Inocência

Visconde de Taunay · Capítulo 24 de 36

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Inocência

Capitulo XX: Novas Historias de Meyer

Disse-lhe Sancho: Cada qual abra bem o olho e fique alerta, porque o diabo entrou na dansa e se lhe derem ensejo, ver-se-hão maravilhas.

Virae-vos em mel, e as moscas vos comerão.

CERVANTES.—D. Quixote. Cap. XLIX.

Uma occasião, de volta do trabalho diario, attingiu a habitual irritação de Pereira contra Meyer grande intensidade. Entrara cabisbaixo, sorumbatico e fez gesto a Cyrino de que precisava falar-lhe a sós. Dalli a pouco, saindo ambos, caminharam silenciosos pela estrada até a um regato que ficava a meio quarto de legua da casa.

—Que terá este homem hoje? dizia Cyrino comsigo mesmo. Talvez vá chegando o momento de tratar do assumpto.

Voltou-se de repente Pereira e, com voz alterada, prorompeu em exclamações:

—Sabe, Doutor, que não posso mais aturar esse allamão?... Aquillo é um mandingueiro, uma çuçuarana, vinda do inferno para me botar a perder!... Meu irmão ... meu irmão, que presente me fez você!...

—Mas, que houve? perguntou Cyrino.

—Olhe ... se não fosse aquella carta, e a palavra que dei ao maldito ... mil raios o partam, surucucú do diabo! potro melado!... já um bom balazio lhe teria varado os miolos...

—Que novidades ha então, Sr. Pereira? tornou a inquirir Cyrino.

—Vim mesmo até aqui para tirar este peso do coração...

—Mas...

—Sabe o senhor que aquelle Mochú é peor que um tigre preto?... Parece homem á toa, um punga, incapaz de matar uma pulga, não é?... Pois aquillo é uma alma damnada ... um seductor...

—Sempre as suas desconfianças! observou Cyrino.

—Desconfianças, não: agora, certeza. Pois o que quer dizer o homem todo o dia ... estar a lembrar-se da menina é... Procurar trazel-a á conversa?—Como está sua filha? pergunta-me elle sempre.—Está boa, de uma vez para todas. E elle, toda a vida a insistir... Isto me põe o sangue a ferver, mas vou-lhe respondendo com bom modo... Hoje, saiu-se o cujo de seus cuidados e disse-me como quem toma leite com farinha de milho[104]:—Sua filha vae casar?—Vae, respondi-lhe todo trombudo.—Com quem? Tive vontade de lhe dizer: Não é da tua conta, seu bisbilhoteiro, seu biltre, e atacar-lhe uma cabeçada, mas, como é meu hospede, secundei-lhe enfarruscado: Com um homem do sertão que hade amolar a faca na pelle da barriga do mariola que vier mexer com a mulher delle. O allamão não se deu por achado e, com todo o semvergonhismo, me retrucou: Pois o senhor faz mal. A sua filha é muito mimosa e deveria casar com alguem da cidade.—Então, perdi a paciencia: Mochú, lhe disse, cada um manda em sua casa como entende; eu na minha, não quero ser anarchizado; elle, quando me viu fulo de raiva, pediu-me mil desculpas, contou-me muitas historias, isto, aquillo, aquillo outro, et cœtera e tal, que era para bem de minha filha e não sei mais o que, numa lingua que pouco entendi...

—Não fez bem, atalhou Cyrino.

—Boa duvida! Aquillo é uma alma damnada ... boa para as caldeiras de Pedro Botelho, um judeu ... emfim, um caçador de anicetos: está dito tudo!... Mas ainda não lhe contei o mais... Parece que hoje estava mesmo com o diabo no corpo... Metteu-se no matto perto da minha roça, onde eu trabalhava com os meus captivos, e lá fazia um barulhão a quebrar galhos e romper o cipoal como se fosse anta; de repente ouvi uma gritaria muito grande; era o tal Meyer com o camarada José Pinho a berrar como dois minhocões[105]. Corri a ver o que era e os achei muito contentes a olhar para uma barboleta grande, já fincada num páu de pita. O allamão poz-se a pular como um cabrito.

