Inocência

Visconde de Taunay · Capítulo 13 de 36

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Inocência

Capitulo IX: O Medicamento

Não tendes que labutar com doente muito grave, e eis o serviço que de vós espero...

HOFFMANN.—A porta entaipada.

Quem me poderá dizer porque me parece tão duro o leito?... Porque passei esta noite, que se me figurou tão longa, sem gozar um momento de socego?... Surge a verdade: em meu seio, penetraram as agudas settas do amor.

OVIDIO.—Elegia II.

Quando Cyrino entrou no quarto de Innocencia, já estava ella acordada. Sentara-se o pae á cabeceira da cama, a cujos pés se acocorara Tico o anão, sobre uma grande pelle de onça.

—Então, perguntou o medico tomando o pulso á mimosa doente, como se sente?

—Melhor respondeu ella.

—Suou bastante?

—Ensopei tres camisas.

—Muito bem... Agora a senhora está com a pelle fresquinha que mette gosto. Isto de sezões, não é nada, se a gente acode a tempo e o sangue não tem maus humores. Mas quando tomam conta do corpo, nem o demo com ellas pode. Que é do café? pediu elle em seguida a Pereira.

—Já vem já... Homem vou eu mesmo buscal-o, lá á cosinha. A Maria Conga está ficando uma verdadeira lesma. Venha para aqui e espere-me um nadinha.

Levantando-se então da cadeira, indicou-a a Cyrino, a quem fez sentar antes de sahir.

Ficou este, pois, ao lado da menina e, como sobre o lindo rosto batesse de chapa a luz collocada numa prateleira da parede, pôz-se a contemplal-a com enleio e vagar, ao passo que da sua parte o anão lhe deitava olhares inquietos e algo sombrios.

Pousara Innocencia a cabeça no travesseiro e, para occultar a perturbação de se ver tão de perto observada, fingia dormir. Pelo menos tinha as grandes palpebras cerradas e o rosto sereno; mas arfava-lhe apressado o peito e, de vez em quando, fugaz rubor lhe tingia as faces descoradas.

Pereira tardava; e Cyrino com os olhos fixos, a physionomia meditativa e um pouco de pallidez, que denunciava a intima commoção, não se fartava de admirar a belleza da gentil doente.

Uma vez, entreabriu os olhos e a medo atirou um olhar que se cruzou com o do mancebo, olhar rapido, instantaneo, mas que lhe repercutiu direito ao coração e lhe fez estremecer o corpo todo.

Sem saber porque, batia-lhe o queixo, e um arrepio de frio lhe circulava nas veias.

—Sente mais febre? perguntou Cyrino muito baixinho.

—Não sei, foi a resposta, e resposta demorada.

—Deixe-me ver o seu pulso.

E tomando-lhe a mão, apertou-a com ardor entre as suas, retendo-a, apezar dos ligeiros esforços que para a retrahir, empregou ella por vezes.

Nisto, entrou Pereira. Innocencia fechou com presteza os olhos e Cyrino voltou-se rapidamente, levando um dedo aos labios para recommendar silencio.

—Está dormindo, avisou com voz sumida.

—Ora, disse Pereira no mesmo tom, a tal Maria Conga deixou entornar a cafeteira, de maneiras que precisei fazer outra porção. Demorei muito?

—Não, respondeu Cyrino com toda a sinceridade.

—Mas agora, observou Pereira, é mister acordar a pequerrucha.

—Não ha outro remedio.

Chegou-se o pae á cama e, com todo o carinho, chamou: Nocencia! Nocencia!

E como não a visse despertar logo, sacudio-a com brandura até que ella abrisse uns olhos espantados.

—Apre! Que somno! disse o bondoso velho. Num instante que fui lá dentro?!... Vamos, são horas de tomar a mézinha.

Deitara Cyrino sulfato de quinina no café e diluia-o vagarosamente.

