Inocência

Visconde de Taunay · Capítulo 21 de 36

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Inocência

Capitulo XVII: O Morphetico

O leproso.—Interesse?! Ah! nunca inspirei senão compaixão....

O militar.—Quão feliz fora eu, se pudesse dar-vos algum consolo!....

XAVIER DE MAISTRE.—O leproso de Aosta.

Não devo ter sociedade senão commigo mesmo; nenhum amigo, senão Deus. Generoso estrangeiro, adeus, sê feliz.

Adeus para sempre!....

IDEM.

A pessoa que chegára, bem que tivesse descavalgado, não se adeantou ao encontro do dono da casa. Pelo contrario como que recuou, conservando-se depois immovel, encostado a um burrinho, cujas redeas segurava.

De seu lugar perguntou-lhe Pereira com expressão não muito prazenteira:

—Então, como vae, Sr. Garcia?

—Como hei de ir, respondeu o interpellado. Mal ... ou, melhor, como sempre.

—Pois esteja na certeza de que muito sinto.

—Está ahi o cirurgião? indagou Garcia.

—Não tarda a vir vel-o ahi fóra... Olhe, é um instantesinho.

Palavras tão crueis não pareceram fazer mossa no desgraçado.

—Esperal-o-hei com toda a paciencia, replicou melancolico.

—Já sei que volta hoje para casa, affirmou Pereira.

—Volto. Se a noite me pegar em caminho, ficarei no pouso das Perdizes.

—É verdade: lá ha uma tapera. Mas o Sr. não tem medo de almas do outro mundo? Dizem que o tal rancho velho é mal assombrado.

—Eu?! exclamou o infeliz. Só tenho medo de mim mesmo. Quizesse um defunto vir gracejar um pouco commigo, e de agradecido lhe beijava os dedos roidos dos bichos. Olhe, Sr. Pereira, continuou com voz um tanto alta e agoniada, não levo a mal o senhor não me convidar para entrar em sua casa; não, no seu caso, havia de fazer o mesmo.

—Oh! Sr. Garcia! quiz protestar Pereira.

—Nada;... digo-lhe isto do coração... Na minha familia, sempre tivemos nojo de lazaros... Sou o primeiro... O Sr. nem imagina... Vivi muitos annos meio desconfiado... A ninguem contei o caso... De repente, arrebentou o mal fóra. Já não era mais possivel enganar nem a um cégo... Ah! meu Deus, quanto tenho soffrido!...

—Permitta Elle, interrompeu Pereira em tom compassivo, que este doutor tenha algum remedio... Bem vê ... ás vezes...

—Curar a morphéa?! replicou Garcia com sorriso pungente de sarcasmo. Não ha esse pintado ... que em tal pense...

—Então para que quer ver o medico?

—Só para uma coisa... Saber pelos livros que elle tem lido e pelo conhecimento das molestias, se isto pega... É só o que quero... Porque então fujo de minha casa... Desappareço desta terra ... e vou-me arrastando até tombar nalgum canto por ahi... Dizem uns que pega ... outros que não ... que é só do sangue... Eu não sei.

E, abanando tristemente a cabeça, apoiou-se ao tosco sellim.

Depois, ergueu os olhos para os céus, e exclamou:

—Cumpra-se tudo quanto Deus Nosso Senhor Jesus-Christo houver determinado!... Se o medico me desenganar, não quero que a minha gente fique toda ... marcada... Irei para S. Paulo...

Pereira cortou este doloroso dialogo:

—Está bem, patricio Garcia, disse, vou já mandar-lhe o homem ... espere um pouco...

E, entrando, reiterou o pedido a Cyrino, que se demorara a receitar a Coelho umas beberagens de velame e pés de perdiz, plantas muito abundantes naquellas paragens, de grandes virtudes diureticas e que deveriam ser empregadas um mez depois da applicação do leite de jaracatiá.

—Ande, doutor, instou Pereira, vá lá fóra ver o coitado do outro e despache-me depressa. Estou todo enfernizado por vel-o no meu terreiro.

Cyrino sahiu então e, caminhando com lentidão, parou a alguns passos do malaventurado Garcia, cujo rosto repentinamente se contrahiu emquanto tirava o chapéo com submissão e receio.

