Inocência

Visconde de Taunay · Capítulo 5 de 36

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Inocência

Capítulo III

Espalham-se, por fim, as sombras da noite.

O sertanejo que de nada cuidou, que não ouviu as harmonias da tarde, nem reparou nos esplendores do céu, que não viu a tristeza a pairar sobre a terra, que de nada se arreceia, consubstanciado como está com a solidão, pára, relanceia os olhos ao derredor de si e, se no lugar presente alguma aguada, por má que seja, apeia-se, desensilha o cavallo e, reunindo logo uns gravetos bem seccos, tira fogo do isqueiro, mais por distracção do que por necessidade.

Sente-se deveras feliz. Nada lhe perturba a paz do espirito ou o bem-estar do corpo. Nem sequer monologa, como qualquer homem acostumado a conversar.

Raros são os seus pensamentos: ou rememora as leguas que andou, ou computa as que tem que vencer para chegar ao termino da viagem.

No dia seguinte, quando aos clarões da aurora acorda toda aquella esplendida natureza, recomeça elle a caminhar, como na vespera, como sempre.

Nada lhe parece mudado no firmamento: as nuvens de si para si são as mesmas. Dá-lhe o sol, quando muito, os pontos cardeaes, e a terra só lhe prende a attenção, quando algum signal mais particular póde servir-lhe de marco milliario na estrada que vai trilhando.

—Bom! exclama em voz alta e alegre ao avistar algum madeiro agigantado ou uma disposição especial de terras, lá está a péuva grande... Cheguei ao Barranco Alto. Até ao pouso de Jacaré ha quatro leguas bem puxadas.

E, olhando para o sol, conclue:

—D'aqui a tres horas estou batendo fogo.

Occasiões ha em que o sertanejo dá para assoviar. Cantar, é raro; ainda assim, á surdina; mais uma voz intima, um rumorejar comsigo, do que notas sahidas do robusto peito. Responder ao pio das perdizes ou ao chamado agoniado da esquiva jaó, é o seu divertimento em dias de bom humor.

É-lhe indifferente o urro da onça. Só por demais repara nas muitas pegadas, que em todos os sentidos ficam marcadas na arêa da estrada.

—Que bichão! murmura elle contemplando um rasto mais fortemente impresso no solo; com um bom onceiro[6] não se me dava de acuar este diabo e metter-lhe uma chumbada no focinho.

O legitimo sertanejo, explorador dos desertos, não tem, em geral, familia. Em quanto moço, seu fim unico é devassar terras, pisar campos onde ninguem antes puzera pé, vadear rios desconhecidos, despontar cabeceiras[7] e furar mattas, que descobridor algum até então haja varado.

Cresce-lhe o orgulho na razão da extensão e importancia das viagens emprehendidas; e seu maior gosto cifra-se em enumerar as correntes caudaes que transpoz, os ribeirões que baptisou, as serras que trasmontou e os pantanaes que afoutamente cortou, quando não levou dias e dias a rodeal-os com rara paciencia.

Cada anno que finda traz-lhe mais um valioso conhecimento e accrescenta uma pedra ao monumento da sua innocente vaidade.

—Ninguem póde commigo, exclama elle emphaticamente. Nos campos da Vaccaria, no sertão do Mimoso e nos pantános[8] do Pequiry, sou rei.

E esta presumpção de realeza infunde-lhe certo modo de falar e de gesticular magestatico em sua singela manifestação.

A certeza que tem de que nunca poderá perder-se na vastidão, como que o liberta da obsessão do desconhecido, o exalta e lhe dá foros de infallibilidade.

Se estende o braço, aponta com segurança no espaço e declara peremptoriamente:

—N'este rumo daqui a 20 leguas, fica o espigão mestre de uma serra braba, depois um rio grosso; dalli a cinco leguas outro matto sujo que vai findar n'um brejal. Se vassuncê frechar direitinho assim umas duas horas, topa com o pouso do Tatú, no caminho que vai a Cuyabá.

O que faz n'uma direcção, com a mesma, imperturbavel serenidade e firmeza indica em qualquer outra.

A unica interrupção que aos outros consente, quando conta os innumeros descobrimentos, é a da admiração. Á minima suspeita de duvida ou pouco caso, incendem-se-lhe de colera as faces e no gesto denuncia indignação.

—Vassuncê não credita! protesta então com calor. Pois ensilhe o seu bicho e caminhe como eu lhe disser. Mas assumpte[9] bem, que no terceiro dia de viagem ficará decidido quem é cavoqueiro[10] e embromador[11]. Uma cousa é mapiar[12] á toa, outra andar com tento por estes mundos de Christo.

Quando o sertanejo vai ficando velho, quando sente os membros cansados e entorpecidos, os olhos já ennevoados pela idade, os braços frouxos para manejar a machadinha que lhe dá o substancial palmito ou o saboroso mel de abelhas, procura então quem o queira para esposo, alguma viúva ou parenta chegada, forma casa e escola, e prepara os filhos e enteados para a vida aventureira e livre que tantos gozos lhe dera outr'ora.

Esses discipulos, aguçada a curiosidade com as repetidas e animadas descripções das grandes scenas da natureza, n'um bello dia desertam da casa paterna, espalham-se por ahi além, e uns nos confins do Paraná, outros nas brenhas de S. Paulo, nas planuras de Goyaz ou nas bocainas de Matto-Grosso, por toda a parte emfim onde haja deserto vão pôr em activa pratica tudo quanto souberam tão bem ouvir, relembrando as façanhas do seu respeitado progenitor e mestre.


[1]Chama-se em Matto-Grosso retiro o local em que os criadores de gado reunem as rezes para as contar, marcar e dar-lhes sal.

[2]Sem moradores.

[3]Florestas de arbustos de 3 a 4 pés de altura mais ou menos, mui chegados uns aos outros.

[4]Excellente palavra brazileira derivada da lingua geral caá-púan (matto isolado).

[5]Araras pretas.

[6]Cão caçador de onças.

[7]Despontar cabeceiras é rodear as nascentes do rios, procurando sempre terreno enxuto.

[8]No interior pronuncia-se a palavra grave e não esdruxula, mais conforme assim com a etymologia.

[9]Ver o assumpto, observar, attender.

[10]Cavoqueiro é qualificativo empregado para exprimir qualquer qualidade má.

[11]Enganador.

[12]Termo peculiar aos sertões de Matto-Grosso—quer dizer parolar, tagarellar.