Inocência

Visconde de Taunay · Capítulo 17 de 36

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Inocência

Capitulo XIII: Desconfianças

Muitas vezes, somos illudidos pela confiança: mas a desconfiança faz que sejamos por nós mesmos enganados.

PRINCIPE DE LIGNE.

Quando o nosso saxonio entrou na sala em que estavam as suas cargas, vinha tão contente do gasalhado recebido, da firmeza do tempo, das futuras caçadas de borboletas, que despertou a attenção do seu camarada José.

Estava este encostado a uma canastra, a esgaravatar, de faca comprida, em punho a planta dos pés, verificando se alguma pedrinha da estrada não se havia encrostado na grossa e já insensivel sola.

—Homem, disse elle com familiaridade, Mochú está hoje muito alegre.... Viu passarinho verde?

—Passarrinho verde? perguntou Meyer. Que é isso? Não vi passarrinho nenhum... Vi uma moça muito bonita...

—Olé ... melhor ainda... Conte-me isso ... e quem é ella

—É a filha cá do Sr. Pereira.

—Parabens! parabens! exclamou José com toda a indiscrição. Moça bonita é fructa rara por estas mattarias e brenhas do inferno... Quanto a mim, ainda não botei o olho senão em velhas corcorócas e serpentões... Outra coisa é no Rio... Não se lembra, Mochú, da procissão de S. Jorge?... Ahi é que sae á rua uma tafularia de deixar a gente tonta de uma vez, de queixo cahido. Umas tão alvas!... Outras cor de café com leite ... fazenda fina ... creoulas chibantes.

—Júque, reprehendeu o allemão revestindo-se de ar severo, não tome confiança com gente que não é da sua classe...

—Mas eu não disse nada de mau, Mochú, desculpou-se o criado recolhendo-se meio enfiado ao silencio e voltando ao exame dos pés.

Quem estava em cima de um brazeiro, era Pereira. Decididamente, aquelle hospede o punha a perder, proclamando assim com a trombeta da fama que vira Innocencia e com ella conversara, que a achava do seu gosto ... uma rapariga já noiva! Quantas incongruencias, que perigos, ó Santos do Paraiso!

Tornava-se caso de muita prudencia. Qualquer passo menos pensado acarretaria consequencias irremediaveis.

Necessario é penetrar-se a força dos sentimentos que sobresaltavam o mineiro, para bem aquilatar os transes por que passava a achar, natural que seguisse uma linha de proceder toda de duvida e vacillações.

Se, de um lado, creava involuntaria admiração por Meyer e, rodeando-o, em sua imaginação, do prestigio de uma belleza irresistivel, via augmentar o seu receio em abrigar tão perigoso seductor; do outro, sentia as mãos presas pelas obrigações imperiosas da hospitalidade, a qual, com a recommendação expressa de seu irmão mais velho, assumia caracter quasi sagrado. Juntem-se a isto os preconceitos sobre o recato domestico, a responsabilidade de vedar o sanctuario da familia aos olhos de todos, o amor extremoso á filha, em quem não depositava, comtudo, como mulher que era, confiança alguma, as supposições logo ideadas acerca da impressão que naturalmente aquelle estrangeiro produzira no coração da sua Innocencia, já quasi pertencendo ella a outrem, e as collisões que previu para manter inabalavel a sua palavra de honra, palavra dada em dois sentidos agora antagonicos—um mundo emfim de cogitações e de terrores. E tudo isto revolvendo-se na cabeça de Pereira, refletia-se com sombrios traços de inquietação em seu rosto habitualmente tão jovial.

—Por que razão é, perguntou elle a José Pinho para desviar aquella conversa que tanto o magoava, que vosmecê chama Mochú ao Sr. Meyer?

Sorriu-se o carioca com ar de superioridade e respondeu desembaraçadamente:

—Ah! É um modo de falar....

—Como assim?...

—Ja lhe ponho tudo em pratos limpos... Vosmecê não lhe chama Sr.?

—Chamo.

—Pois, então?... Eu tambem lhe chamo assim ... mas falo em francez. Mochú quer dizer senhor, nessa lingua.

—Ah! replicou Pereira dando-se por convencido, então é isso? Pensei que fosse outra coisa...

—Júque, avisou Meyer que estava a remexer nas canastras, prepare tudo; nós vamos ao matto agora mesmo....

—Venha commigo, propôz o mineiro com voz insinuante. Eu lhe apontarei lugares onde ha dessa bicharia miuda, coisa nunca vista.

—Com muito gosto concordou o allemão.

E voltando-se para o camarada:

—Ande, Júque, ordenou elle, bote a pita para fóra, caixas de folha de Flandres, chloroformio, rede prompta... Depressa homem, depressa!

José Pinho, instigado por estas palavras, entrou a voltear de um lado para o outro, como que atarantado com o excesso de serviço.

—Minhas lentes, pediu o naturalista, o sacco para os bichos de casca grossa.... Depressa.... Vou ajudal-o.

E, por seu turno, começou a tirar das canastras os objectos de que necessitava, enfiando a tiracollo dois ou tres talabartes finos que sustentavam umas caixinhas encouradas. Numa dellas, havia um copo de prata com a competente corrente; noutra, um faqueiro de peças dobradiças e de metal do principe. Tambem assentou ao flanco uma frasqueira defendida de choques externos por fino trançado de vime e que continha aguardente, comprada de fresco na villa de Sant'Anna do Paranahyba.

