Inocência

Visconde de Taunay · Capítulo 23 de 36

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Inocência

Capitulo XIX: Calculos e Esperanças

Apezar, porém, de joven, apezar da violencia do amor que a prendia a Julião, sabia ella conter os movimentos do seu coração e desconfiar de si mesma.

WALTER SCOTT.—Peveril do Pico.

Lisa—Comtanto que tenhas bastante resolução...

Lucinda—Que queres que eu faça contra a autoridade de um pae? Se elle for inexoravel aos meus pedidos?...

MOLIÈRE.—O amor medico.

Durante os dias de estada nas terras de Pereira, as quaes não tinham limites nem visinhos dalli a muitas leguas, augmentou Meyer a sua interessante collecção com extraordinaria variedade de bichinhos e sobretudo borboletas.

Tal era a alegria de que se possuira por esse fausto motivo, que a cada momento a manifestava num tom de franqueza capaz de por si só convencer o mais descrente dos homens em questão de sinceridade.

—Sr. Pereira, dizia o naturalista, afianço-lhe que em parte alguma do Brazil estive ainda tão bem como em sua casa.

—Eu te entendo, maroto, rosnava o mineiro.

—Devéras!... Só o que sinto é que sua filha não nos apparecesse mais... Sinto muito, na verdade...

Sorriu-se Pereira com riso amarello e replicou, apertando os punhos de raiva:

—Mochú sabe ... isto são costumes cá da terra. As mulheres não são feitas para...

—Para que? perguntou Meyer com pausa.

—Para prosearem com qualquer um...

—Que é prosearem?

—É conversar, dar de lingua, explicou Cyrino.

—Obrigado, doutor, retorquiu Meyer, agradecendo mais aquella indicação philologica que foi immediatamente enriquecer o seu caderno de notas. Prosear é conversar. Muito bem!... Pois é pena, Sr. Pereira, porque sua filha é uma bonita senhora!

—Nesta arapuca não caio eu, seu tratante... Hei-de toda a vida andar com o olho em ti, murmurava o mineiro.

—É pena, confirmava Meyer duas e tres vezes ... é pena...

Por certo não era esta a linguagem mais propria para desvanecer as prevenções e receios de Pereira; ao envez, mais e mais recrescia a sua vigilancia sobre Meyer, o que proporcionava ao verdadeiro culpado a liberdade de que carecia para tornar a ver o mal-guardado thesouro.

Não foi todavia sem custo a nova conferencia.

Ficara a pobre menina tão impressionada com o final da primeira entrevista, que por alguns dias mal sahia do quarto.

Escrever-lhe Cyrino, era de todo inutil, por isso que ella nunca aprendera a ler: e, depois, qual o meio de lhe fazer chegar ás mãos qualquer papel ou recado?

Sobravam, portanto, razões para que o joven se ralasse de impaciencia e quasi desesperasse da sorte.

Passava as noites em claro, mettido no laranjal e procurando uma solução a tanta difficuldade; atordoavam-no ainda aquelles dois assobios que não podia explicar e sobretudo aquella pedrada tão bem dirigida, que por pouco talvez o houvesse estendido por terra.

N'uma dessas noites de anciedade, viu afinal reabrir-se a janella de Innocencia.

A pobre coitada, abrazada tambem de amor, queria respirar o ar da noite e beber na viração do sertão uma pouca de tranquilidade para sua alma não afeita ao tumultuar dos sentimentos que a agitavam e, quem sabe? verificar se por ahi não andava rondando aquelle que no seio lhe inoculara tamanho desassocego, impetos tão desconhecidos e violentos, superiores a todas as suas tentativas de resistencia.

Cyrino, rapido como uma seta, rapido como aquella pedra arrojada tão vigorosamente, achou-se ao pé da janella e cobriu de beijos as mãos da sua amada.

—O grito? balbuciou ella. Dois gritos ... e a pedrada... Que foi?

—Ah! não foi nada, respondeu apressadamente Cyrino; fui ver no laranjal ... era um macauán[102] O que pareceu pedrada era um noitibó[103] que frechou para mim e veio dar com a cabeça na parede.

—Devéras? perguntou ella incredula.

—Devéras. A principio tomei tambem um grande susto. Depois, verifiquei que não passava de miragem. De noite, a gente em tudo vê maravilhas... Para mim, a unica que vi era você, minha vida, meu anjo do céu...

Com este madrigal encetou Cyrino uma conversação como a da primeira noite, como a que balbuciam duas candidas almas na eterna e sempre nova declaração de amor, desde que Adão e Eva a trocaram, á sombra das maravilhosas arvores do Eden.

