uma romã; Cyrino sentiu um movimento impetuoso, misturado de extranheza e desespero, e, lá da sua pelle de tamanduá-bandeira, ergueu-se meio apavorado o anão.
Nem reparou Meyer e com a habitual ingenuidade proseguiu:
—Aqui, no sertão do Brazil, ha o mau costume de esconder as mulheres. Viajante não sabe de todo se são bonitas, se feias, e nada pode contar nos livros para o conhecimento dos que lêem. Mas, palavra de honra, Sr. Pereira, se todas se parecem com esta sua filha, é cousa muito e muito digna de ser vista e escripta! Eu...
—O senhor não quer retirar-se? interrompeu Pereira com modo aspero.
—Pois não! replicou o allemão.
E como despedida accrescentou, dirigindo-se para Innocencia:
—Chamo-me Guilherme Tembel Meyer, seu humilde criado, e estimo muito conhecel-a por ser a senhora filha de um amigo meu e prender a gente com o seu lindo rosto...
Estendeu então a mão, fez um movimento de cabeça, e acompanhou ao mineiro que já ia sahindo branco de colera concentrada.
—E que me diz o Sr. deste homem? perguntou a Cyrino a meia voz e puxando-o de parte.
—Reparei muito nos seus modos, respondeu-lhe o outro no mesmo tom.
—Nem sei como me contenha... Estou cego de raiva ... Que presente me mandou o Chico!... É uma peste, este diabo melado[77]... Vê uma rapariguinha e enche logo as bochechas para lhe dizer meia duzia de pachuchadas e graçolas... Não está má esta!... É um perdido. Nada... Isto não me cheira bem: vou ficar de olho nelle...
—Faz muito bem, apoiou Cyrino.
—Vejam só, continuou Pereira retendo o seu interlocutor para deixar Meyer distanciar-se, em boas me fui eu metter!... Se não fosse a tal carta do mano o cujo dansava ao som do cacete... Malcriadaço! Uma mulher que daqui a dois dias está para receber marido... Deus nos livre que o Manecão o ouvisse... Desancava-o logo, se não o cosesse a facadas... Vejam só, hen?... Sempre é gente de outras terras... Cruz! Tambem vi logo ... um latagão bonito ... todo faceiro ... havéra por força de ser rufião[78].
Ouvia-o Cyrino em silencio.
—E mulher, proseguiu o mineiro com raivosa volubilidade, é gente tão levada da breca, que se lambe toda de gosto com ditinhos e requebros desta sucia de embromadores. Com ellas, digo eu sempre, não ha que fiar... Má hora me trouxe este allamão ... Mil raios o rachem!... E logo o Chico... Tenho agora que ficar de alcateia ... metter-me em tocaia[79] e fazer fojos para que a bracayá[80] não me entre no gallinheiro. Ora que tal!
—Tambem, breve se vae elle embora, lembrou Cyrino a modo de consolo.
Que o demo o leve quanto antes, replicou Pereira. Já estou todo enfernizado[81] com o tal homem...
Neste momento, como que de proposito, voltava-se Meyer para os dois:
—Sr. Pereira, disse elle ficarei em sua casa talvez umas duas semanas. Os burrinhos vão engordar no seu pasto e eu hei-de fazer compridas viagens nesta sua fazenda, apanhando tudo o que nella encontrar... Ouviu?
Reprimiu o interpellado um gesto de viva contrariedade e, levado pelo instincto e dever de hospitalidade, de prompto respondeu, embora seccamente:
—Fique duas semanas, ou dois mezes ou dois annos. Já lh'o disse: a casa é sua, e palavra de mineiro não volta atraz. Quem está aqui, não é o senhor é meu irmão mais velho.
Agarrando então com força na mão de Cyrino, accrescentou em voz surda e angustiada:
—Olhe, doutor; veja só isto! Que lhe dizia eu?... Ah! meu Meyer, quer se engraçar commigo, não é? Mas cá fico ... e, uma vez avisado, nem dois, nem tres me botam poeira nos olhos... Não é com essa! Nocencia nasceu filha de pobre, mas, graças a Maria Santissima, tem ainda pae com braço forte e muito sangue nas veias para defendel-a dos garimpeiros e cruzadores de estrada... Elle que não brinque com o Manecão; é homem de cabellinho na venta e se lhe bota a mão em cima, esfarela-lhe os ossos, como se fôra veadinho do campo enroscado por sucury...
Ia comtudo Meyer, de todo ponto alheio ao temporal provocado por suas inconsideradas palavras; e, sem duvida, estimulado em suas reminiscencias pela vista da menina que acabava de admirar, cantarolava entre dentes uma velha valsa allemã, dansada talvez com alguma loura patricia em epocas remotas e de menos rigorismo scientifico.
[77]Chamam-se melados os animaes cuja côr é quasi assa.
[78]Namorador.
[79]Fazer esperas.
[80]Gato do matto.
[81]Encolerisado, frenetico.