É novo, me disse elle, é novo!—Novo o que, Mochú? Este bicho, ninguem o descobriu antes de mim! É coisa minha... Entendeu? E vou botar-lhe o nome de sua filha!... Quando ouvi aquillo, fiquei tão passado, que não pude engulir o cuspo da bocca... Vejam só ... o nome de Nocencia numa bicharada!... Até parece mangação... Agora, quero saber do doutor o que devo fazer... Venho pelo menos desabafar... Não posso metter uma bala naquelle patife como bem merecia ... mas tambem é demais tel-o em casa ... é demais! Peço-lhe um conselho... Felizmente, sempre o trago arredado de casa, e a menina de nada desconfia; do contrario, como mulher que é, havéra de me dar que fazer... Tambem não sei, porque é que o Manecão não chega ... só elle é quem havia de me livrar destes apuros... Uma vez que o tal allamão visse a rapariga com o noivo, deixava-a socegada... Não acha? Olhe, palavra de honra, isto ansim não é viver! Fui feito para dizer o que penso, tratar bem a todos ... mas estes modos que tenho agora, só Deus sabe quanto me custam... Até o meu serviço vae soffrendo, porque muitas vezes largo a roça e ponho-me a correr atraz dos bichinhos, só para não deixar de olho o tal marreco, em lugar de feitorar o trabalho dos negros... O meu fazendeiro é um diabo ruim e já velho... Ah! meu irmão, que carga você me pôz em cima das costas! Eu então, que não nasci para esconder o que sinto cá dentro!...

E Pereira, de tão attribulado que trazia o espirito deixou-se cahir num comoro de terra.

Cyrino, defronte delle, ficara de pé e pensativo.

Afinal, depois de breve duvida, decidiu tentar fortuna e encetar a grave questão que lhe importava a felicidade.

—Sr. Pereira, disse bastante commovido, acho que o allemão faz mal em andar batendo lingua em pessoa da sua familia, e dou razão ás suas inquietações...

—Ah! vosmecê é homem de confiança.

—Mas, continou o moço a custo e parando em cada palavra, penso que num ponto tem elle alguma razão... É quando ... lhe deu ... conselho ... que o senhor não casasse sua filha ... assim ... sem perguntar a ella ... se ... emfim não sei ... mas talvez o Manecão lhe não agrade...

Ergueu-se Pereira de um pulo e, approximando a face, repentinamente incendida de colera, junto ao rosto de Cyrino:

—O que? exclamou com voz de trovão, eu ... consultar minha filha?... Pedir-lhe licença ... para casal-a?... O senhor está doido?... Ou está mangando commigo?... Ai ... que tambem...

E vago lampejo de desconfiança lhe illuminou a chammejante pupilla.

Comprehendeu logo Cyrino a perigosa situação e, sem demora, tratou de desfazer a má impressão que produzira.

—Ah! disse com fingido riso, é verdade... Isto são costumes da cidade ... aqui, no sertão, ha outros modos de pensar... Desculpe-me, Sr. Pereira, este Meyer é que está a confundir-me todas as idéas. Pois eu julgo ... já que pede a minha opinião, que o senhor deve continuar a ter olho no estrangeiro ... e eu heide ajudal-o, quanto estiver nas minhas forças.

—Tambem agora, disse o mineiro depois de ligeira pausa, não hade ser por muito tempo... Ha mais de um mez que elle aqui pára e já me ... contou que breve seguia viagem para Camapuan... Desenganou-se afinal... O tal meco não chegará até lá ... mas é o mesmo. Um destes dias, leva por ahi algum tiro para lhe botar juizo na cachola, ou alguma facada que lhe ponha as tripas á mostra... Nem sempre ha de ter cartas de irmão para sahir-se bem da rascada... O diabo o leve para longe!... Voltemos, Sr. Cyrino... Já demais temos deixado o bicharoco sósinho.

E encaminhou-se para a vivenda, acompanhado de Cyrino. Ia este desalentado; na realidade, bem rentes lhe ficavam cortadas as esperanças que haviam animado na tentativa de opposição ao projectado casamento da amada com o terrivel e fatal Manecão.

Ainda a meio do caminho, voltou-se Pereira e disse-lhe peremptoriamente:

—Deveras, Sr. Cyrino, aquellas suas palavras me buliram com o sangue todo... Ainda o sinto galopar nas veias... Que ideias esturdias!... Que lembrança! Ah ... a tal vida das cidades ... cruzes!


[104]Como quem faz cousa muito simples.

[105]Animaes phantasticos do sertão que, segundo a crendice, dão gritos muito fortes. Acreditam alguns que sejam monstruosos sucurys.