Mostrou se o moço receioso da rivalidade de Meyer. Riu-se ella e gracejou, com espirito e bondade, da figura do estrangeiro. Com toda a confiança, chegou a idear planos de risonho futuro:

—Agora, que sei o que é amar, direi a meu pae que já não quero o Manecão...

—E se elle insistir?

—Hei de chorar ... chorar muito...

—Lagrimas, muitas vezes, de nada servem.

—Mas tenho cá commigo outro recurso...

—Qual é? perguntou Cyrino.

—Morrer!...

—Não! Ha outros ... hei de dizer-lhe...

Tomou Innocencia ar grave e meio offendido.

—Escute, Cyrino, observou ella, nestes dias tenho aprendido muita coisa. Andava neste mundo e delle não conhecia maldade alguma... A paixão que tenho por mecê foi como uma luz que faiscou cá dentro de mim. Agora começo a enxergar melhor... Ninguem me disse nada; mas parece que a minha alma acordou para me avisar do que é bom e do que é mau... Sei que devo de ter medo de mecê, porque pode botar-me a perder... Não formo juizo como; mas a minha honra e a de toda a minha familia estão nas suas mãos...

—Innocencia, quiz interromper Cyrino.

—Deixe-me falar, deixe contar-lhe o que me enche o peito... Depois ficarei socegada... Sou filha dos sertões; nunca morei em povoados nunca li em livros, nem tive quem me ensinasse coisa alguma... Se eu o maguar, desculpe será sem querer...Lembra-me que, ha já um tempão, pararam aqui umas mulheres com uns homens e eu perguntei a papae porque é que elle não as mandava entrar cá para dentro, como é de costume com familias... O pae me respondeu:—Não, Nocencia, são mulheres perdidas, de vida alegre. Fiquei muito assombrada.—Mas, então, melhor; se são alegres hão-de divertir-me.—Aquillo é gente airada, sem vergonha, secundou elle.—Tive tanto dó dellas que mecê não imagina. Depois fui espiar ... cahiam tontas no chão ... pitavam e cantavam muito alto com modos tão feios; que me fizeram corar por ellas! E são os homens que fazem ficar ansim as coitadas!... Antes morrer... Parece-me que Nossa-Senhora ha-de ter pena dos que amam ... mas desampara com certeza os que erram... Se não houver outro remedio, temos que nos lembrar que as almas, quando se acaba tudo neste mundo, vão pelos céus cheios de estrellas, passeando como num jardim... Se eu me finasse e mecê tambem, punha-se a minha alma a correr pelos ares, procurando a de mecê, procurando procurando, e então nós dois, juntinhos iamos viajando ora para aqui, ora para alli, ás vezes pelo carreiro de S. Thiago, ás vezes baixando a este ermo a ver onde é que botaram os nossos corpos... Não era tão bom?

Envolvida em sua pureza como num manto de bronze, entregava-se Innocencia com exaltamento e sem reserva á força da paixão. E essa natureza pudica e delicada a tal ponto dominava a Cyrino, que invencivel acanhamento o prendia ante a debil donzella, alheia a todos os mysterios da existencia.

Por isso, ao inflammado mancebo não acudia a idéa de saltar por aquella janella e menos a de praticar qualquer acção desrespeitosa. Consumia o tempo em beijos nas mãos da namorada, em tagarelices de amor, protestos, juras, e illusões de futuro.

—Amanhã, dizia Cyrino, hei de com cuidado assumptar a seu pae ... falando no seu casamento ... depois ... hei de virar a conversa para mim...

—Papae, observou a menina, é muito bom, muito mesmo. Mas tenho um medo delle! Tem um genio, meu Deus!...

—Quanto a mim ... heide falar bem claro e explicito... O que quero, é que você me seja constante...

Mas do sentimento de temor, que sobresaltava Innocencia, tambem participava Cyrino. Por isso, chegado o dia, não ousava tocar na melindrosa questão, bem que as continuas queixas de Pereira contra Meyer lhe dessem ensejo mais ou menos favoravel para desembaraçadamente encetal-a. Com gosto adiava o momento decisivo e esperava perplexo qualquer incidente, que melhor servisse a seus planos.

Entretanto, apezar de se accumularem os dias sem que trouxessem modificação naquelle estado de coisas, doce esperança pairava no fundo do seu coração, consentindo-lhe planos de venturoso porvir e feliz desenlace ás duvidas e soffrimentos em que vivia.


[102]Especie de gavião.

[103]Passaro da noite.