Não contente com o peso de todos esses appendices á sua pessoa, cingiu largo talim com uma especie de patrona de folha de Flandres e que sustentava um grande facão inglez, um revolver e uma espada de caça.

Depois de ter vagarosamente arranjado sobre si cada uma destas peças com grande espanto de Pereira e até de Cyrino, substituiu Meyer os oculos habituaes por outros, de vidros afumados, muito grandes e convexos, destinados a proteger-lhe amplamente os olhos dos ardores do sol. Muniu-se, além disso, de outro singular meio de preservação: uma rodella ampla de panno branco forrado de verde, que augmentava as abas do chapéu do Chile, descansando em parte sobre ellas.

Com esse trajo ficou de certo a mais estapafurdia figura que algum christão encontrar poderia naquellas trezentas leguas em derredor; entretanto, Pereira offendido com aquelles cuidados de prevenção meramente scientifica, que lá no seu bestunto qualificava de faceirice feminil:

—Veja só, disse elle para Cyrino, como este maricas gosta de se enfeitar!... Você não me engana, não, Sr. alla mão das duzias....

Mirava-se nesse momento o naturalista, para verificar se lhe faltava alguma coisa.

—Estou prompto, exclamou afinal, e muito desejoso de entrar no matto.

—Ponham-te a tinir os carrapatos, resmoneou Pereira.

—Ah! disse Meyer, e as minhas luvas?... Júque procure na canastra n.° 2, á esquerda, no segundo canto.

Sacou o camarada umas grandes luvas de lã brancas, muito largas, já usadas e sujas, nas quaes o allemão enfiou de um jacto as mãos espalmadas.

—Agora, sim? annunciou elle com satisfacção.

E, dando um sonoro e prolongado hum! empunhou a rede de apanhar borboletas.

Depois, levando um dedo á testa:

—Ah! exclamou, e o vinho! Não me ia esquecendo?... O vinho para sua filha Sr. Pereira, sua linda filha.

Encolheu o mineiro com furor os hombros e disse em aparte a Cyrino:

—Fez-se de esquecido só para falar na menina.... Veja bem. Este calunga não me bota areia nos olhos.

E accrescentou alto, recebendo a garrafa que o camarada José Pinho tirara de uma das canastras:

—Agradeço o seu presente, Sr. Meyer mas se ... lhe faz a menor falta ... a menina hade curar-se sem isto....

—Não, não, não, não, respondeu o saxonio com uma serie de negativas que pareciam não dever ter fim.

—Neste mundo, rosnou Pereira mais para si do que para ser ouvido, ninguem mette prego sem estopa: mas com sertanejos ... não se brinca.

Cyrino tomara a garrafa.

—Isto, affirmou elle, acaba com certeza a cura.

E, esquivando-se de pronunciar o nome e a qualidade da pessoa de quem estava tratando:

—Ella, hade ter hoje algum appetite e poderá levantar-se um pouco, pois já tomou o seu caldinho.

—Então, ao meio dia, recommendou Pereira muito baixinho a Cyrino, vosmecê mande chamar a nossa doente e dê-lhe a mézinha. Ouviu? Já avisei lá dentro...

Cyrino abanou a cabeça, tomando ar mysterioso.

—Eu por mim estarei de olho vivo no bichão... Parece-me çuçuarana á espreita de veadinhas campeiras... Não terá este vinho algum feitiço?

Contestou o outro com energia tal possibilidade.

—Eu sei lá, insistiu Pereira. Estes namoradores são capazes de muita coisa.... Nunca ouviu contar historias de pirlas[82] e beberagens ... hen? diga-me, nunca?

—Socegue, Sr. Pereira, acudiu Cyrino, hei-de examinar o liquido ... tenho certeza de que não haverá novidade.

—Muito que bem... Então, ao meio dia em ponto ... chame a Maria Conga ou o Tico. Nocencia hade arrastar-se até cá ... e o doutor lhe dará a dose...

—Ella sahir já? objectou Cyrino com admiração. Não senhor; em tal não consinto... Irei dar-lhe o remedio... Não me custa nada...

Pereira ficara meio perplexo.

—Não sei...

E com subita resolução:

—Pois bem, virei da roça ate cá... Se eu não apparecer, então o senhor dê um pulo e faça-lhe tomar a poção... Quanto a este allamão melado, levo-o para longe e não o trago senão bem tarde e tão moido do passeio que só ha-de pensar em dormir.

Com Pereira se dava um facto natural e comezinho nas singularidades do mundo moral.

Á medida que as suspeitas sobre as intenções do innocente Meyer iam tomando vulto exagerado, nascia illimitada confiança naquelle outro homem que lhe era tambem desconhecido e que a principio lhe causara tanta prevenção quanto o segundo.

É que as difficuldades e collisões da vida, quando se aggravam, tão fundo nos incutem a necessidade do apoio, das sympathias e dos conselhos de outrem, que qualquer alliado nos serve, embora de muito mais proveito fora bem pensada reserva e menos confiança em auxiliares de occasião.


[82]Pilulas.