Inocência

Visconde de Taunay · Capítulo 11 de 36

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Inocência

Capitulo VII: O Naturalista

A minha philosophia toda resume-se em oppôr a paciencia ás mil e uma contrariedades de que a vida está inçada.

HOFFMANN.—O reflexo perdido.

Serena e quasi luminosa corria a noite. No puro campo do céu, scintillava com iriante brilho um semnumero de estrellas, projectando na larga fita da estrada do sertão, mysteriosa e dubia claridade.

Pelo caminhar dos astros havia de ser quasi meia noite; e entretanto a essa hora morta, em que só vagueiam á busca de pasto os animaes bravios do deserto, vinham a passo lento, pelo caminho real, dois homens, um a pé, outro montado n'uma besta magra e já meio estafada.

Mostrava o pedestre ser, como de feito era, um simples camarada, e vinha com grossa e comprida vara na mão tangendo deante de si lerdo e orelhudo burro, sobre cujo lombo se erguia elevada carga de canastras e malinhas, cobertas por um grande ligal.

Quem estava montado e cavalgava todo encurvado sobre o sellim com as pernas muito estiradas e abertas, parecia entregue a profunda cogitação. Devia ser homem bastante alto e esguio e, como o observamos, apezar da hora adiantada da noite, com olhos de romancista, diremos desde já que tinha rosto redondo, juvenil, olhos gazeos, esbugalhados, nariz pequeno e arrebitado, barbas compridas, escorrido bigode e cabellos muito louros. O seu trajo era o commum em viagem: grandes botas, paletot de alpaca em extremo folgado, e chapéo do Chile desabado. Trazia entretanto, a tiracollo umas quatro ou cinco caixinhas de lunetas ou quaesquer outros instrumentos especiaes, e na mão segurava um páu fino e roliço, preso a uma saccóla de fina gaze côr de rosa.

Homem de meia edade, de physionomia vulgar e balorda era o camarada e, pelos modos e impaciencia com que fustigava o animal de carga, indicava não estar afeito ao genero de vida que exercia.

Em silencio e na ordem indicada, caminhava a tropinha: o burro carregado na frente, logo atraz o inhabil recoveiro; em seguida fechando a marcha, o viajante encarapitado na magra cavalgadura.

Houve momento em que, depois de algumas pauladas de incitamento, pareceu querer o cargueiro protestar contra o tratamento que tão fóra de hora recebia e, fincando os pés na areia, resolutamente parou.

Provocou a reluctancia, porém, uma chuva de verdadeiras cacetadas que echoaram longe e se confundiam com os brados e pragas do camarada.

—Burro do diabo! berrava elle. Mil raios te partam, bicho damnado! Arrebenta de uma vez!... Vá para os infernos! Entrega a carcassa aos urubús.

Durante uns bons minutos, o cavalleiro, que fizera parar o seu animal, esperou pacientemente qualquer resultado: ou que a renitente azemola se désse afinal por convencida e avançasse ou então estourasse.

—Júque, disse elle de repente com accento fortemente guttural e que denunciava a origem teutonica, se porretada chove assim no seu lombo, vóce gosta?

O homem a quem haviam dado o nome de Juca, voltou-se com arrebatamento:

—Ora, Mochú, isto é um perverso sem vergonha, que deve morrer debaixo do páu. Esta vida não me serve!...

—Mas, Júque, replicou o allemão com inalteravel calma, quem sabe se a cangalha não está ferindo a pobre creatura?

—Qual! bradou o camarada, isto é manha só. Conheço este safado, este infamo, este...

E, levantando o varapáu, descarregou tal paulada no trazeiro do animal que lhe fez soltar surdo gemido de dor.

—Júque, observou o patrão em tom pausado, quem sabe se na frente ha páu cahido ou pedra, que não deixa elle ir para deante?

—Pedra, Mochú, o páu na cabeça até rachal-a, é que precisa este ladrão...

—Vê, Júque, insistiu o allemão.

—Ora, Mochú...

—Vê, sempre...

Saiu resmungando o camarada de detrás do burrego e deu a volta.

Na frente avistou logo o ramo quebrado que Pereira deixara cair no meio da estrada para desviar os acompanhadores de Cyrino.

—Ué! Ué! exclamou com muita surpreza, aqui esteve alguem e pôz este signal para que não se passasse...

—Eu não disse a vóce, replicou o cavalleiro com voz até certo ponto triumphante. Asno tem razão: para deante ha alguma cousa.

—Mas na villa, contestou José, nos disseram que o caminho vae sempre direitinho sem atrapalhação nenhuma...

—Na villa disseram isso, confirmou o outro.

—E então?

—E então? repetiu o allemão.

Houve uns segundos de silencio.

Depois o cavalleiro accrescentou com a mesma imperturbavel serenidade, e como que achando explicação muitissimo natural:

—Na villa muita gente não sabe caminho. É...

—Mil milhões de diabos, interrompeu o camarada todo frenetico, levem o gosto de andar por esses mattos do inferno a horas tão perdidas! Eu bem disse a Mochú, ninguem viaja assim. Isto é uma calamidade...

—Júque, atalhou por seu turno o patrão, o que é que adeanta estar a berrar como um damnado?... Olhe, antes, se por ahi vóce não vê algum caminho do lado.

Obedeceu o outro e sem difficuldade achou a entrada da picada que levava á morada de Pereira.

—Está aqui, Mochú, está aqui! annunciou elle com alegria. É um trilho que corta a estrada e vae dar nalguma casa pertinho...

Mudando repentinamente de tom, observou com voz tristonha;

—Comtanto que até lá não haja alguma legua de beiço...

—Ah! eu não lhe disse, respondeu o allemão. Agora toque burro devagarinho; elle anda que nem vento.

Pareceu o animal comprehender o alcance moral da victoria que acabara de colher e prestes enveredou pela trilha com alento novo e até desusada celeridade.

A razão é que tambem dahi a pouco sorvia elle, teimoso e marralheiro bicho como soem ser os da sua especie, a bella agua do ribeirão, em que se haviam refrescado as cavalgaduras de Cyrino e de Pereira.