Inocência

Visconde de Taunay · Capítulo 12 de 36

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Inocência

Capitulo VIII: Os Hospedes da Meia Noite

Sei, sim, sei que é noite!

XAVIER DE MAISTRE.—Viagem ao redor do meu quarto.

Não tardou muito que os dois nocturnos viajantes começassem a ouvir os latidos furiosos dos cães que no terreiro de Pereira denunciavam approximação de gente suspeita junto á casa entregue á sua vigilante guarda.

—Por aqui perto fica algum rancho, Mochú, avisou o camarada; havemos emfim de descansar hoje... Mas, que gritaria faz a cachorrada!... São capazes de nos engulir antes que venha alguem saber se somos christãos ou não... Safa! Que canzoada!... Ó Mochú, o Sr. deve ir na frente ... rompendo a marcha...

—Vóce, respondeu o allemão, bate nelles com cacete...

—Nada, retrucou José com energia, isso não é do ajuste... Quem está montado, caminhe adiante... Ainda por cima agora essa!

Depois de resmonear algum tempo, exclamou:

—Ah! espero já me lembrei do uma coisa... O filho do velho é mitrado...

E, dizendo esta palavra, de um só pulo montou na anca do cargueiro, que, ao sentir aquelle inesperado accrescimo de peso, parou por instantes e com surdo ronco procurou lavrar um protesto.

—Júque, observou o allemão sem a menor alteração na voz, assim burro quebra cadeira. Depois morre ... o vóce tem de levar as cargas delle ás costas...

Quiz o camarada encetar nova discussão, mas a a esse tempo chegavam ao terreiro, onde o ataque furioso dos cães justificou a medida preventiva de José, o qual entrou, todo encolhido atraz das cargas, a gritar como um possesso:

—Ó de casa! Eh! lá, gentes! Ó amigos!

Augmentou a algazarra da cachorrada por tal modo, que os tropeiros de Cyrino, pousados no rancho proximo, acordaram e bradaram juntos:

—Que diabo é isto? Temos matinada de lobishomens?

—Abriu-se nesse momento a porta da casa e appareceu Cyrino na frente do Pereira, trazendo este uma vela que com a mão aberta amparava da briza nocturna.

—Quem vem lá? clamaram os dois a um tempo.

—Camarada o viajante, respondeu com voz forte e sympathica o allemão, achegando-se á luz e tratando de descer da cavalgadura. Quem é o dono desta casa?

—Está aqui elle, respondeu Pereira levantando a vela acima da cabeça para dar mais claridade em torno de si.

—Muito bem, replicou o recem-chegado. Desejo agasalho para mim e para o meu creado e peço muitas desculpas por chegar tão tarde.

Aproximara-se tambem o José, cuidando logo, no meio de muchôchos e pragas, de pôr em terra a carga do burrinho, o qual amarrara pelo cabresto a uma vara fincada no chão.

—Mas, observou Cyrino, que faz o Sr. por estas horas mortas a viajar?...

—Deixe o homem entrar, atalhou Pereira, e acommodar-se com o que achar... Pois, meu senhor, desapeie. Bem vindo seja quem procura tecto que é meu.

—Obrigado, obrigado, exclamou com effusão o estrangeiro.

E, apresentando a larga mão, apertou com tal força as de Cyrino e Pereira que lhes fez estalar os dedos.

Em seguida, penetrou na sala e tratou logo de arranjar os objectos que trazia a tiracollo, collocando-os cuidadosa e methodicamente em cima da mesa, no meio dos olhares de espanto trocados por quantos o estavam rodeando.

Na verdade, digna de reparo era aquella figura á luz da bruxoleante vela de sebo; compridas pernas, corpo pequeno, braços muito longos e cabellos quasi brancos, de tão louros que eram.

—Será algum bruxo? perguntou a meia voz Cyrino a Pereira.

—Qual! respondeu o mineiro com sinceridade, um homem tão bonito, tão bem limpo[58]!

Entrára José com uma canastra ao hombro e, descarregando-a no canto menos escuro do quarto, julgou dever, sem mais demora, declinar a qualidade e importancia da pessoa que lhe servia de amo.

—O Sr. aqui é doutor, disse elle apontando para o allemão e dirigindo-se para Cyrino...

—Doutor?! exclamou este com despeito.

—Sim, mas doutor que não cura doenças. É allamão, lá da estranja, e vem desde a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro caçando anicetos e picando barboletas...

—Barboletas? interrompeu com admiração Pereira.

—Acui cui![59] Por todo o caminho vem apanhando bichinhos. Olhem ... aquelle sacco que elle traz...

—O meu camarada, avisou com toda a tranquillidade e pausa o naturalista, é muito falador. Os senhores tenham paciencia... Ande, Júque, deixe de tagarellar!...

—Não, protestou Pereira levado de curiosidade, é bom saber com quem se lida... Então o Sr. vem matando anicetos? Mas para que, Virgem Santissima!...

—Para que? retrucou o camarada descansando as mãos na cintura. O patrão e eu já temos mandado mais de dez caixões todos cheinhos lá para as terras delle...

—Depois o paiz fica sem borboletas, respondeu Cyrino num assomo de despeitado patriotismo.

—Mas, como é que o Sr. se chama? perguntou Pereira, voltando-se para o allemão que estava virado para a parede a contemplar um desses grandes e sombrios lepidopteros, da especie dos esphinges.

—Júque, disse elle sem lhe importar a interpellação e acenando para o camarada, depressa ... um alfinete, dos grandes ... dos maiores...

—Temos historia, avisou José, fazendo expressivo signal a Cyrino, o Sr. vae ver...

O naturalista, de posse de um comprido aculeo, fincou-o com segura e adestrada mão bem no meio do insecto, o qual começou a bater convulsamente as azas e girar em torno do centro a que estava preso.