—Olhe, dona, aconselhou elle, beba de um só trago e chupe, logo depois, uns gomos de limão doce.

—Então é muito mau? choramigou a doente.

—É amargo; mas num gole mecê toma isto.

—Papae, recalcitrou a moça, não quero ... eu não quero.

—Ora, filhinha do meu coração, não se canhe[61]; é preciso... Amanhã ha-de você sentir-se boa; não é doutor?

—Com certeza, se tomar esta poção, assegurou Cyrino.

—Depois, quando eu ir lá á villa, hei-de trazer para você uma cousa bonita ... uns lavrados[62]. Ouviu?

—Nhôr-sim.

—Ande, Tico, accrescentou o mineiro voltando-se para o anão, vae depressa buscar limão doce; na cosinha ha um meio cascado[63].

—Tome, dona, implorou por seu turno Cyrino, approximando o pires da boca da formosa medicanda.

Levantou uns olhos supplices e, agarrando resolutamente o remedio, bebeu-o todo de um jacto.

Depois deu um suspiro de enjôo e ficou com os labios entreabertos, á espera que o adocicado sumo do limão lhe tirasse o amargor do medicamento.

—Então, exclamou Pereira, era maior o medo que a cousa em si! Você tome a dose numa relancina.

—Amanhã de manhã, ou melhor hoje de madrugada, temos que engolir outra dose, declarou Cyrino. Depois, a dona, poderá levantar-se.

—Ainda outra? protestou Innocencia com gesto de amúo.

—Nhã, sim; é de toda a percisão, replicou o amoroso medico modificando pela suavidade da voz a dureza das prescripções.

—De certo, corroborou tambem Pereira.

—Depois deve mecê deixar de comer carne fresca, hervas, ovos ou farinha de milho por um mez inteiro, e de provar leite por muito tempo. Hade sustentar-se só de carne de sol bem secca, com arroz quasi sem sal e por cima tomará café com muito pouco doce[64].

—Fica ao meu cuidado, asseverou Pereira, olhar para o rejume[65].

—Agora, durma bem e não se assuste de lhe apparecer zoeira nos ouvidos e até de se sentir mouca Isto é da mézinha; pelo contrario é muito bom signal.

—Estes doutores sabem tudo, murmurou Pereira dando ligeiro estalo com a lingua.

Não se descuidou Cyrino, antes de se retirar, de novamente tomar o pulso e, á conta de procurar a arteria, assentou toda a mão no punho da donzella, envolvendo-lhe o braço e apertando-o docemente.

Saiu-se mal de tudo isso: porque se tratava da cura de alguem, para si arranjava enfermidade e bem grave.

Com effeito, de volta á sala dos hospedes, não poude mais conciliar o somno e, sem que houvesse conseguido fruir um só momento de descanço, viu raiar a aurora. Parecia-lhe que o peito ardia todo em chammas a subirem-lhe ás faces, abrazando-lhe o pensamento.

Aquelle venusto rosto que contemplára a sós; aquelles formosos olhos, cujo brilho a furto percebera, aquelle collo alabastrino que a medo se descobrira, aquellas indecisas curvas de um corpo adoravel, todo aquelle conjuncto harmonioso e encantador que vira á luz de frouxa vela, fatalmente o lançavam nesse pelago semeado de tormentos que se chama paixão!

Effeitos de tão temivel mal já ia o misero sentindo. Inquieto se revolvia (facto virgem!) no duro leito, ao passo que a respiração isochronica e ruidosa do companheiro de hospedagem, o allemão Meyer, respondia ao sonoro resonar do garrulo José Pinho.


[61]Acanhar-se, amofinar-se.

[62]Contas de ouro.

[63]Em toda a provincia de Matto-Grosso e em geral no interior diz-se cascar por descascar. Dizem até cascar um boi por esfolal-o, tirar-lhe o couro.

[64]Assucar.

[65]Corruptela de regimen.