Vinha então a tarde descendo, e a luz do crepusculo irradiava por toda a parte, tão melancolica e suave que, sem saber por que, a alma de Cyrino de repente se confrangeu.

Com assombro o encarava o lazaro. Deante delle se erguera quem lhe ia apontar o caminho da eterna proscripção. Dos seus labios ia cahir a sentença ultima, irremediavel, fatal!

Quanta angustia no olhar daquelle homem! Que pensamentos sinistros! Quanta dor!

Tambem ficara alli attonito, boquiaberto, á espera que a palavra de Cyrino lhe quebrasse o horroroso enleio.

—Então, disse este depois de breve pausa, que me quer o senhor?

—Doutor, balbuciou Garcia ... primeiro que tudo quero ... pagar-lhe; ... trouxe algum ... dinheiro ... mas, talvez ... seja ... pouco.

Interrompeu-o Cyrino:

—Não recebo dinheiro para tratar ... da sua molestia.

—Quer isto dizer, replicou com acabrunhamento Garcia, que ella não tem cura... Eu bem sabia, mas ... é tão duro ouvir sempre isso!... Olhe, o meu mal é de pouco ... está em principio. Quem sabe ... se o Sr. não conhecerá alguma herva?...

—Infelizmente, respondeu Cyrino, nem eu, nem ninguem conhece essa planta...

—Emfim!

E Garcia, fechando os olhos como que para concentrar as forças, continuou:

—Ah! doutor, eu sou um pobre homem ... velho já cansado... Porque não me veio a morte em lugar desta podridão que me está comendo as carnes?... Muito tempo a senti dentro de mim... Disfarcei, disfarcei, até ao dia em que minha neta ... a filha do meu coração ... a Jacyntha ... ella mesma, mostrou certo receio de me abraçar... Ah! senhor, quanto se soffre nesta vida!

E Garcia parou offegante, empallidecendo muito.

—Dê-me agua, exclamou elle, agua ... pelo amor de Deus!... Pudesse agora ... ser o meu dia. A minha garganta ... está que nem fogo!...

E agarrou-se aos arreios para não cahir no chão.

Cyrino correu a buscar agua.

—Onde hade ser? perguntou Pereira.

—Onde queira, respondeu o outro com pressa, veja que aquelle christão está soffrendo...

—Ah! leve a caneca de louça... Depois a quebraremos...

Com sofreguidão tomou o lazaro o vaso, bebeu de um trago e pareceu melhorar.

—Foi um vágado, disse reassumindo aos poucos a calma. Mas, como lhe contava, certeza tinha eu do mal. Agora, só quero saber uma coisa e vou-me de partida. Este mal ... pega, doutor?

—Pega, affirmou Cyrino com tristeza.

—E que me resta fazer?

—Pedir á Senhora Sant'Anna paciencia e a Nosso Senhor Jesus-Christo...

Garcia abanava a cabeça acabrunhado.

... que o proteja na sua vida de desgraças.

—Meu Deus, balbuciou o morphetico a meia voz, dae-me forças ... coragem para que eu faça o que devo fazer.

E, com subita resolução:

—Cumpra-se a vontade do Altissimo! exclamou emfim. Doutor, obrigado! O pobre lazaro hade pedir ao Todo Poderoso que neste mundo e no outro lhe pague as suas palavras de homem de letras... Adeus! Eu me vou para as terras de S. Paulo ... talvez me junte á gente da minha especie. Adeus...

E, a custo montando a cavallo, voltou-se para as pessoas que tinham de longe vindo assistir á consulta.

—Adeus, disse elle acenando com o chapéu, gente e patricios. Senhor Pereira, Sr. Coelho, mais senhores, adeus! Eu me bóto de uma feita para lá das Parnahybas[99]... Este sertão não me vê mais nunca!...

Acolheu o silencio essas palavras de eterna despedida.

Garcia então, esporeando com o calcanhar o ventre da cavalgadura, a passo tomou rumo da estrada geral e sumiu-se numa das voltas do caminho, quando ja vinha a noite estendendo o seu lugubre manto.


[99]Isto é, para lá do rio Paranahyba: Para cá ou para lá das Parnahybas é phrase muito usada no sertão em que corre aquelle grande rio.