—A pita! A pita! exclamou o patrão. Vamos, Júque.

—Satisfez José o pedido, depois de abrir uma malinha, onde já estavam enfileirados e espetados vinte ou trinta bonitos bichinhos.

—É uma saturnia ... e não commum, murmurou o allemão fisgando num pedaço de pita o novo especimen, sobre o qual derramou algumas gottas de chloroformio, de um vidrinho que sacou dum dos muitos bolsos da sobrecasaca.

—O Sr. é viajante zoologista, não é? perguntou Cyrino, depois que viu terminada a operação.

O interrogado levantou a cabeça com surpresa e respondeu todo risonho:

—Sim, senhor; sim, senhor! Como é que o Sr. o soube? Viajante naturalista, sim, senhor! Eu vejo que o Sr. é muito instruido... Muito bem, muito bem! Muita instrucção!

E, abrindo uma carteira de notas, escreveu logo umas linhas tortuosas.

—Ah! este tambem é doutor, disse Pereira com certo orgulho por hospedar em sua casa sabichão de tal quilate.

—Oh! doutor? doutor!? Muito bem, muito bem. Doutor que curra?

—Sim, senhor, respondeu com gravidade o proprio Cyrino.

—Ah! ... ah! muito bem.

Pereira, porém voltara à carga.

—Mas, como é que o Sr. se chama?

—Meyer, respondeu o allemão, para o servir.

—Maia?[60] perguntou o mineiro.

—Não, senhor, Meyer; sou da Saxonia, da Allemanha.

—Isto deve ser o mesmo que Maia na terra delle, observou Pereira, abaixando um pouco a voz.

O camarada José, no entretanto, trouxera para dentro todas as malas e canastras e sem cerimonia alguma intrometteu-se na conversação.

—Este Mochú, disse, vem de muito longe só por causa destas historias de barboletas, e com o negocio ganha côco grosso... Quanto a mim...

—Júque, atalhou Meyer com fleuma, vai bota os animaes no pasto.

—Não, disse Pereira, solte-os no terreiro até raiar o dia; roerão o que acharem; ha por ahi muito resto de milho nos sabugos...

—Pois é o que fiz, declarou o camarada; mas como lhes dizia, sou carioca do Rio de Janeiro, chamo-me José Pinho e venho de bem longe acompanhando este allamão, que é um homem muito de bem.

—É verdade? indagou Pereira, olhando para Meyer.

Este esbugalhou mais os olhos e confirmou tudo com um sim guttural que echoou em toda a sala.

—Elle o que tem, continuou José é que é muito teimoso. Eu lhe digo sempre: Mochú, isto de viajar de noite é uma tolice e uma canseira á tôa... Qual! pensa lá no seu bestunto que assim é melhor. Tambem a gente anda por estas estradas fóra como se fosse alma do outro mundo a penar ... algum currupira ... ou boitatá... Cruzes!

—Pois, Sr. Maia, disse Pereira, tome posse desta sala, e faça de conta que é sua... Se quizer uma rede...

—Muito obrigado, muito obrigado! ... minha cama é canastra. Não se incommode...

—Amanhã então conversaremos, concluiu Pereira esfregando as mãos de contente.

Promettia-lhe na verdade a companhia boas occasiões de dar largas á volubilidade, sobretudo com o tal José Pinho, filho da Côrte do Rio de Janeiro e, pelo que parecia, tagarella de grande força.

—Assim, pois, disse Pereira, durmam bem o restante da noite.

E abriu a porta para se retirar.

—Ui! exclamou elle olhando para o céu. Doutor, já passa muito da meia noite... Com a bréca, o Cruzeiro está virando de uma vez...

Cyrino, que tornara a deitar-se com presteza calçou as botas e tomou uns papeisinhos que de antemão preparara e puzera a um canto da mesa.

—Não faz mal, disse, já estou com tudo prompto e em tempo havemos de dar o remedio. Vá o Sr. deitar um pouco de café num pires e acorde sua filha, caso esteja dormindo, como é muito natural depois do suador.

Saiu então Pereira, levando a vela e, acompanhado de Cyrino, deu volta á casa para buscar a entrada dos aposentos interiores.

Ficaram pois o allemão e seu criado em completa escuridão; ambos, porém, já estirados a fio comprido, um em cima das canastras, tendo por travesseiro roliça maleta, outro sobre o ligal aberto e estendido no meio do aposento.

—Ó Mochú, perguntou José, que mastigava qualquer coisa, está já ferrado?

—Ferrado? replicou Meyer levantando a cabeça. Que é isto agora?

—Pergunto se já pegou no somno?

—Pois, Júque, se eu falo, como é que posso estar dormindo?

—Então não quer petiscar?

—Comer, não é?

—Está visto.

—Oh! se tivesse!... Pensava agora nisso...

—Pois eu estou manducando ... Quer um bocadinho?

—Que é que vóce me dá?

—Rapadura com farinha de milho...

Está deveras de patente!... Gostoso como tudo...

—Então, Júque, passe-me um pouco.

Levantou-se o offertante com toda a boa vontade e ás apalpadelas começou a procurar a cama do patrão, o que só conseguiu depois de ter esbarrado na mesa e numas cangalhas velhas atiradas a um canto da sala.

Afinal agarrou num dos pés do naturalista, a quem entregou uma nesga de rapadura e uns restos de farinha embrulhados em papel, pitança, mais que sóbria, que foi devorada com satisfacção pelo bom do Saxonio.


[58]Bem vestido.

[59]Affirmação usada pelo povo, correspondente a sim.

[60]O diphtongo ei, pronunciando-se em allemão ai, muito natural é a pergunta de Pereira e as confusões que amiudadas vezes faz com esse nome.